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“Assine a nova Revista Hípica e ganhe grátis três edições de Universo”; “Aumente seu desempenho sexual”; “Oportunidade única: ganhe dinheiro sem sair de casa” — Tomé fazia a leitura matinal de e-mails e, como era de costume, apagava as mensagens inúteis que entulhavam sua caixa postal, na mesma velocidade com que as abria.
Ele precisava mesmo ser rápido. Queria chegar mais cedo ao jornal. Aquela sexta-feira prometia, já que o chefe não lhe entregara qualquer pauta de fim de semana — o que significava largar o trabalho bem antes da meia-noite. Além do mais, ele e Núbia finalmente transariam pela primeira vez, depois de três meses de um namoro cheio de idas e vindas. Estava tudo acertado: ele a pegaria em casa, por volta das 22h. Depois, iriam ao motel.
Enquanto passava os olhos pelos e-mails, o repórter ouvia ao longe o bate-estaca de uma obra que ficava a um quarteirão de seu edifício. A labuta dos operários começava com a alvorada. Preparavam o material e, depois das 8h, iniciava-se a sinfonia de sons metálicos. Tomé morava num apartamento simples, alugado, na Zona Sul da metrópole. Tinha apenas um quarto, mas os cômodos eram espaçosos — perfeito para um rapaz solteiro, com os seus cerca de 30 anos. “Até porque”, pensava, “a rotina de jornalista não me deixa mesmo muito tempo para programas domésticos”.
Ainda em frente ao computador, ele ouvia, sem prestar muita atenção, as notícias proferidas pela voz cheia de interferências do rádio sobre o criado-mudo, bem ao lado da cama. Só restava agora uma mensagem não lida, vinda de um remetente anônimo. No campo “assunto”, estava escrito: “Advertência, não apague sem ler – Vida ou Morte”.
As palavras enfáticas atiçaram a curiosidade do repórter. Com aquela dose de misticismo pertinente aos céticos — que não acreditam em bruxas, mas reconhecem sua existência —Tomé leu o e-mail, que dizia: “Repasse esta mensagem para 50 pessoas da sua lista. Senão, a morte vai encontrá-lo (a) em 24 horas.”
Deteve-se ainda um instante diante da tela luminosa. Não podia negar que um certo arrepio lhe percorreu o corpo ao analisar aquelas linhas. Procurar 50 endereços e passar à frente a soturna ameaça não lhe tomaria mais que dez minutos. Mas ele estava com pressa, e o pensamento rapidamente se lhe configurou ridículo. A razão voltou a dominar as ações. Tomé deu uma tímida e debochada risada e enviou a mensagem para a lixeira. Em seguida, pegou caneta, bloco e a chave do carro. Atravessou a porta do apartamento, deixando para trás a macabra profecia. Talvez um pouco desnorteado, esqueceu, além do rádio ligado, o telefone celular com a bateria descarregada em cima da mesinha de centro da sala.

***

Menos de dois minutos depois da saída do jornalista, o telefone em seu apartamento começou a tocar insistentemente. Logo, uma gravação com a voz de Tomé se irradiou pelo quarto vazio: “No momento, não posso atendê-lo. Deixe seu recado após o sinal. Bip.”
“Oi, meu amor. Sou eu. Liguei pro seu celular, mas está fora de área. Olha, aconteceu uma coisa muito chata. Sabe aquele meu tio solteirão que morava em Livramento? Pois é, ele morreu ontem à noite. Foi um infarto fulminante. Ah, querido, minha mãe está arrasada. Na verdade, todos estamos abalados. Mas o pior é que ele tinha muita grana. Você sabe como é... Os quatro irmãos que restaram vão querer dividir essa herança. Vai ser uma discussão desgastante e não quero deixar minha mãe sozinha nesta hora. A gente está embarcando agora para o interior. Queria tanto que você fosse comigo. Bem, mas entendo que seu trabalho é importante. De qualquer forma, quero que você me desculpe por desmarcar nosso compromisso de hoje à noite. Estou ansiosa para voltar e revê-lo. Tenta me ligar mais tarde. Te adoro cada vez mais”, encerrou Núbia.
O eco da voz da namorada de Tomé foi abafado pelo noticiário das 9h, transmitido para as paredes pelo rádio que o repórter deixara ligado. “Morre o ator Rivelino Cortês; Empresa de telefonia móvel informa aos usuários que hoje, a partir das 23h, o sinal será interrompido por meia hora para manutenção da rede...”, anunciava o apresentador.

***

A caminho do jornal, que ficava no Centro, Tomé parou o automóvel no sinal de um dos cruzamentos mais movimentados da cidade. Assim que a luz vermelha se acendeu, surgiram alguns garotos fazendo malabarismos com bolas coloridas. Um deles subiu nas costas do parceiro mais velho. Outro rapazote, aparentando mais experiência — e mais insanidade — engolia fogo. “Uma iguaria nada saborosa”, pensou o irônico repórter.
Entretido com o espetáculo, o jornalista se assustou quando um desses entregadores de papel invadiu o carro com a mão negra e despejou um folheto no seu colo. Tomé ensaiou repreendê-lo, mas o abusado adolescente se afastou célere. Já com as mãos vazias, o jovem comentou com um menino ainda carregado com pilhas de informativos que pediam donativos para um asilo:
— Aí, otário. Esse foi o último. Fica aí que eu vou pra praia agora, juvenil. Não fico aqui nem mais um minuto.
Com o som abafado pelo CD de blues que tocava no carro, o repórter nem ouviu a bazófia do entregador. Como o sinal demorasse a abrir, Tomé deu, a contragosto, uma olhadela no panfleto. Trazia a publicidade de uma nova casa noturna, Império dos Sentidos. Situada na Zona Leste, era a nova coqueluche da classe média. “Muita mulher bonita. Venha para o reinado da luxúria”, convidava o folheto.
“Já tenho a minha mulher bonita”, esnobou Tomé, com um risinho malicioso no canto da boca, ao fantasiar as loucuras que viveria com Núbia naquela noite. Ele amassou o anúncio e o atirou para o lado. A bolinha de papel caiu no banco do carona. Finalmente, a luz verde indicou que os carros podiam voltar a rodar.
Apesar da confiança para a primeira noite de sexo com a namorada, Tomé se preocupava, e muito, com seu relacionamento. Não fora com pouco esforço que convencera Núbia a lhe dar uma chance. Mesmo depois de três meses, ela continuava a amar Ricardo. O repórter já se acostumara à instabilidade da amada. Era preciso reconhecer que ela estava realmente imbuída em esquecer o ex-namorado — um homem casado e sem escrúpulos.
No entanto, era uma luta renhida. A um leve aceno dos dedos, Ricardo conseguia seduzir a indecisa jovem. Havia três semanas que, a pretexto de estar confusa, ela terminara o namoro com Tomé. Naquele fim de semana, esteve com o ex-amante. Arrependeu-se, chorou, confessou o erro ao namorado — que, guiado pelo sentimento, aceitou-a de volta. Aquela noite, portanto, seria a redenção do casal. Eles enfim selariam uma união bem mais tenaz e poderiam sepultar a desagradável presença de Ricardo. Pelo menos era o que imaginava Tomé. Os pensamentos do rapaz foram interrompidos tão logo ele chegou ao prédio do jornal. O trabalho o aguardava.

***
     
Quase às 9h30 a redação estava no maior burburinho. “Deve ter acontecido algo grave na cidade”, anteviu Tomé, já se colocando à disposição do chefe de reportagem:
— Ué, o que te deu hoje? Tá madrugando? — gracejou o chefe, um sujeito barbudo, barrigudo, esporrento e que, àquela hora, já estava no décimo cigarro do dia. Ao mesmo tempo em que apertava com raiva o botão da máquina de café, ele prosseguiu. — É o seguinte: tenho uma pauta cavernosa pra você. Eu ia te passar uma reportagem policial investigativa, porque tu é mais competente nisso. Mas a Tininha não está aqui ainda e você se antecipou hoje, então vou fazer um troca-troca. Porque preciso de alguém agora, correndo, pra cobrir a morte do Rivelino Cortês.
Tomé se surpreendeu:
— Rivelino Cortês? O ator de novela? Como... Quando foi?
O chefe respondeu, sem sequer ouvir a última pergunta do repórter:
— Isso, isso, isso... Ele mesmo. Foi encontrado morto hoje pela manhã. Caiu no fosso do elevador do prédio onde morava. Agora, tem que ver se isso foi acidente ou suicídio. Apura direitinho. Pega o fotógrafo e o carro e voa lá pra Zona Norte.
Sem demora, Tomé obedeceu à ordem do chefe. Chamou um dos fotógrafos, e partiram prontamente para o endereço indicado. Ao descer do elevador no térreo, mal teve tempo de cumprimentar Tininha, que entrava, esbaforida, no edifício.
Já na redação, a repórter nem bem tomou fôlego e o chefe já foi delegando:
— Tininha, tá um pouquinho atrasada, mas eu te desculpo, se você pedir com jeitinho —  escarneceu, soltando uma sonora gargalhada, que atravessou o imenso salão. — Vou explicar uma vez, vê se você compreende. Essa pauta ia ser do Tomé, mas é uma grande chance pra você. Coisa de alto nível. Tem uma dupla que anda aterrorizando na Zona Leste. Eles aplicam o Boa Noite Cinderela nos freqüentadores de boates e inferninhos. Depois, seqüestram os caras e tiram todo o dinheiro deles nos caixas eletrônicos. Detalhe sórdido: já houve cinco vítimas. Três foram assassinadas. As outras duas, poupadas. Então, quero que você cole nesses dois babacas pra gente fazer uma puta matéria sobre esses marginais. Entendeu?
— Claro, chefe — assentiu a jornalista, aturdida com tanta informação.

***

“O dia vai ser mais longo do que eu supunha”, previa Tomé, enquanto o carro do jornal estacionava nas imediações do prédio onde vivia o ator Rivelino Cortês, na Zona Norte. Havia uma aglomeração de gente em frente à portaria do condomínio. A polícia tentava organizar o fluxo de pessoas pela rua, mas era quase impossível controlar as dezenas de repórteres e as centenas de fãs do astro da TV.
Após trocar informações com os colegas, Tomé pôs-se a ouvir os admiradores do artista. O clima era de perplexidade. Todos tentavam entender como o ídolo morreu de forma tão trágica. Até mesmo Tomé, pouco afeito a telenovelas, quedara atônito ao ser informado do ocorrido.
Entre os presentes, sabia-se apenas que, por volta das 6h, o porteiro da manhã estranhara o fato de um dos elevadores não estar funcionando. Ele chamou o pessoal da manutenção e, às 7h30, os mecânicos encontraram no fosso o corpo sem vida do ator. Desde então, a polícia se ocupara do caso, e já havia vazado a notícia de que o delegado pediria ao síndico a fita do circuito interno de câmaras. Rivelino vivia no duodécimo andar, mas os investigadores não descartavam a hipótese de a queda ter acontecido em outro piso. A gravação ajudaria a dirimir a dúvida. Havia três linhas para elucidar a morte do galã: suicídio, acidente ou assassinato.
Esta última era a possibilidade que parecia mais crível a Tomé. Não conseguia imaginar Rivelino Cortês dando cabo da própria vida. Como podia se matar um sujeito rico, ator bem-sucedido, com dezenas de novelas no currículo, jovial e atlético — apesar dos mais de 60 anos, que não o impediam de estar sempre muito bem acompanhado de belas atrizes — e que, ainda por cima, preparava-se para fazer seu primeiro papel em cinema, como a imprensa vinha noticiando?
Por outro lado, um acidente em tais circunstâncias teria de contar com uma dose extra de distração do ator. Afinal, por que ele não notaria a ausência da cabine do elevador no décimo segundo andar? Desse modo, restava a suposição de homicídio, que abria um leque de incertezas. Teria o falecido inimigos? Quem seriam? A partir de agora, responder a essas perguntas era tarefa dos policiais e dos repórteres.
Desquitado três vezes, Rivelino morava sozinho. Não tinha filhos. Na verdade, a única parenta próxima era uma irmã, Elísia Cortês, com quem mantinha vago contato. Já fazia quatro horas que Tomé aguardava em pé diante da portaria, e só então ela chegava ao local. Comedidamente emocionada, não quis falar com a imprensa. Acompanhada de um inspetor, atravessou as cercas do condomínio e foi ter com o delegado. Mais de uma hora depois, os dois saíram, dispondo-se a atender mui rapidamente os jornalistas. Teve início um empurra-empurra, durante o qual cinegrafistas procuravam o melhor ângulo, cutucando as cabeças dos repórteres. Enfim, o delegado se pronunciou:
— A perícia concluiu que ontem, por volta das 22h, o ator Rivelino Cortês caiu no fosso do elevador de seu prédio. Tudo o que sabemos é isso. Requisitamos as fitas de vídeo e vamos analisá-las. A princípio, entendemos que foi um acidente ou um suicídio. Mas vamos começar a investigar a hipótese de assassinato. Espero que amanhã tenhamos novidades.
Decepcionados com a obviedade da declaração do policial, os jornalistas se viraram incontinenti para a direção de Elísia, que se limitou a dizer estar muito abalada para dar qualquer declaração. Em seguida, entrou num táxi. Espremido pela multidão, Tomé conseguiu alcançar o veículo e passar um bilhete à mulher pela fresta do vidro da porta. Elísia abriu o papel e leu a mensagem: “Sei que este é um momento difícil para a senhora. Mas, se amanhã ou depois tiver algo que queira divulgar, estou ao seu dispor. Meus contatos são os seguintes...”. A irmã de Cortês viu somente de relance o semblante esperançoso do repórter, acossado pela turba comovida, pois o taxista logo arrancou com o carro.

***

Como Tomé pressentira, a morte de Rivelino Cortês fez com que sua jornada se estendesse além do que estava programado. Seu relógio marcava dez minutos para as 22h quando o jornalista pôs o ponto final no texto e o entregou ao irascível chefe de reportagem. A matéria estava recheada de vasta retrospectiva da carreira do ator e algumas especulações. Conclusões sobre o caso, provavelmente, só apareceriam a partir de segunda-feira, já que o fim de semana sempre foi péssimo momento para as autoridades anunciarem seus feitos. Sendo assim, Tomé se desconectou do duro cotidiano, despediu-se do chefe e, apressado, foi ao encontro da amada. Atrás de si, as teclas de computador continuaram a fazer barulho. Os repórteres com pautas especiais corriam agora para fechar a edição de domingo.
Alguns minutos depois da hora marcada, Tomé chegou à casa de Núbia — uma construção de estilo arquitetônico antigo, de muros altos, preciosa jóia que os construtores de espigões não lograram remover do Centro. Buzinou, tocou a campainha. Ninguém apareceu. “Bem. Imprevistos acontecem. Eu mesmo estou um pouco atrasado. Ela deve ter tido algum problema”, pensou.
No entanto, à medida que os minutos se sucediam, a impaciência do jornalista crescia. Irritadiço e maldizendo a hora em que se esqueceu do celular em casa, caminhou até um orelhão. De lá, telefonou para a namorada. Estranhamente, a ligação não se completava. Preocupado, Tomé se perguntava o que ocorria. O atraso de Núbia ultrapassava uma hora. Para piorar, ela estava incomunicável, com o celular aparentemente desligado.
Não tardaram a lacerar o coração do repórter as lembranças dos recentes percalços. Veio então à mente a imagem de Núbia se entregando sofregamente a Ricardo. Os dois amantes provavelmente estariam nalgum leito de lascívia. E ele, uma vez mais, a reboque dos humores do casal. Sentia-se um títere nas mãos de Núbia.
“Basta! Não vou mais ser palhaço de ninguém. Era pra ela estar comigo e não com ele. Se é o que ela quer, que seja! Adeus!”, esbravejou com amargura, ao mesmo tempo em que voltava para o carro. Antes de dar partida no veículo, percebeu o papel amassado sobre o banco do carona. Desenrugou o anúncio e leu a senha para o prazer: Império dos Sentidos. “É disso que estou precisando”, concluiu, partindo em direção à Zona Leste.
 
***

Em uma semana de funcionamento, a casa noturna Império dos Sentidos se tornara mania entre a classe média alta. Lá freqüentavam empresários emergentes, artistas temporariamente fora do main stream, universitários filhos de pais ricos e candidatas a prostitutas de luxo – atraídas pelas altas somas de dinheiro circulante. Sem medo de errar, poder-se-ia dizer que só quem desejava terminava a noite desacompanhado no Império.
Havia um clima de erotismo no ambiente. A própria decoração do estabelecimento favorecia tal impressão — disseminavam-se pelo recinto ornamentos fálicos e papéis de parede que remetiam a posições do Kama Sutra. O ar lúgubre — ressaltado pela luz baixa, vermelha, e uma certa fumaça inebriante — ajudava a formar a argamassa da luxúria que cimentava as estruturas do lugar.
Tomé pagou a entrada, entrou e foi bombardeado por esse mosaico de sensações. Sentou-se num dos bancos do luxuoso balcão e pediu um uísque. Precisava beber muito para esquecer a desfeita de Núbia. Não demorou mais que uma hora para o repórter começar a se sentir mais leve — uma leveza etílica, reconheça-se. “Não sei como ainda não tinha descoberto este lugar. É maravilhoso”, empolgou-se o jornalista, ao fazer o comentário para uma ruiva sentada a seu lado.
Até então, não havia percebido a presença da mulher. Ela virou-se para ele, e Tomé se deu conta da beleza da conviva. Logo abaixo da cabeleira de fogo, os olhos azuis pareciam querer engoli-lo. A ruiva estendeu um cigarro para Tomé e perguntou se ele tinha fogo.
A pergunta de duplo sentido encontraria reposta afirmativa de qualquer maneira. Embora estivesse tentando parar de fumar, o jornalista continuava a carregar consigo um isqueiro. Acendeu o cigarro da dama da noite, e iniciaram um agradável colóquio. Dali a pouco, Tomé já se sentia atraído pela jovem de lábios carnudos, manchados de batom vermelho-sangue, e tez infernal. Ela usava um vestido longo, com decote na região das coxas. Entre um assunto e outro, a mão do repórter começou a passear pelas pernas da mulher.
Totalmente envolvido, Tomé nem pensava mais em Núbia. Para falar a verdade, durante a conversa ele só se lembrara da namorada por um breve instante — o que só lhe deu mais vontade de interagir com a ruiva, ao imaginar, com raiva, Ricardo bufando sobre sua amada.
Mas a companhia da formosa ruiva não foi o único fato a passar despercebido para Tomé. Ele não notara que, desde sua entrada no salão da boate, um homem louro sentado a um canto mal iluminado acompanhava com especial atenção todos os seus passos. Um sujeito corpulento, vestido com uma jaqueta de couro preta e com cara de poucos amigos.
Quando Tomé precisou ir ao banheiro, a ruiva retirou da bolsa um frasco com sonífero e o despejou no que sobrava de uísque no copo do jornalista. A seguir, olhou em direção ao homem de jaqueta e ergueu o polegar direito. Tudo corria conforme o planejado.

***

Talvez fossem umas 3h quando Tomé acordou. Estava ainda meio grogue e com muita dor de cabeça. Sentia como se um trem tivesse passado por cima do seu corpo. Tentou se mover para coçar o rosto, mas não conseguiu. Logo a adrenalina subiu e ele constatou estar amarrado pelos pés e pelas mãos. Com a visão menos obnubilada, enfim tomou pé da situação.
Jogado no banco de trás de seu carro, Tomé rodava pelo subúrbio da metrópole acompanhado do homem corpulento, ao volante, e da ruiva sensual, no banco do carona. Em pânico, gritou:
— Quem são vocês? O que vão fazer comigo?
— Ora, a Bela Adormecida acordou. — retrucou o bandido, sem se abater. — Só estamos dando um passeio. É melhor você não falar muito alto. Já é tarde e maioria das pessoas está dormindo.
Nisso, a ruiva mostrou a Tomé uma pistola, em tom ameaçador. O jornalista se conteve. E tentou retomar o diálogo de forma mais serena.
— Tudo bem. Eu sei que perdi. Mas o que vai acontecer agora?
— Primeiro, você vai me dar sua senha do banco. Vamos retirar um dinheiro. Sabe como é. Muitas contas pra pagar. Depois, só Deus sabe...
As palavras do criminoso fizeram Tomé estremecer. Subitamente, o veículo parou diante de um caixa eletrônico de um posto de gasolina, àquela hora fechado. A ruiva desceu do carro e, minutos depois, voltou com a bolsa carregada de cédulas. O cúmplice perguntou o valor do faturamento.
— Uma pobreza. Só mil.
 O bandido irritou-se:
— Qualé, cara? Você acha que a gente faz essa produção toda pra conseguir só mil pilas? Não tem medo de morrer, não?
— Mas, só tenho isso. Se me der um tempo, arranjo mais.
— Quer saber? Chega. Estou de saco cheio da sua cara. Não gosto de babaca. E você é um trouxa. Sabe como nós dois somos conhecidos?
— N-não.
— Somos a dupla Roleta Russa. Você imagina por quê?
Tomé entendeu o que ocorreria em seguida. Já em pânico, pensou em gritar, pedir socorro. Olhou para fora do carro, mas o posto estava deserto. Ao se voltar novamente para os bandidos, viu a ruiva apontando-lhe o revólver. O louro explicou:
— A brincadeira é simples: o tambor dessa arma comporta seis projetis. Eu os posiciono ao acaso. A minha parceira não sabe onde os pus. Nós sempre fazemos esse joguinho com os otários como você. Um por um, até completar meia dúzia. Agora, fica por conta da sua sorte. Você tem cinqüenta por cento de chance. Já parou para pensar como a vida é um desfile de acontecimentos aleatórios? Uma decisão errada e... puf! Você está morto.
O inesperado discurso do facínora sobre o caráter randômico da existência fez com que o pavor de Tomé se elevasse à máxima potência. O jornalista se recordou do e-mail que lera pela manhã. Ironicamente, a profecia se cumpria. De mãos atadas, a vítima nada podia fazer. Conformou-se com a morte e desejou que ela fosse a menos dolorosa possível.
A ruiva vamp apontou, então, a pistola para a cabeça de Tomé. Apertou o gatilho. O jornalista fechou os olhos. O que se ouviu foi um estampido surdo. Depois, risadas exageradas elevaram o nível dos decibéis dentro do veículo.
— Pô, louro. Esse não teve nem graça. O tambor já estava no final mesmo.
— Pois é, minha gata. É questão de matemática. Se matamos três antes e dois sobreviveram, mais um tinha que escapar. Faz parte do jogo. O importante é que nós temos método. Não somos como esses bandidinhos zé-ruelas que andam por aí. E não íamos perder por nada o prazer de ver um bundão se cagando. Mas vamos logo com isso. Despeja esse merda aí mesmo.
A ruiva obedeceu ao comando do cúmplice e deixou Tomé, ainda amarrado, no posto de gasolina. Ele só se libertaria por volta das 5h, quando os primeiros funcionários chegassem para o trabalho. Já a dupla saiu a toda velocidade com o carro, em direção a novos crimes.

***

A um quarteirão de casa, Tomé caminhava vagarosamente. Exausto depois de quase três horas na delegacia registrando a ocorrência, ele contabilizava o prejuízo. Que, na verdade, nem era sua principal preocupação. Um sentimento de derrota se apossou do repórter. O dia anterior fora a pior sexta-feira de sua vida. Perdera Núbia definitivamente, sofrera uma violência sem tamanho e, para completar, via agora, ao passar em frente a uma banca de jornal, que o diário concorrente conseguira um furo de reportagem sobre o caso Rivelino Cortês. “O filho da puta do delegado deu uma entrevista exclusiva para eles e listou três suspeitos do crime. Que sacripanta!”, esconjurou Tomé.
Mas seguiu em frente, acreditando que a sorte ia mudar. Afinal, pelo menos em algo aquele bandido tinha razão: o destino é a apoteose do acaso. Num virar de esquina, a vida de qualquer um pode mudar. Ou, até mesmo, acabar.
Impossível determinar o que passou pela cabeça de Tomé no ínterim entre a imensa barra de metal de uma tonelada atingi-lo em cheio e seu crânio afundar contra a calçada. Certo mesmo é que, um segundo depois, sua mente não formulava pensamento. Alguns operários do prédio em construção interromperam a rotina e acorreram ao local, para tentar entender como a peça despencou e socorrer o repórter. Entretanto, era tarde. O jornalista estava morto. A construtora possivelmente seria responsabilizada. Mera querela jurídica, que uma indenização à família resolveria. Afinal, quem pode realmente ser culpado por um acidente?

***

Toca o telefone no apartamento de Tomé. Após a mensagem de praxe, a secretária eletrônica registra uma voz feminina. Do outro lado da linha está Elísia Cortês.
“Bom dia, Tomé. Tentei seu celular e ele está desligado. Me desculpe ligar a essa hora, você deve estar dormindo. Mas o que tenho para falar interessa ao seu jornal. O delegado deu uma entrevista equivocada, apontando ex-colegas do meu irmão como suspeitos de assassinato. Vai ser exonerado hoje, conforme o chefe de polícia me asseverou. Em compensação, a fita do circuito interno mostrou que Rivelino atendeu um telefonema no celular pouco antes de cair. Ele não percebeu que a cabine do elevador não estava no andar. Tudo indica que foi mesmo uma fatalidade. O mais mórbido, e isso que queria contar para você, foi um e-mail que encontrei ao mexer no computador dele ontem. Chegou na quarta-feira à noite. Dizia assim: ‘Repasse esta mensagem para 50 pessoas da sua lista. Senão, a morte vai encontrá-lo (a) em 24 horas.’ Estava na lixeira. Rivelino não era mesmo supersticioso. O que acha disso?”.
 
Jorge Eduardo Machado
Enviado por Jorge Eduardo Machado em 04/08/2006
Código do texto: T209419

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Sobre o autor
Jorge Eduardo Machado
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Jorge Eduardo Machado