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Morte Viva

Eram quase 22:00, e a jovem estudante de arte azafamava-se no ato de polir com força o mármore negro sobre o qual estava ajoelhada. Os grumos de cera desfaziam-se aos poucos, sob a força e pressão a que eram submetidos, espalhando-se em caminhos e circunvoluções sobre a pedra. Uma gota caiu em meio à área polida, e a moça soergueu-se ligeiramente, passando as costas da mão que segurava o pano de polir pela testa suada. Segundos depois, eliminava com aquele mesmo pano a pequena quantidade de suor que comprometera a perfeição do polimento.
Ela estreitou os olhos, avaliando o próprio trabalho, e concluiu que podia quase se dar por satisfeita. Mais algumas esfregadelas junto ao pé da estátua, e pronto. Recuou com cuidado por sobre a pedra, procurando não riscar a planura impecavelmente brilhante, e recuperou o pote de cera que deixara no canto, ao começar a trabalhar. Levou o pote consigo ao avançar sobre o mármore, até alcançar o grande anjo negro. Os dedos do pé direito da estátua, que apareciam por sob a túnica drapeada, encontravam-se ainda opacos. Eram um contraste desagradável com o brilho do restante da estátua, e do túmulo.
Não agradava a ela estar ajoelhada em frente àquela estátua, como se já tivesse morrido, e se encontrasse na sessão de julgamento de sua alma. Não tinha medo da morte, e não acreditava realmente no Juízo Divino, mas... quem voltara para dizer o que realmente existia ou não, após deitar-se para sempre num lugar como aquele ?
O problema não era a morte. Não era o pós-morte, tampouco. Era, simplesmente, aquele anjo. Sentira-se incomodada ao limpar-lhe a face, minutos antes, intimidada pelo olhar vítreo mas estranhamente acusador talhado na pedra. Não era um doce anjo de catedral, ou uma daquelas belas imagens piedosas que eram as mais comuns em cemitérios, amortalhadas e chorando sobre os jazigos.
Aquele era um soldado de Deus, irado, impiedoso com os pecados dos homens, e... sabe-se lá porquê, mas ela tinha certeza daquilo... vingativo. Havia algo naquela expressão, algo que só se percebia após alguns minutos de contemplação e, uma vez visto, não mais esquecido: revolta. Mas por que um escultor faria um anjo tumular revoltado ? Por que dar ao morto tal acompanhante amedrontador ? Teria sido feito a pedido do próprio ocupante do jazigo ? Sua família ?
Na verdade não importava a ela. O que lhe interessava era dar aquele último polimento no dedão do pé do anjo, perceber feliz que, agora sim, deixara aquela sepultura inteira brilhando, e sair de cima dela. Beber um grande copo d’água na sede da Administração, lavar as mãos, relaxar um pouco, deixar a dor das costas abrandar, desacostumada que estava com aquele tipo de trabalho braçal... e partir para o serviço seguinte.
Ela moveu-se com um pouco de pressa demais, subjugada por seus próprios pensamentos fantasiosos. Escorregou na superfície polida da sepultura. Percebendo que ia deslizar até o outro lado, numa queda dolorosa ao chão, num reflexo procurou lugar onde se agarrar. A mão do anjo estava ali, ao alcance, e ela a pegou, de forma desajeitada.
- Ahhh merda !
Em sua mão, havia um dos dedos do anjo... quebrado na junta anular.
A jovem voltou os olhos para cima, para o rosto da estátua, e estremeceu. Aquela cabeça, sempre orgulhosamente voltada para o céu, em claro desprezo pelo que estava a seus pés, agora estava inclinada para baixo, e os olhos marmorizados a encaravam com raiva.



Ela ainda estava trêmula, mesmo na segurança do almoxarifado, dentro da Administração do Cemitério Coletor de Almas. Quem, em sã consciência, daria um nome assim a um cemitério, em detrimento dos nomes de santos ou títulos que evocavam paz e esperança ?
"Só os ricaços, para acharem graça num nome assim."
Porque aquele era, em verdade, um local exclusivo dos muito abonados. Sua localização, em meio à zona residencial mais valorizada e chique da cidade, não causava estranheza aos futuros clientes. Na verdade, as proximidades do Coletor eram disputadíssimas, e vendidas, nas raras vezes em que aquelas mansões trocavam de mãos, a preços estratosféricos.
É claro que o cemitério fazia jus a essa fama. As criptas, jazigos familiares e túmulos individuais eram feitos dos materiais mais nobres: mármores raros, acabamentos em ouro e prata, detalhes em pedras preciosas. Existia desde o século XVI, e na verdade a cidade criara-se ao redor dele, como poderia tê-lo feito ao redor de uma igreja, se curvando orgulhosa frente ao mórbido fausto.
O fato estranho é que, apesar de toda aquela inacreditável e rica opulência, ela jamais havia ouvido falar no Cemitério Coletor de Almas, antes de vir a ser uma de suas funcionárias. Mais especificamente, a faxineira.
Como tal exibição de preciosidades não atraíra todos os ladrões do País era um mistério, mas assim sucedia. Aquele lugar antigo e especial permanecia intocado, em meio aos palacetes dos ricos, que ansiavam em ali deitar seus ossos.
A moça apertou as mãos junto ao avental, e sentiu a dureza do dedo da estátua, jogado apressadamente em um dos grandes bolsos. Olhando ao redor, localizando a vassoura de que precisaria para varrer as alamedas, ela procurou racionalizar.
"Foi só impressão minha, depois de ter pensado aquilo tudo sobre o anjo negro. É claro que estátuas não se movem, não têm expressão de zanga, não se vingam, assim como não falam, não..." – a mente da pobre paralisou-se por um segundo, lembrando-se da estranha entrevista para aquele emprego, dias atrás.



- Será só a senhorita. – a voz era rascante, um incômodo tom que lembrava areia. Ela mal o via, naquele aposento sombrio da Administração do cemitério, e ele ocupava o canto mais escuro, atrás da mesa. Vestia-se como um padre, com um capuz a velar-lhe as feições.
- Está bem.
- Os jardineiros trabalham pela manhã bem cedo, e os coveiros só aparecem quando há um sepultamento, e isso ocorre antes de seu turno, e após a família ter se despedido do morto.
- Meu turno, claro.
- O horário de trabalho é noturno.
- Estou ciente disso, senhor. – na verdade, o horário era ideal, apesar de bizarro, por não conflitar com suas horas de estudo.
- Isso a incomoda ? Preferimos esse horário, porque as pessoas visitam o cemitério durante o dia, e não gostam de ver os funcionários.
- Não gostam de ver os funcionários enquanto choram por seus entes queridos, não é ? Eu entendo, sentem-se constrangidos.
- Não.
- Perdão, senhor, mas disse... não ?
- Eles preferem não ver os funcionários para não se misturar a vocês, que consideram ralé.
Ela quase bufou de indignação, mas conseguiu controlar o impulso. Era faxineira de primeira viagem, mas não se considerava inferior a ninguém. Estava ali apenas para conseguir terminar de pagar a Escola de Arte, pois sua família, de classe média, não dispunha dos recursos necessários. Aulas durante o dia, limpeza e inspiração à noite. Mesmo sendo um cemitério seu local de trabalho, ela mostrara-se encantada de poder conviver com aquelas maravilhas em pedra e metais preciosos. Até agora. Não contava ver-se frente a frente com o preconceito dos ricaços 'clientes' do Cemitério Coletor de Almas. A estudante nada disse, observando fixamente o encapuzado.
Seu entrevistador olhou-a de volta, ou pelo menos ela achou que sim, com um jeito que a desafiava a expor os pensamentos. Ela permaneceu calada. Queria, precisava daquele trabalho.
- Cuidado com as estátuas. – disse o homem, de forma brusca.
- As estátuas ?
- Sim. Não as quebre. São obras de arte de valor incalculável.
- Percebi, senhor. Terei cuidado.
O capuz enorme que ocultava o rosto do provável padre abaixou-se ainda mais, e ele estendeu uma mão longilínea em sua direção.
- Está contratada.
- Obrigada, Sr... Frei... ahn... muito grata. Amanhã à noite estarei aqui. – disse ela, enquanto retribuía o cumprimento do homem. - O senhor deveria acender a lareira, sabia ? Sua mão está gelada, assim vai ter uma pneumonia.
- Agradeço sua delicadeza. Não preciso de calor.



- Com o que será que se conserta mármore ? Cimento, alguma cola, o quê ? Meu Deus, que ninguém perceba o dedo quebrado pelo menos até amanhã... amanhã eu conserto aquele anjo horrível.
Ela não conseguiu evitar dizer essas palavras em voz alta. Tinha de ouvir alguma coisa, nem que fosse a própria voz, para esquecer a ventania assoviando lúgubres gemidos ao seu redor. Fazendo-a pensar em vozes sofredoras e agonizantes. Em...  pedidos de socorro, avisos ? Súplicas para que fugisse dali ?
Nunca fora do tipo que acredita no sobrenatural, nunca fora medrosa. Mas aquele lugar a estava afetando. De princípio achara o cemitério lindíssimo, com todos aqueles belos túmulos, os metais e pedras preciosos. Uma aula de arte, um museu, uma Meca dos sonhos de qualquer artista. As estátuas, que estátuas ! Em enorme profusão, em todos os lugares, anjos na maioria, mas também figuras encapuzadas de ar severo mas sábio, que ela decidira serem santos. Algumas ajoelhadas, algumas brincando, algumas se consolando umas às outras, outras em êxtase celestial, abraçando o infinito com braços e asas abertos.
E uma... atrapalhando a limpeza. Postada no meio da alameda.
A jovem imobilizou-se, de olhos arregalados e boca aberta. Aquele santo não estivera ali mais cedo, tinha certeza disso. Ora, quem pusera aquela estátua tão pesada ali, sem que ela visse outros funcionários, e sem barulho ?
Deu a volta ao redor do monge encapuzado, curiosa para ver-lhe o rosto, identificar o santo. Mas por mais que tentasse, a cabeça permanecia num ângulo que lhe impossibilitava o exame, como que se furtando ao escrutínio. Uma Mona Lisa ao inverso. Evitando o olhar alheio.
Ela estremeceu e olhou ao redor, agora assustada, percebendo de canto de olho uma pequena mudança aqui, uma alteração lá. Estátuas que deveriam estar imóveis em seus nichos exibiam, a cada vez que as olhava diretamente, novas posições. Vivas. Brincando com ela de... estátua. Ela desistiu de se fazer de durona. Decidiu que não precisava mais daquele emprego. O Curso de Arte que se danasse. O cemitério de contos de fadas agora fazia parte dos Contos da Carochinha. Ela não quis saber qual deles. Correu.
A multidão de estátuas passara a ocupar as alamedas do cemitério. Os rostos antes pacíficos estavam contorcidos, as feições embrutecidas que não combinavam com as asas e trajes esvoaçantes. As belas mãos tornaram-se garras, procurando retardar o progresso da moça.
Os gemidos, que ela achara serem apenas o vento, tornaram-se guinchos. Saídos daquelas gargantas de pedra, lindamente esculpidas em mármores e granitos rosados, brancos, verdes, cinzas, azuis... o corredor formado por elas, para a danação de sua alma, era debochadamente multicolorido.
A pobre sequer procurava mais por uma saída. Apenas acompanhava o caminho petrificado formado pelos anjos e criaturas encapuzadas, aceitando em loucura aterrorizada o percurso determinado por eles. Seus braços estavam destruídos pelas garras de pedra, grandes retalhos de pele e músculos que pendiam e voavam, úmidos de sangue rubro, pintando guerreiras, as estátuas.
Após seus braços terem sido reduzidos a ossos e musculatura carcomida, também o corpo sofreu o mesmo ataque das garras de pedra. Ela gritava em agonia, com o peito e abdome dilacerados, pisando nos próprios intestinos, que se enovelavam viscosos pelo chão, numa corda patética de fezes, sendo arrastados atrás da moribunda. Um dos pulmões ficou preso na longa garra de um dos anjos que antes brincavam descontraídos, e a dor sentida quando os alvéolos foram esgarçados quase fez com que seu coração parasse. Mas haveria mais, antes que o martírio chegasse ao fim. O Coletor de Almas sempre exigia o sacrifício completo para se fartar.
As pernas cambaleantes foram rasgadas de cima a baixo, no mesmo padrão dos braços, e logo as tiras de músculos encheram-se de folhas e detritos das alamedas, que ela havia, ironicamente, acabado de juntar para levar ao lixo.
Finalmente a corrida chegou ao fim, na Administração do cemitério. Não havia mais uma mulher, mas um esqueleto cercado por uma ciranda cubista de vísceras e ossos, colorido por seus sumos e secreções, movido apenas por sua agonizante alma.
O anjo negro a aguardava na porta. Movendo-se muito lentamente ele recuperou o dedo quebrado, ainda no bolso do avental da jovem, um farrapo imundo de bile e excrementos. Encaixou o apêndice no lugar correto, e um segundo depois sua mão estava refeita. Ele deu um passo para o lado. Já nos portais da inconsciência eterna, a moça reconheceu o vulto que estava ao lado do anjo antes mutilado.
Era seu entrevistador. Não um padre. Sequer um homem. Uma estátua em tamanho natural, magistralmente esculpida em mármore branco, belas mãos longilíneas, representando a Morte.
- Eu lhe disse que deveria ser cuidadosa com as estátuas.
 
FIM
Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2005.

OBS: Conto publicado na revista virtual Scarium Megazine, edição especial de terror.
Mônica Virgo
Enviado por Mônica Virgo em 08/06/2006
Reeditado em 08/06/2006
Código do texto: T172030
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Sobre a autora
Mônica Virgo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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