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                Jogaram-no na sala como um saco de batatas. Ele cai e soou como tal, esparramando-se no chão e não se incomodando em se levantar. levaria um chute ou um soco, como aconteceria das últimas vezes em que tentaria reagir. Não bateriam muito nele, nem machucariam suas mãos ou sua cabeça, pois ali estava o que ansiavam. Apenas o fariam sofrer até que ele fizesse o que fosse necessário. E sofreria. Era certo que sofreria, tão certo quanto sua pele se cortaria com a faca quente que colocavam sutilmente entre os dedos do seu pé ou as pequenas bolotas de aço aquecido que jogavam sob sua língua.

                Cuspiu um pouco de sangue e esperou para se levantar. Alguém havia dito que aquele seria o último dia em que recusaria um pedido deles. Ele rira daqueles pedidos seguidos de tortura, isso antes que começasse a gritar e, depois, quando parava de gemer de dor. Ergueu-se com dificuldade e pôde jurar que ouvira a filha o chamando. Não deu atenção no início, mas quando ouviu a voz da mulher e do filho mais velho, olhou para frente assustado. As lágrimas desceram imediatamente do rosto. Os três estavam presos a uma das paredes de pedra da sala. As correntes os mantinham de pé, incapazes de se abaixarem para descansar.

                Ele sentou-se perdido, exausto e derrotado. A família... Amaldiçoou o dia em que tornou-se mago. Amaldiçoou a própria sabedoria. Se não fosse seu conhecimento, não estaria preso, muito menos sua família. Agora estava perdido. Olhou para as paredes em volta. Era seca, sem umidade para não estragar o objeto precioso que estava apoiado sobre a mesa. Não havia correntes de ar para não apagar as velas que iluminavam o lugar.

                - Não vamos mais torturá-lo. Agora a escolha é sua se vai traduzir o que queremos ou não.

                Quem falou foi um dos magos das trevas que estava na porta da cela. Não olhou para trás para encará-lo, apenas comprimiu os olhos e enxugou uma lágrima. Então o mago calmamente, passando por ele e deixando uma sombra extensa. Aproximou-se do filho do tradutor e retirou as correntes. Levou-o para fora da sala sob os protestos da esposa do tradutor. A mulher perguntou ao marido o que estava acontecendo e pediu ajuda. Chamou por um socorro que nunca viria.

                - Ah, meu Deus! Onde a gente está?

                Os gritos do filho deles vieram em resposta. Dava para ver que puxara o pai, pois gritava do mesmo modo e com o mesmo tom durante as mesmas torturas. Os torturadores se entediaram rapidamente, percebendo que não havia novidade naquela vítima.

                - Onde Deus não enxerga aqui – disse o homem, indo para a mesa e puxando a cadeira.

                Não olhou para a esposa nem atendeu seus chamados devido à vergonha. Pegou a pena no tinteiro e passou os dedos sobre a estranha escrita do enorme livro. Dava para ver que fora escrito em pele humana e encapado com a mais fina pele dos lábios. Tentou se concentrar para ligar as letras, os símbolos e colocar as primeiras palavras; Precisou de quinze minutos para entender os primeiros sinais. Não se surpreendeu quando a frase começou com “sob as trevas nascei...”

                A filha começou a chorar e ele baixou a cabeça tentando conter as lágrimas. Não se virou nem quando a esposa o chamou e pediu explicações.

                Ao fim do dia, exausto, não conseguia mais se concentrar. Levantou-se para ir até a esposa e a filha. Ambas perguntaram do filho e o jovem respondeu em gritos de agonia. O tradutor se afastou chorando. Os captores apareceram e montaram uma cama para ele. Imaginou que não fosse usá-la para dormir, no entanto os gritos do filho não pararam enquanto ele não se deitou e fechou os olhos foi impossível dormir sabendo a situação em que a filha e a esposa estavam. Queria acudi-las, ao menos falar uma palavra de apoio, no entanto sabia que bastaria abrir os lábios para que o filho também o fizesse, mas em forma de brados aterrorizados e dolorosos.

                Sentiu-se culpado quando abriu os olhos de novo. Dormira e nem percebera. Tentou desculpar-se dizendo que passara noites em claro, sendo torturado e sofrendo, sem nunca perder a consciência, no entanto a culpa incidiu sobre sua mente como as agulhas que os captores enfiavam em sua virilha. Comeu diante da esposa e da filha, pois se não enfiasse algo na boca, alguém sofreria por isso. Elas o olharam com um brilho de medo e fome. Deveriam estar presas há dias sem comer, talvez apenas bebendo água.

                Sentou-se e começou a traduzir de novo. Estava bastante adiantado naquela linha. Partia para a próxima palavra quando ouviu a filha chorando. Pediu a ela que não chorasse, porque “papai acabaria aquilo logo e eles iriam embora”. A menina chorou mais ainda e a mãe a puxou para si. Ele continuou a escrever “sob as trevas nascei, crescei e morrei como quem diz a si mesmo que tua alma é nada mais...”

                No terceiro dia, não suportou o olhar de fome da esposa e da filha. Pediu que os magos das trevas lhes dessem comida ou não continuaria. Os gritos do filho responderam. Ele fingiu que não ouviu e os gritos continuaram. Chorou até que o silêncio imperou. Olhou assustado para a esposa que tinha tanto medo no rosto quanto ele. Então a porta se abriu e o corpo machucado foi jogado. A mulher gritou e a menina também. Ele abraçou o filho. Sentiu-o já esfriando em seus braços e assim o manteve, até alguém ameaçar entrar para pegar a filha.

                O trabalho continuou com o filho apodrecendo diante dele e da família. Não podia movê-lo e sabia que contrariar aquelas pessoas seria pior. A morte do filho fora apenas um aviso. Ele não morrera por acidente durante a tortura. Se a filha ou a esposa fossem levadas, durariam uma eternidade em sofrimento. Aqueles homens sabiam recriar o Inferno. Lidavam com um lugar e com deuses piores do que demônios.

                Terminou a tradução do dia com “sob as trevas nascei, crescei e morrei como quem diz a si mesmo que tua alma é nada mais do que podridão insana de uma realidade em que te esqueceram e...”.  deitou-se sem derramar uma lágrima e pensando nas palavras. Estava começando a pegar o ritmo do texto. Avançara mais naquele dia e sabia que em breve conseguiria mais.

                No dia seguinte, tentava adiantar a tradução quando a filha voltou a chorar. Pediu para que parasse, pois não conseguia se concentrar. Ela continuou. Então gritou até que a menina também gritasse e tentasse abraçar a mãe. A mulher o xingou e ele voltou consternado para a cadeira, onde continuou a tradução.

                “sob as trevas nascei, crescei e morrei como quem diz a si mesmo que tua alma é nada mais do que podridão insana de uma realidade em que te esqueceram e em que deixaram apenas restos de um alimento podre e sujo para que teus pensamentos se mantivessem deliciados com o fel. Tua vida agora é chafurdar até encontrar...”

                Os dias se passaram com suas lágrimas secando e a esposa e a filha se silenciado enquanto se enfraqueciam. Ele tentava apressar a tradução e acabou se perdendo nas palavras. Não podia mais parar. Não podia. Não se reconhecia mais... Não se via mais... tudo o que existia era o livro. Quando a mulher e a menina não eram mais do que pele ressequida grudada em ossos e o cheiro nauseante da morte tomava a cela, ele finalmente terminou uma página. E sua mente não mais existia. Não conseguia mais continuar como os magos queriam, porém os segredos estavam lá dentro. Ele só pensava em ler e não mais escrevia. Apenas lia o livro obsceno.

Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 10/07/2006
Código do texto: T191528

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Sobre o autor
Shaftiel
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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