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Armada dos Querubins I - Um grito, uma oração

Um grito, uma oração

 

            O demônio ajeitou o cinto de couro negro, puxando-o para cima. O acessório quase desaparecia sob a imensa barriga vermelha. O umbigo era uma verruga rocha no centro daquele monte de banha. Ele soltou as garras do cinto e coçou os cabelos ensebados, para depois esfregar os chifres negros. Sempre os tocava quando estava excitado. A grande boca dce sapo salivava um líquido negro e fedorento como um cão que acabou de saciar sua sede. A diferença era que aquele demônio ainda estava para saciar a sua.

                A pele avermelhada dele vinha do sangue das vítimas que sempre absorvia quando se banhava. Aquela cor quase rubra era prova de que estivera ocupado ultimamente. E era para estar. Ele era o Açougueiro. Saía do Inferno para cometer crimes na Terra, portando apenas um cutelo e seu coração doentio. As caças de couro não tinham bolsos e nem carregava uma sacola, pois não precisava de mais nada além de se alimentar do desespero e da dor.

                O açougueiro era uma representação do mal. Havia inúmeros como ele, apesar de que cada espécime se considerava único e a maior representação do terror que podia andar sobre a terra. Podia colocar-se um açougueiro de frente para o outro que eles não se reconheceriam como irmãos, a não ser para contar casos idênticos de como matavam e se elogiarem pelos ótimos e originais métodos.

                Aquele Açougueiro em particular aparecera em São Paulo há treze dias, invocado por um Mago das Sombras. Aparecera no círculo de invocação arrotando o sangue coagulado que acabara de ingerir e coçando a barriga como se houvesse saído do sofá frente da televisão onde se colocara após um almoço farto de domingo. O programa dificilmente seria pior do que a programação normal da televisão da Terra, mas o almoço deveria ter sido pedaços humanos temperados com gritos de almas torturadas. Ele matou o mago seis dias depois, porque o bastardo não queria lhe dar nenhuma virgem. Livre de quem o comandasse, saiu ara caçar quem precisava. Estava cheio de aterrorizar esses inimigos cretinos de aprendizes de magos.

                Encontrou a vítima perfeita na figura de Mariana, justamente aquela jovem de 17 anos que estava acuada no canto do barracão. Ele parara de gritar há uns quinze minutos, quando, após duas horas, percebera que o Açougueiro estava realmente se divertindo e se excitando com a situação. Agora apenas se arrastava de um lado para o outro, tentando fugir. O problema eram os dedos quebrados dos pés que dificultavam os movimentos. Soluçou e pensou em pedir por socorro mais uma vez. Era pouco provável que alguém ouvisse, então rezou como não fazia desde sua crisma, há uns 2 ou 3 anos. Segurou a medalha da Virgem Maria seu tio, padrinho de crisma, lhe dera. Costumava usá-la mais por hábito do que por fé, mas naquele momento difícil, diante de um demônio, seria difícil não pedir uma ajuda a Deus.

                O Açougueiro resolveu acabar coma  diversão. Baixou a calça para revelar algo que faria uma mulher rir. Talvez uma succubus risse bastante mesmo dele, por isso os Açougueiros sempre estavam atrás de humanas, que estavam mais preocupadas em gritar diante do estupro de um demônio do que em rir de seu mecanismo de cópula pouco eficiente. Começou a andar vagarosamente até ela, antes verificando o cutelo fincado no chão, para se certificar de que poderia espedaçá-la quando terminasse.

                - Pare em nome da Virgem santa, demônio bastardo! – o Açougueiro ouviu de repente.

                O demônio olhou para trás, mas não viu nada. Olhou para Mariana e percebeu que ela tinha o olhar incrédulo apontado para suas costas. Voltou-se de novo e não viu nada. Então seu raciocínio repassou a frase em sua cabeça. Era uma criança falando. Só podia ser. Odiava aquela voz esganiçada. Se havia um choro que o deixava nervoso era o de criança. Cortaria aquela ao meio com uma cutelada só. Baixou os olhos para ver um menino loiro de cabelos lisos e brilhantes como aqueles finais de semana românticos passados em filmes para famílias. Tinha a pele clara e uns olhos azuis brilhantes que confirmavam que deveria ter saído de um daqueles filmes. O cenho estava franzido, mas quando olhou para mariana exibiu um sorriso de propaganda de pasta de dente que só podia ser superado por ser sorriso de vitória.

                - Que decadência do Céu. Agora estão mandando crianças para lutar comigo? Anjos bundões...

                O menino franziu o cenho de novo e balançou a cabeça. Mordeu a bochecha por dentro como se estivesse mascando um chiclete e depois suspirou.

                - Verme bastardo! Tenho pena de você.

                O açougueiro finalmente percebeu que aquele menino era um anjo de verdade mesmo quando a criança começou a  brilhar. A luz incomodou o anjo e fez Mariana gritar, quando ela finalmente viu as dezenas de pedaços de pessoas pendurados no barracão como se fossem carne em um açougue.

                - Nossa Senhora! Desculpa, moça! – disse o menino, cujo nome, por sinal, era Irahd. Falando nisso, era nome de anjo, afinal ele era um Querubim. Ele mexeu no seu jeans e apertou o cinto como um pequeno adulto. Depois ajeitou a camisa. Abaixou-se e amarrou os tênis calmamente enquanto o Açougueiro erguia o cutelo. Dois pequenos pares de asas brilharam em suas costas e depois desapareceram. Quando se levantou, já tinha uma pequena lança na mão.

                Irahd tinha armas adaptadas a seu tamanho. Havia alguns Captare que riam dele e um ou outro Nimbus já caçoara ativamente dele em várias reuniões. O Querubim não dava atenção. Apontou a lança para o inimigo e saltou de surpresa. O Açougueiro sentiu um impacto da lança perfurando sua barriga. O sangue podre começou a transbordar quando o demônio retirou a arma angelical e se virou par ao Querubim. Irahd já tinha uma espada curta em mãos. O açougueiro avançou. Irahd saltou para a esquerda, parando perto da parede. Pedaços de gente com carne apodrecida se espalharam.

                O demônio avançou mais uma vez e Irahd desviou o cutelo, para depois passar por baixo das pernas do inimigo. Sua lâmina corou entre as cochas, não acertando um local mais delicado por causa do tamanho. Levantou-se para virar-se com um golpe, porém o açougueiro já estava pronto e socou-o. o menino rolou pelo chão e parou perto de Mariana. Sua espada bateu nas pernas da jovem.

                - Preocupa não, moça! Preocupa não que está tudo sob o controle!

                Quase sem entender o que acontecia, Mariana entregou a espada para o Querubim.

                - Deus lhe pague, moça!

                O anjo investiu contra o demônio e escapou do cutelo, mas as garras rasgaram seu peito e um chute o jogou contra os pedaços de pessoas pendurados. Bateu na parede, porém não soltou a espada. Limpou o sangue que escorria da boca como uma caricatura infantil de um filme do Bruce Lee e investiu mais uma vez. O Açougueiro atacou com o cutelo. Irahd se dobrou para frente enquanto as pernas curtas continuavam o avançou. Desdobrou-se e saltou, agora escapando das garras. A espada começou um arco mortal cortando a barriga enorme, o pescoço e fedendo o queixo. Acabou com um chute que o afastou do demônio. Caiu em pé e ao lado da lança. O demônio vacilava e quando começou a repensar o ataque, a lança enfiou-se em sua testa. Caiu como um barril oco.

                Irahd guardou a espada na cintura. Ela não arrastava no chão por um palmo. Olhou para Mariana com aquele sorriso de vitória iluminado. Parecia propaganda de cereal matinal! Estendeu-lhe a mão e falou com uma voz caridosa, mas não com aquela pieguice de filme americano ou com a monstruosidade de uma criança prodígio de televisão.

                - Vem, Mariana. Vou levar você pra quem pode te ajudar.

Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 13/06/2006
Reeditado em 30/08/2006
Código do texto: T174917

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Sobre o autor
Shaftiel
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