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A morte de George Graves.

     Uma multidão se forma do lado de fora do edifício Roial. Um homem de aproximadamente quarenta anos ameaça pular do vigésimo andar. A policia e o corpo de bombeiros já foi contactada, mas nada parece impedir o homem de cumprir seu  intuito.
     De repente o povo se afastou, e um circulo se formou em volta do corpo em estado degradante. Claro que uma queda dessas não poderia trazer como conseqüência apenas alguns ossos quebrados, impossível e imaginável, mas o fato era que o homem, sem qualquer hesitação, pulou daquela altura impressionante. O corpo de bombeiros fez sua parte: veio o mais rápido possível, a socorro de um suicida.
     Vários motivos podem levar uma pessoa a cometer um suicídio, mas no caso de George Greves esses motivos merecem uma reflexão no mínimo profunda. Antes de pensar em tal ato e depois praticá-lo sem nenhum remorso George estava tranqüilamente no seu escritório revisando antigos contratos com indústrias petrolíferas. Ele era presidente de uma respeitável organização que, entro outros negócios, controlava toda a rede de indústrias de carvão e petróleo, além das que fabricavam pneus. Essas indústrias estavam na lista das mais poluentes do mundo. Depois de receber varias advertências de órgãos de controle de poluentes e de emissão de gases tóxicos George reforçou ainda mais a produção fazendo com que a emissão de monóxido de carbono subisse a índices jamais vistos em nenhum país desenvolvido. É claro que com essa ação ele ganhou vários desafetos, desde o greenpeace até o papa.
     George não estava nenhum pouco preocupado com as queixas das autoridades ambientais. Seu principal objetivo era o lucro, a riqueza que ele levantava com a crescente produção de combustível, uma das maiores fontes de riqueza do mundo. Não tinha tempo para a família, em particular, seu filho de quatorze anos que tenta buscar nas drogas uma atenção que não teve durante sua infância.
Eram onze da manha quando ele foi interrompido por sua secretaria:
- Senhor Graves, chegou uma encomenda para o senhor.
     Geoge ficou surpreso, afinal ele não havia encomendado nada e seus sócios geralmente não o presenteavam a não ser em épocas especiais. Com certo receio ele colocou o pequeno embrulho em cima da mesa e continuou a ler os contratos.
     Depois de assinar todos os contratos George pegou o embrulho e o abriu. Ficou novamente surpreso quando viu que se tratava de uma pequena estatueta de forma pitoresca. Tinha cabeça de macaco e corpo de homem, com os braços abertos e pernas cruzadas. Em cada mão havia um pequeno pergaminho no qual parecia ter algo escrito. As letras eram muito pequenas, porem legíveis. No pergaminho da mão direita dava-se para ler, embora com certa dificuldade a seguinte frase: "no passado o monstro devora". No pergaminho da mão esquerda lia-se o seguinte: "no futuro o monstro dorme satisfeito".
     George não conseguiu entender o que estava escrito naqueles pequenos pergaminhos. A estatueta tinha uma cor preta meio desbotada, parecia nova ou recém fabricada. Examinando melhor o objeto George viu uma terceira frase, desta vez nas costas da estatueta. Essa frase, porém, estava em francês, mas George pode traduzi-la sem nenhuma dificuldade, dizia o seguinte: "com sua mente aberta veja o futuro que quiser; porém arque com as conseqüências".
     De posse do objeto George tentou imaginar o que ele poderia conseguir com a remota chance de ver o futuro, talvez mais riqueza e poder, ou melhor o controle sobre todas as grandes indústrias espalhadas pelo mundo, a chance de se tornar o patriarca do petróleo - “seria genial” - pensou ele. Mas as possibilidades que lhe vinham na mente eram tão sedutoras que ele passou a acreditar  na estatueta ou no poder que ela podia conter. O difícil seria encontrar o modo de fazê-la funcionar, já que não há qualquer instrução de como manipula-la. De pé em frente a janela de seu apartamento George continuou observando a estatueta tentando encontrar um modo de usá-la, mas nada ele conseguiu encontrar. “E se, talvez,  o poder não se manifeste na estatueta e sim em minha mente, ora , só quem pode ver o meu futuro sou eu e não ela!” pensou George.
     Segurando a estatueta com firmeza George tentou imaginar como seria o mundo daqui a dez anos. De repente suas mão esquentaram e um suor escorreu de seu rosto, na verdade, a temperatura do corpo de George começou a subir como se uma febre súbita o atacasse. Um delírio instantâneo começou a povoar sua mente e mesmo de pé em frente a janela ele parecia sonhar. Sentindo-se leve George parecia flutuar sobre a terra. O céu acinzentado e o tempo quente e abafado o fazia transpirar copiosamente. A sua frente um grande portal, de forma semi-circular, com detalhes a ouro e emoldurado com rubis sem nenhum muro em volta bloqueava seu caminho. Então George percebeu que em sua mão esquerda havia uma chave, tão dourada quanto o portal e com ela conseguiu abrir. Ao passar o portal o chão começou a perder consistência, parecia se desmanchar com o peso de dele. Ele descia uma colina e lá embaixo ele via uma grande cidade, aparentemente devastada por uma guerra, apenas os grandes edificos se mantinham de pé.
     Chegando ao centro dessa cidade ele foi abordado por um menino. Este lhe pediu água, mostrando as mãos sujas de sangue. Curioso, George perguntou por que o menino tinha as mãos sujas de sangue. Este então respondeu: “tentei salvar minha mãe, mas ela não parava de sangrar, pois os homens maus tentaram matá-la. Meu irmão disse que ela morreu, mas eu não acredito”. Dito isso o menino correu para um beco onde desapareceu na escuridão. George olhou para o chão e então percebeu que aquela sensação ruim de estar pisando no ar havia desaparecido, pelo menos a principio. Seguindo pela avenida ele observa dezenas de carros incendiados e prédios destruídos. Havia pessoas feridas nas calçadas e mortos confinados em fileiras sem fim. Bem a frente ele consegue enxergar um grande edifício cinza escuro, bem espelhado, de arquitetura avançada. Quando George se aproximou viu uma enorme placa onde estava escrito “Companhia Graves”. Olhando para cima George percebeu que apenas as luzes de uma das centenas de salas estavam acesas. Estranhando o que estava escrito na placa George resolveu entrar no edifício. “Será que Graves se refere a mim?” pensou ele. O elevador estava funcionando normalmente e através dele George conseguiu chegar ao último andar onde as luzes estavam acesas. Na porta da sala estava escrito “George Graves, presidente e patriarca do petróleo norte-americano". Abrindo a porta ele vê a si mesmo sentado a mesa, cabeça curvada no que parecia ser um livro de muitas páginas, aparentemente estava dormindo. George ficou espantado com o que viu, a sua própria figura ali sentada, claro que mais velha, talvez uns vinte anos. Ele se aproximou de si mesmo, com certa cautela. O George do futuro, um patriarca do petróleo, parecia muito cansado. O edifício parecia deserto, nenhum funcionário a vista. Havia grande desordem no escritório, papeis amassados, copos quebrados e quadros caídos, como se um terremoto tivesse passado por ali. George sentiu um mau estar e a velha sensação de estar flutuando lhe acometeu. A janela do escritório onde estava parecia ficar transparente. Lá fora escurecia com rapidez e o céu acinzentado deu lugar a um preto inconfundível de noite sem lua. George sentiu como se mais dez anos se passassem. Suspenso no ar ele olhou para baixo mas só o que via era escuridão, como se o chão tivesse deixado de existir. George se sentiu pesado e seu peso o fez descer cada vez com mais velocidade.
     George pareceu pousar numa espécie de tela feita de aço. Ele percebeu que toda a superfície era composta do mesmo material e através dela podia-se ver a escuridão total de um abismo sem fim. Ao seu redor pessoas viviam como animais se alimentando de ratos e rastejando, como se tivessem perdido a noção de andar. George seguiu em frente tentando encontrar o caminho para o seu edifício no futuro. Aquela escuridão não tinha fim, não dava para enxergar nada. De repente ele viu um velho que se apoiava numa bengala, o único cidadão que não rastejava. Na ancia de abordá-lo George teve uma surpresa. Aquele velho não era ninguém mais do que ele mesmo, quarenta anos mais velho. Suas mãos estavam congeladas e o rosto pálido, mau podia falar. As únicas palavras que ele conseguiu pronunciar foram "eu sou o seu futuro". Ao fundo George ouvia gemidos de pessoas mortas de fome. O ar estava irrespiravel tamanha a poluição predominante desde o fim da industrialização. Devido aos gases poluentes as novas gerações sofriam mutações genéticas até chegar nessa nova raça de seres rastejantes e irracionais.
     Sentindo-se mais leve do que nunca George conseguiu alcançar o espaço e de la ele viu a cena mais impressionante: a terra não passava de uma esfera cinzenta sem forma definida e sem vida.
     Recobrando-se de seu sonho, ou delírio, George ouviu uma voz, uma voz seca mas ao mesmo tempo vibrante, que dizia "esse é o seu futuro e você não pode mudá-lo".
Mazin Queiroz
Enviado por Mazin Queiroz em 16/08/2006
Reeditado em 16/08/2006
Código do texto: T218194
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Sobre o autor
Mazin Queiroz
Gama - Distrito Federal - Brasil, 32 anos
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