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OLHO MÁGICO

Pessoas passavam livremente frente á minha porta. Minha morada não era algo de grandiosa, possuía uma beleza sombria, suas paredes escuras davam uma aparência de abandonada, era um lugar rejeitado. Apenas o olhar de algumas crianças curiosas projetava-se em minha direção. Minha vida fora sempre à mesma, sempre naquela posição, sempre olhando aquele olho mágico solitário.

Sou uma criança portadora de uma doença rara, não vou ficar explicando detalhadamente sobre esta enfermidade, desde os onze anos, vivo em uma cadeira de rodas velha, esta já estava um pouco enferrujada e enguiçada. Minha vida não possuía sentido, não existia objetivos, somente ficar olhando aquele olho mágico.

Quando meus pais desconfiaram de algo errado, eu já tinha onze anos, meus músculos das pernas foram sofrendo degenerações, acho que foi isso mesmo que os médicos disseram, era uma espécie de distrofia. Minha maior tristeza foi pensar que nunca mais poderia jogar futebol, esta situação pode ser comparada a um alcoólatra que fora obrigado a parar de beber.

Os anos foram passando, cada dia se tornou um momento de luta e conquista. Meus pais sofreram muito durante todo este tempo, foram momentos de choros e angústias. Não gostava de ver todas aquelas lágrimas descendo do rosto de minha mãe. Ela costumava dizer que era alergia das lentes de contato, estava sempre mentindo, aquelas lágrimas eram verdadeiras e carregavam um grande peso sentimental.

Meu pai era caminhoneiro, vivia viajando, passava semanas ou meses fora de casa, às vezes mandava cartas. Guardo todas elas em um pequeno caixote abaixo de minha cama.

A sala era o meu cômodo preferido, possuía um simples sofá marrom sobre um tapete cinza de listar pretas, parecia muito com a pele de uma zebra. Um televisor velho se repousava sobre uma mesinha de madeira, ao seu lado estava uma foto de mamãe e eu nos abraçando, eu segurava uma bola de futebol e sorria como uma criança em dia de natal. Eu sentia grande saudade daquela época. Eu devia ter uns nove anos, ou dez se não me engano.

Certo dia, pude ver através do olho mágico um grupinho de aproximadamente oito crianças, estavam alegres e sorridentes. Um deles carregava uma bola de couro alvinegra, meus olhos ficaram ferventes. Imaginei um daqueles garotos, um pirralho magrelo e sardento abrindo o portão, ele ia me convidar para jogar bola com eles. Isso era apenas imaginação, passaram como se minha casa nem existisse, afinal ninguém sabia de minha existência.

Lembro-me daquela velha senhora que morava em uma simples casa verde frente a minha, sempre abria o portão e escondia sua chave dentro da caixa de correio, iria fazer sua caminhada matinal. Estava vestindo uma grande e velha camisa de lã e uma calça de moletom encardida, acho que usava sempre a mesma roupa. Ela segurava um pequeno cachorrinho branco e peludo. O pequeno animal latia e mostrava seus caninos para todas as pessoas que passavam pela rua, às vezes eu sorria com aquela cena engraçada. Ele olhava para minha porta, mas nunca latiu devido minha presença, mas afinal, ele não sabia de minha existência. Comparava-me com aquele cachorrinho, porém meu dono nunca me levara para passear.

A tarde não era um momento muito bom, todos estavam estudando e trabalhando. Através do olho mágico, não se podia ver mais que uma rua deserta e alguns passarinhos voando e cantarolando entre as árvores. Existia um canário que sempre ficava sobrevoando a região, misturava-se aos vários pardais, no qual se destacava com sua penugem amarelada. Eu costumava chama-lo de Lerybird, eu gostava deste nome, creio que ele também gostava.

Eu aproveitava aquela solidão cativa para ler meus livros de terror.

Quando a tarde começava a se despedir, todos voltavam do trabalho, pareciam estar cansados e exaustos, carregavam pacotes de compra, não entendia pra que tantas sacolas.

Minha mãe sempre chegava em casa ás sete horas, trabalhava como empregada em um casarão do outro lado da cidade, gastava quase duas horas para voltar do trabalho. Levantava quatro e meia, fazia o café da manha e me ajudava subir na cadeira de roda. Ela não tinha condições de pagar uma empregada, eu passava todo o dia em casa atrás daquela porta. Eu gostava, acho que sim.

Depois dos doze anos, fui educado e alfabetizado em minha própria casa, minha mãe sempre comprava livros pra mim, às vezes pegava emprestado com sua patroa. Não me esqueço de um livro chamado “O caso dos dez negrinhos”, foi realmente sensacional. No momento estou lendo “Sombras da Noite”, é um livro de contos de terror, sempre fui fanático por terror, acho que combinava com minha solitária vida.

_Ninguém sabia de minha existência!!!

Este pensamento às vezes me incomodava um pouco, sentia-me um pouco só, meu único amigo era aquele olho mágico, era minha ligação com a vida. Eu detestava televisão, preferia sempre abrir um bom livro de terror e devora-lo. Em meu quarto, possuía dois quadros na parede, um de Edgar Allan Poe e outro de Lovecraft, eram duas relíquias pra mim. Lovecraft possuía uma face quadrada e séria, transmitia certo temor ao ambiente, já Poe possuía um olhar louco e expressivo. Eu adorava aqueles malucos sonhadores.

Estou lembrando de um dia que escutei o som de um carro freando repentinamente, segurei as rodas da cadeira e girei violentamente, estava curioso para saber do que se tratava aquilo. Encostei minha cadeira lateralmente à porta, os movimentos foram idênticos a um homem estacionando um carro. Fechei o olho direito e aproximei meu rosto ao olho mágico.

Era um carro negro de vidros escuros, era grande e misterioso, dois homens saíram rapidamente de seu interior e sumiram do meu campo de visão. Continuei com os olhos vidrados.

Não demorou muito para que os homens voltassem para o veículo, porém, agora eles não estavam sozinhos. O homem mais forte estava segurando uma mulher pelo braço, eu a conhecia, não pessoalmente é claro, ela morava na terceira casa após a minha, minha mãe que me contara. A moça gritava desesperadamente, mas, apenas a senhora da casa verde viu aquela cena, estava escondida atrás das cortinas amareladas mostrando apenas seu rosto assustado. Não pude fazer nada, fiquei completamente estático. Os homens de preto olharam para todos os lados, menos em minha direção, afinal,  ninguém sabia de minha existência.

Quando o relógio marcava sete horas, eu começava a ficar mais eufórico, esperava a chegada de minha mãe. Ela sempre chegava com seu andar característico, é difícil explica-lo. Seus longos cabelos castanhos estavam sempre presos por um pregador insistente, este tirava todo o brilhantismo de seu semblante. Minha mãe sempre foi uma mulher muito bonita.

Desde que mudamos para aquela casa, não conhecemos ninguém, não sei se estávamos certos, mas não aceitamos o fato de uma criança em plena saúde deparar-se com esta doença maligna. Resolvi isolar-me nesta casa velha.

A solidão foi minha companheira fiel, porém um pouco enjoada e cansativa.

Mostrava um grande sorriso quando mamãe entrava por aquela porta, a brisa noturna e uma suave luz da lua a acompanhavam. Eu tratava sempre de me retirar o mais rápido possível de trás da porta, ela não imaginava possuir um filho bisbilhoteiro, eu prefiro a palavra espião.

Eu gostava mesmo era da noite, ficávamos juntos na sala, eu e mamãe, conversando e tomando chocolate quente com bolachas de nata, eu adorava bolacha de nata. Sempre que minha mãe ia rezar, eu ficara a olhar o olho mágico. A luz dos postes iluminava a rua sombria, os passarinhos já estavam em casa, talvez tomando um chocolate quente com bolachas de nata.

Havia dias em que minha mãe ia dormir e deixava-me acordado vendo televisão, na verdade eu estava sempre atrás daquela porta com os olhos colados naquele olho mágico.

Um dia aconteceu algo bem incomum na minha vida, presenciei uma cena medonha em que um criminoso estava preste a assaltar certa menina, eu não conhecia nenhum deles. O homem estava vestindo uma jaqueta preta de couro e uma calça marrom. Ele apertava o pescoço da vítima, deixando-a em completo pânico.

Eu não sabia o que fazer, pensei em chamar minha mãe, ou talvez gritar. Mas quem iria escutar-me? Não consegui ficar parado desta vez. Corri até a cozinha e peguei uma grande faca na primeira gaveta. Eu tinha de fazer algo por aquela menina, nunca senti coisa assim em toda minha vida, me senti um herói, em perfeito estado físico. Coloquei a faca em meu colo e segui em direção a porta. Após abri-la, senti um forte vento batendo em meu peito, pela primeira vez sentira uma sensação daquelas, me sentia voando como um canário.

Desci em direção ao portão, foi neste momento que o estranho assustou-se com minha presença, ele segurava uma faca negra próxima à barriga da vítima. Eu gritei liberando uma voz adolescente.

O homem largou a menina e olhou para meus olhos com uma fúria mortal. Seu rosto estava contorcido e molhado.

A moça começou a correr histericamente, deixando seus sapatos sobre a calçada.

Levantei a faca repentinamente refletindo a luz da lua sobre o rosto do estranho. Mesmo estando naquela cadeira velha, consegui atingi-lo primeiro, arremessei a faca violentamente, atingindo seu pescoço, presenciei um mar de sangue jorrando do corpo do sujeito. Ele ainda estava cambaleando, quando aproximei-me, peguei sua faca e a guardei em seu abdome, ouvi um pequeno murmúrio de dor, o homem caiu sobre o chão avermelhado.

Agarrei a gola de sua camisa e carreguei aquele corpo até próximo a uma árvore. Retirei lentamente minha faca de seu pescoço, liberando um pouco de sangue fresco. Olhei para aquele corpo sem vida e dei um pequeno sorriso. Pela primeira vez me sentira útil.

Voltei para casa, tranquei a porta, lavei cuidadosamente a faca e a guardei na gaveta. Fui para o quarto.

Já era madrugada quando escutei uma senhora gritando loucamente. Minha mãe levantou-se correndo e foi até meu quanto. Eu estava sentado sobre minha cadeira coberto com um cobertor xadrez.

Os policias logo chegaram e tomaram conta do local.

Aquele foi um dos dias mais diferentes de minha vida, pela primeira vez tive coragem de sair por aquela porta. Foi uma sensação inacreditável.

Passaram-se alguns anos, alguns policiais vieram conversar com minha mãe, falaram um pouquinho sobre o assassinato. Ainda não tinham nenhuma pista do assassino.

Foram vários dias vendo pessoas conversando, estavam assustadas e com muito medo. Falavam sobre aquele terrível assassinato e quem poderia ser o tal perigoso assassino.

Hoje, já não posso nem me levantar. Fico a olhar aquela cadeira de rodas encostada como um material inútil. Minha doença vem progredindo a cada instante. Escutei os médicos dizerem a mamãe que não me restaria muitos dias de vida. Não fiquei triste por estar morrendo, apenas por nunca ter vivido. Minhas mãos ainda conseguiam escrever, com dificuldade, mas conseguia.
 
Foi com toda esta dificuldade, que escreví este texto, para que todos não desanimem da vida. Fui um covarde por não desafia-la, apesar de todos os limites creio que eu poderia ter sido mais feliz, ninguém é feliz com a solidão.

Gostaira que várias pessoas lessem este texto, pois só assim, ficarão sabendo sobre a minha existência.




 
MOSTARO RC
Enviado por MOSTARO RC em 26/09/2006
Reeditado em 27/09/2006
Código do texto: T249902
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Sobre o autor
MOSTARO RC
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 36 anos
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