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CONTOS DE CRETUS - MAIS UM DIA NO INFERNO

           O céu tinha um tom avermelhado naquela noite, fruto das nuvens que se acumularam, e após a chuva torrencial que devastou casas  e derrubou arvores, agora tudo parecia calmo e silencioso, apenas se ouvia o assobio do vento que gélido, apenas movia levemente as folhas das arvores que ainda continuaram de pé, que bailavam com primor, como se agradecessem ao desastre daquela noite. E ainda assim o céu continuava intacto, com seu tom avermelhado, mais parecendo que as nuvens não se moviam e o vento era algo sobre natural. O que não seria de se duvidar, tendo em vista que ali era Cretus, e que não seria nenhuma surpresa pensar que aquelas terras estavam amaldiçoadas pelos Deuses ou simplesmente por Deus, o que o deixou nas mãos do Anjo caído que agora brincava como uma criança mimada. Pelo menos era assim que Jerry pensava, enquanto seus passos se dirigiam a saída do miserável prédio em que morava, a calçada estava escura, podia sentir o frio intenso da madrugada,  o vapor que saia dos bueiros mais pareciam fantasmas a procura dos muitos feridos, pois era obvio que eles existiam, e aos montes, era possível ouvir os gritos que viam dos quatro cantos, pessoas que se ajudavam no meio de suas adversidades, a procura de se confortarem. Tola ilusão essa, pensava Jerry. Apenas Os tolos tentavam se agarrar a outros na procura desesperada de conforto, mas no fim, sabiam que ele nunca existira, estavam abandonados, jogados a própria sorte, meros brinquedos descartáveis do próprio diabo.

          Os passos passaram a seguir a curta e precária calçada, podia ver postes caídos, lixeiras publicas no meio da rua, carros que se chocaram durante a forte tempestade, e pessoas, inúmeras se acumulando nas ruas enquanto conversavam, discutiam, gritavam, um show de horrores que era raro, pois a maioria temia primeiro as gangues que provavelmente não apareciam devido aos seus próprios problemas impostos pela natureza, e apesar de tudo, Jerry sabia que aquilo lhe era bom, agora estariam com pontos em comum completamente frágeis, vulnerais  e prontos para serem atacados. Ele para por um momento, enfias as mãos cobertas pelas luvas nos bolsos externos da jaqueta jeans surrada e retira o maço amassado de cigarros, e não demora a ascende-lo com o isqueiro, traga com tranqüilidade, deixando que a fumaça enfada seus pulmões, enquanto os passos o levavam a um beco sujo e estranhamente vazio. O par de All Stars sujos mergulhavam nas poças d’água criada com a chuva, a umidade do lugar era ainda maior, sob a jaqueta era possível ver a blusa de moletom cinza com as iniciais “USC”, que significavam “Universidade de Sabastian Cretus, o dito primeiro homem a chegar nessas terras amaldiçoadas. Ele olha ao redor, como quem espera não ser descoberto, e segundos depois bate três vezes a porta suja e enferrujada no final daquele úmido corredor entre os prédios velhos. Não demora até que abram as portas e um senhor o olha, mas não era preciso trocar palavras, os olhos claros de Jerry  focalizam os escuros e opacos do senhor decrépito, o velho sorri e seus dentes amarelados e podres dão ainda mais graça a todo aquele cenário miserável, deixando claro o que era a cidade velha, o pior dos bairros daquele inferno. O homem se afasta, e minutos depois aparece, e entrega a Rocco uma espécie de toalha  encardida, o jovem pega, e desenrola o pano, era possível ver o resolver Colt, que ao contrario de tudo aquilo, era tão belo quanto uma estatua de Michelangelo,  com seu desenho simples e cromado  e a coronha em madeira clara e com o símbolo que mais lembrava o brasão, Rocco ainda pensara que pertenceria a alguma a muito tempo, e agora estava em suas mãos, para gerar tanta violência que nenhum campo de caça ao norte poderia esperar. Mas ainda assim não sorrira não havia prazer algum em fazer aquilo, ainda mais quando abriu o tambor e vira as balas preenchendo os buracos, prontas para carne e osso, novamente voltara seus olhos claros ao projeto de homem a sua frente, que sorria curioso pela atitude do Jovem, mas o sorriso se alargou ainda mais quando Jerry retirou do bolso as varias notas velhas e amassadas que lhe recompensariam e as depositou nas mãos sujas e calejadas do homem, mas antes que esse agarrasse as notas, Jerry  tragou mais uma vez o cigarro já esquecido, e pensou em dizer algo, talvez “Como pode ser tão feio e ainda estar vivo?” mas preferiu se calar, Jerry Rocco nunca diria nada, talvez mariposa, mas apenas talvez. Então largou o dinheiro e deu as costas aquele senhor, voltando seus passos para a entrada de seu prédio, o contornando agora, parando do lado oposto de antes, onde encontrara uma motocicleta antiga e suja, era o único modo de ter um veiculo naquele antro, e após tirar as correntes que a seguravam no posto e ao chão, Jerry a ligou, seu ronco era rouco e pouco barulhento, ao contrario da grande maioria motos daquela região que não tinham o escapamento e poderiam chamar a atenção a quilômetros. Era possível notar também que o veiculo não tinham emplacamento o que o deixava ainda mais difícil de ser encontrado, apesar que era apenas usado naquela área, onde a policia a muito não, a não ser para se encher de drogas ou comprar algumas armas, ou simplesmente assassinar alguém, como alguns faziam como se fosse um trabalho de fim de semana o de pistoleiro.  Depois colocar a motocicleta  na pista, já ligada, colocou lentamente o mascará de ski que guardava no bolso moletom, era negras e só tinha abertura para os olhos claros, em seguida escondeu ainda mãos a face com ajuda da toca do mesmo moletom, ainda que usasse a jaqueta sobre a blusa, e não demorou para voltar a acelerar e sair dali com a intenção definitiva,  iria acabar com alguém naquela noite.

         O trajeto não demorara muito, enquanto a motocicleta engolia a pista ferozmente, sua mente já focalizara a muito a sua vitima, não era bem uma boca de fumo, mas praticamente um laboratório de metanfetamina,  produziam “A Bela Godiva”, como assim era chamada. “Maldito pó”, pensava Jerry enquanto parava a motocicleta ao lado de um bar mal cheiroso e repleto de prostitutas na porta, mal podiam escutar suas propostas lascivas e repulsantes, seus pensamentos sobrepujavam as vozes aguadas da mulheres e travestis, apenas pensava em como iria entrar naquele apartamento sem  ser visto, já que se o pegarem, nem mesmo álibi teria. Olhou ao redor e abaixou o capuz cinza da blusa, e em seguida puxou a mascará para cima, tornando-a uma espécie de toca, escondendo os cabelos castanhos, e assim caminhou até o bar, não se empurrar um dos homens travestidos que lhe fizera propostas que julgava dignas da morte daquela raça ( E quem disse que todo herói não pode ter preconceito?).

        A porta se abriu, o ar quente e abafado lhe veio de encontro naquele momento, o levando a sentir um mal estar momentâneo, coçara a barba cerrada e em seguida retirou as luvas enquanto aproximava-se do balcão cheio de cafajestes e vagabundos, sem mencionar mais vadias, ou simples vitimas daquela região que não lhe daria qualquer futuro a não a certeza de que teriam seus corpos violados todas as noites por criaturas que estavam cada dia mais próximos de serem comparados a monstros, que a sociedade tanto odiava e mal sabia que eram eles que os tornavam no que eram. Mas logo pensamento se esvaia da mente de Rocco, não valeria a pensa perder tempo pensando no próximo, não seria ele que tentaria carregar o fardo de séculos de injustiças sociais. Não demorou e notou o cheiro forte de suor do barman gordo e careca, usava apenas uma camisa regata amarelada e úmida. O homem passou a mão pelo balcão o limpando, enquanto olhava o rapaz com cara de poucos amigos e logo falou secamente:
- O que vai querer?
- Vodka, pura. Respondeu Jerry após fitar os olhos claros nos do homem por
segundo, mas logo voltar sua atenção aos clientes da mais baixa qualidade que preenchiam aquele antro. O copo pousou sobre a mesa, e a bebida incolor preencheu o vazio do pequeno copo, Jerry o olhou e em seguida o barman, e logo sorveu da vodka que atravessou sua garganta, a queimando de maneira agradável, como se corroesse ainda mais sua alma, tirando cada vez sua humanidade e a assim o enchendo de coragem, ou lhe dando frieza para ser pior a cada dia. Os olhos espremidos pelo gosto da bebida, agora se abriam lentamente enquanto as mãos pegavam o maço de cigarros e o isqueiro. Ascendera um cigarro, dera o primeiro e desagradável trago, nem mesmo sentia que seus pulmões estavam repletos de fumaça tóxica. Tragara mais uma vez, enquanto se levantava, havia pagado pela bebida, e agora só lhe restava um rápido olhar, no entanto perscrutava atentamente em cada homem e mulher, talvez alguém que pudesse julgar trabalhar naquele maldito laboratório, mas nada encontrou, provavelmente estavam trabalhando, o que seria ruim, mas não adiantaria mais voltar atrás, mesmo porque seria difícil que desgraçados como aqueles conseguissem mata-lo. Levantou-se do pequeno banco e saiu dali com rapidez, esperava não ser seguido por pivetes que tentassem rouba-lo, vira alguns lá, e apesar do rosto angelical, podiam matar com mais frieza que qualquer veterano de guerra. A porta do bar se fechou, parou por um minuto na calçada entra as prostitutas e travestis, e enquanto tragava esperava por algum movimento suspeito, mas estava se irritando com as pessoas que pediam cigarro todo o tempo, e logo voltou a caminhar pela calçada, enquanto ouvia o coral de xingamentos em sua direção, e sorrira levemente, e voltara a colocar a mascara e vestir as luvas de couro, atravessara a rua, passando pelo prédio onde acreditava ficar o toca dos ratos que tanto queria pegar, ao alto ouvia um som forte, como de um motor de caminhão aberto, parou por um segundo e jogou o cigarro na calçado e caminhou mais alguns passos até chegar em uma dos inúmeros becos escuros e úmidos daquele bairro, porem estava   sendo  furtivo, sem provocar som algum, e logo escutaram gemidos femininos, e não demorou para notar um corpo caído no chão, mas o som vinha do fundo do beco, ainda podia ouvir também os sussurros ameaçadores de alguns homens, logo suspeitara do que seria, mas um dos inúmeros estrupos que lá aconteciam, as vezes se perguntava como conseguia presenciar tantos. Ficou durante minutos ali, em silêncio olhando a cena entre as sombras se questionando se fazia algo... caso fizesse teria de abandonar o primeiro plano, pois seria perseguido, e provavelmente nem mesmo sua motocicleta veria novamente. Então saltou, o mais alto que pode, ultrapassando toda a extensão do beco, caindo logo atrás de um dos vultos, que tinha longos cabelos que Jerry logo agarrou e empurrou o rosto contra uma das paredes laterais, e após sentir o choque do golpe, e o abafado gemido de sua vitima, logo sentiu a lamina curta e aguda perfurar suas costas, a dor forte, o fizera ranger os dentes e voltar o corpo com toda a força, acertando o cotovelo direto no rosto do seu agressor, mas nem mesmo conseguira ouvir o som, já que o movimento brusco ocasionara  num corte ainda maior, e a sensação do sangue vertendo do corpo, e não demorou para ajoelhar-se, mas nem mesmo notara que sua primeira vitima havia se levantado e agora afundava a bota suja em seu rosto e o derrubara sobre uma poça. A cabeça batera com força contra o chão de concreto, e a língua já sentia o gosto ferroso do sangue que invadia toda a boca, e logo cuspira um dente, e enquanto tentava se levantar, levara uma segunda facada, agora no abdômen, a lamina mais larga e longa fizera Jerry urrar como um animal, e a acústica do beco apenas tornou aquilo tudo mais drástico, ao fundo a jovem gritava, mas Jerry em nada pensava além de matar aqueles desgraçados, e ainda gritando, ergueu seu tronco e agarrou o braço do homem que se desferira a facada, e aproveitando, arrancou a faca em suas costas e cravou-la no pulso do infeliz, a ponto de atravessar, o homem gritou e soltou o punho de sua arma, a deixando fincada em Jerry, e tentara se afastar, mas Mariposa ( Ou Jerry) não deixara. E erguendo-se por completo dessa vez, agarrou-lhe pelo pescoço, e tirando a outra faca em seu abdômen e enfiou no olho esquerdo com tamanha força que um curto e fino jato de sangue acertou seu rosto mascarado, mas não teve a chance de se deleitar como desejava, logo fora abraçado por sua segundo vitima, que o jogara contra a parede enquanto gritava incessantemente: “Morra desgraçado!”. Mas aquilo não seria suficiente, não para deter Jerry Rocco, apenas servira de ignição o monstro, era como se Hyde aflorasse mais uma vez, e para o desespero de Jekyll, nada se poderia fazer a não ser esperar pelo fim trágico daquele episodio. E assim fora, não era mais Jerry, mas sim mariposa, que enforcava o homem, ou melhor, o garoto de talvez quinze anos, que já ajoelhado não tinha mais forças para nada. E se luz ali tivesse, veria suas íris se erguerem, e os olhos se tornarem brancos enquanto o corpo desfalecia pouco a pouco. E assim fora, era como se não pudesse mais sentir os batimentos de seu coração, o correr de seu sangue, e então as mãos se afrouxassem e o corpo cairá sem vida, e por um segundo ainda observou a escuridão, mas parecendo que pudesse ver o corpo ali, caindo, desajeitado e então tossiu sangue e ergueu a face para o fim do corredor  que era iluminado, e a vira, a jovem, com suas roupas de prostitutas que corria e exalava o misto de desespero e alegria ao presenciar aquilo, e não logo notou os passos de pessoas correndo para que vissem aquilo, um espetáculo de horror para alguns, mas para eles era a única coisa que lhes poderiam proporcionar felicidade, a desgraça alheia. Pensou em correr, mas seria difícil, e assim, lembrou-se da arma, e a arrancou do bolso do moletom e atirou três vezes, o suficiente para afasta-los, mas chamar a atenção de outros mais perigosos.

         E assim pulou mais uma vez, agarrando-se nas velhas e enferrujadas escadas de incêndio, e assim continuou, como um primata, dando impulsos sobre humanos com os braços, e pulando cada andar da escadaria de metal, e assim chegando ao alto do prédio vizinho daquele que estaria suas vitimas. Caíra ajoelhado enquanto tossia ainda mais sangue, e sentia seu corpo reagir aos ferimentos, e assim se deitou, olhando as estrelas naquele dia frio, as nuvens haviam abandonado o céu, e agora podia ser o belo cintilar as estrelas, e arrancou a mascara, o rosto escarlate pelo sangue que cuspia de sua boca, a dor angustiante dos dentes perdidos que cresciam, dos ferimentos que cicatrizavam  lentamente, e enfraqueciam o corpo. E ainda vendo aquelas estrelas, salvas de todo mal, e sempre ali, sejam nos deleitando com sua presença ou escondidas pelas nuvens, estavam ali, todas as noites, protegidas de qualquer mal que quisessem lhe fazer, longes da selvageria do mundo, ou da própria. Jerry sorriu, e sussurrou por fim
- que sorte a suas....




                                                     Rizzotto
Zé Rizzotto
Enviado por Zé Rizzotto em 07/04/2006
Reeditado em 21/05/2006
Código do texto: T135554
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Sobre o autor
Zé Rizzotto
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 30 anos
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Zé Rizzotto