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Irmão

Eles dizem que eu imaginei tudo isso. Dizem que eu matei minha filha e meu irmão, mas estão muito enganados. Quando eu contei a verdade me puseram aqui, nesse hospício, carinhosamente chamado de depósito de loucos. Não lembro há quanto tempo estou aqui, mas eles agora acham que estou me comportando bem e finalmente atenderam o meu pedido e me deram papel e lápis, assim posso escrever a minha história, não que eu vá mostrá-la para alguém, a todos a quem eu tento contar, desistem de me ouvir nos 10 primeiros minutos. Eu preciso tirar isso de dentro de mim, talvez eu consiga me sentir melhor após escrevê-la, talvez finalmente ele atenda o meu chamado.

Eu nasci prematuro e de um parto difícil, no qual minha mãe morreu. Meu pai nunca me perdoou, de forma que não me dava muita atenção e sempre que podia, descontava todas as suas frustrações em mim. Sobrou-me apenas o meu irmão, já que meu pai estava sempre ausente. Meu irmão era 2 anos mais velho que eu e fomos criados juntos, onde ele ia, eu estava logo atrás, sempre o admirei e tentava copiá-lo em tudo. Isso durou até o final da minha adolescência, quando tivemos que nos separar. Ele se alistou na marinha e partiu rumo à África, onde iria permanecer durante vários anos. Antes de partir ele me deu vários conselhos e o melhor deles foi para que eu continuasse meu estudo. Assim o fiz, estudei, me formei e segui minha vida. Nos primeiros anos, trocávamos correspondências, ele me contava sobre suas experiências num país tão exótico, com tantos costumes e religiões diferentes e eu o mantinha informado sobre a minha vida e de papai. A carta mais difícil de escrever foi aquela em que tive que relatar a morte de papai. Fumante compulsivo foi arrastado para a morte por um câncer de pulmão. Agora meu irmão era o último integrante da minha família. Ainda continuamos a nos corresponder por mais algum tempo, mas de repente as cartas cessaram. Ele parou de me enviá-las e as que eu mandava, voltavam. Entrei em contato com a Marinha e me informaram que ele havia dado baixa e não se tinha mais notícias dele. Fiquei triste e preocupado, mas não podia fazer muita coisa, pois minha situação financeira não me permitia deixar o país à procura dele.

Vários anos se passaram e eu nunca consegui esquecê-lo completamente, porém já tinha aceitado o fato de que ele provavelmente estava morto. Qual surpresa não tive, naquele fatídico dia em que bateram à minha porta e quem estava parado à soleira era meu irmão. Abraçamos-nos durante vários minutos, eu chorava de felicidade e ele também. Ele me contou como havia ficado rico, não entrando muito em detalhes, apenas disse que envolvia transações marítimas e que não escreveu mais porque perdeu o endereço e os negócios estavam lhe tomando muito tempo, mas agora as coisas iam ser diferentes, ele havia voltado para cuidar do irmão caçula e nada iria estragar nossa nova vida. Ingênuo, acreditei em tudo.

No começo tudo correu às mil maravilhas. Ele nos comprou imóveis, carros, lanchas tudo o mais que o dinheiro podia comprar. Vivíamos nos divertindo, estávamos em todas as festas e lugares badalados. Morávamos na mesma casa e compartilhávamos quase tudo. Ele só havia me pedido para deixar o porão para ele, pois iria armazenar umas tralhas que ele havia trazido da África e não gostaria que fossem tocadas. Aceitei sem problemas, curiosidade nunca tinha sido uma das minhas maiores qualidades.

Entre uma festa e outra, ele me apresentou Sofia, uma linda morena, que ele disse ter trazido da África especialmente para me conhecer. Na época achei que ele estivesse brincando comigo e não dei muita bola, até porque me apaixonei por Sofia, foi amor à primeira vista, diria mais, que foi ao primeiro vislumbre, parecia que eu estava enfeitiçado. Ele sempre apoiou o meu romance com Sofia e vivia perguntando quando iríamos nos casar e dar sobrinhos a ele. Não demorou muito e aconteceu, Sofia engravidou e resolvemos nos casar. Nove meses depois, nasceu Jaqueline, minha filha, muito parecida com a mãe, mas tinha os meus olhos. Estava extasiado e não conseguia lembrar se já havia sido tão feliz. Dias após o nascimento de Jaqueline, Sofia desapareceu, como num passe de mágica. Tentei de tudo que estava ao meu alcance para encontrá-la, meu irmão também me dizia estar movendo mundos e fundos para isso, mas nunca conseguimos sequer um rastro dela. Só consegui suportar a sua partida porque agora tinha Jaqueline. Na época não entendia o sumiço dela, já que tínhamos uma vida de causar inveja nos outros. Meu irmão fez questão de ser o padrinho de Jaque e eu não fiz nenhuma objeção a isso. Sempre que os via juntos, parecia que tinham sido feitos um para o outro. Um dia ao vê-lo brincando com Jaqueline e parecendo a pessoa mais feliz do mundo, de brincadeira, perguntei se ele já tinha algum filho largado em algum porto. Lembro-me até hoje de ter visto como suas feições se transformaram e ele me disse que havia descoberto ser estéril e que se não fosse isso, seria muito mais feliz há muito tempo. Nunca mais toquei no assunto.

Passaram-se 3 anos desde que Jaqueline nascera, 4 que eu conhecera Sofia e 5 que meu irmão voltara. Nos últimos meses, notei uma drástica mudança em meu irmão, ele deixou de ser aquela pessoa amigável e serena que fora desde que voltara. Agora eu sempre o pegava olhando sobre os ombros, tomando sustos com qualquer barulho e sempre murmurando algo sobre conseguir mais tempo, sobre adiar sua ida; estava também obcecado por minha filha. Estava sempre por perto e dizia que era para protegê-la, pois ela tinha algo muito maior pela frente do que de repente morrer num acidente de carro ou coisa parecida. Eu estranhei, mas achei que o dinheiro o havia tornado excêntrico, apenas isso. Achei que ele tinha medo que algo acontecesse a ela, por ser a nossa única herdeira.

Lembro-me até hoje daquele dia infernal, 28 de Novembro. A pedido de meu irmão eu havia viajado para resolver uns problemas, a previsão era de eu voltar apenas dois dias depois, mas consegui voltar antes do previsto. Estava morrendo de saudades de minha princesinha e fui direto à escola para depois levá-la para casa. Para minha surpresa, me informaram que ela não tinha ido para a escola nesse dia. Fiquei preocupado, imaginei que ela tivesse adoecido e meu não tivessem me contado nada para eu não me preocupar. Entrei no carro e rumei para casa, no caminho liguei para a babá que tomava conta de Jaque, ela me disse que meu irmão a tinha liberado uns dias antes e que ele mesmo ia tomar conta da menina. Estranhei e tentei ligar para casa, ninguém atendia, tentei o celular do meu irmão e dizia estar desligado. Comecei a temer o pior, pensei que algum bandido tivesse invadido nossa casa entre outras coisas terríveis, mas o que eu iria presenciar era tão terrível que nunca sequer havia passado pela minha mente.

Cheguei em casa tremendo, quase não consegui encaixar a chave na porta. Entrei gritando por Jaqueline e pelo meu irmão, mas não havia resposta. Procurei em todos os cômodos e nada encontrei, desesperado fui em direção ao telefone, para ligar para a polícia. O suporte do telefone ficava perto da escada que descia ao porão. Ao passar em frente à escada, vislumbrei o bruxuleio de uma luz vermelha vindo lá de baixo, também ouvi cânticos. Desci as escadas devagar, já temendo o que iria encontrar. A cada degrau que eu descia, mais quente ficava e mais forte o brilho vermelho que vinha por baixo da porta. O som de cânticos também se tornava mais alto. Cheguei à porta e encostei na maçaneta, ela estava tão quente que tive que soltá-la, então empurrei a porta sem tocar na maçaneta.

Ainda hoje, 5 anos depois, quase tudo continua tão nítido na minha mente, como se tivesse sido ontem. A porta abriu devagar, a luz vermelha inundava o corredor aos poucos, os cânticos ficavam mais altos, o calor emanava da sala em lufadas. Meus olhos demoraram um pouco para se acostumarem com o tom vermelho da sala. A porta finalmente se abriu completamente, parece que levou horas para que acontecesse, mas foram apenas alguns milésimos de segundos. A luz vinha de centenas, talvez milhares de velas espalhadas pelo porão, no centro havia um pentagrama com uma vela em cada ponta. Sobre ele, jazia Sofia, completamente nua, com pinturas ritualísticas por todo o seu corpo. Ela se masturbava se contorcendo como uma serpente. Seus olhos estavam completamente brancos e de sua boca saíam os cânticos que eu escutei lá de cima. Não sei em que língua era, mas não era nenhuma língua conhecida pelo homem, pelo menos não pelos homens atuais. Sei disso, pois a música me atingia diretamente na mente e não nos ouvidos. Minhas pernas fraquejaram ao olhar mais adiante. Após Sofia, estava meu irmão, de costas, trajando uma espécie de vestimenta de monge. Suas mãos estavam suspensas sobre sua cabeça, segurando uma adaga imensa, com lâmina curva e cabo trabalhado. Ele pronunciava palavras incompreensíveis. Eu estava completamente hipnotizando e levei mais tempo do que deveria para identificar o que estava deitado à frente de meu irmão, em uma espécie de altar. Era a minha Jaqueline, minha linda filha. Ela estava com os braços e pernas presos às extremidades do altar, se contorcendo, tentando se livrar. Seu corpo estava completamente pintado, com símbolos parecidos com os de Sofia. Tão pequena e parecendo tão assustada. Seu corpo se movia em espasmos, tentando inutilmente livrar seus braços e pernas. Por um momento seus olhos encontraram os meus e ela gritou "Papai, me tira daqui, por favor.", começando a soluçar e chorar logo em seguida. Sua força tinha se esgotado e ela parou de se contorcer. Minha petrificação passou e comecei a correr em direção ao meu irmão, mas parecia que agora tudo se movia em câmera lenta. Vi os braços do meu irmão se abaixarem com força e fúria, enfiando a adaga no ventre de minha filha, enquanto ele puxava a adaga até o seu pescoço, rasgando-a de baixo para cima, ele entoava mais palavras, agora de forma que eu as compreendia e nunca mais as esqueci:

- Senhor de todo o mau, lorde das profundezas. Ofereço esta, sangue do meu sangue, pura e inocente, para ir no meu lugar, renovando o nosso pacto e me concedendo mais tempo.

Quando ele falou essas palavras, tudo se encaixou na minha mente e vi como havia sido tolo. Alcancei meu irmão e comecei a lutar com ele pela sua adaga. Ele ria loucamente, completamente fora de si e dizia "É tarde demais, é tarde demais. Ele já está vindo. Agora está feito. Terei mais tempo finalmente." O porão começou a tremer, a escuridão se tornou tão densa que as velas mal iluminavam o ambiente. Um cheiro terrível inundou a sala e na parede à frente do altar, um buraco começou a se abrir. Começou pequeno como uma moeda e foi se alargando, o som que emanava dele era como o lamento de milhões de almas, segurei as mãos junto aos ouvidos e caí de joelho, mas sem conseguir tirar os olhos do buraco que se abria. Ao atingir certo tamanho, também consegui ver coisas lá dentro. Acho que hoje a minha mente já bloqueou a pior parte do acontecido, pois de outra forma eu realmente estaria louco, como eles insistem em dizer que estou. Eu vi um corredor dentro do buraco, suas paredes eram feitas de tecido humano e vários corpos estavam presos à parede, ou melhor, faziam parte da parede, eles pareciam tentar soltar-se dela e não conseguiam, mas pedaços daquelas coisas caíam cada vez que tentavam se soltar. No final do corredor eu via o que pareciam ser olhos vermelhos, imensos, cada vez mais perto. Eu já conseguia ouvir o som de sua respiração e ouvia o arrastar dos seus passos. Uma mão saiu do buraco e segurou em sua borda, era imensa, cheia de escamas, com compridas garras negras e manchada de sangue. Seguida de sua mão, veio sua abissal cabeça, olhar para aquela coisa era como olhar para todos os pecados do mundo, ela emanava ódio, dor e sofrimento. Um líquido escuro como esgoto escorria de alguns dos seus olhos e sangue escorria dos outros. As criaturas presas à parede de carne do túnel emitiam ruídos cada vez mais altos e repletos de sofrimento. O demônio abissal aproximou a sua outra mão do corpo inerte de minha filha e por um momento, o vi retirar sua alma do corpo, enquanto de uma deformação que acredito ser sua boca, ele emitia uma espécie de sorriso e coisas se moviam do outro lado dos seus dentes disformes. Esse único momento em que avistei a alma de minha filha, foi suficiente para entender que ela estava perdida se eu não fizesse algo rápido, estaria condenada a uma eternidade de sofrimento, mesmo sem merecer. Ignorei os gritos que vinham do buraco, tomei a adaga de meu irmão, cortei-lhe a garganta enquanto ela ainda ria loucamente. Gritei para o demônio "Leve-o, leve-o! Ele é quem deve ir. Por favor, leve-o no lugar dela." A criatura parou por um momento, que a mim pareceu uma eternidade, esticou sua outra mão em direção ao corpo do meu irmão e retirou também sua alma. Pude sentir o terror emanando dele, ele não esperava ser levado agora. Ainda conseguia ouvir, ou sentir, em minha mente, suas palavras "Agora não, agora não. Temos um trato. Ela vai no meu lugar. Você não pode me trair...". A criatura ignorou suas súplicas e puxava seu imenso corpo de volta para o buraco com a alma de minha filha em uma mão e a de meu irmão na outra. Ainda estava pensando no que mais eu poderia fazer para livrar minha garotinha, quando senti uma forte pancada na cabeça. Eu havia esquecido completamente da comparsa do meu irmão.

Acordei horas depois, com a polícia batendo em minha cara. Fui preso, julgado culpado pela morte de minha filha e meu irmão em um ritual satânico. Sofia desapareceu novamente. Tentei contar minha versão da história, mas acabei internado como louco e devo cumprir prisão perpétua por aqui. Ainda hoje chamo pelo demônio, ofereço minha alma pela da minha filha e ele não aparece, pelo menos não completamente ainda, mas consigo sentir o seu cheiro de podridão, ouço o lamento das almas do corredor e vejo o horror estampado no rosto de minha filha, cada vez mais próximos, toda noite, quando fecho meus olhos.
Khapeta
Enviado por Khapeta em 26/02/2006
Reeditado em 23/04/2007
Código do texto: T116185
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Sobre o autor
Khapeta
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
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