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O Fim Trágico

Sentia-me irremediavelmente farto, exausto da vulgaridade e hipocrisia da cidade, e decidi, portanto, isolar-me da civilização decadente, passando um tempo na distante fazenda de meus parentes, onde, em vívido contato com a natureza selvagem e sombria, poderia buscar profunda inspiração para minha fatigante mas prazerosa tarefa de criar contos.

Posso dizer que os primeiros dias de minha estada no campo foram verdadeiramente magníficos; pude obter uma paz de espírito que há muito não sentia, uma serenidade absoluta para analisar minha existência; a natureza exercia sobre minha psique uma força espiritual completamente impossível de ser descrita. Verifiquei comovido a calma e a sinceridade no olhar de meus tios e primos, as tradições de valores ainda preservadas, a confiança no próximo como já não há na cidade. Cada local, cada canto da fazenda, por onde eu perambulava, infundia em meu mundo emocional uma série de sentimentos inefáveis, que eu reconhecia como muito antigos. Idéias arquetípicas assombrosamente ancestrais tomavam toda minha alma, eu revivia o passado, o meu próprio passado, o passado do inconsciente coletivo da humanidade de forma tão intensa que senti calafrios percorrerem a coluna. Não de medo, mas de assombro. Em minha sensibilidade exacerbada, cada animal que avistava, cada árvore que contemplava, cada flor que surgia em meu caminho, o próprio aroma silvestre do ar, os cantos de miríades de aves que invadiam meus ouvidos, eram motivos de altos arrebatamentos e êxtases secretos. E tais comoções, talvez esquisitas para o leitor, simultaneamente despertaram em meu coração e mente todo o significado da magia do sexo feminino, o significado do amor de uma mulher a um homem...

No entanto, e escrevo este “no entanto” com insuportável peso no coração, com o espírito dolorosamente pesaroso, os dias de paz e tranqüilidade passaram-se de forma dramática e sem deixar vestígios. Comporto absoluta consciência da gravidade dos fatos que a seguir serão narrados e creio que seja o que for que tenha ocorrido, inquestionavelmente está relacionado ao futuro de toda a humanidade.

Sucedeu-se que certo dia, que a princípio teria tudo para ser esplêndido como todos os outros, amanheceu de forma estranha e aziaga. Eu próprio não tivera uma saudável noite de sono. Fui assaltado por hediondos pesadelos febris, onde ouvia vozes irreconhecíveis que sussurravam aos meus ouvidos maldições e acontecimentos catastróficos. Em certo momento, tive a nítida sensação de que algo invisível se movimentava em meu quarto, e ainda não sei dizer se isso foi realmente um sonho, pois tive a certeza de ouvir sons de alguma coisa viva, mesmo que não saiba dizer exatamente o quê. Ao levantar-me do leito, uma opressão emocional tomou conta de todo meu ser. Angustiado, dirigi-me até a cozinha, onde, todos reunidos, apreciaríamos o café da manhã. Como sempre, a mesa já estava posta, mas, daquela vez, ao contrário das anteriores, ela parecia triste e sem vida. Da mesma forma, meus parentes transmitiam uma carregada sensação de preocupação, de nervosismo infundado, a mesma apreensão que me afligia. Questionei-os sobre os possíveis motivos de todos nós estarmos passando, concomitantemente, por tão expressiva depressão de espírito, e todos mencionaram os pesadelos que tiveram, muito semelhantes aos meus. Passamos todo dia nesse estado melancólico.

Na noite subseqüente, os pesadelos retornaram de maneira invariável em todos nós. O dia surgiu triste e pesado, intensamente frio, ventando e garoando irritantemente, de forma anormal para a época do ano, principalmente para a temperatura. Mas o mais terrível em tudo isso, foi que eu e meus parentes principiamos a sentir pela casa uma presença alheia, algo que não soubemos definir, mas que todos classificavam como lúgubre e ameaçador, que nos rondava, observava-nos com medonho ódio pelo gênero humano. Nossa intuição captava uma atmosfera de sofrimento e hostilidade. No dia seguinte, tal sensação representou-nos cessar, e recobramos um pouco nosso estado de ânimo. O dia, ainda que nublado, estava mais ameno, e decidi sair e dar uma volta pelas cercanias, com a intenção de, em contato com a natureza, readquirir a energia psíquica perdida. Contudo, lamentavelmente ocorreu o inverso, e retornei para o sobrado da família perplexo e aturdido com as sensações e visões que presenciei.

Já nos primeiros momentos de minha caminhada, percebi que havia algo de errado no clima emocional do ambiente. Não me infligia a saudável paz e serenidade de costume, mas uma sensação de medo e pavor indescritível. Não obstante, estava decidido a seguir em frente, a cruzar toda a região de campo até atingir a bela e imponente mata nas imediações de uma sanga. Porém, à medida que me aproximava de meu destino, aquela opressão angustiante retornou e minha alma era um misto de medo e depressão. Abatido e perturbado, prossegui, enquanto a odiosa certeza de que uma presença ameaçadora e inumana pairava no local arrepiava-me os cabelos. Atingia já as proximidades da mata, quando, olhando ao meu redor, tive o infeliz vislumbre de que era observado por uma infinidade de olhos luminosos mas furiosos, que miravam-me como rebelados e revoltosos. A opressão e depressão anímicas eram agora muito mais incisivas e aniquiladoras do que as que vivi na casa anteriormente. Entretanto, apesar do horror, penetrei na mata. A partir daqui tenho real desejo de calar-me, mas devo prosseguir.

A princípio, senti-me adentrando em um pesadelo, naquele mesmo que me assolou nas últimas noites. A sensação era idêntica, tanto que eu ouvia as mesmíssimas vozes sussurrarem holocaustos e maldições, sem que eu pudesse identificar de onde provinham. Em seguida, dentro do mato sombrio, tétrico e macabro, um sem-número de vultos brancos e esverdeados, de aspecto feminino, iniciaram um movimento alucinado com uma dança demoníaca, ou uma manifestação ritualística das ancestrais tradições pagãs. Ainda não sei explicar o que me levou a permanecer naquele bosque medonho, não sei nem como cheguei até lá, mas o fato é que já não era mais senhor de minha própria vontade. Uma força maior e hipnotizante outorgava-me a presenciar todo o desenrolar dos terríveis acontecimentos.

Tive, em continuidade, a certeza de que aqueles seres que dançavam canhestramente pela mata eram os mesmos que eu sentira vagar em meu quarto durante os pesadelos. Esclareço que tal certeza foi puramente intuitiva. Mas o pior ainda estava por vir... Escutei um som intensamente perturbador oriundo da sanga e estaqueei paralisado, dominado pelo mais tenebroso pavor que senti em minha vida. Passos se aproximavam, e eu não podia movimentar o mínimo músculo. Então, seja o que for que caminhasse em minha direção, parou de repente e pronunciou em um tom sentencioso e imperativo, longe do alcance de minha visão, com uma voz atormentadoramente grave:
- Agora vai, mas retorna aqui esta noite.

Desnecessário dizer que obedeci à ordem e fugi desvairado em direção ao sobrado. Chegando lá, estarrecido, encontrei meus parentes sentados na frente da casa, em estado de total desolação. Simplesmente, sem me questionarem nada e nem perceberem meu estado de perturbação, disseram-me:

- Todas as cidade perto da nossa fazenda foram destruída por uns bicho e umas coisa que ninguém sabe o que é. E nas cidade perto do mar diz que saíram da água uns monstro horrível e que mataram todo mundo.

Imediatamente, associei tal desastre absurdo ao que vi e ouvi na mata, e em momento algum, não sei por quais motivos, duvidei da veracidade ou da sanidade mental de meus parentes. Não comuniquei a eles nada do que presenciei e, rapidamente, dirigi-me a meu quarto. Anoiteceu, e somente um pensamento martelava em minha mente: a ordem da voz medonha. Não me preocupava se realmente as tragédias relatadas por meu tio ocorreram, no fundo, sabia que era verdade. Então, sem um motivo aparente, levantei compelido a cumprir a ordem, estranhamente sem medo, em absoluta serenidade e mecânica confiança.

Passados alguns minutos, já me encontrava nas imediações da mata, com a calma e tranqüilidade daqueles que não têm mais esperanças. De forma inexplicável, todo o medo e nervosismo desapareceram. Estava ali para cumprir uma ordem de um ser desconhecido. Também devo dizer que nenhuma das visões fantasmagóricas da tarde voltou a assediar meus sentidos. Então, naturalmente, voltei a me achar no exato local onde escutara a lôbrega voz. Não havia nada, fora as árvores, incluindo uma gigantesca que logo me chamou a atenção. Não sei definir a espécie. Porém, segundos depois, algo principiou a ocorrer... Da árvore enorme, uma luz esverdeada pareceu-me sair e tomar a forma de um ser levemente antropomórfico. Possuía grandes olhos violetas e, fitando-me fixamente, assim falou, com a mesma voz gutural que me apavorou à tarde:

- Meu jovem, devo dizer-te algo. Está encerrado o ciclo desta humanidade. Foi uma plantação que não deu frutos, a não ser com algumas poucas exceções, mas, no geral, é uma colheita perdida, pode já ser descartada para que advenha o novo. Estamos diante do lixo do universo, o mundo que o homem construiu, ou destruiu. Nós, como almas da natureza, e cansados de sermos massacrados pela tua raça degenerada, temos ordens expressas de dar um basta a tanta degradação, varrendo-os como se varre a poeira. Os homens, neste estado em que se encontram, não são nada. De onde vocês tiraram que são alguma coisa?... Quem escreveu este... digamos... conto, quer terminá-lo logo.

- Desculpe, mas não entendi. Que conto?

- Ora, tu não escreves contos? Pois saibas que também fazes parte de um, não passas da criação de um... escritor insatisfeito. Ele já está cansado destes personagens e deseja criar outros. No entanto, os personagens atuais serão reciclados para mais tarde servirem a outras obras. “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, não é assim?
Alguns seres serão reciclados para um outro uso similar ao que já tiveram. Já outros, os raros que realmente foram frutos da colheita, terão uma função bem mais elevada. E ainda outros talvez nem seja possível reutilizar. Mas a verdade é que a grande maioria dos homens não passa de reles figurantes, formiguinhas que se esmaga com o pé. Por que tanto orgulho? Não se deve se orgulhar de ser poeira cósmica. Outro conto será feito, este chegou ao fim, a um trágico fim.

Meu Blog : www.poemasdoterminoecontosdofim.blogspot.com
Alessandro Reiffer
Enviado por Alessandro Reiffer em 15/08/2006
Reeditado em 23/08/2006
Código do texto: T216775
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Sobre o autor
Alessandro Reiffer
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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