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O Dia Sombrio

                                                   “...não sei por que, fui invadido por insuportável tristeza.”

                                                                                                Allan Poe

Surgira a aurora, mas não era uma aurora. Atingia-se já as 8h da manhã, porém o sol não raiava, conquanto se soubesse que ele estava lá, como sempre esteve, e podia-se ainda avistar uma débil luminosidade raquítica, uma esfera acinzentada por trás de uma espessa sombra. Contudo, era quase tão escuro quanto a noite. Em real, em termos de luminosidade ambiental, não havia amanhecido. Uma completa e terrível sombra imperava em todo o céu, em toda a terra. Uma sombra inexplicável, de origem absurdamente desconhecida. Um pavor tenebroso dominou todos os habitantes daquela infeliz região, oprimidos por angustiante dúvida. Não era tão somente uma sombra, era uma névoa negra, pesada e agourenta, uma neblina infernal, que irradiava uma deprimente sensação de estar viva, de ser um bafo virulento emitido pelas entranhas sobrenaturais de algum monstro alucinado de mitologias assombrosamente ancestrais. Era um ímpio hálito do ominoso, em espectros de negros paroxismos.

De onde surgira tamanha fantasmagoria? Que impuro demônio expelira de seu corrupto ego tão profunda escuridão? Que maldição infanda cobria zênite e horizonte de tão carregadas trevas? Essas eram as trágicas perguntas que seguramente assolavam a mente de homens e mulheres que, como desgraçados, perambulavam na desolação da penumbra hedionda.

E todos os governantes e políticos, líderes e autoridades, cientistas e religiosos, todos os mais altos membros daquela civilização decadente reuniam-se em seus esplêndidos gabinetes e câmaras, templos e catedrais, institutos e ministérios, para encontrar uma saída, a solução do dantesco problema. Questionavam-se tais senhores se a odiosa sombra seria fruto da fumaça de indústrias e automóveis, ou do efeito-estufa, ou da destruição da camada de ozônio, ou das queimadas e do desaparecimento das formações vegetais, ou de chuvas contaminadas, ou como resultado do inverno nuclear causado pela detonação de alguma bomba atômica, ou se todos esses elementos reunidos. E em seu desespero e impotência vergonhosos, os mais respeitáveis ícones da sociedade arrancavam aos punhados seus cabelos.

Apesar de todas as medidas tomadas, verdadeiramente ridículas, a treva permanecia medonha e soberana, e nem ao menos um vestígio de autêntica luz dava sinal pelo empíreo. Muito pelo contrário, a escuridão se adensava cada vez mais. Tanto  que após vários dias afundados no breu atmosférico, a maioria dos habitantes  passou a sofrer de inexorável depressão. E passadas mais algumas lúgubres semanas, principiou-se a distinguir-se por entre a odienta névoa uma movimentação funesta e indeterminável. Eram vultos negros que aparentavam tomar forma supostamente corpórea, alimentados pela escuridão. Tais vultos formavam-se aos milhares, aos milhões, e em vertiginosas velocidades locomoviam-se por todos os cantos da noite infinita, vociferando guinchos abomináveis. Em determinado momento, aquelas pragas proliferadas nas trevas, por inusitados e sentenciosos desígnios, foram ordenadas, por incógnitas vozes que pairavam no escuro, a penetrar nos organismos humanos. E o fizeram.

Aos poucos, a deprimida população transformou-se em hordas de seres psiquicamente possuídos por negros entes de duvidosa e repulsiva existência, que obrigavam os humanos a rastejar degradados pelo lodo infecto, a tornarem-se robôs programáveis, autômatos que jamais ousariam duvidar do comportamento imposto pelas obscuras entidades. Arrastava-se pelas ruas um resto de humanidade absolutamente mecânica, seres vegetativos, sem pensamentos, desprovidos de sentimentos, cuja própria alma resultava miseravelmente aniquilada.

E tais existências desprezíveis deslocavam-se pela escuridão como zumbis perdidos em meio ao caos. De seus olhos unicamente irradiava-se a morte e a decadência, a ausência de quaisquer resquícios de sensibilidade, de manifestação de amor ou de profundidade anímica. Era a formação da infra-humanidade, a involução definitiva, o fim absoluto de tudo de grandioso, de digno, de sublime que ainda restava, se é que restava, dentro do homem. Eram tão somente organizações carnais preenchidas pela treva, superfícies tridimensionais aguardando o dia da morte.

Contudo, após passarem-se anos repletos da mias fúnebre e holocáustica escuridão, surgiu da funda e completa entropia, uma mulher, melhor dizendo, uma menina que possuía olhos, considerando-se "olhos" em um conceito muito além do meramente orgânico, mas espiritual. Possuía olhos no sentido de que possuía alma, de que suas íris e pupilas não expeliam unicamente imbecilidade, perdição e  estupidez, porém luz, luz advinda do Íntimo Combate, e vida, vida nascida do Grande Conflito...Luz que o mundo não foi capaz de entender. Na plena solidão, como águia entre suínos, Cristiana Mariatti(esse era seu nome), refugiou-se em uma distante colina, onde a treva era um pouco menos brutal, devido à altitude. E foi em uma de suas solitárias visitas ao local que a menina contemplou aquele tremendo acontecimento inexplicável, que a surpreendeu, mesmo estando imersa entre tantas inexplicabilidades. Tal fenômeno será descrito a seguir, ainda que de forma incipiente, incompleta, posto que se encontra decidamente muito além de descrições verbais, e toda sua amplitude e significado intrínseco não poderão ser limitados a simples palavras.

Ocorreu que estando Cristiana repousando desolada no alto da colina, em determinado momento, não obstante a densidade da negra neblina, a menina pôde observar, a algumas centenas de metros, que vários vultos inclassificáveis, possuindo desmedida altura, aparentemente apresentando asas, não sendo possível para Cristiana distinguir nada mais  a respeito dos seres, movimentavam-se sinistramente por algumas árvores secas, desfolhadas. Cristiana percebeu que os vultos agachavam-se com irritante freqüência, dando  entender que intentavam olhar para dentro de algo como um poço, ou similar a um poço. Permaneceram dessa forma por alguns minutos, até que a jovem vislumbrou que de algum ponto indefinível, assomou um outro vulto muito maior que os primeiros, espantosamente imenso, portando um objeto que Cristiana classificou como uma estranha chave. O gigantesco ser também apresentava asas, imponentes, e, aparentemente, sua coloração geral era purpúrea. Isso era tudo que se podia afirmar sobre ele. O mais curioso, no entanto, foi que todos os outros vultos menores, ao perceberem a aproximação do ser purpúreo, debandaram freneticamente, emitindo horripilantes grunhidos cavernosos. O grande vulto, então, encontrando-se só no local, acercou-se do provável poço, manuseou o que seria a misteriosa chave e, em seguida, afastou-se.

Aqui chegamos ao momento crucial, que dificilmente poderá ser transmitido nos devidos termos ao leitor. O que Cristiana contemplou estarrecida constitui-se, apenas de maneira aproximada, no seguinte:

Imediatamente após o afastamento do vulto violeta, uma alucinante luminosidade ascendeu violentamente do suposto poço. Uma luz indescritível, constituída de infinitas variações de cores, muitas delas desconhecidas pela ciência, de cintilações terrivelmente deslumbrantes, um brilho de magnitude espectral além de todos os padrões cientificamente reconhecidos. A luz magnífica ascendia até uma altitude incomensurável, fora do campo visual de Cristiana, perfurando a escuridão, constituindo uma hercúlea coluna cilíndrica dirigindo-se reverberante os céus. A jovem, ao vislumbrar tão intensa e titânica formação luminosa, foi tomada de terríveis comoções inefáveis. Na verdade, a luz sobrenatural foi que infundiu em sua psique sensibilizada miríades de emoções indefiníveis, como se estas brotassem das cores miríficas da coluna formidável. Impossível seria aqui estabelecer todos os sentimentos que inflamavam a alma de Cristiana, todavia, basta dizer que ela foi arrebatada em exaltações espirituais até alturas inimagináveis.

Do monumental jato de luz era como se milhares de olhos do além fitassem insinuantes o rosto extasiado da menina, insuflando um sem-número de aspirações e anelos de vida, de amor, de força, de inquietações na busca do sublime. Ela sentia-se beijada com magnânima ternura por lábios invisíveis, em sua mente projetavam-se idéias de imponentes sinfonias, de poemas apaixonados, e no seu coração incendiado, um poder cósmico vibrava em esplêndidas ressonâncias.

Porém, a portentosa coluna de luz findava-se, dirigindo-se totalmente ao desconhecido. O que era ela? De onde provinha? Qual seu significado? O ambiente que estivera integralmente iluminado, agora voltava às trevas hediondas, ao cenário apocalíptico. Mas Cristiana mantinha em si a luz que contemplou. Era sua secreta essência divina que ainda vibrava. Seu Ser mais íntimo, seu âmago incompreensível. Arcano indecifrável, a saída que ninguém entendeu. O germe do Alto-Humano, que em quase todos fracassou, mas não em Cristiana. Nela ainda brilhava e crescia, magnífico, além do bem e do mal, de conceitos e de crenças, de religiões, ciências ou filosofias... Enquanto isso, a coluna de luz das almas humanas, das almas perdidas, expulsas dos corpos pelas trevas, ocultava-se nas esferas nebulosas do Infinito, mergulhando para todo o sempre, grave e solene, em um enigma inconcebível e perturbador...

                                                                           Meu Blog : www.poemasdoterminoecontosdofim.blogspot.com
Alessandro Reiffer
Enviado por Alessandro Reiffer em 20/08/2006
Reeditado em 23/08/2006
Código do texto: T220655
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Sobre o autor
Alessandro Reiffer
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil, 38 anos
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