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Manuscrito Encontrado pelo Arcanjo Michael no Ano de 2056

Não direi meu nome, nem onde vivo, nem o que faço. Não há necessidade. Apenas escrevo estas linhas infaustas nos últimos dias de minha infausta existência...

Estamos no ano de 2042. Nossa civilização humana, ou o que restou dela, agoniza. Dos mais de 9 bilhões de membros que chegou a possuir, restam algumas poucas centenas de milhões de miseráveis que desgraçadamente sobrevivem a uma série incessante de catástrofes. Não há mais água potável, a poluição contaminou todos os rios, mares, lençóis freáticos, e a própria chuva, agora, é quase sempre ácida. Estamos submergidos em todas as formas de poluição, principalmente na nuclear. Desde a 3ª Guerra Mundial, ocorrida há mais de 20 anos, não há recanto na Terra que não esteja afetado pela radiação. Ainda me recordo do começo estúpido da guerra. Terroristas do 3º mundo asiático, revoltados ao extremo com a impiedosa exploração, imperialismo, crueldade mascarada dos países ricos, furtaram armas nucleares da Rússia e as detonaram na Europa e nos EUA. O revide foi imediato. Não é preciso que eu diga que as proporções dos ataques foram cataclismáticas. Apesar de somente terem sido usados (nessa 1ª fase da guerra) artefatos atômicos de relativa baixa potência, foram suficientes para arrasar países inteiros e espalhar radioatividade por todo o planeta. Tudo o que comemos está contaminado, isso sem falar no desastre dos transgênicos, que acabaram gerando uma série de semi-humanos débeis e deformados. Eu mesmo carrego um câncer que devora minhas entranhas, e não sei dizer o que é mais responsável pelo seu surgimento: se a radiação, os transgênicos, ou o exagero de aditivos químicos.

Mas voltemos à 3ª Guerra. O pior foi quando houve o titânico colapso de energia elétrica. Devido às batalhas atômicas, toda a Europa, América do Norte e parte da Ásia permaneceram meses sem luz, e foi então que se comprovou que o homem sem a eletricidade não é nada. Retornamos à barbárie. Sem TVs, sem computadores, sem indústrias funcionando, a civilização voltou à Idade Média...quer dizer, antes fosse como a Idade Média... E no dia em que a energia elétrica retornou foi ainda pior do que se não tivesse retornado. Porque ocorreu uma pane nas redes de computadores do leste europeu; justamente naquelas que controlavam as armas nucleares desativadas da Rússia e da Ucrânia. Resultado: bombas atômicas foram ativadas e lançadas por engano nos EUA e em países do oeste da Europa. Mas tais países, naturalmente, em meio a ânimos tão acirrados, não creram que foi um engano e reagiram violentamente. Surgiu outro capítulo da 3ª Guerra, ainda mais devastador, o que concluiu com o fim do império norte-americano, que desde o início do século já vinha dando sinais de decadência. Aliás, agora, não há mais impérios na Terra, a não ser o da Morte. O homem encontra-se absolutamente perdido, as religiões não cumpriram com suas promessas e morreram na beira da praia. Seus membros hipócritas, sabendo que nada nem ninguém os vinham salvar, desesperaram-se e, ou se suicidaram, ou caíram na completa degeneração que antes haviam parcialmente reprimido. Mas e Deus? Bem, se Ele existe, é a perfeição de justiça. E nada mais justo do que varrer esta civilização degradada da face da Terra; tenho esperanças que então surja a semente de um novo povo que viva e se desenvolva dentro da sabedoria das leis cósmicas...

Agora, sinto desejos de ir lá fora, tomar um pouco de sol, mas tenho medo. Medo de ser atacado por algum dos muitos canibais humanos que, na ausência de alimentos, não encontram outra alternativa. Além disso, se por um lado o sol é pardo-avermelhado devido às imensas nuvens de poeira que a guerra nuclear liberou na atmosfera, e ainda hoje elas não se assentaram, como um inverno eterno, por outro, com o fim definitivo da camada de ozônio, os raios solares tornaram-se demasiadamente nocivos, pois os ultravioletas conseguem passar incólumes pelas nuvens de poeira. Contudo, ostensivelmente,  os humanos não foram os únicos seres com isso afetados. Há anos que os institutos não publicam mais estatísticas, porém nas últimas que vi, estimava-se que cerca de 85% da fauna terrestre de vertebrados já estava extinta. Hoje, animais como tigres, leões, rinocerontes, águias, gorilas, lobos, pandas etc., só podem ser vistos nas ilustrações dos livros. Nem mesmo zoológicos há mais. Isso sem falar na terrível devastação florestal que assolou o planeta durante o grande blecaute de energia elétrica, pois a queima de madeira era uma das únicas fontes de energia, de aquecimento, de fogo, para uma população de bilhões, ainda que já bastante reduzida. Com isso, o resto que ainda havia das florestas européias e norte-americanas extinguiu-se totalmente. Então passaram a buscar madeira nas matas de outros países, até que, finalmente, conseguiram restabelecer a eletricidade, embora parcialmente. Foi praticamente o fim das vegetações mundiais, que antes mesmo da guerra nuclear, já estavam sendo massacradas pelas queimadas colossais causadas pelo efeito estufa, gerando imensidades de absolutos desertos. É triste saber que a exuberância das florestas tropicais transformou-se na aridez do nada, na América, na África, na Ásia, onde explosões demográficas foram sucedidas por brutais genocídios e epidemias. Na África, por exemplo, além de sofrer a exploração infrene dos países ricos, para se abastecerem durante a 3ª Grande Guerra, metade de sua população foi vitimada pela AIDS e outras doenças. Um flagelo nunca visto! A ausência de água potável causou uma proliferação de pestilências espantosas, e hoje, através também de outros fatores, como a contaminação radioativa, creio que a maioria absoluta dos africanos apodrecem ou são somente ossos por sobre a terra desolada, sem matas, sem savanas, desertificada pela cobiça irrefreável dos povos que a subjugaram.

Com o desespero da população, a AIDS tornou-se implacável... Também no sudeste asiático e na América Latina ceifou milhões de vidas. Mas não matou sozinha. Centenas de outras doenças, ou ressurgiram, como a tuberculose, a peste bubônica, ou alastraram-se funestamente, como o cólera, o ebola, formas letais de gripes, ou surgiram pelas armas biológicas. Hoje, a situação é inconcebível. Lá fora, vejo corpos apodrecendo. Impossível dizer qual a causa mortis. Na Europa, norte da Ásia, Oriente Médio e norte da América, as doenças não chegaram a devastar muito, pois a maioria da população evaporou-se ou morreu queimada como conseqüência das guerras atômicas. Tragédia pior ainda ocorreu quando a China, a Índia, o Paquistão e a Coréia de Norte entraram na guerra. Países que eram tão densamente povoados, contemplaram seus habitantes desaparecerem aos milhões em questão de meses. A guerra chegou ao fim quando se esgotou o petróleo. Ainda me lembro das cenas dantescas que há anos transmitiram os meios de comunicação. O número de poços de petróleos abertos no mundo quadruplicou-se para atender à monstruosa demanda do conflito. Em todos os cantos do planeta a terra era perfurada, florestas inteiras devastadas, rios e mares completamente negros pelos derramamentos, animais agonizando no óleo... Meu Deus! Que horror! E ninguém fazia nada. Não se podia fazer nada. Matava-se por uma gota de ouro negro. E o petróleo acabou. Hoje, há meses que não vejo um veículo passar pela rua abarrotada de cadáveres. Talvez se pense que a ciência criou outra forma de combustível... Criou, contudo, não substituiu o petróleo, não deixaram. A ciência foi impotente frente à catástrofe mundial. Assim como as religiões, ela não cumpriu suas enganosas promessas. As únicas coisas criadas por ela que ainda vejo são os monstros da engenharia genética, bichos e homens disformes matando e mendigando pelas ruas, ou os clones degradados, serem sem alma e sem consciência, que, sabendo de sua morte precoce e de sua anômala origem, têm sede de vingança e destruição. Agora sei que em breve os humanos sobreviventes desaparecerão e se extinguirá esta humanidade. Ali se aproxima um gigantesco vizinho sinistro, um planeta imenso, que desde o final do século XX se dirige à Terra, mas que os ditos cientistas sempre ocultaram. A quem eles vão enganar agora? O planeta já inverteu os pólos da Terra, onde era quente, agora é frio, e vice-versa, pois possui uma hercúlea força de atração gravitacional. Tal poder causa incessantes terremotos, maremotos, vulcões, países inteiros já submergiram nas águas dos oceanos, imundas e povoadas por monstros oriundos de mutações gênicas. Não sei se o planeta que se avizinha se chocará com a Terra ou se apenas passará próximo. Seja como for, só quero que ele acabe com esses homens bestiais e essas mulheres esterilizadas pela radioatividade. Não há mais nada. O ar é irrespirável, o sol é uma bola opaca e maléfica, a água está totalmente contaminada, as terras tornaram-se incultiváveis... E dizer que tudo isso aconteceu devido a nosso próprio ego, ao egoísmo de cada um de nós. Se tivéssemos escolhido o caminho do amor, tudo seria evitado. Mas não... escolhemos o do egoísmo. Agora é tarde demais... tarde demais...

Deixo estas linha trágicas porque acredito que um dia... alguém... as lerá.

      Meu Blog : www.poemasdoterminoecontosdofim.blogspot.com
Alessandro Reiffer
Enviado por Alessandro Reiffer em 05/08/2006
Reeditado em 23/08/2006
Código do texto: T209853
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Sobre o autor
Alessandro Reiffer
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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