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Km 23 – Rodovia Estadual

Era uma noite fria e cálida do final do outono, tinha chovido logo cedo e por isso a neblina cobria os ares, as nuvens e a magnífica lua cheia. Em meio a esse clima uma mulher corria pela pista sozinha. Vestia uma blusa de malha e uma longa saia que batia até os pés. Os poucos carros que passavam não paravam e talvez nem visse aquela mulher que corria pela pista.
Ela corria tão rápido que quase voava. Seus cabelos esvoaçavam pelo vento. A relva balançava com o vento frio que percorria todo o ambiente.
De longe ela enxergou uma pequena luz no meio do campo, desviou sua rota e seguiu para lá. Atravessou a porteira e correu por um caminho de areia e pedras. A fonte da luz era uma rústica casa de interior, pequena e já bem antiga, nela podia-se ver as marcas do tempo: algumas telhas quebradas, parede rachada, tinta descascada. Com poucos cômodos: dois quartos, a sala, a cozinha e o banheiro não havia como não notar ao entrar na casa simples.
Assim que a mulher entrou o cachorro, que estava deitado perto do sofá, levantou-se com o susto e começou a latir.
- O que trás aqui? – falou uma senhora vindo da cozinha. Usava um avental e enxugava as mãos com um pano.
-Meu filho... Perigo... Ele não está morto... Salve meu filho... Salve meu filho... – falou a mulher balbuciadamente para a dona de casa. Ela estava agitada, andava na sala rapidamente, suas mãos ora procuravam os olhos, ora enxugava o suor. Estava transtornada, seu rosto estava cansado e com ar de assustada.
A dona da casa tentou acalmá-la. A palavra “morto” teve um efeito impressionante na anfitriã. O cachorro continuava latindo. Rapidamente a senhora pegou o telefone em cima da mesinha da sala e ligou para a polícia, mas quando retornou a olhar para o local onde a visitante estava para perguntá-la onde estava seu filho, não a encontrou. Entretanto um pedaço de papel sobre a cadeira de palha estava escrito com letras garrafais:
“Km 23, rodovia estadual”
Enquanto a dona de casa procurava desesperadamente pelo telefone, o cachorro correu para a porta da casa e latia sem parar.
A visitante saíra inesperadamente, da mesma forma que chegou. A senhora da casa rústica ligava agora para os bombeiros, não sabia direito o que fazia. Quem era aquela visitante? Perguntava para si mesma. Mas sabia que ajuda-la era importante.
A mulher voltava a correr pela pista, ia agora em direção a cidade mais próxima, que ficava uns 10 km da casa onde estivera a pouco tempo, avisar diretamente as pessoas competentes.
Não demoropu muito para chegar na cidade, mas já estava quase sem fôlego. Continuava a correr pela cidade a vida do filho era mais importante que tudo e ela precisava avisar sobre o incidente a alguém. As poucas pessoas que se viam nas ruas aquela hora da noite: visinhos conversando nas calçadas, pessoas dos carros, nos estabelecimentos comerciais, etc; não pareciam nota-la. Só uma criança pareceu nota-la, e ela se agarrou nas pernas da pessoa com quem caminhava, mas mesmo com ar de assustado a criança sorriu para a mulher.
- o que foi meu filho? – Falou o Homem que segurava a criança.
- Nada papai, não foi nada – Repetiu a criança ainda sorrindo e olhando para a direção em que a mulher corria.
Finalmente ela estava perto de seu destino, a delegacia da cidade. Corria sem prestar atenção em nada. Só queria entrar na delegacia, ela abriu as porta rapidamente e um vento frio percorreu o lugar.
- Que arrepio agora – falou um dos policiais que se encontrava na porta da delegacia para o seu colega – esse frio repentino.
Na recepção estava o delegado dando instruções à u outro policial.
- Por favor... ele está vivo... salve a vida de meu filho... salve meu filho.... ele não está morto... Quilômetro 23, rodovia estadual.
O delegado olhou para a senhora assustado, mas a dor que aquela mulher expressava, e as palavras fortes que usou fizeram o delegado esquecer do que estava falando com o outro policial e se voltar diretamente para aquela mulher que entrara na sua delegacia com um furacão. Mesmo sem entender o que ela dizia direito, mas acreditando na emoção da mulher a sua frente o policial grita pelos outros que estavam na entrada da delegacia ao mesmo tempo que pega o telefone para mobilizar a polícia. A mulher andava de um lado para o outro da recepção, suas mãos iam ora para a cabeça, ora para a barriga, ela estava totalmente transtornada, agitada e repetia continuamente:
“ele está vivo.... ele precisa viver... ele é tão lindo... tão lindo.... tão lindo....”
E então de repente ela sumiu da recepção sem deixar vestígios.
Quando os policiais chegaram no local uma senhora de cabelos grisalho e pele clara e de avental já estava no local. Ela havia procurado alguma coisa na rodovia mas a falta de iluminação prejudicava suas buscas então pôs a esperar os policiais. Parada na frente da placa que dizia “Km. 23” viu três carros da polícia passarem, um deles parou em frente a ela, talvez por achar estranho uma senhora de idade aquela hora da noite parada no meio da rodovia. Um dos policiais abaixou o vidro da viatura e perguntou:
- O que estais fazendo aqui? - Perguntou o mesmo policial que atendeu a mulher na delegacia
- Um pessoa... Uma mulher – corrigiu a senhora – me pediu para está aqui.
- Como era ela?
- Tudo foi tão rápido. Não sei dizer direito, mas ela era linda, tinha longos cabelos pretos, vestia uma blusa de malha e uma longa saia que batia até os pés. Tudo foi tão rápido – repetiu a mulher.
Os carros da polícia rondavam o lugar, alguns policiais saíram do carro e com lanternas bem potentes também rondavam a região. De repente alguém gritou e todos foram ao seu encontro.
De baixo de um barranco, encontraram um carro destroçado. Nele um homem jazia morto no banco do motorista, cacos de vidro desfigurava seu rosto. No banco do passageiro uma mulher tinha sua barriga perfurada por um ferro e sua cabeça atingida por um grande pedaço de vidro. Seu tórax nada sofreu e na altura dos peitos seus braços protegiam uma linda criança que nada sofreu apesar do acidente.
Após a retirada do carro a senhora da casa rústica olhou calmamente para a mulher que estava no banco de passageiro e imediatamente reconheceu com a inesperada visitante de horas atrás, que estava segurado uma linda criança que dormia despreocupada no mais profundo sono de Orpheu.
Do alto, flutuando a uma certa altura do chão, a mulher de longos cabelos pretos olhava para seu filho sendo protegido por seu corpo em seus últimos momentos de vida.
“Seja feliz meu filho e viva intensamente.”. Sussurrou.
 
Bruno Edson
Enviado por Bruno Edson em 01/11/2007
Reeditado em 01/11/2007
Código do texto: T719038

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Sobre o autor
Bruno Edson
Fortaleza - Ceará - Brasil, 29 anos
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