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O Último Natal

A belíssima paisagem era de contos de fadas. Por que não ? Aquele era o país dos contos de fadas, então tudo estava bem. A neve alva fazia contraste com os pinheiros e coníferas de folhas verdes, amareladas e vermelhas. As frutinhas vermelhas, roxas e azuis completavam o quadro, naquela floresta de sonho. O índigo do céu contrastava com o sol radioso, e refletia-se nas roseiras selvagens que brotavam suas flores amarelas e chá em cachos desordenados.
Tantas cores diferentes, roubadas de todas as estações, tão diversas entre si, só eram possíveis ali. O País dos Contos de Fadas, a Terra do Impossível, a Lenda dos Sonhos Logo Antes do Despertar, a Cidade do Natal, terra de Nicolau.
Crianças de todas as idades sonharam ao menos uma vez em suas vidas em visitar a Cidade do Natal, com suas fábricas de brinquedos, casas dos duendes, estábulos de renas... e presidindo o cenário, a residência dele, daquele velhinho afável e carinhoso, amado por todas as crianças do mundo: Papai Noel.

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Era o dia 24 de dezembro de 2163, dez horas da manhã.
Todos os duendes e elfos trabalhavam em ritmo acelerado, empilhando caixas com sonhos e esperanças para os corações infantis. Gnomos forcejavam com as cargas mais pesadas, colocando-as na ordem de embarque. Jovens sílfides saltitavam aqui e acolá, colocando ora um festão dourado, ora uma fita vermelha, ora uma borla amarela, enfeitando os pacotes ordenados. Papai Noel organizava tudo, com seu riso fácil e bonomia, fazendo todos seus assistentes trabalharem cantando músicas natalinas.
Perto dali duas crianças duendes, Pimpolho e Fofinho, assistiam os preparativos. Por serem ainda muito jovens, não podiam auxiliar nas etapas finais do carregamento. Eles eram aprendizes das fábricas de brinquedo, e por seu temperamento irrequieto, muitas vezes trapalhão, faziam apenas serviços simples: Pimpolho pintava o ponto negro da pupila do olho direito das bonecas, e Fofinho colava os pompons nas caudas dos coelhinhos cor de rosa. Muitas vezes apareceram bonecas estrábicas e coelhinhos com pompons em locais estranhos, mas todos concordavam que eles estavam se esforçando.
Pimpolho cutucou Fofinho, com sua luva vermelha.
- É agora. - disse ele.
- Ah, não !!!
- Anões somos nós, sua rena zarolha ! Nós mesmos, sim, sim, sim.
- Eu quis dizer não, não, não.
- Você estava tão curioso quanto eu, estava sim, sim, sim.
- Estava, Pimpolho. Não estou mais, ah não !
- Anões somos nós !!!
- Eu não vou, não, não.
Pimpolho cansou-se da discussão, como ultimamente entediava-se com tudo, e agarrou o companheiro de folguedos pelo cachecol. Ou Fofinho ia com ele, ou ia passar um tempo sem respirar. Fofinho foi.
Os dois duendezinhos entraram pé ante pé na casa de Papai Noel, vazia àquela hora, e esgueiraram-se pela cozinha. O cheiro de açúcar, cravo e canela era intenso. Os deliciosos biscoitos em formatos de bonecos e ursinhos estavam esfriando sobre a bancada enfarinhada, esperando o retorno das cozinheiras para serem pintados. Elas também estavam ajudando Noel, todos estavam, exceto os muito idosos e os jovens demais, que adoravam assistir ao espetáculo do milagre que tomava forma todos os anos, no dia 24, e punha sorrisos nos rostinhos das crianças.
Os dois sapecas duendes desceram as escadas para o porão, depois de surrupiar cada um deles dois biscoitos recém assados. Pimpolho ia resoluto, Fofinho relutante. Não entendia o que seu amigo queria ali. Não era assunto deles, não, não, não. Era segredo do Papai Noel, e assim deveria permanecer. Mas Pimpolho, quando enfiava uma idéia na cabeça, não era subornado a abandoná-la nem com um confeito de açúcar-cande em forma de bengala.
Distraído com seus pensamentos, Fofinho deu um encontrão em Pimpolho, que parara sem avisar, em frente a uma parede lotada de prateleiras com conservas de frutas e doces cristalizados.
- Blintzen, Rudolph, casca de maçã !!! - disse Pimpolho.
Deslocou-se a parede em frente a eles, revelando um cofre de porta gigantesca, maior até do que Noel.
- NÃO, NÃO, NÃO !!! É o Cofre de Papai Noel, o cofre de Papai Noel !!! - guinchou Fofinho.
Pimpolho, com um brilho travesso no olhar, retrucou:
- Sim, é sim, sim, sim. Vamos ver o que tem dentro.
- Isso não é nosso, Pimpolho, por favor pare. Isso vai dar uma punição grande, vai sim, vai sim, vai sim ! Vamos perder nosso pedaço de torta de pecãs, vamos pintar olhos e colar pompons a vida inteira !!!
Pimpolho não deu ouvidos às lamúrias de Fofinho. Aproximou-se da porta do cofre, e colocando sua mãozinha no aço, esticou-se todo até a roda do segredo. Não a alcançou.
- Fofinho, vamos brincar de pular carniça ? - disse a esperta criança, com os olhinhos brilhando.
- Pular carniça, oba, oba, oba ! - alegrou-se Fofinho, saltitando e batendo as mãozinhas, contente, achando que seu amigo esquecera aquele assunto de cofre. E pular carniça era sua brincadeira favorita, desde que Papai Noel trouxera a idéia daquele país lindo chamado Brasil, há 631 anos atrás. Fofinho lembrava desse dia como se fosse ontem.
- Você começa se abaixando, eu salto sobre você. - orientou Pimpolho.
- Oba, oba, oba !!!
Fofinho abaixou-se onde Pimpolho o posicionou, junto ao cofre, sorridente. Pimpolho saltou e subiu em suas costas. E ficou. Depois de cinco minutos, Fofinho começou a achar aquilo estranho.
- Pimpolho, minha vez não chega nunca, não, não ?
- Chega sim, sim, sim. Mais um minuto só. - retrucou o outro, em pé sobre as costas arqueadas do companheiro.
- Está bem, tudo bem, muito bem. - tranqüilizou-se Fofinho.
Pimpolho fazia contas. A data do aniversário de Noel vezes sua idade mais o número de renas que trabalharam para ele dividido pelo número médio de presentes distribuídos sobre a fração... A testa da criança estava enrugada, com o esforço que aquelas contas lhe custavam. Ele sempre fora um gênio com números, e não aceitava as imposições daquela vida de trabalho, só trabalho e mais trabalho, entra ano sai ano, nunca diversão, e sem poder ser visto pelas pessoas. Daquela vez, iria divertir-se, se iria, como iria !
- Ahhhh !!! - satisfeito, ele chegou ao número correto.
- Minha vez, é, é, é ? - veio a voz sob ele.
- Mais dez minutos.
- E isso é muito ?
- Não, não, não.
- Tá bom, tá certo, tá ok.
Pimpolho suspirou fundo, mais uma vez espantado com a ingenuidade e a burrice de Fofinho, e girou a roda do segredo do cofre, parando no número certo. Com um rangido de coisa muito velha, a imensa porta começou a abrir, derrubando-os no caminho.

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As duas crianças caídas no chão observavam de olhinhos arregalados o gigantesco bloco de gelo. Era um bloco simples, quadrado, sem mossas, azulado e branco.
- Isso é gelo, Pimpolho. É sim, é sim, é sim.
- Eu sei... - de tão espantado com o fato de que o grande segredo de Papai Noel, guardado a sete chaves, era apenas um pedaço grande de gelo, ele sequer fez as duas repetições rituais dos duendes.
Tanto tempo escutando escondido as conversas dos duendes e gnomos anciãos, esgueirando-se na biblioteca de Noel tarde da noite, pesquisando os pergaminhos antigos, para encontrar a localização do cofre, a senha e o segredo, e agora aquilo ??? Gelo ? Conhecedor do eterno bom humor de Papai Noel, ele não se espantou com a brincadeira. Mas ficou num terrível mau humor.
- Bolas, pelotas, bexigas !!!
- Não, não, não, Pimpolho ! Gelo, calota, iceberg ! - disse o prestativo Fofinho, descrevendo o que viam no cofre.
Sobre as cabeças dos duendezinhos, na cozinha, ouviu-se vozes. Eram as ajudantes retornando, o que significava o fim do trabalho com Noel, lá fora. Em pouco tempo as cozinheiras também estariam de volta, e aí sim, o castigo seria feio, se fossem encontrados ali.
- Vamos, vamos, vamos !!! - instou Pimpolho, empurrando Fofinho escadas acima.
Fofinho deixou seu biscoito de ursinho meio comido cair, quis voltar para recuperá-lo, Pimpolho não deixou. Tinham que aproveitar o momento. As ajudantes de cozinha eram umas tontas, Trolls fáceis de enganar, acreditavam em todo mundo. Se ele dissesse que estavam seguindo um ovo de dragão roxo, mas que o perderam, elas iriam acreditar.
- A porta, o cofre, a parede ! Ficaram abertos, ficaram sim, sim, sim !!! - choramingou Fofinho.
E não é que ele tinha razão ? Mas Pimpolho resolveu esquecer o assunto.
- É só gelo, calota, iceberg, Fofinho. Se derreter, lá fora tem mais, bem mais, muito mais, Papai Noel não vai sentir falta. Ele pode repor, pode sim, claro que pode, sim, sim.
Fofinho pareceu aliviado, e subiu o restante dos degraus sem protesto. As ajudantes engoliram a história do ovo de dragão roxo, claro, e os deixaram passar. Na despensa vazia, a diferença de temperatura entre o bloco de gelo e o ambiente da casa de Noel começou a exercer sua ação de descongelamento.

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Era o dia 24 de dezembro de 2163, dez horas da noite.
Nicolau, conhecido popularmente como Papai Noel, fumava seu cachimbo predileto em frente à lareira de sua saleta pessoal. Já conferira pelo link via satélite sobre as condições meteorológicas ao redor do mundo, e suas rotas estavam demarcadas no computador de bordo do Trenó Concord modelo VI, que viajaria por 24 horas seguidas a uma velocidade externa de mach 15. No interior do trenó, ele iria com o conforto costumeiro. Os saltos temporais também estavam traçados, e ele teria 12,6 minutos em cada casa. Excelente.
Com o sorriso alegre que nunca o abandonava, Noel bateu as cinzas do cachimbo na lareira, e inclinou-se para a frente, estendendo a mão para seu gorro vermelho.
A mão do bom velhinho imobilizou-se. Ele sentiu um calafrio que lhe arrepiou os pelos da nuca, e soube. Ele chegara. Finalmente. Um dia tinha que acontecer. Aquele seria seu último Natal.
- Velho... - a voz era rascante e roufenha, a voz de alguém que se desacostumara a fazer uso de suas cordas vocais, durante muito tempo.
- Você não chegou em boa hora, meu filho. - mesmo sabendo o perigo que corria, Noel não deixou de tratar o outro com carinho, com piedade.
Faziam quase 400 anos que o haviam confiado a ele, sepultado naquele bloco de gelo, para ser esquecido pela Humanidade. Que guardião melhor poderiam arranjar, do que o espírito vivo do Natal, o ser terreno mais benfazejo que existia ? Cuja cidade era tão bem guardada dos olhos mortais que jamais o mal conseguiria encontrá-lo outra vez, para reclamar seu quinhão ?
Estavam errados, claro. Noel aguardara aquele dia por séculos, sabendo que o Mal sempre encontra um meio, mesmo ali. E encontrara. O único ser, imortal como ele, que poderia pôr fim à sua existência, o encontrara.
O homem estava emaciado. As roupas antigas pendiam de seu corpo magro, ensopadas, puídas, rasgadas. Seu rosto estava tão branco quanto o gelo no lado de fora, mas sempre fora assim, então não havia novidade. Os olhos eram borrões sangüíneos, atormentados e cruéis. Na criatura que o interpelava, Papai Noel nada viu de suave, de humano. Ela uma vez o fora, mas faziam séculos. O homem abriu a boca, expondo os imensos dentes caninos, e falou com dificuldade.
- Eu nunca chego em boa hora.
- Eu sei.
- Que ano é esse ?
- 2163.
- Século XXII... Eu sempre soube que atravessaria os séculos, mas...  congelado ? - o homem olhou fixamente para Noel com seus olhos vermelhos, e seu rosto tornou-se mais duro - Eles se esqueceram de mim ?
- Não. Você nunca será esquecido, excelência. Eu, sim. Depois de hoje, serei. O mundo não guarda na memória a bondade, a ternura, o amor. Eles lembram-se dos crimes, guerras, mortes... assassinos.
- Bom. - e após uma curta pausa - Estou com fome.
Com um salto ágil, que não se esperaria daquela criatura de aparência fragilizada, Drácula agarrou a cabeça de Papai Noel, torceu-lhe o pescoço para o lado, encarou-o. Calor e frieza, amor e ódio, o tudo e o nada, o Bem e o Mal se degladiaram por uns poucos segundos em seus olhares, antes que o vampiro faminto mergulhasse no pescoço luzidio de Noel, rasgando-o furiosamente em sua ânsia. Hoje, a vitória era do Mal.

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Era o dia 25 de dezembro de 2163, zero hora. E o Natal estava morto.


Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 2001.
Mônica Virgo
Enviado por Mônica Virgo em 06/04/2005
Código do texto: T10101
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Sobre a autora
Mônica Virgo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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