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Nenê do cruzeiro.

NENÊ DO CRUZEIRO

       Nenê vivia entre nós, participava de algumas brincadeiras e, por ter doze anos e ser muito esperto, sempre nos brindava com suas histórias de final imprevisível. Não sabíamos o seu nome verdadeiro, nem seu endereço ou qualquer outra informação a seu respeito.
       Porém, num grupo de crianças com idade entre oito e dez anos, todos meninos, de que valeriam essas informações ou quem se preocuparia com elas?
       Só importava que pela manhã, por volta das nove horas, Nenê estivesse conosco no cruzeiro do Cemitério Nossa Senhora da Conceição, exceto às segundas-feiras quando o cemitério ficava fechado para limpeza, para que pudéssemos pegar as moedas e notas de pequenos valores que ali estavam, fazendo parte de “trabalhos” e “promessas” religiosas, juntamente com galinhas-pretas, corações de boi, alguidares com farofa, fitas vermelhas, charutos, garrafas de cachaça, cerveja preta, bonecos de pano, velas de várias cores, vidros de mel, etc...
       Nosso grupo era composto de aproximadamente onze crianças e todos queriam pegar apenas o dinheiro, mas Nenê se apoderava da farofa, galinha ou coração de boi, vidro de mel, ou outras guloseimas que eventualmente ali encontrasse.
       Enquanto juntávamos o dinheiro para contar e dividir, ele, com uma pequena faca que sempre carregava no bolso da calça, cortava e preparava um pedaço de coração ou de galinha, lavava muito bem na torneira do cruzeiro, temperava com o sal que ficava num pequeno saco de pano preso à sua cintura e, depois de limpar um dos alguidares de farofa, preparava uma pequena fogueira entre dois tijolos, acendia-a com auxílio de uma vela que ainda permanecesse acesa àquela hora e passava a nos contar suas estórias, enquanto aguardava o cozimento de sua refeição.
       Dividíamos o dinheiro recolhido, em partes iguais, entre os presentes daquele dia. Depois cada um dizia o que pretendia comprar e todo o dinheiro era entregue nas mãos de Nenê porque só ele podia sair na rua, atravessa-la e ir até a padaria e o boteco do seu Nhôzinho, onde comprava os doces, balas, chocolates, entre outras guloseimas.
       Parte do dinheiro era reservada para Nenê, como pagamento por seus serviços, com a qual tomava café com pão e manteiga no boteco, enquanto aguardava que o seu Nhôzinho embrulhasse todos os doces e outros pedidos. Terminado o café, pagava a conta, pegava o pacote e voltava ao cruzeiro onde todos aguardávamos ansiosos.
       Lógico que enquanto Nenê comprava nossas coisas e saboreava o seu café, ficávamos tomando conta de seu cozido de galinha ou coração, adicionando um pouco de água de vez em quando.
       Ao chegar, olhava sua comida no alguidar para verificar o ponto e, em alguns dias, ainda adicionava um pouco mais de água, antes de nos entregar os pedidos.
       Enquanto nos deleitávamos com nossos doces, alegres e satisfeitos, também atentos, acabávamos de escutar as estórias que ele havia iniciado durante o tempo em que limpava e preparava a galinha ou coração de boi.
       “Lembro com saudades daquela época de fantasias porque, nos pequeninos corações, não havia espaço suficiente para as maldades e desonestidades que hoje assolam a humanidade e que acabam por colocar, o seu instante derradeiro, entre as fumaças de monstruosas bombas, rajadas de metralhadoras ou mesmo num revoltante combate corpo a corpo. Como Nenê, também são anônimos, não sabem da morada e família do outro, porém se odeiam sem sequer saber o motivo. Ainda dizem que é para estabelecer a democracia e a paz! Sinceramente não entendo”.
       Apesar de estar sempre com a mesma calça, as duas ou três camisas que alternava bastante amarrotadas e de pés no chão, ainda assim, Nenê era o nosso conselheiro, a pessoa em que confiávamos e o único do grupo a ostentar a liberdade de ir e vir aonde quisesse. Um verdadeiro cidadão.
      Certo dia, quando chegamos ao cruzeiro, nada encontramos, nenhuma moeda e sequer “trabalhos” ou “promessas” com galinhas ou coração de boi. Ficamos muito desapontados e sem saber o que fazer.  Nenê olhou-nos a todos e percebendo nossa agitação, convidou-nos a sentar numa guia de canteiro do cemitério e pôs-se a contar-nos uma estória sobre um cachorrinho abandonado, chamado Glutão.
      Detalhes daquela estória fugiram-me da memória, mas algumas colocações feitas por ele, serviram-me por toda a vida.
      Disse que o nome do cachorrinho foi dado porque ele comia demais quando pequenino e acabava passando muito mal e que certa vez, seu dono, não com a finalidade de castiga-lo, mas para curar-lhe uma forte disenteria deixou-o um dia inteiro sem nada para comer, dando-lhe apenas água. Contou que Glutão chorava e andava atrás de seu dono todo o tempo, não por causa da disenteria, mas para pedir comida. Como não a recebia e nem atenção ele foi ao vasilhame e encheu-se de água. Bebeu tanta água que acabou por vomitar várias vezes. Então, a partir desse dia, o dono do cachorrinho só punha à disposição dele uma quantidade adequada de água e alimento. Glutão cresceu bonito, forte e nunca mais teve disenteria e nem enjôos. - Aí, Nenê falou-nos: “Se vocês que hoje estão se comportando como o cachorrinho Glutão aprenderem agora a necessidade de controlar seus impulsos, jamais precisarão de um dono para guiar-lhes e evitar-lhes grandes dores de barriga em todos os sentidos. Quando tiverem bastante, devem guardar um pouco para um dia como o de hoje e assim, jamais terão que chorar”. Concluiu dizendo que o cachorrinho foi abandonado pela própria mãe nas ruas da cidade e, aquele homem que o adotou, tratou-o muito bem por toda a vida, porém, poucos têm esta sorte, alertou-nos. - A seguir, despediu-se porque teria muita coisa para fazer naquele dia e que na manhã seguinte estaria esperando por nós. – Foi quando eu pude observar que no canto de seus olhos, algumas lágrimas brotaram.
       Na manhã seguinte, estávamos lá e novamente satisfeitos porque o cruzeiro estava abarrotado de “trabalhos” e “promessas” proporcionando-nos uma grande arrecadação. Como de costume, juntamos tudo e entregamos para Nenê com uma enorme lista de pedidos. Ele nos olhou, devolveu-nos a lista e lamentou que não tivéssemos escutado a estória do cachorrinho Glutão.
       Depois daquele dia nunca mais vimos o Nenê. Do mesmo jeito que chegou, sem nome, sem residência, sem informações, assim partiu.
       Poucos dias depois desse acontecimento, minha família mudou-se para outra cidade e assim perdi todo contato com o grupo de meninos.
       Hoje não sei lhes dizer quantos meninos do grupo voltaram a lembrar da estória do cachorrinho Glutão, mas posso dizer-lhes que Nenê saiu das ruas, deixou de ser um simples menino abandonado pela mãe e tornou-se um conhecido advogado.  - Quis o destino que ele voltasse a encontrar-se comigo, vinte anos depois.
       Quando nos reencontramos, fui eu quem o reconheceu devido às suas características marcantes como os cabelos quase amarelos, a pele muito clara e cheia de pontos acastanhados, além de ser bastante esguio.
      Ao cumprimenta-lo na fila de um estabelecimento bancário, perguntei-lhe se quando criança tinha o apelido de Nenê. Prontamente respondeu-me que sim, mas agora apenas sua esposa assim o chamava. – Comecei a falar do passado, lembrei do último dia em que esteve conosco no Cemitério Nossa Senhora da Conceição e inclusive perguntei-lhe porque algumas lágrimas ocuparam o canto de seus olhos naquele dia. – Respondeu-me: Existem dentro de mim duas lágrimas às quais jamais consegui secar, a primeira delas é por não entender como uma “Mãe” abandona seu filho na rua, não sente remorso e nem mais o procura... – E a segunda lágrima Nenê? Interpelei. – A segunda! Essa é a pior delas, é a lágrima da indiferença da sociedade, justamente aquela que deveria apoiá-lo. Não tivesse encontrado, casualmente, alguém para me adotar, como o cachorrinho Glutão, teria morrido numa dessas sarjetas da vida, não por excessos, mas certamente por escassez de compreensão, saúde ou carinho.
       Depois que falei meu nome, logo se lembrou que era o caçula da turma e inclusive comentou que sempre percebeu em mim um certo constrangimento quando ele se aproximava, que era muito retraído e procurava me isolar.
       Expliquei-lhe que fui criado sem pai, que minha mãe tinha uma enorme preocupação quando eu saía de casa para o cemitério e fazia-me “milhares” de recomendações.
       Já estava chegando a vez de Nenê ser atendido pelo caixa do banco, então pegou em um dos bolsos de seu paletó o seu cartão de visitas e ofertou-me. Retribui da mesma forma  e acabamos por ficar muito amigos para o resto de nossas vidas.
       Quando do falecimento de Nereu (Nenê), estive em sua cabeceira nos derradeiros instantes e suas últimas palavras foram as seguintes: “Se nada encontrar adiante capaz de explicar-me o que é Mãe, Mãe! Mãe?, creiam-me, somos apenas réplicas do cachorrinho Glutão”.
               
       
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 01/12/2005
Código do texto: T79731

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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