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MATANÇA* (baseado num sonho)


A poeira levantava uma parede cor-de-terra em direção ao céu. Fruto do tropel enraivado de uma gente pronta para aflorar o instinto assassino presente em cada um deles, aproximando-os das feras sem consciência e sem razão. Deviam ser uns trinta, no mínimo. Todos os Gonçalves que restaram estavam ali, naquela caminhada. Uns com foices, facão, facas... Outros mais bem equipados levavam banana de dinamite, espingardas, e revolveres... Dariam um fim a tudo o que começara uns dez anos naquele lugarejo. Uma cidade perdida no meio da caatinga nordestina, de casas feitas de barro... as melhores tinham tijolos, mas foram levantadas ainda quando o Brasil era império. Há muito a seca castigava e poucos ficaram. Na verdade não mais que cinco ou seis famílias, coisa que mudaria desde o juramento mútuo entre os Silva, e os Gonçalves. Começou com a morte do padre – o último do lugar – Armando Gonçalves, morto de tocaia num domingo depois da missa. Das poucas coisas que tinha o lugar era a igreja, mas hoje está em ruínas. Dizem os cablocos que a morte do padre trouxe má sorte e castigo dos céus. De certo modo não deixavam de estar certos, pois desde o fato, o sangue cobriu a terra árida e seca. O principal suspeito, Carlos silva, sobrinho do prefeito, foi linchado por um bando de Gonçalves. Até ali toda a comunidade apoiou a atitude, mas desde então as duas famílias prometeram que a cada um deles que tombasse, outro da família adversária teria de tombar.

E assim foi nestes dez anos, a cada Silva morto, um Gonçalves era assassinado, e vice-versa. Teve morte de tudo que é jeito, por bala, por faca, por pau, veneno... As duas famílias a cada morte tinham de buscar um outro meio para que não facilitasse a fuga da vítima. Isto levou a reduzir drasticamente a população das duas famílias mais poderosas da cidade. Os Silva comandavam a prefeitura, e alguns vereadores. Os Gonçalves por sua vez tinham o comércio, a igreja e a Câmara. Até a morte do padre Armando, embora rivais, alternando o poder, eram eles que sempre mandavam no lugar. Depois desta guerra, cada família não devia ter mais do que quarenta membros.

Mas, foi Seu Tião Gonçalves, homem beirando os noventa anos, mas ainda lúcido, que resolveu que era hora de dar um basta em tudo aquilo. Não podiam mais as famílias  ir perdendo um por um de seus entes, até que um dia nenhum deles restasse com vida, pois nem mesmo as crianças estavam sendo poupadas. Então numa reunião em que o que restara de Gonçalves estavam presentes, que foi determinado, “não restará mais nenhum Silva, nestas terras”. E aí formou-se o bando, que ia de uma vez só acabar com qualquer Silva que respirasse em Cataventos do Norte.

O plano era matar todos na festa de aniversário do prefeito, José da Silva. Eles andaram pelas ruas desertas. Ninguém, que não fosse Gonçalves, se atrevia pôr o nariz para fora de suas casas como soubessem do que iria acontecer. Os mais atrevido espiavam pelas frestas das janelas de medeira. Os Gonçalves pretendiam pegar os Silva de surpresa, mas os cochichos sobre o ataque já haviam chegado aos seus ouvidos, e também estavam preparados. A batalha começou quando um tal da Jair Gonçalves atirou uma dinamite fumegante por riba do muro da casa do prefeito. Ele correu para se proteger do estrondo, que não demorou muito para acontecer. Mas não tinha nenhum Silva lá dentro, pois estes aguardavam num rua que dava às costas dos Gonçalves. Com a explosão eles atacaram, e foi tiro, pau e faca para todo o lado. Sem demora uma poça com sangue misturado das duas famílias se formas na rua, e corpos desfalecidos se empilhavam, a eté o fim da tarde, todos haviam tombado, e já não existia mais nenhum Silva na cidade. E também nenhum Gonçalves.

Da varanda da delegacia um homem exibia um sorriso de contentamento. Martinho dos Santos, era o delegado, e embora só ele soubesse de quem realmente matara o Padre Armando, jamais o crime fora solucionado. Ligou para a funerária recolher os mãos de cem corpos, além da comissão, foi no melhor restaurante da cidade vizinha para jantar em comemoração a boa nova, pois afinal estava chegando a hora dos Dos Santos chegarem a prefeitura, nas próximas eleições.
Douglas Eralldo
Enviado por Douglas Eralldo em 27/11/2007
Código do texto: T754948

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Sobre o autor
Douglas Eralldo
Pântano Grande - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
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