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CONTOS DE CRETUS - Noite Nublada

        Era mais uma das noites nubladas em Cretus, os arranha-céus já danificados pelo tempo, e repletos de suas estatuas assustadoras e quebradas, de suas visíveis infiltrações, davam a aparência deplorável, assustadora, digna de bom filmes de terror. A falta de iluminação deixara a visão do céu noturno o mais belo da região, as estrelas cintilavam com uma intensidade sem igual, como pequeninos diamantes sobre camurça negro . O som abafado dos gritos, tiros, carros, essa era a abandonada “Cidade Velha” . E lá estava ele, com seus trajes escuros e comuns para noites como aquela, a calça e blusa de tecido fino e justo no corpo, assim definido seu corpo atlético, as luvas e botas resistentes, a mascara que só deixava a vista os lábios e maxilar, coberto pela barba cerrada de sempre.
     
         Apoiado em uma das estatuas e usando outra como uma espécie de cinzeiro observava o clarão por detrás das nuvens. Era ela, a senhora lua, com seu cintilar pálido e hipnotizante. O cigarro caíra prédio abaixo, e movendo a face voltou-se a selva de pedra já esquecida, poucas eram as janelas iluminadas pela azul das tvs ligadas, os cidadãos honestos dormiam,o pôr do sol significava a nascer do reino dos “pecadores”, homens e mulheres dominados por seus vícios, desejos e deveres ilegais.
     
         Justiceiros existiam, mas eram poucos os que sobreviviam ou suportavam aquela dura guerra, porem uma coisa era certa, quando se passa tanto tempo embrenhado naquele inferno, você acaba se tornando um monstro.
       
         No fim, todos que enfrentam aquele pandemônio acabava se tornando uma ameaça. Mais cedo ou mais tarde, e um dos poucos que caminhavam nessa linha retilínea era este jovem, Jerry Rocco ou Homem-Mariposa, pouco importava o nome, no fim ele sabia que não havia uma vida que desejava mais, pois ambas não passavam de um castigo.
       
         A Historia desse jovem é complexa e melancólica, como a realidade . E o mesmo passa a maioria de suas noite saltando prédios e prédios a caça de maus-caracteres com quem posso extravasar sua raiva e angustia que tanto assola sua alma, como uma criatura amaldiçoada a tentar pela eternidade trazer uma certa igualdade nos pratos da balança da vida.
       
         Não demora muito até ouvir algo, ao longe, soa abafado, mais ainda assim, sentia ser próximo, os olhos verdes, por detrás da mascara negra fitam a terceira janela, do prédio ao lado. Se aproxima alguns metros, se apoiando ao parapeito, podendo ver assim os vultos se movendo com certa velocidade. Retira do cinto de couro, preso por um coldre feito a mão, o tonfa - sua arma -  e em seguida salta. Pula quase cinqüenta metros de distancia até que seu corpo se choca contra o prédio, os braços fortes  se agarram na janela  - perfeita era a natureza dos heróis – e aquela criatura sobre-humana adentra o pequeno e simples apartamento.
       
         Mal percebeu a maioria dos moveis, seus olhos se dirigiram a jovem caída na cama, nua, deveria ter treze anos, a genitália sangrava, os olhos expressavam toda seu medo, pavor,o modo como gemia e gritava, e se encolhia na cama,  procurando por um lençol enquanto as lagrimas desciam. Mariposa tentava aceitar aquilo, ou pelo menos não se sentir chocado a ponto de derramar lagrimas junto a jovem, e compartilhar seu sofrimento, mesmo que isso nunca tivera lhe acontecido.
       
         Podia sentir os batimentos cardíacos aumentarem, e foi nesse momento em que ouviu uma voz, e logo depois o disparo ensurdecedor do revolver, podia sentir a bala atravessar algumas das costelas esquerdas. Deu passos para frente, e se apoiou na cama, a jovem havia gritado novamente, e por um momento a imagem turvou, as pernas fraquejaram e logo seus sentidos reanimaram, e pôde até  mesmo ouvir os passos do homem a se aproximar, e mesmo que não ouvisse os olhos que se arregalavam e o grito “mudo” da jovem já lhe era o bastante,  se virando de uma só vez,  desferindo um golpe certeiro com sua arma, acertando direto no nariz, o sangue escorreu, manchando até mesmo Mariposa.
         
          O Homem dera passos para trás e batera as costas contra a pequena estante e derrubara a pequena tv fora do ar que iluminava a quarto.Novamente gritos da jovem violentada. Ele segurou sua arma firme e quando percebeu o vulto do estuprador erguer-se o acertou, e dessa vez, foram inúmeras, como se algo dentro de si despertasse e dissesse que aquele verme não merecesse a vida, pouco se importava com seus gritos e suplicas, e mesmo mal podendo ver a desfiguração do rosto, ainda assim sua mente imaginava e como se excitado com tal reação seguia com mais e mais golpes, não demonstrando se cansar nunca, até sentir o toque em seu ombro e agindo de reflexo se virou, acertando a garota que fora jogada para trás, e ainda mais assustada o fitava atônita.
       
           Ele se levantou, ofegante, passou uma das mãos pelo rosto, sentindo o gosto ferroso do sangue, e se acabou se apoiando em uma das paredes. O ferimento doía, e os olhos novamente se voltaram ao céu, a chuva se iniciava, procurou pelo cintilar pálido da lua apesar do manto de nuvens, mas nada encontrou, estava sozinho, e olhou a garota, que em pânico se afastava dele enquanto chorava desesperadamente, e por fim sussurrou para si mesmo, enquanto observava o corpo de sua “vitima” ao chão, em seus últimos suspiros de vida.
 - Quando se passa tempo demais olhando o abismo, o abismo  acaba olhando para você.
             



                                                Rizzotto
Zé Rizzotto
Enviado por Zé Rizzotto em 07/04/2006
Reeditado em 21/05/2006
Código do texto: T135077
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Sobre o autor
Zé Rizzotto
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 30 anos
41 textos (4263 leituras)
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Zé Rizzotto