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Noite

Havia chegado em casa por volta das duas da manhã. A impressão que tinha ao olhar pela janela de meu apartamento era de total desolação. A cidade, outrora efervescente e implacável, dormia.

O vento, ao se encontrar com o vidro da janela, assobiava forte, compondo uma estranha sinfonia que sombriamente acalentava aquele monótono enredo que lá fora persistia. Estava frio, mas o que mais me desconfortava era imaginar que o torvo manto da noite, ávido por aumentar suas posses, como se insatisfeito com o mundo que insaciavelmente engolira, houvesse invadido meus domínios ao se propagar pela sala. A escuridão, confundindo-se com os antigos móveis de madeira, escondeu a harmônica impressão de austeridade que os mesmos prestavam ao ambiente. Resignado, observava a única alma que encontrara.

Um pobre mendigo, abrigando-se em caixas de papelão, espremia-se num dos bancos da praça, tentando encurtar a longa noite que ainda tinha pela frente. Os poucos carros que transitavam passavam atônitos, alheios a sua miséria, sôfregos por concluir a curta jornada que lhes faltava. O velho espremia-se ainda mais ao ruído dos motores e discretamente tentava concentrar-se um tanto sequer no barulho da marola indo de encontro à balaustrada.

Quisera ter chegado mais cedo. A sala escura e silenciosa só me trazia pensamentos indesejados. Quantas injustiças havia sofrido e quantos erros tinha cometido. Arrependia-me de não poder ser melhor e orgulhava-me de ter resistido. O que estava fazendo?

O velho se levantou e começou a caminhar de braços cruzados. Como se vencido, parou na esquina e baixou a cabeça aparentando aguardar a tão temida sentença por mais uma noite.

Dei o último gole em minha garrafa e abandonei-o a mercê da glória que anseia cada combatente antes da última batalha. Impossível imaginar quantas experiências estavam sendo revividas naquele momento, quanto calor se esvaia ao som de desejos incitadores.

Queria adormecer logo.

Os pensamentos ecoavam. Encolhia-me com todas as minhas forças. Sentia-me desprotegido, à mostra. Tentava esconder cada parte desnuda de meu corpo sob o cobertor. Minhas pálpebras pressionavam-se a ponto de tornarem-se únicas e minha garganta, já seca, ardia à passagem do mais frágil sopro de ar. Foi quando percebi sua presença...

De início, recusei-me a senti-la. Não queria vê-la e censurava qualquer movimento que meu corpo almejasse fazer. Quanto tempo mais teria que esperar até que deixasse meu quarto?

Era tão indesejada e, entretanto, ainda estava lá...

Meus pensamentos transformaram-se em murmúrios. Eu deveria desafiá-la. Somente assim poderia me libertar. Suas visitas estavam cada vez mais constantes. Preces, pedidos, silêncio; nada adiantara. Acreditem. O frio consumia minhas forças, fragmentava minha alma. Os murmúrios de minha mente confundiam-se com gritos alucinantes. Estava em pânico...

Quem seria a solitária visitante das noites? O que almejava?

Decidi agir. A penumbra, lentamente, começou a escorrer por meus olhos. Chegara o momento do confronto. Vi pequenos fachos de luz alternando-se sob o teto, vindos da janela. A vida lá fora não havia cessado. Ainda estava sobre meus domínios. Enquanto assim o fosse, sabia ter uma chance. Apertei minhas mãos contra o peito e, discretamente, voltei minha cabeça para esquerda até avistá-la pela primeira vez.

Como eram frágeis meus olhos...

Ali estava sua silhueta, ajoelhada sobre a cama, esguia, alva. Parecia absorver às intermitentes luzes que teimavam em desafiar a escuridão. Não consegui ver seu rosto. Era vazio, fosco. Sua cabeça estava baixa e, tal qual um penitente, concentrava-se em observar os súplices movimentos de seu braço. Com gestos suaves, deslizava sua mão a poucos centímetros de meu corpo, em meio às últimas gotículas de orvalho que pairavam no ar.

Aparentava haver enebriado-se numa reza fervorosa. Estava receosa, como se tentasse, desesperada, libertar-se de sua imaculada pureza, clamando apenas, por um único instante, por um simples momento, pela oportunidade de trocar toda sua existência sacra e, pela última vez, num sopro de vida, ter novamente a chance de tocar um corpo. Era indescritivelmente belo e ao mesmo tempo mórbido.

Foi então que suspirei, tímido, assustado, mas o suficiente para espantar aquela angelical figura que naquela noite visitara meu quarto mais uma vez.

Lembro tê-la visto encolher o braço e voltar seu rosto para mim, e nada mais...

Na manhã seguinte, tudo voltara ao normal. Guardei, como todas as outras vezes guardara, sua visita em segredo. Por noites e noites seguidas, dia após dia, esperei por seu retorno. A janela entreaberta anunciava os preceitos de boas-vindas, mas nunca mais a veria.

Esta noite não encontrei o mendigo. O banco estava vazio e os carros da avenida, alheios como sempre, agora passavam sobre um pequeno pano que o vento arrastara até a pista. Uma pequena chama flutuava sobre o rio, harmoniosa com o movimento da marola, única, sublime. Bem podia imaginar a figura pacata do pescador que pernoitava atrás de um reles peixe. Como ansiava voar e compartilhar de suas confissões. Quisera movimentar aquele barco contra a correnteza, se assim o fosse, e iluminar o caminho que traçasse, mesmo que com aquela agonizante chama.

O arrependimento e a dor me invadiam silenciosamente. Por que não a permiti sonhar? Por que não a libertei? Não fossem os ruídos de meus temores, medos, preconceitos...

A tranqüilidade veio com o tempo. A janela, agora fechada, impedia o barulho do tráfego. O velho insistia em dormir ao relento face o embalar das ondas e à agonia inócua dos noctívagos. O pescador imaginava seu lampião em meio às estrelas que o assistiam. Imparcialmente, continuava a dormir o sono dos vencidos...
André Leite
Enviado por André Leite em 23/08/2006
Reeditado em 23/08/2006
Código do texto: T223412
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Sobre o autor
André Leite
Aracaju - Sergipe - Brasil, 37 anos
2 textos (280 leituras)
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André Leite