REMINISCÊNCIAS DO SOFRIMENTO DE UMA GAROTINHA ( LICIA FALCÃO )

Onde morava, as manhãs eram sempre quentes como se o verão fosse eterno.

Nossa casa era um barraco de tábuas doadas de uma construção, coberto com telhas de zinco.

Os caldeirões que deveriam estar cheios de comida para alimentar seis crianças, estavam vazios e emborcados sobre uma mesa de tábuas, ajeitada por papai.

Um cheirinho gostoso de leite fervendo e café sendo coado, entrava por nossas narinas, indo direto ao estômago. Era a vizinha preparando o café da manhã da sua família.

Eu tinha nessa época, nove anos de idade e era a segunda mais velha de seis filhos de meus pais.

Mamãe , nervosa devido às circunstâncias em que vivíamos gritava: - Menina, se adianta e vá logo à loja do senhor Eudoro, levar meu bilhete.

Eu chorava e implorava à mamãe para não ir, mas ela pensava que era birra ou preguiça.

- Vamos, menina! (gritava mamãe com o cinturão na mão ).

Apavorada, saía correndo por entre uma fileira de mangueiras. Havia ali sempre frutas dependuradas e um cheiro muito agradável. No chão, caprichosamente arrumadas, estavam sempre pedras brancas que pareciam nos convidar para sentar, meditar e contemplar uma grande variedade de pássaros que voavam e cantavam entre as folhas das árvores.

Sentava e começava a pedir a Deus que me livrasse do senhor Eudoro. Furtiva e mergulhada nos meus pensamentos, fui interrompida por uma resvalada da correia e o grito de mamãe: - Por quê você ainda está aí sentada, sua ordinária! Vai embora agora!

Saía correndo com meu tamanquinho de português e um vestido azul com lacinhos de seda que ganhara da dona Eulália (mamãe lavava roupas para ela ).

Depois de uns dez minutos de correria em prantos, chegava à lojinha do senhor Eudoro. Ele era relojoeiro dos bons. Homem religioso, casado, pai de nove filhos que trabalhava na Rede Ferroviária, consertando o Relógio da Central do Brasil. Aquele homem estava à cima de qualquer suspeita.

Ele sempre repetia isso pra mim, ao pegar nas minhas longas tranças negras que escorregavam pelas minhas costas. Meus olhos amendoados, arregalavam-se de terror porque sabiam que ele começava sempre por segurar as minhas tranças.

Meu coraçãozinho de criança inocente, não entendia bem o que se passava, mas sentia muita raiva das coisas que aquele homem fazia.

O senhor Eudoro, nessa época deveria ter uns 65 anos. Era moreno, cabelos lisos e brancos, magro, estatura média, usava óculos fortes, e olhava por cima deles. A mulher dele era uma senhora simpática, loira, muito bonita e bem mais nova que ele. Dona Joana levava todos os dias, almoço e lanche para ele, porém nunca encontrei com ela na loja.

- Senhor Eudoro, mamãe lhe mandou esse bilhete. No bilhete, ela pedia dinheiro emprestado para comprar alimentos para os filhos.

-É mesmo? Ela mandou um bilhete? (dizia aquele velho asqueroso).

Chega aqui pertinho de mim! Não tenha medo!

Aquele homem sentava-se numa cadeira acolchoada, toda forrada de couro preto. Ali ele cometia toda espécie de barbáries com uma garotinha de apenas nove anos..

Quando satisfazia seus desejos abjetos e doentios, ele me dava o dinheiro e dizia: bico calado! Não vai adiantar você contar isso, pois ninguém vai acreditar; e tem mais, você ainda vai levar uma boa surra, porque vou ameaçar não emprestar mais dinheiro à sua mãe. Saía dali chorando muito, com medo de todos na rua, revoltada com a minha mãe, por ela não perceber aquela selvageria e com muita vontade de morrer.

Chegava em casa chorando, não comia, não bebia, ficava escondida de todos, tinha febre , sofria pesadelos com as lembranças daquela violência, até a próxima vez que mamãe precisasse pedir dinheiro emprestado ao senhor Eudoro.

Licia Falcão Rodrigues da Silva.

Licia Falcão
Enviado por Licia Falcão em 31/01/2010
Código do texto: T2060984
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