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O Alimento da Dor

O Alimento da Dor

 

            O bisturi tocou a pele pálida, encostando pacientemente na coxa do homem deitado na maca. Começou a cortar vagarosamente e o sangue escorreu, brotando do corpo fragilizado. A lâmina escorregou pela pele, afundando cada vez mais e estendendo o corte. A lâmina foi afundando e afundando, enquanto isso, o homem deitado começava a gritar ainda de olhos fechados.

Ele acordou sobressaltado. Tentou mexer os braços e as pernas, mas logo percebeu que estava preso. Ainda estava preso! Há quanto tempo estava ali? Ele sabia cada segundo e cada minuto. Havia um relógio pregado no teto. Deitado na maca, ele via os segundos passarem e o visor digital da data mudar. Fora três dias, seis horas, quinze minutos e agora uns treze segundos. Ah, o décimo terceiro segundo. Era sempre nesse que ele acordava? Por quê? Porque estava gritando. Gritava por impulso, antes que seu cérebro percebesse o que estava fazendo. Simplesmente gritava e chorava. Pedia por sua mãe, por seu pai, por Deus e o que mais fosse. Ainda havia um resquício de sua fé que sobrevivera à dor.

                Gritou mais uma vez, pois a incisão continuava. Não! Não era uma maldita incisão, mas uma fatia do seu corpo que era cortada aos poucos enquanto ele gritava e pedia por ajuda. O corte chegara ao alto da coxa. Podia sentir que a lâmina estava tocando o osso e agora começava a girar para fazer o caminho inverso e cortar mais. Ele gritava. As lágrimas escorriam por seu rosto. Pedia para que o deixassem morrer. As pessoas na sala não ouviam, apenas o observavam em meio á penumbra. Uma delas esticou o indicador e tocou o sangue. Levou-o à boca e experimentou. Sorriu para um mulher ao lado e ela tentou fazer o mesmo. O homem da incisão, com as mãos sujas, bateu na mão dela como quem impede uma criança de tocar em um doce antes de ficar pronto.

                A vítima gritava impotente enquanto um pedaço da sua coxa direita era retirado, do mesmo modo que ocorrera a panturrilha esquerda e o peito direito. Eles retiraram a refeição e foram partilhar em seu arremedo de eucaristia, naquela perversão que a vítima esperava que Deus punisse logo, quanto antes melhor, mesmo que fosse depois de ele finalmente morrer, outro presente divino que esperava. Ficou sozinho, com o ferimento sangrando. Mas a morte não viria.

                Uma mão fria tocou sua virilha no que seria um gesto libidinoso, se não fossem os dedos que terminavam em pequenas bocas de cobra. A mão se fechou sobre sua coxa e pequenas presas injetaram o veneno. Seu sangue ferveu e ele gritou ainda mais.

                - Meu Deus, me ajuda!

                A criatura acabara de injeta ro veneno que o faria sofrer pelas próximas horas e impedir que morresse pela ferida. Ela andou até ele e tocou sua cabeça carinhosamente. As línguas ofídicas dos dedos roçaram em sua orelha. Então veio o hálito frio dela.

                - Chama teu deus precioso. Ele está gritando tanto quanto tu gritas agora...

                Ele queria não ter mais razão para ouvir aquelas provocações. Queria não ter mais consciência para entender o que acontecia, porém sua mente estava tão sã quando quanto fora capturado. Ele ouvia todas as provocações e sua fé se erodia. E cada vez que sentia que perdia um pouco mais de fé, o veneno doía mais e o mantinha vivo por mais tempo. Então ele voltava a ter fé, achando que era a resposta, para então sofrer toda aquela dor de novo e chorar e gritar. Eles queria ouvir seus pedidos e seus apelos. E onde estavam os anjos nessa hora?

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Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 13/06/2006
Código do texto: T174914

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Sobre o autor
Shaftiel
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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