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“A Velha”

Devido à recessão imperava uma pobreza terrível. Crianças se prostituiam, roubavam, enfim o mundo havia virado um caos. Eu como bom descendente russo, aprendi a beber antes de começar a andar. Na pequena cidade que morava, apenas algumas pessoas possuíam dinheiro. Entre elas havia uma velha que morava sozinha em um casarão. Descendente de nobres, a velha francesa em algum lugar teria um cofre com jóias e dinheiro. Eu sonhava um dia por as mãos naquele cofre. Pois ela dificilmente usaria, então nada melhor que um Ucraniano para ajudar a gastar polpuda quantia. Passei em frente da casa e não consegui descobrir nem uma porta ou janela aberta. Como estava difícil, deitei em um terreno próximo e fiquei observando. De tardezinha, vi um rapaz com uma bicicleta trazendo compras. De uma janela, ela jogou uma chave que ele usou para abrir a porta principal. Depois de colocar as compras para dentro, saiu trancando a porta e deixando a chave em um nicho, no qual ficava uma imagem.  Assim que o rapaz foi embora, corri peguei a chave, abri a porta e dentro abri a janela, deixando só encostada. Novamente fechei a porta, deixando a chave no lugar. Passado algum tempo, ela apareceu pegou a chave e fechou a porta, desaparecendo dentro da mansão. Aguardei até o escurecer, na rua nada aconteceu. Mais ou menos as vinte e uma horas, vi uma luz que passou no corredor do primeiro andar. Entrei na casa com muito cuidado para não fazer barulho e subi as escadas. Quando cheguei ao primeiro andar quase esbarrei na velha. Encolhi-me atrás de uma estátua e ela passou. Com ela ia um gato preto, que ficou olhando para mim.
– Está com medo bichano? Você está vendo algum ancestral meu por aí? Dizem que eles passeiam à noite. Eu nunca vi, mas dizem que eles assombravam os empregados. Bem bichano, já tomou seu leitinho, agora vá dormir. Vou ler um pouco na biblioteca.
Juntamente com aquela luz bruxuleante, ela foi até o final do corredor e sumiu. Na biblioteca ela estava de costas quando entrei a porta deu um rangido estranho. Olhei imediatamente para a mulher e tive a nítida impressão que ela sorria. Quando me viu ao invés de se assustar, falou mansamente:
- A cada dois ou três anos recebo visita. Desta vez demorou menos. A pouco mais de um ano, um jovem senhor veio tomar minha pequena fortuna. Não sei por quê? Desistiu e foi embora. Acho que ficou com dó, por eu ser uma velha.
- Acho bom você calar a boca velha, senão começa a apanhar agora.
- Que você quer meu filho, peça que a velha te dá, é dinheiro?
- Sim vovó quero muito dinheiro!
- Então você acertou, pois tenho muito, dinheiro e jóias. Com um colar dos que tenho aqui, você não precisa mais trabalhar.
- Então me leve até o cofre velha ou vai começar a sofrer já!
- Calma meu filho você é russo não?
- Sou por quê?!
- O cheiro inconfundível da vodca... Tenho bons vinhos e de boa safra se quiser também.
Descemos as escadas para a adega, onde ela me deu varias canecas de vinho muito bom. "Depois de roubar tudo dou um fim nela."
- Meu filho vou deixar você milionário...
Ri e por um lapso de tempo senti tontura.
- Desgraçada, você me deu bebida envenenada?!
- Calma filho este mal estar já vai passar... Tenho que atender ao telefone não saia daí.

Mesmo com todo meu esforço não conseguia mover um músculo.

- Olá Estela como vai? Tudo bem despacho amanhã de manhã. Manda retirar? Ta bom? Como sempre? Pode deixar...

Quando acordei estava em uma mesa cirúrgica e o maldito gato preto lambia meu sangue...
 
- Preciso sedá-lo pois não vou precisar de todos seus órgãos, só os olhos e o baço, acho que é só. Viverá mais alguns dias, até que a velha venda seus pertences.
Eu sonhava e sentia dores terríveis... E o maldito gato preto... Lambendo meu sangue...


A boa senhora entrou no pequeno mercado. Sem querer abriu a bolsa e o balconista viu um maço de dinheiro. Seus olhinhos verdes brilharam quando falou:
- Tenho um pouco de medo pois moro sozinha...

Com cuidado ele abriu a janela... ...teve a impressão que ela ria. "Depois de pegar o dinheiro acabo com ela."
Se soubesse que em seus pensamentos ela já o estava fatiando e vendendo ao laboratório da sobrinha no centro de Paris. "Como você consegue doadores em lugar tão ermo?" "Sorte filha, sorte...."
"E este maldito gato bebendo meu sangue...."

Quando descoberta pela policia, a boa senhora já havia vendido tantas peças (órgãos) que dariam para fabricar um pequeno exercito.

                               Oripemachado.
Oripê Machado
Enviado por Oripê Machado em 26/10/2011
Reeditado em 19/12/2011
Código do texto: T3299820
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Oripê Machado
Osasco - São Paulo - Brasil, 69 anos
329 textos (13435 leituras)
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