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O Saideiro

- E aí, cara, como andam as coisas ?
- A mesma mortandade de sempre. Um saco. Só você mantém a freqüência.
- Gosto do lugar.
A porta podre do bar mal iluminado se abre. Entra um sujeito de cabelos ensebados e roupa de mauricinho, com as mãos enfiadas nos bolsos dianteiros das calças. Ele pára por um segundo, avalia o lugar decadente onde entrou, e vê apenas os dois ocupantes da mesa no canto. O canto mais escuro. Ele se adianta, parecendo inseguro.
- Boa noite, vocês ainda estão abertos ?
- A noite toda, cara.
- Sei... e o barman ?
- Está falando com ele.
- Dá pra sair uma cervejinha gelada ?
- Vai lá e se serve.
- .... ?
- Somos informais, por aqui.
- Ok. – e ele caminha para trás do balcão, à procura do copo adequado.
- Estranho, esse aí.
- Também achei.
- Acho que nunca vi ninguém como ele por aqui, nesses anos todos.
O barman dá de ombros.
- Um dia tinha que acontecer.
- Merda ! Assim vai acabar o único lugar onde se pode trocar um papo decente.
- Fica frio, cara... ele está voltando.
De fato, o mauricinho ensebado decide que quer companhia, e está agora ao lado da mesa deles.
- Posso ? – o gesto corporal é contundente, ele quer e vai se sentar.
- Senta aí... – diz o barman.
O terceiro homem arrasta a cadeira para trás e recua um pouco mais para dentro da escuridão, soltando um grunhido baixo. O ensebado olha de lado, decide ignorar. Toma uns bons goles da cerveja, arrota, passa a mão na boca para retirar o bigode de espuma.
- Muito boa a cerva de vocês. Temperatura e pressão exatas.
- Obrigado.
- Eu... é a primeira vez que passo por aqui, eu me perdi a caminho da cidade, nem imaginava que pudesse haver um bar na beira desse pântano.
- Realmente, meus fregueses são poucos.
O ensebado assente, e passa a comer dos amendoins que estão numa tigela sobre a mesa. Durante alguns momentos ele apenas intercala punhados de amendoim e goles de cerveja, de forma rápida e nervosa. Os outros dois ocupantes da mesa se entreolham, e passam a observá-lo de forma indiscreta.
A ponta de um dedo aparece acima do bordo da mesa, e vagarosamente toma posição sobre o tampo. O barman e seu amigo percebem que o estranho novo freguês usou apenas a mão esquerda para alimentar-se, e que só agora lhe vêem a mão direita.
Furtivamente, ela chega ao centro da mesa. Depois, com a velocidade de um raio, avança sobre o prato do amigo do barman, e agarra o bife mal passado e sangrento que ele estava a comer.
O bife faz uma trajetória de gordura e sangue sobre a mesa, traçando uma curva, antes de ser espalmado no rosto do ensebado. Ele começa a enfiar o bife inteiro na boca, enquanto engasga e tosse.
- Mas que diabo... ? – o amigo do barman se levanta ultrajado, com tanto ímpeto que a cadeira ocupada por ele cai no chão.
- Não quero bife ! Não quero bife ! Não quero, pára ! Pára, desgraçada ! – o mauricinho dos pobres bate na mão direta com a esquerda, e de forma violenta arranca a carne da própria boca, jogando-a do outro lado do bar.
- Que porra é essa, cara ? Você é maluco ? – a voz do indignado comensal fica roufenha e mais profunda.
- Sou. Aliás, não. ELA é que é. – e o figura aponta para a própria mão.
- Quê ?
- Eu sofro de uma síndrome rara... Mão Alienígena.
- Que história é essa ? – agora é o barman que entra na conversa.
- Eu era epilético grave. Um ataque atrás do outro. Não agüentava mais. Daí tive que ser operado, sabe ? Abriram minha cabeça. E sei lá o que fizeram, mas a minha mão pirou, caras, ficou doidinha. Viram o que essa vaca fez ? Viram ? Ela vive me matando de vergonha.
O silêncio cai sobre os três.
E onde há silêncio, subitamente estoura uma gargalhada. Alta, grunhida, como se um animal selvagem e risonho estivesse à solta no bar.
- Puta merda, essa é das boas. Mão Alienígena, huahuahauahuaha !
- Hahahaha cara... se eu pudesse, me borrava todo de rir. – o barman faz eco às gargalhadas do amigo.
- Mas que inferno, eu não minto ! Eu tenho uma Mão Alienígena !
- Hahauhaah... ok. Fiquei puto contigo, mas acabei gostando do seu estilo. Vou me apresentar também. Sou o Lobisomem da região.
- E eu sou o Fantasma. – diz o barman.
- Porra, vocês são uns babacas mesmo. Eu vou é embora desse pardieiro.
Ele joga algumas cédulas amarrotadas sobre a mesa e vai embora, furioso com a zombaria dos outros dois.
O Lobisomem e o Fantasma se entreolham.
- Aquele filho da puta jogou meu bife no chão. Continuo com fome. Vai ser ele, mesmo. O saideiro da noite. – com essas palavras, o Lobo subitamente dobra de tamanho, e seu corpo se torna peludo. Ele dá um urro, e se precipita para a porta, terminando de quebrá-la.
- Ô saco ! Não faz assim, eu não tenho como consertar essa merda ! Quando você voltar, amigo, vou querer ver essa porta no lugar, hem ?
O Lobisomem não escuta mais, concentrado nos odores do ensebado. Indo buscar o jantar. Atrás dele, na beirada do pântano, o bar fantasma e seu proprietário desaparecem... até a meia noite do dia seguinte.


FIM
Rio de Janeiro, 15 de março de 2005.
Mônica Virgo
Enviado por Mônica Virgo em 06/04/2005
Código do texto: T10102
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Sobre a autora
Mônica Virgo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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