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O Retorno (As vezes elas voltam...)

        - Vem, preciso lhe mostra algo!
- Não posso, tenho muita coisa pra fazer.
- Só um pouquinho, você já volta.
- Pra onde vamos?
- Siga-me que eu te mostro.

***
Estou desconfiando que alguém possa estar me seguindo, faz pouco tempo que sai do meu trabalho, mas essa sensação continua me perseguindo, pode ter sido a cocaína, mas já faz muito tempo que a consumi, será delírio? Passei como diariamente pela avenida principal que seguindo uma pequena rua ao seu final, dá para minha casa. Observei os carros, as construções, mas parecia que elas se dissolviam, as luzes piscavam, não conseguia escutar, tudo parece estar vazio, mesmo assim, aquela estranha intuição parece não ter me abandonado, posso sentir um bafo sufocante, um olhar letal sobre mim.
 - Vou enlouquecer o que está acontecendo...

***
- Onde você está me levando, já estamos longe de casa.
- Vai ficar com medo? Está logo ai no quintal dessa casa abandonada.
- Não devíamos entrar ai, pode haver ratos, e cobras, e se alguém...
- Venha, é rápido!

***
Ao me aproximar do portão, olhei atentamente a pequena rua, todos os habitantes possivelmente estariam jantando, como normalmente, mas hoje havia algo que não seguia minha estúpida rotina. Estava uma noite agradável, um vento frio que saciava o calor deste aparvalhado verão, as árvores balançavam toscamente, contudo, não posso deixar de sentir-me acurralado, há algo de errado acontecendo, alguém está ai, pronto para a qualquer momento revelar-se. – Apareça...quem for, merda!

***
- O que você quer me mostra, posso sabe?
- Na verdade tenho que lhe contar algo.
- Cuidado com o poço, é fundo, você pode cair.
- Olhe pra mim, deixe o poço de lado, o que tenho que falar é muito difícil.
- Então ande logo com isso, tenho que...
- Faz anos que nos conhecemos, e o que quero lhe dizer é que... não consigo mais segurar o desejo que sinto de você.

***
Lentamente abri a porta, fechei-a, isso me aliviou um pouco, tudo parecia estar como sempre, mas algo me assombrou, havia um barulho que parecia estar vindo de algum lugar distante. Como se algo me atingi-se ferozmente, uma força sobrenatural invadiu-me, e então subitamente entrei em meu quarto. O medo se apoderou de mim, sugou-me completamente, tremi, chorei, mas incrivelmente não havia nada de diferente ai. – Você só pode estar doido mesmo, tenho que esquecer o que aconteceu.

***
- Desculpa, mas pra mim você é apenas meu querido amigo.
- Isso é mentira! Sei que sente algo a mais por mim. Não fuja disso.
- Você está confundindo as coisas. Pare com isso, largue-me.
- Não se faça de tão difícil, serei apenas mais um de tantos.
- Pare de me beijar, tire a mão daí. Ta pensando o que heim?
- Que você é a maior vadia que existe e ta doida por mim.

***
As coisas estão ficando estranhas, não gosto disso, preciso espairecer, tudo parece fora de controle. Fui ao banheiro, despi-me e entrei no chuveiro, a água quente descendo pelo corpo me aliviou, o vapor que daí saia, fazia com que minha mente se esvaziasse, fosse arrancada e transportada para algo sobre-humano. Então, loucamente, senti que alguma coisa estava se despedaçando, vi minha pele escorrer, confundir-se a enorme quantidade de sangue e cabelos que eram sugadas pelo ralo. Olhei-me no espelho, observei a aberração em que tinha virado, uivei de dor, então o quebrei, senti suas pequenas pontas afiadas atravessarem a horripilante múmia que estava, cortarem meus músculos, ossos, órgão. Estirado no chão, debatendo-me no restante de vida que possuía, pelo reflexo dos vidros, vi ela, seu olhar assombroso, seu riso demoníaco, senti sua vingança rasgar-me até finalmente morrer, morrer, morrer. – Satisfeita seja sua louca vontade, vadia!

***
- Não, não, pare, chega!
- Você me quer eu sei, sinta-me, saboreie o prazer que posso lhe dar, não resista.
- Solte-me, ta me machucando, não faça isso! Ai, ai, pare, ai, chega.
- Vou fode-la tão ferozmente para que nunca se esqueça do que é sentir meu corpo invadindo o seu, e fazendo dele meu, para toda eternidade.
  - Você vai ser preso! Pare, não estou mais agüentando.
- Não me importo, tive o que queria, gozarei sempre ao lembrar dessa noite. Agora, adeus, minha doce vadia, faça companhia a sua companheira Samara1.
- Por favor, não me jogue lá, não irei denunciá-lo, por favor.
- Tarde demais!

***
Antes de morrer, ao observá-la, lembrei-me de seu desesperado rosto enquanto caia profundamente, e que nunca mais seria achado. Sempre que transava imaginava seu corpo escultural, sua pele quente e delicada, seus gritos ainda me faziam acordar e reparar o quão molhado e excitado estava, seus seios fartos, sua gruta apertada, enlouqueciam-me ao recordar. Agora, o que me resta é compartilhar a solidão, a frieza, o abismo, o agouro do mal que me envolve, e ela ao meu lado, podre e decomposta, castigando-me eternamente.
– A água está fria, não está, não se preocupe, irá se acostumar, querido amigo!
ThOuGhTfUl
Enviado por ThOuGhTfUl em 20/08/2006
Reeditado em 21/08/2006
Código do texto: T220663
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Sobre o autor
ThOuGhTfUl
Nova Erechim - Santa Catarina - Brasil
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