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A Metade de Meus Dias

Dante fala para Princess:
Amanhã a gente se fala então.
Princess fala para Dante:
Como sempre, a gente fala pra caraka aki, neh?
Dante fala para Princess:
Pois eh, verdade... Pena eu não conseguir conversar assim com aquela garota que eu te falei...
Princess fala para Dante:
Relaxa...
Dante fala para Princess:
Juro, que eu daria metade dos anos que ainda tenho pela frente, soh pra ter o mesmo fluxo de conversa com ela, que eu tenho com vc.
Princess fala para Dante:
Credo, não fala um negócio desses...
Dante fala para Princess:
Sério mesmo, se houvesse um meio, qualquer um que fosse, eu não pensava duas vezes...
Princess fala para Dante:
Nem brinca com isso... bom agora tá tarde já, amanhã eu preciso acordar um pokinho mais cedo, gente c fala. Bjs...fui
Dante fala para Princess:
Bjs, boa noite e bons sonhos. Xau!
Roberto nem saiu da frente do micro enquanto o ícone que demonstrava que a amiga estava on-line desaparecia e era substituído por um que indicava o inverso. A noite estava fria, e agora sem muito mais a fazer a não ser verificar um ou outro e-mail, ele decidiu dormir. No entanto, antes que fechasse as janelas do micro para desligá-lo, uma mensagem indicando que um usuário do mesmo programa de conversação on-line queria ser autorizado como um de seus contatos. O nick, ou apelido, era The Angel, por ai não dava para saber de quem se tratava, e mesmo o espaço que determinava o e-mail do usuário contava apenas de uma seqüência da letra X o símbolo de arroba e nova seqüência da letra X. O mais lógico seria não aceitar o novo contato, mas a curiosidade foi maior. Aceito o pedido de conversa uma nova janela se abriu na tela do computador.
The Angel fala para Dante:
Boa noite, Dante. Eu creio que posso ajuda-lo...
Dante fala para The Angel:
Boa... mas quem eh vc?
The Angel fala para Dante:
Sou alguém que pode ajuda-lo a realizar um desejo, interessa?
Dante fala para The Angel:
Eu te conheço?
The Angel fala para Dante:
De certa forma...
Dante fala para The Angel:
Hum... tah tentando me pegar num trote? Ta, blz, vai por ignore list.
Ele deu alguns segundos antes de clicar sobre o nick do outro usuário a fim de coloca-lo na lista de contatos ignorados, esses segundos foram apenas pelo desafio de ver o que o outro diria para convence-lo a não fazer.
The Angel fala para Dante:
“Juro, que eu daria metade dos anos que ainda tenho pela frente, soh pra ter o mesmo fluxo de conversa com ela, que eu tenho com vc.” Te diz alguma coisa.
Por um segundo um calafrio percorreu a espinha do rapaz, como o outro ou a outra, ele não fazia idéia de quem se tratava e o nick não deixava muito claro a esse respeito, sabia o que ele havia dito. Depois do susto inicial o mais óbvio veio à mente, um hacker ou até um moleque com um programa hacker havia invadido o micro e capturado a conversa. Agora ele tinha duas opções, ou jogava e via até aonde o outro queria chegar, ou simplesmente desligava o computador e tentava remover a falha de segurança no outro dia antes de se conectar. Optou pela primeira alternativa. Sua curiosidade estava bem acentuada essa noite, mas por outro lado havia uma pontinha de expectativa, como se aquilo pudesse de alguma maneira ser real.
Dante fala para The Angel:
Tah bem... o que vc quer afinal.
The Angel fala para Dante:
Peça o que você pediu, e eu te darei, ofereça o que você ofereceu e no prazo estipulado, eu volto pra cobrar.
Dante fala para The Angel:
Tipo um pacto? Hahahahaha... c quer que eu fique com medo?
The Angel fala para Dante:
Não! Eu quero apenas que você peça, você mesmo disse que se houvesse um meio, você não pensaria duas vezes... está pensando...
Dante fala para The Angel:
Eh, vc ta certo... sem pensar foi o que eu disse... então ta legal, vou entrar no jogo e vc tira o back orifice que deixou no meu pc, ok?
The Angel fala para Dante:
Está bem, você faz o que tem que fazer e eu prometo, que não vai mais saber de mim, até a data estipulada.
Dante fala para The Angel:
Ta bom, vamos entrar no jogo então. Eu ofereço a metade dos anos que ainda tenho pela frente para poder me aproximar dessa garota. É isso o que eu quero. Ficou feliz agora?
The Angel fala para Dante:
Muito, não se preocupe, amanhã você terá noticias dela.
Dante fala para The Angel:
Tah, faz de conta, oh, escuta aki, vc tah usando algum programa ou ta direto pelo Linux?
Não houve mais resposta, o ícone que representava The Angel simplesmente desapareceu da tela do programa.
Por alguns minutos Roberto ficou intrigado, não tinha certeza de ter feito a coisa certa, depois se despreocupou, afinal, não tinha o menor cabimento ficar dando atenção a uma conversa boba como aquela, não fazia nem sentido cair em uma piada tão mal armada, bom, provavelmente algum moleque que não tinha mais o que fazer e ficava passando trote pela internet, no outro dia ele iria mandar o micro para um técnico verificar a segurança, agora iria dormir.
No dia seguinte tudo correu rotineiramente, nada fora do normal, e embora se esforçasse para não levar em conta o episódio da noite anterior, era quase inevitável pensar naquilo, mas procurou evitar o pensamento, não queria ficar paranóico. A noite no curso que fazia encontrou-se com “Princess” na verdade Rachel fora da internet.
— Você não acredita no que aconteceu ontem.
— Depois que eu sai da internet?
— Foi, logo depois, você desconectou e entrou um cara ou uma mina, sei lá com o nick de The Angel, e tinha lido nossa conversa.
— Nossa, será que invadiu o meu micro também?
— Sei lá, acho que era bom você dar uma olhada, mas fosse quem fosse viajava grandão! Devia ser um desses moleques que jogam rpg na rede, sei lá. Depois sumiu.
— Credo, tem que tomar cuidado com essas coisas... que foi?
Rachel olhou pro rosto do amigo que agora mirava por sobre o ombro dela, atônito.
— Sabe aquela menina de quem eu tenho te falado nos últimos meses, que eu nem consigo conversar direito com ela?
— Sei, claro você fala disso todo dia.
— Então, ela ta vindo direto pra cá.
— Jura? Nossa, então eu vou sair de perto de você.
— Não! Ta doida, e se ela estiver vindo falar com você?
— Larga a mão de ser palerma! Aproveita pra tentar se aproximar, se ela veio falar comigo, diz que eu fui ao banheiro e já volto, enquanto isso você vai trocando idéia.
Antes que ele pudesse continuar protestando, Rachel saiu rapidamente de perto dele. A medida que a garota se aproximava a respiração de Roberto ai ficando mais ofegante, tal descontrole era irritante, ele precisava conseguir dominar esse medo se quisesse ter alguma chance.
— Oi, Roberto! Meu, você que trabalha com arte não é?
— Sim, sim... — Ele pensou, que poderia ter respondido de uma centena de formas diferentes, mas acabou respondendo daquele jeito idiota.
— Legal, eu precisava de uma ajudinha, em um negócio, será que...
Ela havia se aproximado dele, precisava de sua ajuda, isso era fantástico, apesar da timidez, com esse nível de contato ele conseguiria pelo menos conversar com ela. Foi o que aconteceu, ele conversou.

Nove anos se passaram.
Ele estava deitado, ela já havia adormecido, observava suas costas contra a meia luz que vinha de um abajur em um dos cantos do quarto. O desenho de seus ombros contra a luz fazia curvas perfeitas. Quantas vezes ele já havia pintado essas curvas? Ele nem mesmo se lembrava, havia a amado desde o segundo em que colocou seus olhos sobre ela, cada detalhe do que ela poderia representar invadia sua mente e o fazia feliz. Demorou um bom tempo até que conseguisse vencer todas as inseguranças que pesavam sobre ele, mas após quebrar essas barreiras tudo se desenrolou com mais calma. Não havia um dia em que não agradecesse por acordar e vê-la deitada ao seu lado. Roberto debruçou-se sobre as costas da amada e as beijou levemente, passou seu braço sobre ela enquanto se preparava para adormecer também.
Uma luz fraca veio do quarto que ele usava como escritório. Ele achou estranho, tido que não havia deixado nada ligado lá. Levantou-se com calma para não acorda-la e foi até a porta. Constatou que a luz vinha do monitor do micro que estava ligado. Bom, ele era uma pessoa meio avoada, mas tinha certeza de haver desligado o computador anteriormente.
Andou até o computador e viu que o programa de conversação on-line estava ligado se aproximou da tela e nela havia um nick que há muito anos ele não via, e que embora houvesse visto apenas uma vez, ele jamais esqueceu. The Angel.
O coração disparou, teve receio de chegar perto do computador, pensou em desliga-lo sem nem mesmo tocar no teclado, mas antes disso as palavras começaram a surgir na tela.
The Angel fala para Dante:
Não se esqueceu de mim, não é?
— Claro que não! — a fala foi apenas um pensamento em voz alta, apenas um comentário para ele mesmo, mas para sua surpresa o computador respondeu.
The Angel fala para Dante:
Que bom que não se esqueceu, então temos um trato para selar.
— Não pode estar acontecendo, — Roberto falava ainda em dúvida de se a resposta no monitor era realmente para ele ou se era apenas uma coincidência. A confirmação não demorou.
The Angel fala para Dante:
Por que não pode estar acontecendo? Nós temos um trato, eu fiz a minha parte, agora vim cobrar o combinado. Metade dos anos que te restam. Perdão. Restavam.
— Não, não pode. Eu não vou, não agora que tudo está tão bem...
The Angel fala para Dante:
Hahahahahaha, essa é uma questão que nunca foi discutida, ninguém perguntou como é que você estaria na data combinada, e essa data chegou, a exata metade dos anos que te faltavam.
— Não quero jogar esse jogo.
The Angel fala para Dante:
Tarde, você já aceitou as regras agora é que o jogo começa.
Roberto aproximou-se do fio do computador e o arrancou da tomada, mas foi ridiculamente inútil.
The Angel fala para Dante:
Boa tentativa, mas o que faz você acreditar que pode me fazer desaparecer. Você fez um pedido, ele foi atendido, o ciclo precisa ser fechado para que eu desapareça... hum, que tal se nós brincarmos um pouco?
— Do que você está falando?
The Angel fala para Dante:
Bom, você fez a proposta, você tem de fazer todo o trabalho, não demore, não quero perder nenhum minuto do tempo estipulado.
— Eu não vou fazer isso. Sua intenção é que eu mesmo me mate? Você deve estar brincando.
The Angel fala para Dante:
Não, não estou brincando, mas posso começar a brincar se você quiser, vejamos...
A janela do programa de conversação on-line se abriu novamente, na lista entre os contatos o texto em destaque foi descendo até parar em um nick: Princess.
The Angel fala para Dante:
Ei, veja só, quem está aqui...
— Não! Espera, espera!
The Angel fala para Dante:
Você tem tempo para pegar a faca, vamos mova-se
The Angel fala para Princess:
Olá, quer participar de um jogo?
— Você não pode fazer nada a não ser intimida-la!
The Angel fala para Dante:
Você acredita mesmo nisso? Que bom, o jogo agora é: você vai pagar pra ver?
Princess fala para The Angel:
Quem é?
The Angel fala para Princess:
Um amigo do seu amigo Roberto. Estou aqui com ele e nós queremos que você participe de um joguinho, é bem simples, seu amigo está aqui, e precisa me pagar uma dívida, se ele não me pagar eu vou descontar de uma outra forma. Ah, você deveria tomar cuidado com essa janela aberta do teu lado. Se a parte de cima cair vai haver muito vidro estilhaçado.
— Não! Não, eu vou buscar a faca, eu vou.
The Angel fala para Dante:
Eu já comecei a jogar senhor Dante, não vou parar, você tem que ser mais rápido do que eu agora, e essa janela está me tentando...
Roberto correu na direção da escada, quase tropeçou, suas mãos tremiam enquanto abria a gaveta e procurava por uma faca. Sua mente estava confusa, e se fosse um blefe, mas e se não? Ele teria a coragem? Teria? Subiu as escadas tão desesperadamente quanto havia descido, por algum milagre não se cortou ao tropeçar enquanto corria. Quase nem raciocinou que isso seria o menor problema que teria com relação àquela faca. Chegou ao escritório se perguntando se ela não havia acordado com o barulho que ele fizera até então. Mas ao olhar a tela do computador a resposta, ao que ele nem mesmo perguntara já estava estampada visível.
The Angel fala para Dante:
Não se preocupe ela não vai acordar.
— Ta bem, aqui está a faca, certo, você fecha a janela de conversação e a gente resolve isso entre a gente.
The Angel fala para Dante:
Bom, isso pode até ser, mas o senhor demorou senhor Roberto, a janela ao lado de sua amiga não resistiu ao peso deste tempo excedente.
Um calafrio percorreu todo o corpo do homem parado naquele quarto com uma faca na mão. Seria verdade, ele, quem quer que fosse poderia realmente haver feito tal coisa? Correu na direção do telefone, e discou com força os números do telefone da amiga. Demorou muito até que ela atendesse.
— Roberto! O que está acontecendo? Eu estou com medo! Pelo amor de Deus, quem é esse cara o que é que ele está fazendo?
— Eu não sei! Você está bem? Ta machucada?
— A janela caiu tem vidro por todo o lado!
— Você está bem? Responde, pelo amor de Deus!
— Eu me cortei um pouco, estou com um pano enrolado no braço, mas ele já está todo encharcado.
— Liga pro hospital, pede uma ambulância eu to indo pra aí!
Assim que terminou de escrever a frase olhou para o computador e notou que já havia uma resposta para a sua afirmação.
The Angel fala para Dante:
Não vai a lugar nenhum! Se você sair desse quarto vão haver muitos pedaços da sua amiga espalhados pela casa quando alguém chegar lá... eu vejo tantas coisas divertidas, tantas para cortar até os ossos ao redor dela.
— Que você quer?! Vai mata-la também? Ela não tem nada haver com isso!
The Angel fala para Dante:
Você tem toda a razão. Ela não tem nada haver com isso, isso é entre nós dois. Portanto, você pode cumprir sua parte no acordo e sua amiga vai se salvar, caso contrário, eu tenho muitos nomes aqui nesta lista antes de chegar a sua amada.
A simples possibilidade levantada por aquela coisa, revirou seu estômago. Ele mataria até mesmo a ela.
The Angel fala para Dante:
Se pretender salvar sua amiga, senhor Dante, seu tempo está se esgotando. Não tem mais muito sangue pra perder no corpo dela e a ambulância ainda nem está perto. Vamos decida-se, eu não vou parar até que nosso acordo esteja selado ou até que eu tome de volta aquilo que eu lhe dei.
Roberto olhou para a lâmina, pensou em Rachel, lembrou-se da silhueta desenhada que vira pouco antes em seu quarto, pensou no que ele mesmo havia dito tão veementemente há nove anos atrás. “Juro, que eu daria metade dos anos que ainda tenho pela frente, soh pra ter o mesmo fluxo de conversa com ela, que eu tenho com vc”. Sentiu o frio da lâmina tocando o abdome, sentiu primeiro queimar, as mãos estremecendo e o deslizar do metal contra o macio da carne, escorregando tão rápido quanto suas mãos podiam empurrar.

Já havia alguns meses desde que o incidente estranho ocorrera, ele havia se matado e não havia sequer uma carta como justificativa. Rachel ficara histérica e afirmava que o computador havia matado a ele.
Estava tentando se distrair, não tinha ânimo para sair ainda e buscava conhecer alguém via internet, quando comentou com algum de seus contatos. “Sabe eu daria tudo pra ter ele de volta”. Uma janela pedindo autorização de novo contato se abriu.
The Angel fala para G@rot@.
Boa noite G@rot@, eu creio que posso ajuda-la.
...fim...
Edson Gomes
Enviado por Edson Gomes em 09/12/2005
Código do texto: T82770
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Edson Gomes
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