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O Silêncio e a Estrela na Treva

E eu estava ali, sentado em uma cadeira, naquela insuportável madrugada de verão, quente, abafada, tomada pelos mosquitos. Tentava inutilmente concentrar-me na leitura de uma obra filosófica; o calor intenso impedia-me. Meu relógio indicava que as 3h se aproximavam... Dos arredores de minha casa, eu podia captar os sons igualmente insuportáveis (ou ainda piores) das repugnantes festas carnavalescas que empesteavam as cidades. Os ruídos supostamente musicais, os irritantes alaridos, unidos ao típico clima de verão, tornavam aquela madrugada uma verdadeira tortura.

Mas algo que ocorreu logo após as 3h, absolutamente inesperado, mudou inexplicável e tragicamente o destino da noite... Um temível e fantástico ribombo de trovão repercutiu em estranhas reverberâncias, e foi seguido de outro, de mais outro e ainda outro... E então, após alguns segundos, acabou a luz. E à interrupção de energia elétrica e do conseqüente breu completo, seguiu-se um silêncio absoluto, uma quietude bizarra e sepulcral. Em meio à escuridão total, cessaram-se todos os sons, realmente todos, de “músicas”, de vozes, de festas, de veículos, de gritos, de grilos, ou do que quer que fosse. Nada mais ressonava pelas atmosferas opressivas da madrugada de estio. Tudo foi calado, parecia que a morte havia brandido sua foice e ceifado de uma hora para outra todas as vidas de minha cidade.

Levantei-me e, às apalpadelas, cheguei até a porta e a abri. Lá fora, na íntegra escuridão, fitei o céu nebuloso e somente vi brilhar uma única estrela imensa e soberana. O local de minha casa era relativamente alto e pude verificar que em nenhuma residência, num raio de quilômetros, havia qualquer tipo de luminosidade; e o silêncio completo e inexplicável continuava de forma assustadora. Não saberia esclarecer o motivo, talvez fosse minha melancolia, que me impeliu a sair pelas ruas desertas e caminhar sem destino em meio ao escuro infernal. Lentamente, avançava pelo silêncio mortuário, tendo a terrível sensação de que eu era o único sobrevivente de uma catástrofe apocalíptica. Nenhum sinal de vida era identificável, a não ser o som dos meus passos e de minha respiração. Creio que também pude ouvir meus batimentos cardíacos... Mas o mais horrível e desolador era a deprimente e ameaçadora sensação de que algo implacavelmente trágico estava para acontecer...
 
A cada passo que dava, tal impressão era intensificada, e um nervosismo inclassificável tomou conta de todo o meu ser. Foi nesse instante que principiei a ouvir as primeiras manifestações sonoras após, creio, quase uma hora de caminhada. Mas antes não houvesse escutado aqueles sons... Eram ruídos de alguma espécie de vôo, ruflares de asas estranhas, não de morcegos ou de pássaros comuns, que me pareciam cercar integralmente, porém, obviamente, nada eu podia divisar entre o negror dantesco. Apesar do medo inevitável, prossegui minha insólita andança, quando, minutos depois, avistei a alguns metros duas pequenas luzes brilhantes no chão. Com certo receio, aproximei-me da estranha e minúscula fonte de luz, ao que soou uma voz anormal, emitida em tom doentiamente melancólico: “Sou a alma de um sapo que morreu há algumas horas, quando um grupo de humanos festeiros passava por aqui...” Advirto que eu não podia ver nada, a não ser as duas luzes, que acreditei serem os olhos do suposto animal, ou de seu espírito. O ser prosseguiu: “Eles me mataram a pedradas no momento em que tentava atravessar a rua para obter alimentos no terreno baldio ali em frente. Morri aos poucos, sentindo cada choque das pedras sobre meu pequeno organismo indefeso. Senti minha pele ser brutalmente esfolada, rasgada, perfurada e meu sangue escorrer e inundar-me. A dor era insuportável, horrível, meu desespero, completo, eu lutava para escapar, eu esperneava, tentava sofregamente pular, mas já não possuía uma perna, eles já me haviam cegado com a violência monstruosa das pedradas, e minhas forças sucumbiam, eu ouvia meus ossos quebrarem, sentia meus órgãos serem extirpados e percebia os pedaços de minha carne ao redor. Finalmente, uma pedra enorme caindo em meu crânio e o quebrando, ceifou minha existência de caçador de insetos. E aqueles humanos festivos partiram felizes e vitoriosos, rindo e vociferando, orgulhosos e satisfeitos com minha morte. Porém, agora, onde eles estão? Não os ouço mais, não ouço nenhuma alegria, nenhum ruído das festas, tudo cessou de repente após aqueles arrasadores trovões...”

Deixei o espírito do sapo, ou o que quer que aquilo fosse, e continuei meu funesto passeio noturno, sob um céu lutulento, onde somente brilhava uma gigantesca estrela, enquanto escutava os agourentos e incessantes bater de asas ao meu redor... De que seres eram tais asas? Eram seres animados ou inanimados? Além de nada ver, não sentia sopros, nenhuma forma de deslocamento do ar naquela atmosfera insanamente abafada, asfixiante. E o que foram aqueles trovões abomináveis? E por que agora eu parecia ser o único humano vivo em minha cidade? Onde estariam os outros? Fazendo o quê? Tais dúvidas agoniavam-me intensamente... Foi quando principiei a ouvir o som de batidas de algum relógio colossal, colossal pelo aspecto sonoro das batidas, um tic-tac angustioso e pressago. Era terrível, era de enlouquecer aquele monótono e fúnebre e esquisito martelar, e, de imediato, veio-me à mente a lembrança do impiedoso conto de Poe “A Máscara da Morte Rubra”, onde os participantes de uma festa, a cada hora completa, eram infernizados pelas sombrias badaladas de um enigmático relógio, que interrompia lugubremente seus festejos e, sem que eles soubessem, alertava sobre a morte que os aniquilaria em breve... E aquela impressão de algo negro que estaria para acontecer, se tornou ainda mais pungente e dilacerante. Fui assediado por inquietações repulsivamente nervosas e aflitas, de uma feral angústia sobrenatural. A escuridão pareceu se transfigurar agora em hórridas nuvens negras e opressivas, caindo de um espaço ignoto, em um ambiente pesado e hostil. E eu prosseguia caminhando lentamente, ouvindo o sinistro adejar das asas invisíveis. Não sei por quanto tempo já caminhara, mas a impressão que tinha era de tê-lo feito por uma relativa eternidade, e sem encontrar o mínimo vestígio de vida humana. Minhas emoções ultra-exacerbadas estavam atingindo um pânico sobre-humano, eu entrava em um quase estado de choque. E o inexplicável relógio batia seu tic-tac frenético, hipnótico, e as asas ruflavam dantescamente, e as nuvens hediondas caíam, e a estrela gigante brilhava... Curiosamente, parecia que de forma intencional as nebulosidades evitavam ocultar a estrela da minha visão. E eu, asfixiado naquele clima pesaroso, perguntava ao Desconhecido quando retornaria a luz, quando brilharia o sol... E após tais depressivos questionamentos, um cheiro horripilante e nauseabundo invadiu minhas narinas... Era o miasma da carniça da pura podridão...

Eu passara a pisar em corpos, em cadáveres humanos, já apodrecidos, quase liquefeitos, devorados por vermes que sentia movimentarem-se por meus pés e pernas asquerosamente. Devido à escuridão, não podia distinguir que tipos de gosmas, de secreções, de repulsivos líquidos corporais eram aqueles em que eu me afundava, ou que pessoas estavam ali, mas certamente eram os meus conterrâneos. Durante muito tempo mantive-me caminhando sobre os corpos, emergindo meus pés na carne decomposta, vomitando sob a influência daquelas evaporações pestilentas da carniça, enquanto trinava o relógio, adejavam as asas, caíam as nuvens e brilhava a estrela. Voltei-me para intentar ver algo em minha retaguarda e ali divisei uma névoa fosforescente, doentiamente amarelada e que nada iluminava.

Aos poucos, fui deixando de caminhar sobre mortos, e o mau-cheiro foi desaparecendo. Exausto dos paroxismos da desolação e do desespero, continuava sendo impelido a caminhar por forças ignotas, e, e mais uma inexplicabilidade, não sentia nem sede, nem fome, nem sono, apenas cansaço, não físico, mas psíquico, espiritual. Senti, por conseguinte, na excitação febrenta de meus sentidos e emoções perturbados, que a compulsão para caminhar cessara instantaneamente... Estaquei como um insano no meio do que deveria ser uma rua, e voltara o silêncio sepulcral. Sim, porque o funerário relógio não mais latejava seu toque enlouquecedor, as asas, ou o que pensei serem asas, deixaram de executar sua odienta sinfonia, e as nuvens negras findaram sua queda do espaço imperceptível. Somente a estrela ainda cintilava... E soou uma voz...

Soou uma voz, que não era humana, que era... não sei, não sei que voz era aquela! Só sei que de suas tenebrosas notas advinha uma arrepiante sensação de que algo catastrófico estava para ocorrer, negros pressentimentos, agouros e maus presságios, iminentes tragédias, sombras implacáveis, horror, horror e mais horror! E a voz disse, sem que eu pudesse distinguir quem ou o que a proferia:

- Já faz uma semana que tu caminhas na escuridão. E a luz não voltou. Não, findou-se a energia elétrica para todo o sempre, e o sol tornou-se negro como a noite, negro como a treva. Viste teus conterrâneos? Ou melhor, sentiste sua podridão? Todos mortos. O que é o homem? O que é o homem sem a luz, sem a eletricidade, sem a energia solar? O que é a humanidade sem as forças da natureza? Nada. Carne podre é o que são agora. E de que valeu a “ciência magnífica” de que tanto se orgulhavam? De que adiantou confabularem em suas câmaras, em suas universidades, em seus laboratórios, em seu parlamentos, em seus templos e igrejas, em suas indústrias, em seus salões de festas, em seus escritórios, em suas empresas, em seus prédios monumentais, em seus quartéis, em toda essa “grandiosa civilização”? Um dia tudo acabaria, um dia tudo seria impotente frente à revolta natural e inexorável do Cosmos. E chegou esse dia. Nada é para sempre. Todos os sinais dos Últimos soaram como funesto alerta. Mas os homens preferiram discutir suas mediocridades inúteis, suas políticas mesquinhas, suas economias estúpidas; preferiram cultuar suas vaidades, auto-iludirem-se com religiões infrutíferas e ciências estéreis, atulhando-se de quinquilharias tecnológicas, planificando guerras e festas, comemorações e depredações ambientais, assassinatos e massacres de animais e homens, planejando como encher mais o bolso através da exploração mascarada do trabalho alheio, atulhando seus estômagos de degenerações alimentares, suas mentes de baboseiras da mídia, e o útero das mulheres de espermas corrompidos. Comer, beber, dormir e ter orgasmos. Eis todo o sentido que encontraram para a vida. Sim, tudo isso, enquanto alguns artistas e literatos “sérios e respeitáveis” discutiam qual a melhor arte para o mundo atual, intentando impor regras de uma boa escrita, o que é de bom ou de mau-gosto, estabelecendo padrões de uma “útil e profunda” literatura, o que teria ou não valor. Desperdiçaram desgraçadamente seu tempo... O resultado não poderia ser outro... Tudo acabou, tudo se perdeu... Adeus.

E uma ciclópica revoada de asas troou devastadora, partindo para o desconhecido em meio à treva. E eu ali permaneci, na escuridão absurda, no silêncio tumular, na cósmica solidão. E, arrasado, volvi meus olhos para a titânica estrela no alto, isolada entre a trevosa nebulosidade. Algo ela me transmitia... alguma coisa queria me dizer... à minha intuição... eu... eu deveria morrer... sem morte não há renascimento... e um sopro violento e gélido derrubou-me desacordado sobre o solo de pegajosa umidade...


Meu Blog : www.poemasdoterminoecontosdofim.blogspot.com
Alessandro Reiffer
Enviado por Alessandro Reiffer em 15/06/2006
Reeditado em 23/08/2006
Código do texto: T175727
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Sobre o autor
Alessandro Reiffer
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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