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CONTOS DE CRETUS - A MARIPOSA QUE NUNCA SE ILUDE PELA LUZ

              Ele brincava, como uma criança que não tem qualquer noção de sua atitude sádica perante aquele que muitas vezes não passa de um simples boneco, criatura sem sentimentos como ele. O mundo gira em torno de seu umbigo e nada mais. E a cada vez que a larga adaga penetrava a pele macia e pálida, um grito se ouvia, o pedido de clemência sem palavras que alcançava os céus, para talvez, chegar aos ouvidos de seu criador, e então ele o costurava,  com linhas grossas, agulha fina que reluzia bela sobre a luz bruxuleante daquela pequena cela em baixo da casa. O cheiro acre de fezes e urina, unido ao sangue apenas tornavam aquele lugar a cena que  o fazia pensar em becos e ruas medievais. As gotículas de usar caiam do rosto fino que esboçava um sorriso assombroso, era de uma felicidade inalcançável, como se agarrasse o mais raro dos objetos e os olhos, esses traziam o toque necessário para os legítimos “desprendidos” – como assim se auto-denominava –, eram fixos, arregalados. A ponta da língua passava pelo lábios superior, havia uma gota de sangue ali, “Oh! Magnífico liquido escarlate, que trouxestes a juventude a Bathory. E fizera de Tepes, meu pai, a mais forte das criaturas!”. Sussurrava com prazer  enquanto passava com leve a mão grossa e de unhas sujas pelo rosto de belo da jovem, que mais parecia porcelana em contraste as lagrimas escuras que lhe traziam ainda mais a imagem do desespero. Os olhos azuis que traziam a esperança insana pela salvação divina. Os lábios finos e trêmulos, que traziam o satisfatório som de medo, o legitimo, mas não era isso que ele queria, era sangue, sangue!

            Ao alto a porta se abrira mais uma vez, e a bela jovem voltou a erguer o rosto tão belo, ainda estivesse claro seu sofrimento, os dois pontos azuis que apenas cintilavam pelo desejo ardente de que aquele que descesse não fosse teu algoz, mas sim a morte, pronto para abraçá-la e guia-la para qualquer lugar - fosse paraíso, fosse inferno – para longe dali. Mas era ele, e as lagrimas voltaram a descer, mas não havia mais feição de medo, não temia mais a morte, as feridas mal costuradas que agora inflamavam apenas lhe tiraram a força pela vida, o anseio por ver seus familiares, ver Tom, o belo Tom que tanto a amava. Os passos foram lentos, degustava  de cada momento, as botas grandes para o corpo esguio traziam um som assustador que apenas a fazia recordar-se da dor, do sangue lhe sendo tomado das veias para que ele bebesse, como um demônio. As calças largas e a grande jaqueta escura lhe davam a sensação do ser ainda menor e mais magro do que de fato era. Mas o que temia era seu rosto, a face digna de satã que tanto lhe fazia se questionar o motivo que a levara a sofrer tanto. Abandonada por Deus? Quem sabe... o que seria uma alma entre bilhões no mundo, mas sofria, agora não mais por ela, mas sim por Tom, o bondoso e jovem Tom que sofreria tanto, agora que aquilo que tanto os ligava jazia em um pode velho de Picles a sua frente, repleto de formol. As lagrimas voltaram, e gemeu alto, não por suas feridas mal tratadas, e sim pelo filho morto, pelo absurdo de ainda estar viva, talvez por forças infernais, ou já estivesse morta, e esse era seu inferno. Tentou mover-se, e mais uma vez os grilhões enferrujados em seus pulsos apenas feriram ainda mais as feridas e o sangue não escorrera, mas a dor fora pulsante, mas não o suficiente para lhe deter a vontade de se mover, agora queria viver! Tinha de viver para que pagasse pelo que fizera ao filho que tanto amava e nem se quer vira o sorriso, o choro alto, os primeiros passos. Gritou mais uma vez e então sentiu o soco acertar-lhe a boca, e a mesma amortecera, o mundo girou, o gosto de sangue surgira, e por fim cuspira os dentes e então vira o rosto demoníaco a observando, o olhar de desejo que tanto a enojava, as caricias que lhe causava repulsa, terror, e a língua aquecida que deslizava pela pele branca e suja, o choro veio novamente, porem abafado, a mão grossa selara os lábios cortados, então ele a mordeu e em seguida riu, e logo viera o toque frio da lamina. Olhos nos olhos, fixos, um admirava, a outra tentava gritar, enquanto o desespero a tomava, e então a lamina adentrou a pele nua, dessa vez nos seios, e após jogar longe a arma, com delicadeza esparramou o liquido avermelhado pelo corpo, e então ele novamente passou a língua quente, a boca  que parecia tentar sugar a pele para dentro do próprio corpo. Ela chorou, perdera as esperanças e chorou quieta, a dor sumira, e desejo pela vida, o amor a própria alma.

              Jerry Rocco – ou Mariposa – já o seguia a duas horas, e não fazia muito tempo que estava do outro lado da rua fria, atrás de um monte de neve, o inverno lhe trazia o conforto, gostava de ficar por horas no frio sentindo toda a solidão que detinha ser exalada por toda a cidade de uma vez só, um conforto para ele saber que não é o único desgraçado, o cigarro estava no fim, ele olhara ao redor daquela região desértica com casas pequenas e feias, carros velhos parados na rua, homens dormindo em furgões e Kombis, cães velhos e sem raça latino incansavelmente no fim da rua. Lentamente fez da touca preta de lã que aquecia o alto da cabeça, transformar-se na mascara de ski que tanto gostava, apenas com um leve puxão com as mãos cobertas pelas luvas de couro. Fechara a jaqueta jeans surrada, escondendo as outras camadas de roupa que o protegiam. Observou mais uma vez a rua, certificou que as janelas estavam escuras, sem qualquer iluminação, e então começou a caminhar, e logo acelerou e pulou, sentia o som de inúmeros violinos e contrabaixos num ritmo explosivo, decisivo, uma sinfonia feita apenas para ele, dos céus ou das profundezas dos inferno, para inspira-lo em sua carnificina, ao cair sobre o telhada do casa, como um gato treinado e leve, o ritmo abrandou , os passos largos e furtivos o levavam até os fundos da casa, e logo passara a ouvir a ouvir os “urros” terríveis e femininos, o cenho franziu, os olhos espremeram, talvez sentira-se tocado por aquilo, ou seu ódio simplesmente aumentara. Pulara no chão de terra batida, mas o silencio continuara, e avistou a porta daquele porão, o cheiro nauseante que vinha de lá o espantava, no entanto, não o amedrontou, e imediatamente seguiu na direção da tosca escadaria que o levava em direção a luz bruxuleante e aos sons de terror, desespero que tanto fortaleciam seu ódio por aquele que numa noite, apenas lhe pedira um cigarro, mas Jerry vira seu olhar que passava toda sua mediocridade, demência.

              E agora estavam os três se olhando, primeiro fora Jerry que arregalara seus olhos verdes a principio, estupefato com a crueldade e insanidade daquela cena, o ódio o tomou e agora se sentia o animal desalmado (ou quem, com a alma mais forte que nunca) que seu peito doía, as mais cerravam, as pernas entreabriam enquanto o tronco curvava levemente, como um monstro pronto a atacar sua vitima. A jovem gemera num ritmo em cadencia, que mais parecia um leve sussurro e no fim, tornara-se um terrível grito, o homem, o maldito demônio que de joelhos se deleitava no corpo imundo e completamente repleto de ferimentos da jovem, apenas se virou, e como uma criatura das trevas, arregalou os olhos e dera um grito estridente enquanto se erguia, a mulher se mexia, em pânico, e o homem gritara erguendo os braços finos:
 - Como ousas invadir a morada de Drian! Terás a morte lenta por atrapalhar o filho...
 No entanto suas palavras não chegaram ao fim, Jerry já havia lhe acertado um soco no rosto magro do homem que caíra por terra,  e logo começara a tossir, e nesse momento pensara em como seu corpo estava doente devido a sua alimentação quase antropofágica, e vendo que nem mesmo levantar consegui, apenas gritava e acertava a própria cabeça contra o chão fétido num ato insano, Jerry aproximou-se e o virou e costa para o chão, e agachado fixara os olhos nos dele, sentira sua demência enquanto os olhos giravam e giravam e sussurrava ser filho bastardo de Deus, e reconfortado nos braços de Lúcifer, e nesse momento pensou em si mesmo, o que causou-lhe mais ódio, e agarrando com ambas as mãos iniciou uma seqüência de golpes, chocando o crânio daquele miserável contra o chão, e quanto mais fazia mais blasfêmias pensava, odiava um Deus que causasse tamanho sofrimento, que deixava tanto horror acontecer e nada acontecer, que fazia do sofrimento o sentido da vida, e assim continuo, e quando não teve mais forças. Continuou, e o sangue escorreu, o homem dera seu grito, e sua íris se ergueu até que sumira, e o branco imperou nos olhos, e ainda assim Jerry continuo, até que ouvira os gritos terríveis da mulher que chorava e suplicava para que parasse, para que a tirasse dali, e após olhar uma ultima vez o rosto sem vida do daquela criatura tão sofrida, daquele que servia como tantos outros, para extravasar seu ódio, ergueu-se e se aproximou dela, o rosto negro pela mascara não o tornava humano, mas o silhueta de um, mas ainda assim ouvia dos agradecimentos da mulher que talvez apenas sobrevivera tanto tempo para que sofresse eternamente. Olhou para as correntes, e após muito esforço arrancou uma que estava presa na mofada parede. E após encontrar um celular no bolso de sua vitima, o jogou para a mulher, que ainda com força pareceu digitar, e por fim, ele lhe deu as costas, e começou a caminhar para a saída, porem antes de aproximar-se do portal ouvira as doces palavras:
 - obrigado... você foi o enviado de Deus...

          Queria Jerry acreditar, queria Jerry sentir algo ao ouvir aquilo além de desprezo. Queria Jerry acreditar que horas depois aquela jovem não morreria em uma delicada cirurgia, Queria acreditar que quando “Deus escreve certo por linhas tortas” ele não é sádico como uma criança mimada, que aquele demônio de fato não era filho dele.


                                           Rizzotto
Zé Rizzotto
Enviado por Zé Rizzotto em 13/04/2006
Reeditado em 21/05/2006
Código do texto: T138728
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Sobre o autor
Zé Rizzotto
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 30 anos
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