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Veneno de Verônica

O sol já estava alto no céu quando eu parei de olhar abobalhado para a esquina em que Verônica tinha desaparecido e me permiti sair dali.

Três dias longe daquele olhar de âmbar, minha mente desanuviava, mas só um pouco. Eu precisava retornar à "Ordem" e me preparar para a ação daquela noite e, embora eu soubesse que tinha o dia inteiro para isso, meu coração disparado evidenciava a minha aflição. Ver Verônica de novo, de novo e de novo, se tornara uma necessidade. Há quanto tempo eu não dormia? Tinha me tornado descuidado nas últimas três noites e alguma coisa zunia na minha cabeça (como quando você deseja inutilmente lembrar do nome de alguém, ou quando a palavra certa para completar uma frase, que não fará sentido com nenhuma outra, lhe foge à memória) alguma coisa importante que eu simplesmente não conseguia lembrar. Afastei aquele pensamento da cabeça na esperança de que eu pudesse me lembrar mais tarde.

Dez minutos depois e lá estava eu, parecendo um fantoche sem cordas, preenchendo roboticamente os requerimentos necessários para... o que? Ah, sim. Uma câmera digital. Alguém tinha me dito que câmeras digitais podiam captar esses "vampiros sem-reflexo" que não apareciam nas câmeras comuns (Quem disse? Alguém disse. Quem foi? Acho que aquele garoto novo da seção dezessete). Por que mesmo? Alguma coisa a ver com o funcionamento, sistema ou coisa que o valha, da câmera comum. Tinha algo a ver com espelhos, eu acho.

Eu precisava do meu remédio, do meu remedinho, precisava porque os pensamentos se embaralhavam em minha mente, se embaralhavam e embaralhavam de tal maneira que o simples ato de andar para frente requeria mais concentração/distração/confusão... Deus. Onde estava a merda do remédio?

Peguei a caixinha de comprimidos (aspirinas, eu dizia, quando alguém me perguntava) no armário e cambaleei para o banheiro, trancando a porta atrás de mim.

Olhei para o meu reflexo e não me reconheci. Meus olhos estavam vermelhos, injetados como os de um viciado, olheiras e rugas tinham aparecido desde a última noite em que eu vi Verônica. Pensei em como eu precisava de férias e como aquele serviço estava acabando comigo. Eu poderia levar Verônica para aquela praia que eu ia com minha ex-mulher e veríamos o pôr-do-sol (?) juntos. Algo parecia errado com sua pele quando eu olhava para ela.

Alguém bateu na porta e me fez acordar de modo repentino. De alguma forma eu tinha adormecido, sentado no chão sujo. Os comprimidos estavam espalhados na pia. Alguém perguntava se eu estava bem. Respondi que sim e tratei de colocar os comprimidos de volta na caixa e, sem olhar para o espelho, enfiei dois deles na boca começando a mastigá-los. Assim que abri a porta um rapaz de olhar assustado fez um gesto que eu demorei a entender. Ele queria que eu limpasse a baba que escorrera pelo canto da boca.

Em menos de quinze minutos o remédio fez efeito e eu me sentia dono de mim mesmo novamente, mas lembrei de guardar a caixinha no bolso (e não no armário) para qualquer eventualidade.

Eu tinha um plano doido, instigado pela imagem de Verônica com aquela mão amputada que se imprimira na minha cabeça. No entanto, algumas providências deviam ser tomadas.

Depois de conversar animadamente no refeitório com determinados companheiros ("Rapaz, você precisa tomar cuidado. Está com uma aparência péssima". "Eu sei, eu sei, mas diga lá: Sabe alguma coisa sobre...") e pegar alguns dados informalmente, eu fui até a seção vinte e dois. Precisava de uma informação sobre a Dies Irae, sobre seus integrantes e sobre o tipo de vampiro que eles eram.

A informação demorou quase o dia inteiro para ser apurada e ainda assim era incerta. Ao final, eu fiquei olhando para a tela inútil do computador e para a papelada, igualmente inútil, espalhada pela mesa, decidindo o que fazer a seguir. Meu bom senso, ou o que restara dele, debateu-se longamente contra o veneno de Verônica que corria nas minhas veias e, claro, Verônica venceu.

Preenchi outra requisição que encaminhei pessoalmente ao almoxarifado: Binóculo Integrado à Câmera Fotográfica Digital com 2.0 MP, Visor com Microfone Parabólico Direcional, Micro-câmeras dissimuladas (em cinco parafusos, quatro lâmpadas, um dispositivo antiincêndio, três espelhos de segurança e uma caixa de eletricidade) e Câmera Digital de Vídeo para Operação Noturna. O resto das coisas que eu iria precisar já estavam lá no porta-malas.

Coloquei todo o equipamento no meu carro, verifiquei o relógio (16h 18min) e me dirigi ao esconderijo da Dies Irae.

O lugar era o esqueleto de um prédio guarnecido por uma frágil cerca de tapume com arame farpado por cima. A construção já estava lá há anos sem que ninguém mais nutrisse esperanças pelo seu término. Alguma coisa embargara o projeto todo e aquele esqueleto tornara-se somente um monumento ao descaso. No terceiro subsolo, onde o sol não batia, doze vampiros dormiam sem saber que Verônica os visitaria em menos de três horas.

O meu plano era simples: entrar, instalar as micro-câmeras, sair, encomendar umas esfihas (quatro de frango com catupiri. Que fome! Eu não comera nada o dia inteiro), uma Coca-Cola e apreciar o show.

Desci do carro e dei uma volta pelo quarteirão. Eu sabia que devia entrar pelo lado de trás, onde chamaria menos atenção. Além disso era o lado oposto à guarita improvisada do "guarda" (um bêbado meio louco que cismara de vigiar a antiga construção).

Não seria possível levar tudo para dentro em um só viagem, então decidi deixar dois dos espelhos de segurança e a caixa de eletricidade do lado de fora, esperando intimamente que nenhum dos garotos da vizinhança decidisse entrar no "prédio mal-assombrado" naquele dia.

Assim que eu trepei na cerca de tapume, logo depois de cortar o arame farpado com um alicate, aquele pensamento incômodo que eu reprimira pela manhã, voltou gritando (IMPORTANTE) na minha cabeça, mas eu ainda não conseguia lembrar o que era tão IMPORTANTE e, até pela necessidade de me manter concentrado, eu o deixei de lado novamente.

Do lado de dentro o mato tomava conta da paisagem. Com o sol brilhando, eu me sentia uma espécie de Indiana Jones a ponto de entrar em um templo escondido em busca de algum artefato sagrado. Sorri. Logo, Verônica faria aquele mesmo caminho, só que com propósitos bem mais sombrios e eu não gostaria de estar ali quando anoitecesse.

Cautelosamente eu dei a volta pelo terreno em busca de uma entrada que não estivesse bloqueada por tábuas. Não estava com medo. Somente não queria ter que inventar uma desculpa para o velho bêbado ("Sim, eu sou da prefeitura. Vim verificar a perspectiva isométrica linear da fundação. Está tudo em ordem ou não?" ou então "Volte a dormir, eu sou só uma alucinação. Exatamente como os elefantes da semana passada"). Notei que ele não estava na "guarita", devia ter acabado o suprimento de álcool e ele foi recarregar. A única entrada aberta ficava no primeiro andar. Para chegar até lá, havia uma escada de madeira toscamente pregada que rangia a cada degrau conquistado. Por sorte, ela não desmontou com o meu peso.

Não tinha pressa nenhuma de entrar no covil dos monstros. Na verdade, eu até estava gostando de reviver a minha infância ali (o jovem doutor Henry Jones Jr procurava avidamente a entrada secreta do Templo da Perdição). A entrada, da escada, ainda tinha algumas tábuas pregadas, mas a grande maioria havia sido arrancada. Eu não queria deixar o sol quentinho e acolhedor do primeiro andar para mergulhar na escuridão agourenta daquela escadaria. A entrada escura não parecia fazer parte do mesmo universo cândido experimentado até então (não senhor, o doutor Indiana Jones vai ficar por aqui mesmo). No entanto, eu não tinha escolha, tinha?

Ver aquela escadaria por dentro me pareceu ainda pior do que vê-lo com o sol gostoso aquecendo as minhas costas. Ali não havia sol, exceto por uns raios esparsos perpassando as tábuas e esses raios só colaboravam para tornar o ambiente ainda mais terrível. Havia um cheiro ruim, nada que incomodasse muito, mas ia piorando a cada passo. Nem com muita imaginação eu conseguia imaginar-me num filme de aventura. Eu me sentia num daqueles filmes de terror que não acabavam bem ("Seu fim não vai ser bonito, cara").

O térreo me fez desejar nunca ter entrado naquela ratoeira. O cheiro era horrível, um misto de fezes humanas com carniça. A iluminação dos poucos raios de sol, que conseguiam vencer a barreira de tábuas, agora vinha carregada de partículas de poeira que dificultavam a respiração. Haviam farrapos espalhados pelo chão entre jornais amarelados. E sangue. Havia manchas de sangue seco nas paredes. Saquei o lenço do bolso e segurei de encontro ao rosto. Procurava respirar pela boca, para evitar aquele cheiro Sentia ânsias de vômito terríveis. Tudo o que eu queria era sair dali, mas a imagem de Verônica no fundo da minha mente me mandava continuar. E eu continuava.

(Jesus Cristo! Terceiro Subsolo! Terceiro Subsolo! Mais três círculos do inferno até poder ver os doze caixões repousados num chão poeirento!)

Já no primeiro subsolo eu tive que ligar a câmera com "night vision" por causa da escuridão que imperava absoluta. As paredes de concreto sem janelas do primeiro estacionamento deixavam o sol de fora. Eu não tinha nem cogitado a possibilidade de levar uma lanterna, porque se meus temores estivessem certos... melhor não pensar nisso, eu dizia para mim mesmo. O cheiro piorara muito, mas eu não via nada além das colunas que sustentavam o prédio. Por algum motivo que a ciência não explica (e o governo nega conhecimento) os pedreiros tinham terminado a garagem ali. Tinham até pintado. O lugar "cheirava a novo" (uma expressão é claro, porque o lugar estava cheirando a esgoto). Tinha as faixas indicando as vagas, os quadrados vermelhos onde deviam estar os extintores de incêndio, tudo enfim.

A porta para o segundo subsolo estava trancada. Eu teria que descer pela rampa do estacionamento. A rampa para os carros. A rampa que...

(avemariacheiadegraçabenditasoisvósentreasmulheresbenditoéofrutodovossoventrejesussantamariamãededeusrogaipornóspecadoresagoraenahoradanossamorteamém)

Foi nesse momento que eu a vi. Parada junto à rampa, cinqüenta metros de onde eu estava. Uma menina. Devia ser loira (a visão noturna mostrava tudo esverdeado, mas ela não parecia ter cabelos escuros). Não devia ter mais do que dez anos. Jesus Cristo! Eu gelei. Pensei em tudo de ruim que poderia ser. Pensei na foto da menina do corredor que todo mundo já tinha visto na internet. Pensei em todas as histórias de terror que contávamos nos acampamentos. Uma vampirinha faminta, uma aparição (talvez filha de uma das vítimas dos doze malditos vampiros que dormiam tranqüilamente dois pisos abaixo). E aquele maldito cheiro não ajudava em nada.

Fiquei uns vinte minutos parado. Vinte minutos segurando a urina na minha bexiga, sustentando as minhas pernas no lugar e as lágrimas bem guardadas nos olhos. Vinte malditos minutos olhando para aquela menina loira, cinqüenta metros adiante, rezando trezentos pai-nossos e quinhentas ave-marias. Foi quando, cautelosamente, eu decidi andar em direção a ela. Eu não respirei profundamente antes. Já bastava a quantidade de ar poluído que eu já colocara dentro dos pulmões. Simplesmente me mantive em movimento, rezando e rezando. Só quando eu cheguei perto o suficiente para perceber tratar-se de um manequim que eu comecei a xingar.

Ao descer pela rampa eu não conseguia deixar de focalizar a menina. Descia de costas para qualquer perigo no segundo subsolo, mas não tirava a câmera do manequim. Como se, de alguma forma, ele pudesse se mover e me atacar. Somente quando o chão inclinado deu lugar a um plano reto eu girei sobre os meus calcanhares.

E vi o inferno.

Mais de trezentos corpos, em vários estados de putrefação, pendurados pelos calcanhares por todo o espaço da garagem. Haviam bacias cheias de sangue embaixo desses corpos, jarras e copos sujos ao lado dessas bacias. Talvez aquele espetáculo horrendo fosse fruto da última "festinha" dos vampiros.

Só não vomitei porque não tinha nada no meu estômago e só não saí correndo dali como um morcego fugindo do inferno porque... bem, porque ainda estava pensando naquele manequim-menina lá em cima. De alguma forma eu tinha medo de subir e não encontrá-la lá, ou pior, encontrá-la em outra posição, como acontece nos filmes de terror. Isso e Verônica, ressoando no fundo da mente, me mantiveram lá.

Quase sentia as mãos de Verônica me empurrando, fazendo-me avançar no meio daquele baile profano de corpos decompostos (Ei. Aquele sujeito ali ainda está vivo) e alcançar a rampa de acesso ao terceiro subsolo.

Não pensava em nada aterrorizante ao descer a última rampa. Procurava me concentrar nas micro-câmeras dissimuladas em cinco parafusos, quatro lâmpadas, um dispositivo antiincêndio e um espelho de segurança. Claro que ainda havia dois espelhos de segurança e uma caixa de eletricidade do lado de fora do tapume (FODA-SE, vão ficar por lá).

Ignorei os treze caixões e comecei a trabalhar. Havia treze caixões. Eles não tinham se livrado do décimo terceiro caixão, talvez em homenagem ao seu companheiro morto.

(Não pense em nada. Faça o que veio fazer e dê o fora daí)

Aquele décimo terceiro caixão estava aberto, mas eu sabia que estava vazio. Não tinha me atrevido a chegar perto para verificar, mas eu sabia. Eu sabia. Tinha que estar vazio. Precisava estar.

(Não pense)

Depois de colocar os parafusos em cinco pontos estratégicos eu ouvi um ruído. Como seria se um manequim pudesse andar?

(Não pense, droga)

Instalei o dispositivo antiincêndio no lugar de outro que estava ali antes. Daria um bom ângulo de filmagem. Estranho, haviam dois caixões abertos agora.

(Não pense, não veja)

Depois que eu coloquei o espelho de segurança, ainda trepado no muro da rampa de acesso, eu comecei a me sentir tonto. Eu tinha deixado os comprimidos no porta-luvas ou será que estavam no meu bolso ainda?

(Três caixões abertos. Será o vento? Mas não está ventando)

Tonto. Em pé na mureta. Câmera em algum lugar ao pé da mureta. Cuidado para não pisar. Onde estão meus comprimidos?

(Como eu sei que três caixões estão abertos? Eu não vejo no escuro. Espere, são quatro)

Senti o meu corpo cair no vazio. Alguém me pegou (Verônica?). Sim, eu conto tudo. Tudo sobre Verônica "Poison", tudo sobre como ela vai acabar com aqueles miseráveis. Conto tudo, tudo, tudinho...

Ao acordar eu senti o gosto amargo do meu remédio na boca. Mantive os meus olhos fechados porque o brilho do sol cruzava a janela do meu quarto. Não. Não era o sol. Era um canhão de luz, eu acho.

- Obrigado - alguém disse.

- Quem?

- Eu sou Vincent, senhor Baptista. Sou o líder dos "Hell Angels".

- Não estou entendendo - eu disse.

- Perdão. Não é assim que nos apelidou? "Hell Angels"?

Houve um puxão no meu cabelo, algumas dezenas de fios se desprenderam do couro cabeludo e minha cabeça se projetou para trás.

- Não é assim - repetiu o vampiro - que nos apelidou, senhor Baptista?

- Dies Irae - falei aterrorizado.

Alguma coisa atingiu em cheio o meu rosto. Senti meus dentes balançando soltos na boca.

- Sim, Baptista. A Dies Irae. "Uma gangue. Nada mais, nada menos".

De novo algo atingiu meu rosto. Não parecia um punho. Parecia uma barra de ferro.

Lembrei-me do 1984 de George Orwell: "Nunca, por nenhuma razão, se poderia desejar que a dor aumentasse. Da dor, só se podia desejar uma coisa, que parasse. Nada no mundo era tão horrível como a dor física. Em face da dor não há heróis, não há heróis". Eu concordava em gênero, número e grau.

- O q-que m-mais e contei? - já estava falando fofo e minha boca parecia um ninho de vespas, mas eu tinha que saber.

- Contou-nos tudo, Baptista. TUDO absolutamente. Contou-nos sobre a Ordem, contou-nos sobre Verônica e os planos dela para esta noite. Graças a você estamos preparados.

A luz se apagou. Eles não precisavam dela. Podiam enxergar no escuro sem a ajuda de uma câmera "night vision".

Outra coisa que eles não precisavam fazer era dormir durante o dia. Isso eu descobri da pior maneira. Ali, no escuro, em minha própria companhia enquanto meus inimigos (inimigos de Verônica) subiam ao segundo subsolo para beber mais sangue naquelas bacias, jarras e copos fedorentos. Não precisavam dormir. Eram "vampiros insones" como nós costumávamos catalogar esses seres. Eu me deixei enganar pelos caixões. Eles também não precisavam de caixões, pois não precisavam dormir neles. Talvez gostassem dos caixões. Talvez tivessem se empolgado com "A Entrevista com o Vampiro". Muitos vampiros modernos se empolgam. Era isso que eu tinha pesquisado a merda do dia inteiro ("Diga lá, sabe alguma coisa sobre a Dies Irae? Eles são 'insones'?" "Não sei direito, camarada. Pode ser que sim, pode ser que não") verificando seus arquivos. Estava tudo lá: sua casta (Wiesczy), seu clã (Pamgri), sua ordem (Ordo Veritatis)... tudo menos se os malditos dormiam ou não durante o dia. Não dormiam, agora eu sabia.

Demorou uma eternidade para eu perceber que eles não haviam me prendido. Não havia realmente necessidade, havia? E outra eternidade para eu resolver sair do lugar. Na verdade eu só decidi me mexer porque ouvi sons de luta vindo do segundo subsolo.

Verônica.

Pensar em Verônica me fez esquecer a minha miséria, minha traição e até esquecer que minhas calças estavam sujas de fezes e urina (tente não se borrar numa situação assim).

Eu não tinha forças para andar e nem vergonha de engatinhar até a câmera que eu deixara encostada no muro da rampa de acesso para o segundo subsolo. Portanto nada me prendia ali. Além disso, eu queria ver Verônica acabar com aquela corja.

Em nenhum momento eu achei que Verônica poderia ser apanhada desprevenida. Os vampiros da Dies Irae me pareciam patéticos demais (mãos unidas em delta, numa imitação tosca de Louis, ou braços para trás como Morpheus) para armar uma emboscada decente.

Ao chegar, fui tomado por um misto de decepção e horror.

O que eu imaginava serem sons de luta eram sons de uma carnificina. Cinco dos doze vampiros haviam ignorado as bacias cheias de sangue e estavam esquartejando os cadáveres. Mais ou menos como um menino, não muito educado, chupando uma manga. Era perfeitamente possível ouvir o barulho de ossos sendo quebrados e carne sendo rasgada.

Os outros vampiros ocupavam-se em mudar a posição dos cadáveres. Os mais frescos estavam sendo postos defronte a rampa, para que servissem de distração para Verônica, caso ela viesse atacá-los no começo da noite sem se alimentar.

No entanto, eu vi algo que eles não viram. Parecia um fantasma saindo pelo poço do elevador, arrastando-se no teto como uma aranha. Dei um zoom. Sim, era Verônica. A câmera digital captara sua imagem. Ela estava translúcida e tinha alguma coisa nas costas que eu não conseguia ver, mas eu sabia tratar-se da minha Verônica.

Verônica engatinhou de ponta-cabeça até quase o centro do matadouro e se desprendeu do teto bem no meio dos cinco vampiros que se alimentavam ruidosamente. Sacou um par de espadas (?) das costas e, com movimentos rápidos, decapitou-os.

Só eu vi. No mar de corpos putrefatos em que estávamos alguém precisava ter muita concentração e saber o que queria ver, para poder enxergar alguma coisa.

Antes que as cinco cabeças tocassem o chão, Verônica já estava correndo ao encontro dos outros, com a cabeça baixa, o corpo arqueado para frente e os braços estendidos para trás.

Vincent, de longe o mais esperto dos sete, viu Verônica, mas não antes que mais dois de seus companheiros se despedissem de suas respectivas cabeças.

Cinco contra um não é definitivamente um número justo em uma briga. Dois contra um eu já considero uma quantia desigual e covarde. Sempre digo isso e não tinha mudado de idéia, mas Verônica é um caso a parte. Vincent concordaria comigo.

- PEGUEM A MALDITA - foi o que ele gritou, parecendo um daqueles vilões dos filmecos da Band, mas assim que seus comparsas se adiantaram para atacar Verônica, ele deu sebo nas canelas e correu para a rampa de acesso ao primeiro subsolo.

Cercada por quatro vampiros da patética e quase extinta Dies Irae, Verônica me lembrou Uma Thurman, não sei porque.

O sujeito que estava nas costas de Verônica achou, por um momento, que ela não estava prestando atenção nele e atacou. Eu vi, como em câmera lenta, quando Verônica saltou por cima do vampiro girando para trás como uma ginasta olímpica com as espadas cruzadas e, num movimento gracioso, decapitou-o, completou o giro e ainda chutou o corpo sem cabeça em cima dos outros três vampiros.

Um deles foi esperto o bastante para esquivar do cadáver de seu companheiro, mas não o suficiente para escapar da lâmina de Verônica. Mais uma cabecinha rolava solta no chão.

Por um instante Verônica sumiu da minha vista e eu foquei os dois vampiros remanescentes da Dies Irae a fitarem o espaço ao redor de si confusos. Mas logo depois, vi Verônica despontando atrás deles. Só eu vi. Um momento depois e os dois vampiros já não estariam em condições de ver mais nada.

Terminado o serviço, Verônica ajudou-me a levantar.

- Você precisa de roupas novas e de um bom banho. Vou te colocar no seu carro, mas o resto é com você - ela disse. Quem inventou que vampiros têm mau hálito estava delirando.

- Por que você está me ajudando? - perguntei, meio envergonhado.

- Não sei. Talvez para que você conte aos seus amigos da "Ordem" que Verônica "Poison" não alguém para se brincar. E talvez, se eles acreditarem em você, parem de mandar gente pra me seguir.

- Não se eu lhes disser que você me salvou.

- Você vai dizer que eu espanquei você e matei esses aqui.

- Certo - respondi, sabendo que ela estava me usando para se livrar da "Ordem". Verônica "Poison" não era nenhum anjinho.

No primeiro subsolo encontramos o corpo de Vincent. Alguém ou alguma coisa havia esquartejado ele.

Nem sinal do manequim da menina loira.
Pergamasco
Enviado por Pergamasco em 03/05/2005
Código do texto: T14450
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