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CEMITÉRIO DE LIVROS

Meus livros balançavam sobre meu colo enquanto caminhava rapidamente para casa de meu pai. Parei frente a biblioteca central, era um lugar magnífico e rústico, porém, um pouco ultrapassado. Nunca tinha visto aquela biblioteca aberta aos domingos. Pude ver uma luz em seu interior, e resolvi entrar.

Segurei a maçaneta da porta e a girei lentamente, não queria quebrar a concentração do ambiente. Deparei-me com uma senhora, deixando cair meus livros sobre o chão, o grosso tapete abafou a queda. Abaixei-me lentamente com o olhar fixo no rosto da senhora que não tirava o sorriso do rosto.Estava com um longo vestido verde. Seus longos e cacheados cabelos balançavam ao ritmo de uma leve brisa que passara. Ajeitei os livros entre meus braços e levantei-me. No momento do encontro, a senhora deixou cair uma chave e nem notara, abaixei-me novamente e a peguei, o objeto tinha um formato elegante e era um pouco pesada, parecia ser prata pura.

_ Hei senhora, acho que perdeu isso! _ gritei, nem notara a existência de uma placa informativa que dizia: “SILÊNCIO – LOCAL DE ESTUDO”.

A senhora pegou a chave de minha mão e continuou sorrindo, parecia uma máscara, seu sorriso não possuía vida.

_ Que senhora estranha!_ às vezes julgamos as pessoas sem conhecê-las.

Caminhei até uma pequena mesa ao fundo e depositei meus livros sobre ela, levantando uma poeira pelo ar. Adentrei-me em um apertado corredor formado por altas estantes de madeira, acredito que teriam umas dez delas naquela sala, estas estavam repletas de livros, todos os tipos de cultura se encontrava naquela sala. Eu estava procurando algo sobre filosofia da ciência, sobre Karl Popper para ser mais específico, esta é uma área que me chamava a atenção.

Tchiiiic !

Assustei-me ao ouvir o som de um trinco se fechando, só podia ser a porta principal, pois era a única entrada da biblioteca, as luzes começaram a piscar deixando o ambiente em completa escuridão. Andei lentamente apoiando minhas mãos nas estantes, o lugar estava um buraco negro, não possuía estrelas nem sol.

Escapei do corredor como um rato foge de uma serpente, olhava desesperada para os lados, mas a escuridão era geral. Corri em direção a porta e fui jogada sobre o grosso tapete, acreditava que alguém colocara o pé para que eu tropeçasse. Meu pé direito se chocou com o tapete deixando minha sandália presa. Meus joelhos doíam bastante, mas consegui erguer-me. Chegando até a porta, segurei a maçaneta e notei que ela estava trancada.

_Hei, alguém me ajude! _ gritei várias e várias vezes, mas o lugar estava vazio, a cidade parecia estar vazia, ou talvez o mundo?

_Que placa mais besta é essa! _ pensei olhando-a fixamente, ela parecia olhar pra mim em sinal de reprovação _Não posso ficar em silêncio estando presa neste lugar terrível.

As luzes voltaram a piscar e como num passe de mágicas, a sala ficou iluminada novamente. Esfreguei minhas mãos sobre os olhos para recuperar a visão. A grande sala transmitia uma onda de cultura e medo, era um lugar perfeito para se ler uma obra de Allan Poe.

Respirei fundo como um atleta antes de um salto olímpico. Preferia o ambiente assim, mais claro, menos assustador.

Meus pelos se arrepiaram ao sentir uma brisa fria passando pelo meu corpo, foi no momento que escutei um som vindo das estantes, não compreendia ao certo, más tinha certeza que se tratava da voz trêmula de uma senhora. Caminhe com passos largos olhando para o interior de cada corredor, não existia ninguém na biblioteca, às vezes achava que eu poderia estar ficando louca ou talvez até mesmo sonhando. Cheguei até a belisca meus braços na esperança de acordar deitada sobre minha confortável cama, mas aquilo não era sonho, era um domingo sombrio no qual eu estava presa em uma biblioteca _ Você já imaginou situação mais constrangedora?

Fui novamente para a área de filosofia.

_A bibliotecária deve estar almoçando, não vai demorar muito para voltar pro trabalho _meus pensamentos eram os mais positivos possíveis.

O silêncio foi quebrado, escutei o som de uma máquina de escrever trabalhando freneticamente, as luzes voltaram a apagar e ventos sopravam, balançando as cortinas, pareciam bailarinas. Estiquei meus braços e com passos curtos fui aproximando-me da mesa. O barulho terminara subitamente, a máquina não estava mais ativada. Parei repentinamente ao esbarrar minha mão direita em um livro, deixando-o cair, se tratava de um exemplar de “A Origem das Espécies” de Darwin, estava usando em uma pesquisa universitária.

Não me importei com o livro caído ao chão, estava preocupada com a máquina misteriosa que estava sobre a mesa.

Luz!

A claridade tomou conta do ambiente novamente. A máquina estava a minha frente, parecia um lobo enfurecido e faminto frente a uma presa inocente. Não existia ninguém no local.

_ Vamos parar com essa brincadeira! _ olhei novamente a placa, ela parecia sorrir pra mim.

Presa à máquina, estava uma folha encardida, parecia estar ali há vários anos. Girei ao redor da mesa e achei uma posição mais confortável.

Havia um pequeno texto datilografado:
“Me ajude por favor!!!
Não mereço este destino doentio, preciso descansar, por favor me ajude!!!    J15965h.”

Esta espécie de código é muito utilizada para catalogar os livros.

Tentei retirar a folha da máquina, mas ela estava quase desmanchando. Resolvi passar aquela frase a limpo. Anotei as numerações e fui para a estante procurar aquele volume. Eu possuía uma perícia incrível para manusear aqueles livros, já conhecia cada divisão daquelas estantes. Não demorou muito para que achasse aquele volume.

Estava no setor de história, por isso uma das letras na numeração era o “h”. A letra “J” indicava a inicial do nome da autora, Joana Veiga.

Retirei o livro lentamente da estante, era pesado e velho, possuía uma capa de couro marrom no qual um pequeno detalhe dourado dava um acabamento formal, era um exemplar formidável.

Abri as primeiras páginas, se tratava de vários contos e histórias da cidade. Aquilo me deixou um pouco confusa. Na página trinta e seis, encontrei algo que me deixou um pouco assustada, era a foto da própria biblioteca, o artigo era de 1890, muito antigo, já se passaram mais de um século. A matéria mostrava uma grande tragédia que abalara a cidade, a biblioteca foi incendiada por fanáticos religiosos que protestavam contra certas obras religiosas. O prédio fora completamente tomado pelo fogo.

O que mais me chamou a atenção, foi um pequeno parágrafo que dizia: “Nenhum corpo foi encontrado no prédio, acredita-se que somente Daniele Wilkins estava no local do desastre. Daniele era uma senhora de 67 anos que trabalhava como bibliotecária. Seu corpo não foi encontrado”.

Passei a página rapidamente, deixando cair uma folha de caderno dobrada, pude senti-la caindo suavemente sobre meu pé direito, foi o momento que reparei que este estava descalço.

Peguei o papel e desdobrei cuidadosamente, este também estava num estado um pouco deteriorado. Nele possuía um mapa desenhado à mão, era um mapa da biblioteca, estava todo riscado e uma grande mancha marrom surgia de seu centro.

Fiquei algum tempo observando aquele mapa, as estantes não estavam na mesma posição, porém as estruturas da sala eram as mesmas.

Um livro que estava na última prateleira foi de encontro ao chão, passou alguns centímetros do meu ombro _ aquele vento estava um pouco forte realmente _ outro exemplar foi jogado ao ar, aquilo não poderia ser obra do vento, ele não poderia ser o culpado.

Quando percebi, vários livros estavam caindo das estantes, caminhei na tentativa de sair daquela chuva cultural, tentava desesperadamente sair daquele corredor, projetei meus braços frente ao rosto e fui caminhando em passos lentos. Os livros pareciam morcegos presos em uma pequena gruta. Foi um momento de grande terror, pois eles pareciam possuir vida.  A poeira e o forte cheiro de mofo tomaram conta do ambiente.

Silêncio!

Não demorou muito para que o silêncio chegasse, a poeira se abaixava lentamente. O lugar estava devastado, milhares de exemplares estavam jogados por todo lado da sala, algumas folhas ainda giravam pelo ar. Finalmente aquela confusão terminara.

Nem me dei conta que ainda estava segurando o mapa, estava um pouco amassado, mas ainda estava legível.

Caminhei para a mesa repousando-me sobre uma cadeira velha de madeira, abri novamente o mapa. Observei cada detalhe daquela folha, tinha de possuir algo importante.

Notei uma seta, estava desenhada com tinta vermelha, esta dava um certo destaque aquele mapa obscuro. Aquela seta seguia para um ponto que agora se situava abaixo de uma das estantes _ acho que era a segunda se não me engano _ não tinha como confundir.

Através de passos trêmulos, aproximei-me do lugar indicado, caminhei sobre vários livros que estavam derramados sobre o chão. Lembrei das imagens de Jesus caminhando sobre a água, acho que estava ficando um pouco louca.

Na estante não existia nada de diferente e enigmático, mas eu tinha convicção que aquele era realmente o local indicado no mapa.

O cheiro naquele local mudara um pouco, parecia mais forte e irritante. Firmei minhas mãos na estante e... empurrei o mais forte que pude. Não acreditava que uma garota poderia arrastar um armário daquela grandeza. Senti um formigamento nas pernas.

O móvel não se mexeu muito, pois o mar de livros jogados ao chão impedia seu movimento. Derruba-lo seria a única opção sensata. Subi lentamente até o quinto andar do armário, apoiei os pés sobre o móvel ao lado e empurrei. Presenciei um verdadeiro efeito dominó, os armários tombaram lentamente, um derrubando o outro. Fui jogada ao chão, sentindo uma forte dor nos joelhos. Ainda abaixada, me senti um soldado em uma trincheira, escondia desesperadamente do exército inimigo.

Recuperei os pensamentos, não se tratava realmente de uma guerra, não havia inimigos no ambiente, muito menos aliados, estava sozinha naquela missão.

Arrastei-me até o local marcado no mapa, era uma pequena abertura no chão, uma espécie de alçapão, possuía uma pesada porta de ferro que liberava pedaços de ferrugem.

Para quem acabara de derrubar várias estantes, abrir um alçapão não seria nenhum problema. A porta se levantou lentamente.

Fiquei frente aquela abertura escura e sombria, era mais assustador que o porão de casa. Quando criança, costumava descer ao porão para brincar, porém não era um ambiente criado para crianças menores de oito anos. Descer aqueles degraus de madeira velha já era um grande obstáculo. Certo dia minha mãe mentiu, disse que existiam criaturas assustadoras no porão, eu nunca mais arrisquei descer aquelas escadas.

Agora não tinha escolha, descer era minha única opção. Aproximei-me da entrada e olhei de soslaio para o interior daquela tumba, o cheiro era terrível, estava próximo do insuportável, era um cheiro de podridão e abandono.

Não foi fácil descer aqueles degraus, parecia não possuir fim. Senti algo passando entre meus dedos, eram grandes baratas, eram milhares, estavam subindo sobre meu corpo. Comecei a me debater, mas ainda estava pendurada naquela escada maldita. Não agüentei muito tempo e soltei minhas mãos, fui rapidamente de encontro ao chão. Aqueles insetos repugnantes fugiram rapidamente. O local estava abafado e nojento, parecia um esgoto, pequenas gotas caiam do teto formando uma grande poça de água escura sob meus pés.

Caminhei naquele corredor escuro, sentia aquela água fria em meus pés, várias baratas e ratos abriam caminho para que eu passasse, era uma recepção memorável. O cheiro aumentava progressivamente, senti uma grande ânsia de vômito e uma forte dor de cabeça.

_Uma porta!

O corredor terminava em uma porta de madeira, esta já estava podre, vários anelídeos andavam sobre ela, eram brancos e gosmentos, não era um lugar nada agradável. Nas paredes do corredor existiam quadros, eram fotos de pessoas estranhas, que nunca vira na vida. Vários quadros estavam queimados, mostrando uma imagem escura como aquele porão.

Uma das fotos não me parecia estranha, conhecia aquela pessoa de algum lugar. Aproximei meu rosto. Meus olhos se arregalaram e meu coração parou por alguns segundos. A foto era de uma senhora, esta possuía um imenso sorriso no rosto, seus olhos eram inconfundíveis. Era a senhora que encontrei quando cheguei a biblioteca, não tinha como confundir aquela imagem.

Corri até a porta de madeira e a empurrei violentamente, pude sentir aqueles anelídeos gosmentos se amassarem entre meus dedos.

Estava frente a uma imagem terrível, era um pequeno quarto, onde um monte de ossos se encontrava deitado sobre um resto de cama queimada. O local era negro assim como o futuro daquele ser esticado sobre a cama. Aproximei-me e observei pedaços de tecidos verdes sobre o esqueleto negro. Ao toca-lo, pedaços de ossos se soltaram. Ao meio daquela ossada fétida, estava uma grande chave de prata, era pesada, não me parecia estranha. O mais terrível foi ver aquele crânio sorrindo para mim.
...........................

Não demorou muito para que a polícia chegasse, todos se assustaram ao ver aquele lugar todo destruído. Eu teria de explicar tudo, acho que eles não iriam acreditar em tudo, mas vendo aqueles ossos no porão, os policiais não tinham o que discutir. Eu preferi não comentar sobre os livros voadores, a história já estava bastante criativa.

Após todo aquele tormento, pude observar um policial retirando a folha da máquina de escrever, esta já não estava tão velha e desgastada. O policial gentilmente me entregou aquele papel. Nele possuía um pequeno texto datilografado:
“Me ajude por favor!!!
Não mereço este destino doentio, preciso descansar, por favor me ajude!!!    J15965h.”
Muito obrigado Querida!!!










MOSTARO RC
Enviado por MOSTARO RC em 22/09/2006
Código do texto: T246596
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Sobre o autor
MOSTARO RC
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 36 anos
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