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A criança e o defunto (Conto Poético)

A criança e o defunto

Cena 1 - Martírio

A criança que na noite turva sonhava,
Que andando no passo em terra sombria
Em não apenas ilusão.
Era tudo tão real e feio imagem que via,
Terra vermelha viva que nela emanava
Grito de sofreguidão.
Sentimento não vil, ou menos sofismada,
Que ao divisar se tinha fel contida
C'oa grande decepção.

A criança qui’nda andando a toda sofria
Avistava ao longe vultos que assombrava,
Mas não era assombração.
Na confusa vista, algo do voraz deixava
Criatura que áspero em veloz aproximaria
O corpo negro na imensidão.
Flores mortas na terra, a criança pisaria
Com os pés nus e roupa que a preservara
D'um desconhecido chão.

A criança aind'andando, quase chegava...
Ao vulto que agora imóvel tinha'gonia,
Isso não era todo em vão.
Pois a criança frágil 'inda assustaria
E as mãos no alto ela algo sussurrava
Tão baixo, que ouvia não.
Os passos muito pequenos, que ela'ndava
Fazia a pobre criatura qui'nda esperaria
na grande escuridão...

Soar um ténue estrondo, e a tudo ouvia!
Nesse momento estagnou, 'inda parada
A criança teve uma visão.
Seus olhos verdes filtravam como mortalha
Algo indecifrável que ali do escuro saía,
E não era um simples clarão.
Um odor fétido simplesmente a pobre sentia
Que de sua narina de tão forte ela tampava.
Mas era só podridão.

O chão de cima¹ de tão hórrido inflamava,
Era tão feio, e chamas queimando parecia.
Mas era somente vermelhidão.
Ao longe havia somente vazio, nada havia
A não ser uma torre desmedida que ganhava
Altura de grande perfeição.
Ah como era bela, parecia até mesmo ara,
Ah como também sempre a torre feiura teria,
Que magnífica construção!

Ao alto dela um enorme fanal luz refletia,
Era brilho quase inerte que algo revelava
Mas que ia além de aquilão.
Era algo factível, que além da torre voava
Mas tão escura criatura, grandes asas batia
Mas sempre em exaustão.
E ela não estava só, algo algoz também teria
Afora d'um alcance de qualquer que olhava,
Mas que era certo barbilhão.

A presença horrenda do "algo" assustava.
E não era só temor que o estranho transmitia
Tinha também lamentação.
Algo singular que, qualquer um pressentia,
Até mesmo a criança que continuava parada.
Candura ou aversão?
Nada'diantava saber de algo que nem soava,
E somente o que nem mesmo tinha, e existia?
Oh, vai que eles triarão.

O clima que de alto e frescor cálido fazia
N'um lugar que de horror o decadente morava,
Nada belo se tinha na mão.
Vegetação e flores como no todo extenuara,
Ah que estava tudo morto, morto e nada nascia
Naquilo que era só podridão.
A montanha do norte e sul, ó que tudo jazia.
Os bosques, as colinas que outrora reinava,
Corpos lá e cá n'um montão.

Que vista feia, ó Deus que nesse mundo calava,
Cipreste apenas esperança ao que não existia
- Ah que um dia viverão!
Viverão n’umas terras campestres, e plantaria!
O funesto de resto e de escasso se tornara
- Ah que boa essa ilusão.
Pois treva aqui se vive, e não mais restava
Do benévolo que pouco a pouco findaria...
- Ah que eles nela cuspirão!

A pureza² que de imóvel ali continuaria
Nada tinha, só o "perfume" que cheirava.
E certamente era decomposição.
Olhos fixos a um nada que ali encontrava,
Parado e sempre atento ao que acontecia
Mas 'inda na escuridão.
Dois pontos agora brilhavam, tinham vida!
Eram enormes e tinham a cor amarelada.
E que de vez pr'um piscarão.

E eles se tornavam vez maiores, e andava...
A criança que dedos na narina se encolhia
Ouvia forte bater seu coração.
O encontro inevitável com o algo teria
E nada se podia, tudo preste estagnava
ao que levaria ao meão.
A respiração que tão difícil tornara,
E o cheiro horrível que a pobre sentia
Nada restava, só um chião.

A pele da criatura era escamosa e fedia,
Era de cor azul que ao todo murchava
Ah! E que enormes mãos.
Dedos longos e na ponta algo pendurava,
Um tipo de metal pequeno e barulho fazia
como uma bela canção.
Seu corpo esgalgado, sem força parecia.
Mas ao sentir ameaçado um agudo levantava,
E bondade nele tinha não.

A criança 'inda assustada imóvel olhava
Aquela criatura fétida que pouco mexia,
ah que ela não tinha visão.
Com os olhos amarelados, algo nele havia
Que não estavam ao todo certo, arregalava
Com um certo turbilhão.
Também se via um todo que evidenciava,
Haviam gotas lacrimais dos olhos, e caía!
Quantidade escassa a montão.

Ó, que criatura feia, e que cheio de ferida
Seu todo corpo franzino deles se contava,
E elas não se curarão.
Mas aquele fedor que a tudo impregnava
Havia dissipado, nada mais a criança sentia
E de sua narina tirou a mão.
A criança certa pensou o que aquilo seria
Talvez um tipo de defesa a criatura guardava.
Que era certa a podridão.

Agora a pequena³ certeza logo estampava
Aquela criatura horrível certo atacaria,
A face não era de perdão.
Seus traços faciais pr'a ela algo mudaria,
'inda tinha maldade, bondade que restava,
Mas além parecia até uma prisão.
Coagido? Poderia ser, pois de nada'diantava,
E a criança logo na face lastimaria
Uma tão coitada visão.

As pernas eram adiposas e aparência doentia,
Nada que de resto e bonito dele ganhava,
Pois o corpo nele em sazão
Nada tinha, e cada ensejo menos salvara
A pobre criatura que de sempre sofreria
Da tangível devassidão...
E que dentes grandes e feios ele tinha,
Mas que sopro agradável se exalava
Da criatura que vez em são.

- Oh criança linda que tanto esperava,
Pensei que tú não vinhas e encontraria
O vosso desejo de impulsão.
- Pois de tanta ébria que aqui vivia
Além do limbo sempre por ti sonhava
Na demasiada imensidão.
- Não tenhas medo criança que assustava,
Me chamam de defunto, e certo serviria
A ti até exaustão.

- Ah defunto. A criança perceptível dizia.
- Que lugar esse que sofro e assustada
Fico como um endrão.
O silêncio só permanecia e estagnava
Como algo certo a que todo saberia
D'um pobre murchidão.
- Sim criança, explico-te. E dizia...
- Tens certo um motivo pela sua chegada
De esplendorosa divisão.

...
Stacarca
Enviado por Stacarca em 24/11/2006
Código do texto: T300489
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Sobre o autor
Stacarca
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
10 textos (385 leituras)
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