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HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Algumas histórias de família nunca deveriam ser contadas. A história da sua, Mei conheceu após a morte da mãe.
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A casa da mãe recendia a incenso, velas, flores e gente; muita gente. A comunidade chinesa da Aclimação veio prestar sua homenagem à falecida. Ela ficou observando a forma como as pessoas se portavam em frente ao altar montado em honra a sua mãe. Havia um certo ar de compaixão e medo. A morte dela ainda era um mistério. Seu corpo fora encontrado em posição fetal, ao lado da porta de saída.

Mei, apesar da ascendência chinesa, não seguia o Taoísmo como sua mãe, e não acreditava em muitas das crendices daquele povo. Portanto não conseguia encontrar na religião o remédio para a dor que sentia naquele momento.

Já era noite quando a última pessoa saiu da casa. O monge do templo que sua mãe freqüentava segurou suas mãos e sem cerimônia colocou nelas um punhado de arroz:

- Honre seus ancestrais, lembre-se deles, e eles te ajudarão.
 
Mei fechou a porta, sem entender o que ele queria dizer. Suspirando colocou o arroz num pratinho, deixando-o na cozinha.

Retornou à sala e ao altar. Ficou observando as fotos de seus ancestrais. Lá estavam seus avós (que morreram na China, sem que ela os tivesse conhecido). Seu pai, que também morreu antes de seu nascimento, e sua mãe Wang Jing sentada ereta. Todos estavam elegantemente vestidos. Era a foto de um casamento, com certeza o casamento de seus pais. Havia algo de estranho na foto. Ela estava rasgada, porém era possível perceber um pé feminino ao lado de onde seu pai estava sentado.

Dando de ombros, seguiu para o quarto da mãe, para arrumar suas coisas. Queria deixar tudo pronto para ser doado, antes de retornar para casa. Enquanto empacotava as roupas e objetos pessoais de Jing, as lembranças de sua infância vieram à tona. Fora criada em uma chácara em Atibaia. O mistério sempre fez parte de seu passado. Sua mãe nunca falava sobre o pai, nem sobre sua vida na China. Ela costumava dizer que algumas coisas devem ser enterradas junto com os mortos. A única coisa que sabia era que sua mãe veio para o Brasil, ainda grávida, logo após a morte do marido.

Com 20 anos, finalmente conseguiu convence-la a vir para a capital, com a desculpa de que precisava de alguém pra cuidar de suas plantas, enquanto lutava para se formar em Odontologia. A escolha do bairro da Aclimação deu-se pelo lindo parque, que de certa forma traria um pouco de verde para suas vidas, e pelo templo Taoísta que ficava a poucas quadras da casa que conseguiram comprar com a venda da chácara.

Depois de formada, resolveu sair de casa e morar com seu namorado num apartamento na Consolação. Sua mãe, a principio, foi contra, mas depois aceitou, dizendo que a vida era muito breve para não se viver plenamente o amor.

Sobressaltou-se quando uma caixa nos fundos do guarda-roupa caiu sobre ela, espalhando o conteúdo pelo quarto. Eram fotos, cartas, e uma flor, ressequida pelo tempo.

Começou a juntar tudo quando se deparou com outras fotos rasgadas. Novamente seu pai. Mas quem estava ao seu lado? Com certeza era uma mulher, mas por que sua mãe rasgara aquelas fotos?

Pegou o maço de cartas amareladas pelo tempo. Não sabia o que estava escrito, já que nunca se interessou em aprender a língua natal de sua família. Mas com certeza tratava-se de um homem, com uma caligrafia firme.
- Meu Pai.
Como sabia disto, não importava, mas tinha certeza de que eram cartas de amor de seu pai para sua mãe. Recolheu as cartas e as fotos, disposta a descobrir o que elas diziam.

A madrugada estava no seu auge, quando finalmente terminou a arrumação. Depois de um banho quente e demorado deitou-se em seu antigo quarto, caindo no sono imediatamente.

Mei estava em um lindo vale de onde observava uma festa de casamento. As pessoas falavam ao mesmo tempo, comiam e bebiam. Olhou com atenção e viu sua mãe e seu pai. Estavam afastados, em um lugar impossível das pessoas na festa verem o que faziam. Sua mãe chorava, segurando uma flor em suas mãos. Seu pai gritava com ela, e sua expressão era de puro terror. Uma sensação de desespero tomou conta de seu coração. Por que no dia de seu casamento seus pais discutiam? Começou a se aproximar, na esperança de ouvir o que eles falavam, quando uma sombra projetou-se por trás dela. Virou-se para saber quem era e um grito formou-se em sua garganta. Uma mulher, a cópia exata de sua mãe, mas vestida de noiva, encobria a luz do sol. Seu vestido estava manchado com algo vermelho e viscoso. Ela abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas a única coisa que saiu foi uma golfada de sangue.

Mei acordou com seu próprio grito. O lençol estava enroscado em suas pernas, e o suor escorria por suas costas. Tudo fora tão real, como se realmente estivesse lá, naquele momento.

As primeiras luzes da manhã encontraram-na sentada em frente à janela da sala. O pesadelo ainda povoava sua mente e uma sensação de inquietude a impediu de dormir novamente.
Voltou para o quarto da mãe, pegando as cartas e as fotos e resolveu leva-lás para a única pessoa que sabia ser capaz de decifrar aquele mistério: O monge Hu Quiang.

O templo era um oásis de paz e silencio tão diferente do espírito de Mei. Encontrou o monge meditando em frente ao altar. Com impaciência esperou o ritual terminar, aproximando-se assim que a última pessoa despediu-se, deixando o templo vazio. Um olhar sobre Mei fez com que o monge percebesse que algo não ia bem. Com carinho conduziu a garota até uma cadeira e tranquilamente esperou que ela começasse a falar.

Mei contou sobre as fotos, as cartas e o pesadelo que a manteve acordada o restante da noite. O monge ouviu tudo em completo silencio. No final pediu para ver as cartas. Quando ele chegou à última, sua aparência já não era tão tranqüila.

- Mei, há algumas coisas que devem continuar enterradas. Pegue estas cartas e as queime. Coloque oferendas no altar em honra a seus pais e continue sua vida.
- Como assim? O que estas cartas dizem?
- Esqueça as cartas, esqueça tudo. Siga em frente. Será melhor assim.
O monge retornou para frente do altar, começando a meditar.

Um sentimento de frustração acompanhou Mei ao sair do templo. Sabia que não ia conseguir arrancar nada dele. Olhou em volta procurando um táxi. O sangue gelou nas veias. Do outro lado da rua, a mesma mulher vestida de noiva a olhava. Sem pensar começou a atravessar a rua, quase sendo atropelada por um carro. Alguém a puxou de volta para a calçada, e quando olhou na direção da mulher, ela havia desaparecido.

Alguém falava com ela e ao erguer os olhos, viu que era o monge.
- Venha Mei, volte para o templo.

Começou a caminhar para a porta da entrada, mas ao seguir o olhar do Monge viu que ele  olhava na mesma direção de onde a mulher estivera há poucos minutos.
- Você também a viu, não é?

Voltou para casa sem uma resposta. Começou a andar pelos cômodos como se fosse uma prisioneira. O que aquelas cartas continham devia ser algo muito sério, a ponto de tirar a calma do monge. Começou a limpar a casa, na esperança de distrair a cabeça. Arrastou coisas, tirou –as do lugar e empacotou tudo. Começou a puxar o móvel onde estava o altar quando percebeu algo escondido nos fundos do mesmo. Puxou com cuidado, para não danificar. Seu coração deu um salto. Eram as partes das fotos rasgadas.
Mei cobriu a boca para abafar um grito. Sorrindo para ela, estava a mesma mulher de seu sonho. Lindamente vestida de noiva, carregava um buquê com a mesma flor que viu nas mãos de sua mãe. Correu para juntar as partes das fotos. Todas mostravam seu pai ao lado da mulher. A última foto a ser refeita era a que estava no altar. Observou a cena de perto. Seu pai estava sério; ao seu lado a mulher com um sorriso radiante. Mas o que chamou a sua atenção foi a postura de sua mãe. Ela tinha um olhar duro e frio. Quando aproximou a foto do rosto conseguiu ver claramente a mão de seu pai em suas costas. A olhar para as duas mulheres juntas, a verdade veio à tona.
- O que a senhora fez mamãe?
Patricia Soares
Enviado por Patricia Soares em 22/11/2007
Código do texto: T748173

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Sobre a autora
Patricia Soares
São Paulo - São Paulo - Brasil, 46 anos
9 textos (2385 leituras)
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Patricia Soares