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— Como está a contagem?

— É o quinto esse mês.

— Alguma testemunha?

— Ninguém viu nada. E os chefões não se manifestaram.

— Peixe pequeno. Fácil de substituir. Vai pras estatísticas.

— Vale a matéria?

— Só nota em página interna. Guerra do tráfico, coisa e tal. Ninguém mais se incomoda com isso o suficiente para virar matéria de capa.

— Mas cinco? Parece coisa de assassino serial...

— Sai do cinema, cara. Isso aqui é execução, pura e simples. Bandido matando bandido.

— Os caras tavam sequinhos. Parece mais coisa de ritual satânico.

— Tá, enquanto você fica aí inventando história, eu tenho mais o que fazer. Ali, ó, o sargento vai fazer um comunicado...

...

A sensação está piorando. Não tem mais volta.  Pensava que podia controlar a dor, mas agora ela se tornou constante, parte de minha vida.

Saudades de minhas cólicas de fome. Quisera eu o sangue ainda pudesse resolver essa angústia, mas infelizmente ele se tornou apenas um veículo para meu vício. Um transporte para o que realmente importa.

Estou abusando de minha sorte...

...

— Mais um?

— Arrã. Igual aos outros. Seco que nem uva passa.

— O espaço entre as mortes está diminuindo. O cara tá querendo ser pego.

— Então você assume que pode ser um assassino serial?

— Fazer o quê? Dei uma avaliada nos outros casos, e tem um padrão. Sempre de noite, e sempre em viciados. Dois “aviões”, e três usuários. Esse último deve ser um desses também.

— Como você conseguiu o relatório da polícia?

— Tenho meus contatos. Acho que agora já dá pra fazer uma matéria legal. E a TV, já apareceu?

— Já, e já marquei o encontro. Tem certeza disso? O pessoal da redação vai ficar uma arara...

— Cuida da tua vida, cara. Esse lance vai fazer a gente tirar o pé da jaca.

...

Queria poder sair durante o dia, mas não dá pra arriscar. Os caras tão ficando espertos. Daqui a pouco vai ficar perigoso demais para sair.

Queria só que não doesse tanto. Maldita noite que eu deixei aquele cara me enrolar. Agora tô aqui, preso nesse barraco imundo, me remoendo de dor, incapaz até mesmo de sair na luz do dia.

Maldita insônia. Não estou conseguindo mais pensar direito.

Mal posso esperar pelo pôr do sol.

...

— Dois? Na mesma noite?

— É. O negócio ficou feio. Como tá a divulgação?

— Tá fraca ainda. Ninguém se interessa mais com esse tipo de história. Alguma novidade dessa vez?

— Só o fato de que um dos presuntos tava limpo. Talvez fosse apenas uma testemunha, e acabou rodando junto.

— Ou o cara tá se descontrolando de vez, e perdendo as estribeiras. Li isso num livro. Chega uma hora que eles começam a contrariar as próprias regras. Faz um favor pra mim: verifica se o presunto limpo também ficou seco.

— Por quê?

— Sei lá, um palpite.

...

Beleza, agora você se superou.

Aquele moleque não podia ser da favela. Roupa fina, cabelo arrumado, carteira cheia de grana. Cacete, você matou a porra dum playboy!

Mas o cheiro era tão doce! O bagulho circulando em seu sangue era tão suave, e ao mesmo tempo tão forte. Coisa fina, não a porcaria que vendem normalmente. Cliente classe A. Bem diferente do traficante que estava com ele. Coisa nojenta, fedorenta, entupido de erva junto com o brilho. Quase vomitei.

Eu tinha que me livrar dos corpos, mas tava tão chapado que nem me importei. Cacete, isso ainda vai me matar.

...

— Agora o bicho pegou. Quem era o cara?

— Filho de deputado. Da direita.

— E o outro?

— Peixe grande. A favela tá cercada. Ouvi por aí que o exército pode interferir. O comércio fechou antes mesmo que ameaçassem.

— Tá todo mundo aqui?

— Tá. Rádio, TV, jornal, revista... Acabou a exclusividade. O cara conseguiu chamar a atenção, finalmente.

— Morreu pela boca. Foi matar filho de político e traficante. Comprou guerra com o mundo inteiro.

— Tão te chamando. Acho que vão entrar ao vivo.

...

Não posso me mexer! Pára de tremer! Cacete, os caras tão aqui dentro. Pára de tremer! Porcaria de bagulho ruim. Preciso de um negócio do bom, ou então vou pirar. Mas com os caras aqui dentro não rola.

Pára de tremer!

...

— Tem mais um. Encontraram num barraco. Mesma coisa, mas dessa vez o cara retalhou o coitado inteiro.

— Porra, quantos helicópteros tem na área?

— Contei seis, mas só um era da polícia.

— Com licença...

— Pois não, senhora?

— Você é da TV, não é? Olha, toma aqui a foto de meu filho. Foi ele que mataram no outro dia. Era um rapaz trabalhador, tava estudando. Queria ser doutor. Será que dá pra divulgar? Estão dizendo por aí que ele era tão viciado quanto os outros, mas meu filho não era assim, não. Era um rapaz direito.

— Quem é?

— É o presunto limpo. Pode deixar, senhora. A gente divulga.

— Deus lhe pague, meu filho.

— Joga isso junto com o resto. Se a gente precisar dar uma carga dramática na matéria, pode ser uma boa.

...

Não dá mais! Esses filhos da puta não saem daqui! Parece que eu engoli desinfetante! Dá pra sentir o cheiro do suor deles, e isso tá me deixando doido. Tem um deles que tá no ponto. É só um traço, talvez o cara tivesse tomado só umas bolinhas pra ficar esperto. Não era o ideal, mas já dava pra segurar as pontas mais umas horas, até a barra limpar. Mas os caras não saem daqui, e não dá pra enfrentar todo mundo. Os caras tão bem armados.

Polícia do caralho! Deviam me agradecer por fazer o trabalho deles.

...

— O que foi isso?

— Tiros. Parece AK-47.

— Putz, que ouvido, hein? Tá vendo de onde vieram?

— Não, mas com certeza os traficantes se impacientaram com tanto policial rondando. Agora o bicho pega pra valer.

...

O que é isso? Os caras foram embora? Foram, finalmente posso sair. Ainda bem, já não aguentava mais. Tá doendo pra diabo. Mas péra aí, o que é isso? Caramba, tá uma guerra lá fora. Acho melhor ficar mais um tempo aqui.

Só pra ter certeza...

...

— Pegaram o cara?

— Parece que sim. Acho que ele se entregou.

— Se entregou ou entregaram ele? Os traficantes se acalmaram, e se fosse um deles o bagulho ia virar guerra declarada. Cadê o cara?

— Já levaram. O câmera pegou quando colocaram ele no camburão, e vai pro ar no jornal da noite. Tão te chamando pra fazer a locução.

— Essa história tá mal contada. Qual era o nome dele?

— Tão averiguando, mas era um João Ninguém. Tipo comum, mulato, cara de bandido, gorro do Flamengo...

— Cara, descobre o nome dele. E rápido, que preciso gravar a chamada em quinze minutos!

— Tá, tá, calma...

...

Preciso sair daqui. O morro já deu o que tinha que dar. Se eu ficar mais tempo, com certeza vão me pegar. Tudo bem, o que não falta nessa cidade é viciado, posso ir pra outro morro na boa.

Mas preciso aprender de uma vez por todas a me controlar. Cacete, dessa vez eu quase rodei bonito. Fica no povão, cara, que ninguém vai se importar. Mata uma porra de um playboy e o bagulho vira esse fuzuê.

Fica no povão, cara.

...

— E aí, ficou bom?

— Ficou. Agora junta tuas coisas e vamos sair daqui.

— O que rolou agora?

— Jogador de futebol. Jogou a namorada da janela. Tá todo mundo indo pra lá. Junta tudo, e vamos logo!

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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 05/04/2005
Reeditado em 06/04/2005
Código do texto: T9873
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia