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O Espelho de Obsidiana

                            O Espelho de Obsidiana

Miranda Brookie é uma respeitada médica de trinta e dois anos. Seus cabelos louros, longos e lisos lhe caiam até os ombros. Seus olhos azuis eram vivos e observadores. Seu corpo era farto de bustos e sua pele era macia. Ela tinha uma altura normal, nem muito alta, nem muito baixa. Os lábios carnudos eram naturalmente rubros. Seu nariz era retilíneo e suas orelhas pequenas e delicadas. Miranda era uma mulher de gostos simples, uma de suas paixões era por móveis e enfeites antigos.
Sempre que seu pagamento caia na sua conta bancária, ou seja, todo dia primeiro, ela comprava uma nova peça em algum antiquário ou numa feira popular. As feiras populares de antiguidades eram atração turística em Raven Claws, uma pequena cidade no norte da Europa, local onde Miranda mora.
Era dia primeiro e Miranda, como de costume, vasculhava na feira entre as barraquinhas por algo que prendesse sua atenção. Ela já estava nisso a mais de duas horas. Então ela viu algo reluzente embaixo de algumas roupas antigas numa barraquinha. Ela se aproximou e descobriu que se tratava de um espelho de parede. O espelho era oval e tinha adornos de obsidiana negra naquela armação trabalhada no mesmo material. Os adornos tinham formais florais delicadas. Eram rosas, orquídeas, lírios, margaridas, violetas, tulipas e amores-perfeitos. Ela tocou levemente o espelho. Afastou a mão assustada. Estava quente como a pele humana. Logo o susto se tornou fascínio. Ela buscou uma explicação. “Talvez seja por causa das roupas que o cobriam. É tão bonito”. Ela mirou a sua superfície prateada. Ao ver a si mesma no espelho um êxtase reconfortante tomou-lhe conta da mente. Ela ficou parada ali por alguns segundos. Talvez alguns minutos. A vendedora tocou seu ombro e indagou, quebrando o transe:
- A senhora está bem? Posso ajudar em alguma coisa?
Miranda teve um sobre-salto. Respondeu então:
- Me desculpe! Estou bem sim, obrigada... Quanto é o preço desse espelho?
A mulher avaliou por alguns momentos. Miranda estava impaciente e questionou:
- E então? O que me diz?
A vendedora olhou agitada, mas depois se acalmou rapidamente. Respondeu:
- Estranho...
Miranda franziu as sobrancelhas e disse:
- O que?
A vendedora respondeu meio hesitante:
- Eu poderia jurar que esse artigo não estava entre minhas mercadorias. Devo estar ficando louca... Ah! Sim...
Você pode levá-lo por cento e cinqüenta euros... É uma peça muito refinada, sabe?
Miranda não discutiu. Apenas abriu a carteira e depositou a quantia nas mãos da mulher. Colocou o espelho em sua bolsa e se dirigiu para seu apartamento.
Ao chegou em casa procurou um lugar para pendurá-lo. Pendurou-o sobre uma mesa antiga que ficava no seu quarto. Ela usava aquela mesinha com três gavetas para guardar cosméticos etc... “Perfeito” pensou. Pegou o modesto e pequeno espelho de ferro e o descartou. Ela se sentou sobre uma cadeira de madeira e fitou a si mesma. Ela não viu o tempo passar. A mesma sensação agradável lhe invadiu novamente. Era uma sensação tão prazerosa... O seu gato, o Senhor Maricas começou a miar. Outro baque. Ela se lembrou de ter esquecido de colocar comida para o animal.  Levantou-se e pegou a lata de comida felina. Foi até a cozinha e ao abrir a lata olhou instintivamente para o relógio de parede. Era meia noite e meia. Ela levou a mão a boca. Havia ficado mais de cinco horas de frente ao espelho...
Ela ficou lívida. Simplesmente não viu o tempo passar. Levou as mãos a cabeça e murmurou:
- Devo estar ficando louca...
Ela colocou a comida no pratinho do gato, se despiu tomou uma ducha quente e relaxante, e vestiu a camisola de seda branca. Deitou-se em sua cama quente e confortável e caiu lentamente num sono profundo. Ela estava agora num cômodo grande e confortável. Era um quarto luxuoso e de decoração impecável, cujo estilo renascentista era capaz de encantar a qualquer ser humano com um mínimo de bom gosto. O aroma de lavanda era doce e suave. Ela reconheceu ao lado de um armário muito bem trabalhado o espelho de obsidiana. Uma mulher de cabelos castanhos vestindo roupas imperiais estava sentada diante dele. Seus traços revelavam que ela havia sido uma mulher extremamente bela. Mas a moça estava visivelmente abatida. A pele pálida indicava que ela não tomava sol a muito tempo. As olheiras eram fundas e escuras. Ela não devia ter dormido a pelo menos três dias. O cabelo estava desgrenhado. Os olhos estavam opacos e ela parecia não comer a muito tempo, pois os ossos estavam a mostra na pele.
Uma voz feminina chamou no lado de fora:
- Elizabeth! Abra por favor! Você está ai a mais de duas semanas! Elizabeth! Abra essa porta! – A mulher estava desesperada. Soluçava auto e sua voz falhava. Ela parecia estar socando a porta.
- Já chega! Eu vou arrombar a porta! Henry! Edward! Andem! – Batidas fortes se abateram sobre a porta de maneira estrondosa, até que a porta cedeu. Dois homens vestindo roupas de empregados do século XV irromperam porta á dentro. Em seguida um fidalgo gorducho de meia idade correu para o interior do quarto, seguido por uma mulher igualmente nobre e por suas criadas. A mulher chorava, correu a abraçar a garota. Esta não deu o menor sinal de sentir o contato físico. Miranda se aproximou. Olhou mais atentamente para o rosto da mulher. Sem qualquer explicação o rosto de Elizabeth mudou. Era ela, Miranda, quem estava sentada na cadeira , em iguais ou piores condições que Elizabeth.
Ela pulou da cama. Estava suada e ofegante. Olhou no relógio sobre a mesa de cabeceira. Quatro e meia da manhã. Tendo perdido o sono, decidiu tomar uma ducha quente. Miranda se vestiu para o trabalho, ela deveria pegar um ônibus as sete e meia da manhã. Sentou na cadeira que estava á frente da mesa de cosméticos e mirou novamente o espelho de obsidiana. Olhou seu reflexo atentamente. Uma sensação doce e entorpecente preencheu conta de sua mente. Era uma sensação maravilhosa...
Seu telefone celular tocou. Ela levou a mão até o bolso. Olhou o relógio. Seis e meia. Atendeu:
- Alo? Miranda?
- Oi...
- É a Kate do escritório. Você está bem?
- Estou ótima sim...
- Nós estávamos preocupados...
- Por que?
- Como porque? Você faltou três dias no trabalho!
  Miranda derrubou o aparelho. Ela estava confusa. Sem dúvida era culpa daquele maldito espelho. Ela pegou um lençol e cobriu o objeto, que era igualmente letal e prazeroso. Ela tomou uma xícara de café. Precisava ficar calma.
Os dois dias que se seguiram foram tristes e vazios. Ela sentia como se uma parte sua tivesse desaparecido. E quanto mais o tempo passava, mais aquele vazio crescia.
Era de madrugada. Miranda levantou sonolenta. Tudo no quarto parecia surreal, como se fosse apenas um sonho, apenas uma lembrança. Ela puxou o lençol que cobria o espelho. Sentou-se e fixou o olhar na superfície prateada, profunda e convidativa do espelho de obsidiana. O torpor adormeceu a sua mente, com aquela sensação de dormência doce e reconfortante. Ela se sentiu completa.
Um mês depois seu corpo foi achado pelo cobrador, sentado naquela cadeira antiga, de frente aquela mesa de madeira trabalhada onde ela guardava sua maquiagem. Ela olhava fixamente para a parede. O espelho tinha desaparecido e um sorriso estava estampado em sua face. O diagnóstico foi morte por deficiência alimentar.
Irene era uma moça simples de gostos simples. Uma de suas paixões era por móveis e enfeites antigos, e ela freqüentava com freqüência a feira de antiguidades que era atração turística em Raven Claws. De fato, ela estava fazendo compras nessa feira quando um objeto lhe chamou a atenção numa barraquinha. O espelho era oval e tinha adornos de obsidiana negra naquela armação trabalhada no mesmo material. Os adornos tinham formais florais delicadas. Eram rosas, orquídeas, lírios, margaridas, violetas, tulipas e amores-perfeitos. O espelho estava embaixo de uma pilha de livros. Ela tirou os livros de cima do espelho e olhou atentamente para ele. Ao ver a si mesma no espelho um êxtase reconfortante tomou-lhe conta da mente. Ela ficou parada ali por alguns segundos. Talvez alguns minutos. O vendedor tocou seu ombro e indagou, quebrando o transe:
- Está tudo bem? Posso ajudar a senhorita de alguma forma?
Irene se assustou e respondeu:
- Ah! Desculpe! Estou bem sim, obrigada... Quanto é o preço desse espelho?
O homem avaliou por alguns momentos. Irene estava ansiosa e perguntou:
- O que me diz?
O vendedor olhou boquiaberto, mas depois se acalmou rapidamente. Respondeu:
- Estranho...
Irene franziu as sobrancelhas e disse:
- O que?
O vendedor respondeu meio hesitante:
- Eu poderia jurar que esse artigo não estava entre minhas mercadorias. Você pode levá-lo por cem euros... É uma peça fantástica, sabe?

                                         Vaidade

Brunno Mistywind era um adolescente fora do comum, mesmo para os padrões da escura e sombria Raven Claws. Quieto, introspectivo, distante, parecia não haver um coração batendo em seu peito. Os cabelos negros e lisos escorriam sobre os olhos verdes de sobrancelhas finas mais bem definidas, contrastando com a brancura pálida de sua pele. O nariz era retilíneo, o rosto anguloso e a boca fina. Sua silhueta alta e magra de garoto de dezesseis anos lhe dava um ar ainda mais abatido. As jeans rasgadas, os coturnos negros com pontas metálicas, as camisetas negras adornadas com caveiras e crucifixos e as jaquetas de couro que costuma usar lhe davam um ar desolado e sério.
No entanto, o que lhe fazia diferente dos demais jovens não era seu estilo sombrio, na verdade, a maioria dos jovens daquele lugar era assim. O que lhe salvava de ser só mais um era sua capacidade de enxergar coisas que vão além da compreensão, além daquilo que todos nós julgamos possível. Sim, ele via espíritos, e ele os ouvia, e durante muito tempo teve medo. No entanto, os anos fortaleceram sua mente e o temor que ele sentia inicialmente foi desaparecendo, assim como a luz de uma vela que queima na penumbra desaparece devorada pelo tempo.
Perdido em seus pensamentos vagava naquelas arruelas sombrias repletas de pessoas, cada uma solitária em seu mundo, além do alcance dos outros, do mesmo modo que ele estava naquele momento. A solidão como tudo na vida, dizia pra si mesmo, passa, deixa de existir quando paramos de nos importar.
Ele aumentou o volume do MP3 que carregava em volta do pescoço. Ouvia Ghost of You do My Chemical Romance. Olhou para o sol morrendo no crepúsculo e se perdeu novamente em pensamentos intermináveis...
Subitamente o reflexo de um dos raios de Sol numa superfície prateada e redonda chamou sua atenção e interrompeu o fluxo de suas filosofias. Ao longe numa das barraquinhas cheia de falsificações de peças artesanais e históricas. Ele se aproximou. Sentia uma energia ao mesmo tempo atraente e mórbida no lugar.
Ao chegar até o espelho constatou em seu talhe vitoriano uma verdadeira peça rara e antiga. As vezes objetos verdadeiros se misturavam no meio dos sem valor. Seu avô era dono de antiquário, e sabia disso melhor do que ninguém. Após o acidente que causou a morte dos seus pais e de sua irmã, a 8 anos, num acidente de carro, Brunno passou a viver com ele.
Seu avô era descendente de japonês, se chamava Yue Matsumamoto. No entanto, era uma pessoa desapegada com tradição. Ele costumava dizer que tradição só fica bem em vitrine. Era uma pessoa tranqüila, cabeça aberta e nem um pouco preconceituosa. Sempre lhe deu toda liberdade que quis, contudo não foi ausente. Ambos tinham um elo especial, ainda agora aos seus dezesseis anos.
Ele pegou o espelho e avaliou o artigo. A sensação crescia em seu peito e tomava conta de seu ser. Ao mirar a imensidão prateada viu um rosto delicado de uma mulher jovem, de uns 30 anos, cuja beleza o atraia e fascinava. Isso durou poucos segundos. A imagem da mulher desaparecera da mesma forma que apareceu, mas deixou o rapaz intrigado. Ele desembolsou cento e vinte cinco euros pro vendedor e levou o espelho pra casa. Pendurou em seu quarto, tomou um banho e foi se deitar.
No entanto, o garoto demorou a dormir. Ficou pensando em qual será o nome daquela mulher e no porque ela teria aparecido pra ele... Tão linda, tão triste...
Olhou uma ultima vez para o objeto e caiu num sono profundo... Brunno corria por entre os corredores estreitos e longos e pelos salões de pedra escuros e úmidos. As paredes eram feitas de pedra esculpida e o piso era de mármore negro. As tochas na parede não eram capazes de cortar a densa escuridão do que parecia ser o interior de um castelo, ao julgar pela arquitetura gótica. Ao chegar num amplo salão de dança, parou de correr ao ver a graciosa silhueta de uma mulher de longos cabelos louros ondulados. Era a mulher que ele havia visto no espelho. A mulher que ele sabia se chamar Miranda. Ele tentou ir até ela, no entanto, era como se um muro invisível se colocasse entre os dois. Não foi capaz de tocá-la. Ela também se aproximou e ambos ficaram cara a cara. Subitamente, Miranda começou a envelhecer, diante de seus olhos. A cena o deixou impressionado. A mulher bela e vigorosa de outrora havia se convertido numa velha decrépita e repulsiva. Num piscar de olhos, seu rosto se modificou novamente. Agora ele olhava pra si mesmo, como num espelho...
Brunno acordou. O pesadelo tinha sido muito intenso e vívido. Olhou o relógio. Eram três e meia da manhã. Ele havia perdido o sono. Dirigiu-se ao banheiro e tomou uma ducha relaxante. Escolheu uma roupa, se vestiu e foi pentear os cabelos.
Ao mirar o espelho, viu um vulto vestido de negro atrás de si. Manteve a calma e continuou a se pentear. O que quer que fosse, emanava uma energia que era ao mesmo tempo agradável e funesta.
O vulto se aproximara dele. A sensação havia ficado mais forte. A nitidez revelou um rosto feminino que era similar ao de Miranda. No entanto, havia algo que diferenciava aquela mulher da moça de seus sonhos. Ela roçou seu rosto com suavidade. Brunno sentiu um arrepio. Com voz suave, ela começou a falar com a boca próxima aos seus ouvidos:
- Você já reparou no seu rosto? Olhe pro espelho e veja com atenção...
Brunno olhou pro espelho e pelo reflexo, viu a estranha de preto envolver-lhe em seus braços brancos e pálidos. Ela continuou murmurando:
- Veja como sua pele é macia... Como é perfeita... Sem rugas, sem espinhas... Apenas a superfície lisa e pálida... Repare no tom dessa cor... É único... E os seus cabelos negros, lisos sedosos... Veja como se contrastam... É tão brilhante e bem cuidado... Consegue ver como você é perfeito?
Embora ela falasse com a voz suave e harmoniosa, tinha um timbre de maldade em sua voz, algo de sinistro e mórbido... Ela falou novamente:
- Poderíamos ficar observando sua imagem para sempre, não poderíamos?
Brunno estava espantado. Nunca tinha visto essas características em si próprio antes e nunca havia se sentido tão vivo. No entanto, a vibração que emanava da mulher era macabra e o deixava inseguro. Tomou fôlego e perguntou:
- Quem é você? Por que está aqui?
Ela fez uma cara de espanto e em seguida sorriu. Respondeu no mesmo tom de voz de antes:
- Então pode me ver... Apenas pouquíssimas pessoas são capazes de me enxergar... Eu já fui chamada de Deusa, de espírito, de demônio...
Ela colou os lábios na sua orelha e prosseguiu sussurrando:
- Eu já tive vários nomes... Soberba, Orgulho, Vaidade... Pode me chamar como quiser... Isso pouco me importa...
Ela estava sorrindo. Ele foi seco em sua resposta:
- Pode parar com joguinhos... Por que você está aqui realmente?
O espírito fez cara de deboche e se afastou. Respondeu no mesmo tom de voz irritante:
- Eu estou aqui para mostrar a beleza que vocês possuem... Vocês, humanos, têm tanta dificuldade em percebê-la... Fecham-se uns para os outros, se isolam... Tudo porque não conseguem enxergar o quanto são especiais... É patético como vocês se subestimam e supervalorizam os outros... Faz tanta falta ouvir um elogio... Um simples "Você fica bem com essa roupa" poderia evitar que um a cada cinco suicidas se matassem... Eu ensino vocês a se amaram, acima de tudo... E você não sabe o quanto isso é delicioso...
Ela roçou seu pescoço com a língua. Ele resistiu ao encanto hipnótico que sua voz exercia e desviou os olhos do espelho. Ela sorriu.
- A solidão desaparece quando você deixa de se importar... É verdade... Só que vocês nunca param de se importar... Precisam dos outros tão desesperadamente... Precisam tanto de mim... Precisam de algo para se agarrar e não afundar na agonia... Pra não afundar na indiferença... Dói ser esquecido... Dói quando ninguém repara em seu rosto, quando ninguém repara que você existe... No fundo, você só quer que alguém se importe...
Ela hesitou. Seu poder enfraqueceu por alguns segundos, mas logo se reergueu.
- Mas esse é o destino comum a sua espécie... O fim... O esquecimento... Seu rosto tão belo vai desaparecer nas areias do tempo... Aproveite... De uma boa olhada em quanto pode, porque as horas não esperam para criar cicatrizes...
O despertador tocou, quebrando o transe. A mulher desapareceu. Já eram sete horas. Brunno não viu o tempo passar. Refletiu sobre a estranha conversa que teve com aquele espírito singular...

Corações na Escuridão

O dia se passou sem mais acontecimentos extraordinários. Brunno foi pra escola, almoçou, saiu e ficou de bobeira na praça. Voltou pra casa na hora da janta. Comeu e subiu para o seu quarto, que ficava no segundo andar. Sentia-se cansado, o que era normal, cada vez que ele tinha uma visão se sentia daquele jeito.
Dormiu um sono sem sonhos e despertou as cinco da manhã. Foi tomar um banho, escolheu suas roupas e se trocou. Pegou o pente e foi até o espelho. Lembrou das palavras que haviam sido proferidas pelo demônio da Vaidade naquele mesmo lugar. Ele mirou com atenção seus cabelos, e foi capaz de enxergar a beleza nos fios tão negros e brilhantes quanto obsidiana líquida... A sensação de bem estar e alto confiança o fascinava, no entanto era capaz de sentir a energia maléfica que emanava do artefato e de sua dona. Disse em tom de aborrecimento:
- Apareça de uma vez...
A mulher sai de traz dele. Ele a olhou pelo reflexo. Ela tinha ares de vitoriosa. Murmurou ao pé do seu ouvido:
- É bom, não é? A sensação é única...
Ele sabia que ela falava a verdade. Ele realmente conseguia sentir o prazer em ficar ali, mirando a superfície prateada do espelho. No entanto, não quis dar o braço a torcer. Disse por fim:
- O que você quer de mim?
Ela deu uma risada, e murmurou:
- Não. O que você quer de mim? Eu vim por que ouvi os desejos mais secretos do seu coração. Você queria alguém que o admirasse, alguém que soubesse o quão especial você é... E eu vim pra te mostrar que você não precisa disso. Veja o Sol. Brilha mais do que todas as outras estrelas juntas...
Ela começava a entrar em sua mente, sua voz estava alcançando seu interior, e sua energia baixava suas resistências mais e mais. Ele tinha que se livrar daquele fantasma e do espelho antes que fosse demasiado tarde. Perguntou:
- Como você surgiu?
Ela sorriu. Percebeu que ele estava caindo sob seu poder. Respondeu:
- Você não iria adivinhar nem em um milhão de anos...
Ela deu uma longa risada. Ele sentiu um calafrio.
O demônio prosseguiu com um tom de voz melodioso e sedutor:
- Quando vocês, seres humanos, pensam, sentem, sofrem e tudo mais, liberam energia no espaço... A energia de mesma vibração se atrai, se concretiza... Toma forma... É assim que nasce um demônio... Somos a parte de vocês que vocês renegam para os outros, mas não deixam de sentir... Existe energia positiva, que forma os anjos... E a energia negativa que me formou... Mas isso é só um estereótipo... No fundo, somos todos iguais... Eu me considero um anjo... Levo as pessoas a confiarem em si mesmas, a serem felizes, a se amarem acima de tudo... Esse é o único jeito de sobreviver no mundo dos humanos... Quem é fraco e se importa demais com os outros, acaba sendo derrubado pela Inveja, pelo Ódio... A pureza é uma verdadeira assassina, bem como a Inocência...
Brunno escutava com atenção as palavras que a mulher soprava em seus ouvidos. De certa forma, sentia que era verdade o que ela dizia. Ela continuou e cada vez mais ele entrava em um transe hipnótico delicioso... Ela continuou:
- Eu me formei assim que o homem começou a pensar... Dês da pré-história o homem já sentia necessidade de ser melhor, diferente... Ao longo do tempo, mais e mais vocês buscaram a mim... Meu poder foi crescendo... Eu evolui... É impressionante como vocês nunca se satisfazem... Bem, a vontade das pessoas de querer mudar a si próprias pondo sua vida em risco, para se tornarem em algo melhor não tem limites... Anorexia, bulimia, as cirurgias plásticas, a industria da moda... Tudo fruto da cabecinha oca de vocês que se odeiam a ponto de quererem ser tudo, menos vocês... E você não é diferente... Essa vontade de ser mais, comum ao ser humano, é o que me alimenta... Em outras palavras, sua vontade de ser melhor do que eu te puxa pra baixo e me fortalece... Seria muito mas prazeroso se você para-se de lutar... Eu vou te dar o reconhecimento que você sonhou... Curar as feridas que você sangrou em silêncio...
Vaidade sentiu o Poder que retinha sobre o adolescente. Seu coração e sua alma lhe pertenciam. Ele estava parando de resistir. Ela sorriu:
- Assim está melhor... Olhe o tom dos seus olhos verdes... Percebe como brilham? E a suavidade bruta das suas sobrancelhas? Vejam como lhe dão um ar imponente... O seu nariz é perfeito... Retilíneo, parece que foi esculpido em mármore branco...
Ele sentia que sua alma caia no subjugo das sombras doces daquela mulher. No entanto, uma lembrança de um rosto estava fixa em sua mente. Era nela que ele se segurava. Seu avô. Sempre tranqüilo e sereno, seria capaz de confiar sua vida em suas mãos. Seu avô o amava, o conhecia, enxergava a beleza nele de uma forma muito diferente. A beleza interior, que ele cultivou ao passar dos anos. A beleza que nem o tempo poderia privar-lhe. E era pelo seu avô que ele não podia se entregar... Tinha que se libertar daquela maldição. Sua morte arrasaria seu único amigo e ente querido. Estava na hora de acabar com tudo aquilo. Ele sorriu e disse:
- Pode parar... Minha alma não pertence a você... Nunca pertenceu...
O demônio ficou surpreso. Afastou-se do garoto. Pode sentir a força e a luz que ele emanava. O poder de um relacionamento sincero e afetuoso, repleto de dedicação.
- Meu avô é tudo do que eu preciso... Ele me ama... Eu nunca estive sozinho... E ele me admira pelo que eu sou... Ele consegue ver além da minha pele macia... E é por ele, que você não vai me levar... Eu o coloco acima de mim mesmo, e por isso, acima de você... Ele precisa de mim... Eu não vou abandoná-lo jamais... Eu também preciso dele... Você é falsa, passageira, vazia... Oca... E é por isso que eu vou dar um fim em você... Se não fosse pela vaidade, as pessoas viveriam em pé de igualdade e haveria respeito... Porque justamente por sermos especiais somos iguais... E nem eu, nem ninguém precisa desse espelho maldito...
Brunno pegou o espelho na parede e o arremessou na outra extremidade do quarto. A lâmina de prata se partiu em vários pedaços... O espelho formou uma grande poça de sangue...A força vital das almas que havia roubado ao longo do tempo lhe mantivera aquecido e pulsando... Ele sorriu... Esperava ver aquela mulher virar poeira...
Ela no entanto apenas disse:
- Bela tentativa... Sua alma realmente é muito forte... No entanto, nem você e nem ninguém é capaz de mudar os outros... Nem de mudar a própria natureza... Eu vou embora por hora, mas eu vou voltar, e pode ter certeza de que você se renderá a mim... Quando isso acontecer, vai ser muito bem recebido no inferno... Você me pertence...
Ela abaixou e recolheu os cacos do espelho, murmurando:
- Dá pra consertar... Mas foi uma boa tentativa... Foi o primeiro que conseguiu atirar o espelho e quebrá-lo... Deixe me dizer... O espelho é apenas mais um instrumento... Sempre fui eu, a Vaidade, que roubou a vida dessas pessoas... Pena que seu rosto não vai mais estar tão belo quando eu retornar... Esse que você vê foi uma das minhas últimas aquisições... Acho que a patética da Miranda tentou te avisar... Andou tendo pesadelos?
Ela desapareceu no ar. Brunno tinha vencido, mas em seu íntimo, sabia que não seria a ultima vez que seu coração ia mergulhar na escuridão de sua sombra, e que quando isso acontecesse, veria novamente o demônio da Vaidade...

                                           (Julio Cesar Rodrigues Mantovani Filho)
Julio Cesar Rodrigues Mantovani Filho
Enviado por Julio Cesar Rodrigues Mantovani Filho em 27/01/2009
Código do texto: T1407124

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Sobre o autor
Julio Cesar Rodrigues Mantovani Filho
São Paulo - São Paulo - Brasil, 20 anos
16 textos (1513 leituras)
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