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23. COMIDA ALÉM DA CONTA

Este texto é seqüência do texto 22. UMA FONTE SOB UM ALTAR MACABRO.

Recém eu saíra do interior de um mato junto a estrada, onde tinha entrado à procura de uma fonte de água e achara, mas saíra esbaforido ao perceber que sobre a fonte, onde eu bebia, se achava um altar ocultista queimando velas vermelhas e pretas em meio as oferendas aos espíritos das trevas.
Era o meio da tarde, talvez. Aquele dia estava sendo longo, talvez o mais longo de todos desde o início da vigem que empreendera de São Leopoldo, há trinta e cinco quilômetros de Porto Alegre, a São Paulo havia mais de dois meses. Pela primeira vez na viagem, tomei duas caronas no mesmo dia, mas o dia estava longe de terminar. Iniciara a jornada pouco depois de ter passado a divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná em direção ao Sul e no início da tarde já me achava há uns três quilômetros além da divisa do Paraná com Santa Catarina. Caminhava agora assustado, tentando me afastar ao máximo da cruz, do altar e das velas que estavam sobre a fonte onde eu bebera água no mato sombrio. Logo à frente já via um posto da Polícia Rodoviária. Apurei o passo estimulado pelo pensamento de saciar finalmente a cede e tentar conseguir uma nova carona.
Após tomar a metade de um jarro da deliciosa água fresca que os policiais me ofereceram, contei-lhes minha história e pedi que me arranjassem uma carona. Disseram que não podiam ficar atacando os carros para pedir carona, mas que eu podia ficar por ali atacando os veículos se quisesse. Talvez conseguisse.
Estava junto ao posto de polícia atacando vez ou outra veículo, quando vi pararem dois chevettes hets fora da pista, na frente do posto. Os carros eram novinhos e o modelo het era novidade entre os jovens fazia muito sucesso. Os dois eram equipados com rádio amador.
O policial aproximou-se da janela do motorista do carro da frente, um verde metálico. Pensei que estivessem fazendo carreira, por isto iam ser multados, mas, em vez de multá-los, o policial me chamou e disse que podia ir de carona no carro da frente.
Após rodar mais de cem quilômetros, eles pararam num posto de gasolina de uma localidade muito iluminada à margem da rodovia. Apressei-me para desembarcar e agradecer ao motorista pela carona, dizendo-lhe que já estava muito bom, pois era melhor que ficasse ali, onde havia iluminação e lugar para dormir, do que ficar em algum lugar ermo mais adiante. Porém, ele disse que a viagem ia muito além e valia a pena aproveitar a carona. Inssisti, porém, em ficar, pois quando eles andavam a mais de cento e vinte quilômetros por hora falando no rádio amador, fazendo ultrapassagens na serra com os faróis apagados nas curvas à noite, eu me contorcia no banco e jurava que assim que parassem desceria, não importando onde fosse. E finalmente tinham parado. Desde o meio da tarde, quando tinha iniciado a carona, eu me arrependi de ter entrado naquele carro. A cada curva que os pneus cantavam, eu me arrependia; cada vez que ele freava de súbito na traseira de um carro ou caminhão, eu me arrependia, e agora ele tinha parado e não havia argumento que me fizesse entrar nele novamente.
No lugar fiquei e arranjei um canto para estender minha esteira e passar a noite.
No dia seguinte, bem sedo, tomei um banho num chuveiro frio que encontrei no lugar. Então tomei a estrada para ver se arranjava um desjejum nalgum outro posto mais adiante. Muito distante consegui uma refeição e, ao sentar para comer, como era meu costume, conferi o bolso traseiro para ver se as carteiras de documentos e trabalho não estariam se perdendo. Percebi então que não mais estavam no bolso e deduzi que deviam ter caído no aparelho sanitário do banheiro onde me assentei no posto de gasolina que tinha passado a noite.
Em torno do meio-dia, passava por um lugarejo a margem da rodovia numa curva, lembrando desde muito antes de um outdoor que chamava atenção para o Posto Reunidas, onde dizia que tinha restaurante. Na passagem apressada, observava se no lugarejo não haveria onde pedir algo para comer, pois outro outdoor defronte ao lugarejo dizia que o posto distava ainda cinco quilômetros. Nesse posto é onde eu tinha idealizado fazer uma boa refeição, mas por hora, como garantia, melhor era ir arranjando algo no lugarejo. Por isto, cheguei em uma pequena loja do tipo bomboneire e pedi algo para comer, como era de costume, e saí saboreando um pacote de quinhentos gramas de rosquinhas com glacê.
Apesar de ter esta refeição nas mãos, apurei o passo nos próximos cinco quilômetros para chegar a tempo do fim do almoço no Posto Reunidas e conseguir um bom prato feito. Também fui apurando o consumo das bolachas, pois não tinha onde escondê-las e com elas à mostra seria constrangedor pedir comida.
Vencidos os cinco quilômetros, finalmente o Posto Reunidas, cujo restaurante ficava ao lado, passando um pouco o posto. Acanhado, andei até uma moça no caixa e indaguei se teria sobrado algo que poderiam me dar. Ela indicou-me um vão na parede no outro extremo da sala, dizendo que pedisse para a gorda. Andei até o vão, onde fui atendido por uma senhora gorda, que  mandou-me assentar a uma mesa e aguardar. Achei que ela tivesse me entendido mal e ia me servir uma refeição normal e depois cobrar. Todavia, assentei-me e aguardei. Minutos depois, ela veio com um tremendo prato servido de uma montanha de comida e pôs a minha frente junto com uma garrafa de Pepsi, voltando logo para a cozinha, de onde olhou pelo vão para ver se eu comia. Por minha vez, pensando que ela tinha me servido uma refeição normal e ia cobrar, nem tinha tocado na comida. Percebendo então minha dúvida, ela disse que eu podia comer bem tranqüilo, pois não ima me cobrar.
Após comer e sair estufado, pensei que não ia querer ver comida tão cedo, mas tão logo tomei a estrada e andei cem metros, fui abordado por um pessoal de um acampamento, que me ofertaram um saco de pão, recomendando que levasse para casa e aquecesse para comer com  meus filhos. Pensei o que eles tinham que não viam que eu era muito jovem para ter filhos. Pensei inclusive em dizer-lhes isto, mas achei que seria muita arrogância, vista a minha condição. Ser ter como recusar, peguei o saco de pão e sai agradecendo,  pensando no que faria com tanto pão, sendo que não me cabia mais nada. Certo é que fora eu não ia colocar, pois  desde pequeno fora instruído que não se joga alimento bom fora.
Mais tarde fui comendo os pães um a um, prevendo que à noite ainda poderia conseguir uma comida de sal e não ia querer dormir tendo comido apenas pão, tampouco poderia chegar em algum lugar para pedir comida com um saco cheio de pães.
Ao passar pelo último posto de combustíveis, o sol começava a declinar, eu já estava bem cansado, mas achei que era muito cedo para parar. Sendo assim, segui caminho decidido a parar para a refeição e o descanso no próximo posto. Entretanto, o sol declinou por completo, a noite caiu e entrei noite adentro vencendo curvas e retas sem encontrar outro posto. Já bem cansado, mas andando rápido por causa do medo, deparei-me com um novo Posto da Polícia Rodoviária Federal após uma curva. Pensei logo em pedir que me arranjassem carona, mas desisti e fui passando reto. Passava de largo, quando os policiais me chamaram. Pensei que iam me interrogar, mas falaram que tinha sobrado muita carne assada de um churrasco fizeram ao meio-dia e, sem querer jogar fora, pensaram que eu poderia comer, já era andarilho e estava com fome.
Os pães nem tinham me baixado do esôfago, mas, em vista da minha aparente condição, pensei que iam me avacalhar se recusasse. Talvez se tratasse de um ou dois pedaços de carne e eu poderia comer sem fazer feio. Então concordei.
Eles me apresentaram uma panela de uns três litros acima do meio de carne e porções de salada de maionese. Coagido pela boa educação, comecei a comer, vencendo uma pequena parcela, mas sem poder prosseguir. Estava a pondo de me sair carne pela boca e ainda faltava tudo. Os dois policiais me olhavam atentos, expectantes por estar fazendo uma obra de caridade. Entretanto, fui obrigado a decepcioná-los, perguntando se não teriam um saco plástico, onde poderia levar a comida, pois não era possível continuar comendo. Eles lamentaram não ter o saco e argumentaram que não precisava me acanhar, pois podia permanecer até terminar de. Esclareci que estava mais do que satisfeito, a ponto mesmo de regurgitar, haja vista o tanto que tinha comido desde o meio-dia. Ainda assim inssistiram. Um até ironizou, dizendo que nunca tinha visto um mendigo recusar comida, o que era um absurdo. Resisti-lhes e, agradecido, fui saindo. Antes perguntei a que distância estaria o próximo posto de combustíveis. Indignados, eles não responderam. Encarei à frente a estrada completamente escura, enfrentando-a, apesar do medo.

Wilson Amaral
Romance e Poesia
Enviado por Romance e Poesia em 30/11/2007
Reeditado em 30/11/2007
Código do texto: T758822
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Sobre o autor
Romance e Poesia
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 51 anos
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