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Para Onde Correm as Águas do Rio Verde?

                            I

Acabara de chegar. Saltei do ônibus e olhava à minha volta. Não saberia dizer como me sinto, sensação que me tomou desde que recebi a notícia. Ausência de sentimento. Talvez, por isso, culpa dissimulada. Velada. Como que varrida para baixo de algum tapete no canto de meu cérebro. “Hei, é seu irmão! Por que não chora? Onde esteve seu coração nos últimos anos?”.  Quem sabe a malha do tempo, entretecida com mãos cuidadosas e experientes, como as de uma velha e hábil tecelã, se encarregou de velar esses sentimentos imperceptivelmente? Uma barreira contra a saudade. Mesmo após receber a notícia de sua morte, o morno edredom do tempo acalmava meus sentidos de alguma maneira desconhecida.

Afora contatos esporádicos, não experimentava qualquer outra relação com meu irmão mais velho; “quanto tempo já ia?”.  Minha tradição urbana não permite aventuras e só me apazigua o caos das metrópoles - a iluminação anônima e gasosa dos néons que tomam a noite de assalto. O odor familiar da fumaça cuspida dos escapamentos em cada esquina – os fins de mundo me aterrorizam – é uma grande verdade. Por isso, jamais havia colocado meus pés em Rio Verde. Razões idênticas as que me acorrentam ao asfalto, motivaram-no décadas atrás a viver em meio à assustadora natureza, como artesão. Sua morte agora parece uma dose bem administrada de anestésico em meus sentidos práticos.

Fito à minha volta novamente. Aqui estou pela primeira vez e a pequena cidade com sua cadeia de montanhas cobertas por densa vegetação e as casas que pareciam arrancadas do espaço, do chão, já visível da pequena rodoviária me inquietam deveras. Mais do que a própria morte. Ainda mais do que a morte de meu esquecido irmão. No ar, voa o som da forte correnteza do Rio, na Terra descansa a modorra preguiçosa. Nuvens indicam que poderá chover. Na realidade não sei. Pode ser que não chova. Ele está morto e preciso ser prático, como sempre. O velório já deve ter-se iniciado. Amanhã o enterro. Fumaça, então.

                            II

- Não há como errar. Não temos muitas encruzilhadas por aqui. - O garoto estava completamente certo. Algumas ruas de pedra, de paralelepípedo, outro tanto de chão. Ao todo, poucas. A capela ao lado do acanhado cemitério florido demais não comporta espaço para mais que um velório por vez. Um local onde a morte não existe coletivamente, decerto.  Como transação solitária, em Rio Verde talvez ainda mais. O frêmito por acidentes e desgraças coletivas que acometem os grandes centros, que lhe dão vida em meio ao sangue, não faz, aqui, muito sentido.

A contar pelo número de pessoas no interior da capela barroca, é fácil crer que meu irmão era de fato querido na cidade. Uma aritmética fundamental, básica, dizia-me que a quantidade de pessoas quase que espremidas em seu interior não condizia com o pequeno pedaço de terra que formava a cidade. Ou se faltavam casas ou se sobravam pessoas, imaginei. Esgueirei-me, abrindo espaço no meio da pequena turba, desculpando-me e indo adiante, até que enxerguei a caixa de madeira. O rosto, onde o tempo esculpira nova feição ainda me pareceu familiar - infelizmente talvez. As cortinas abriram e na tela de minha memória a projeção iniciou. Sem meu consentimento, friso. Meus olhos marejaram - como impedir que aconteça? Nossas memórias são como um sótão povoado de morcegos; vampiros que dormem durante o dia. Esperam um pequeno raio de luar para novamente esvoaçarem ao vento frio da noite. E assim, fitando o rosto estranhamente familiar de meu irmão, cercado de flores bizarramente perfumadas de morte, lembrei de tudo quanto passamos juntos antes de nos separarmos. É claro que chorei. Muito. Sempre encarei golpes do acaso como desafios à força espiritual que possuía, neste momento, porém, apenas deixava-me levar.

                             III

Alguém se encarregou de fechar o ataúde. Perdi esta parte. Completamente entretido comigo mesmo, levantando a poeira do sótão. Restavam, no momento, algumas poucas pessoas no interior da capela. Hora das despedidas. Desci de onde me encontrava (acho que ainda lá no sótão), minha atenção desviada para uma mulher. Agora éramos três no interior da capela, seu rosto iluminado por uma beleza que considerei incomum naquele lugar estava vidrado em meus olhos. Retribui o olhar, não restava muito para se ver de qualquer jeito. A moça caminhou em minha direção, fazendo seu vestido de fino algodão colorido acompanhá-la obediente.

- Não te reconheço. Ou reconheço-te sem te conhecer. - Com gestos assaltados por tranqüilidade, a mulher transpirava leveza, como se os raios do sol pudessem atravessá-la sem dificuldade.

- Não me espanta. Afinal, eu mesmo fiquei surpreso com a semelhança que ainda guardo com meu irmão.

- Claro. Irmãos. Fácil adivinhar. Não sabia que Leandro tinha irmão, não me recordo de ouvir menção. Acho que não falava muito da família. Não falava muito de nada, já que não era exatamente um tagarela. Não devemos lamentar além do lamentável. Leandro se foi, assim... - Com as mãos pareceu imitar o vôo de uma borboleta. - Ou quem sabe está apenas encasulado? Sou Mariana. - A morte encarada quase insolentemente.

- Sou o caçula. Marcelo. Conhecia meu irmão há muito? – Cheguei ainda mais perto do corpo dela, que tinha uma presença fácil. Como fogueira no frio. Quase senti o calor que saía dos poros da pele e irrompia os do vestido estampado.

- Conhecia Leandro desde sempre. Ou mesmo antes. Pareço pernóstica falando assim? Espero que não, não gostaria. Acho que o rufar das águas cristalinas – ouve? – acorrentaram-no para sempre aqui em Rio Verde. A voz hipnótica do rio. Até que resolveu partir. Mesmo onde está terá saudades e pensará que pode colocar os pés na água gelada, ver o rio correr novamente junto conosco.

- É uma idéia confortável, acredita mesmo em algo assim? Do modo como fala mesmo eu tenho ímpetos de derrotar minha aversão à esse tipo de coisa, conhecer o rio. A sereia que canta tão belo. Quem sabe um dia? - Fitei seus olhos. Pensei ver águas que se quedavam enquanto me encarava. Por instantes esquecia de Leandro.

- Sim, acho que creio. Acredito mesmo em coisas assim. E acho, de verdade, que deveria fazê-lo, por que não? Conhecer de verdade nosso belo Rio Verde. Afinal, ele é tão importante que empresta o nome ao lugar. Ou o contrário? Seria um desrespeito pisar por aqui e não molhar o pé. E afinal, do que tens aversão, o que te causa receio? - Sorriu.

- Acho que da força de lugares como esse. Algo que não compreendo bem, que
parece passar mais pelo espírito e menos pelo intelecto, enfim... Não tenho muita coisa em comum com isso... Posso te fazer uma pergunta?

- Acho que sim, já fizeste outras.

- Se todos são como você, desconhecedores de minha existência, que mãos
podem ter escrito o telegrama que me chegou ontem mesmo? Não vi nenhum rosto realmente conhecido, ninguém familiar até agora.

Mariana empertigou-se espichando os ombros, sobrancelha para cima, como aquela que diz: “não tenho respostas pra você”. Ou ainda: “perguntas demais!”. Olhou em direção à saída. Nossa conversa havia chegado ao fim.

Emparelhou comigo e fomos porta afora, apaguei a luz antes disso, fazendo o ataúde desaparecer na escuridão. Deixamos Leandro dormir a última noite acima do chão sozinho no interior da humilde capela.

                            IV

Uma festa pode parecer com outra. Não são iguais. Até a aula de um professor difere de uma turma para outra. Enterros são sempre idênticos. Qualquer detalhe que possa diferenciar um enterro de outro inexiste, pois não é percebido.

O cemitério tão apinhado quanto ontem a capela. Não chorei mais. À saída avistei Mariana que saía sozinha pelo portão - consigo o jeito flutuante. Tomou direção oposta à maioria, passou adiante, seguindo para a calçada estreita onde eu, encostado numa árvore pintada de branco até a cintura, não fazia nada especial. Fitava a medonha natureza empedernida que lançava pro alto seus picos marrons, onde rareia a vegetação. Chamei sua atenção.

- Não te vi lá dentro. - Ela falou, o sorriso emergindo naturalmente. Não era capaz de evitá-lo, imaginei.

- Pois agora, vê.

- O que te resta, então? Retornar pro teu mundo de cimento?

- Sim. Acho que só me resta isso agora, na verdade. Talvez de noite, há ônibus partindo hoje. Preferi não vir de carro, sem conhecer o caminho não me sentiria à vontade dirigindo por aí.

- Pode parecer troça, não me leve a mal – olhos de procurar pedrinhas, miravam o chão - encarou-me novamente. - Por que não fica até amanhã, apesar do ocorrido, é assim. Passou. A festa da cidade é sempre atraente. Para quem já se encontra por aqui é uma boa oportunidade para conhecê-la. E não me diga que não é tempo de festa pra você. Posso tentar ser condescendente e aceitar outra desculpa, capaz de me convencer realmente de que não deveria estar aqui amanhã e acho que ela não existe.

Festa de Rio Verde. Um dia após o enterro de meu irmão. Os anúncios feitos em faixas de pano branco pintadas em tinta vermelha e brilhante já haviam me dado a dica desde que cheguei. Por que não me senti culpado de tomar a decisão tão rapidamente? Balancei a cabeça assentindo. Acho que é isso. Passou.
 
- Vai gostar. Sabemos como fazer uma festa, Rio Verde sabe comemorar sua existência. Encontra comigo ali no início da noite. Sete horas? - Perguntou, apontando para a praça principal. Gente, barracas, bandeiras coloridas.

             Assenti novamente. Por quê? Talvez por Mariana? Com certeza, não por Rio Verde. Não pelas montanhas, pelo ar gelado e carregado com aquele perfume incomum, não pela sensação de estar jogado num lugar qualquer, pouco familiar, em algum instante cristalizado entre os ponteiros parados de um relógio. Talvez e apenas por Mariana. Girando o corpo sem deixar de me encarar, ela se ia. Antes que fosse de vez, ainda interessava-me tirar uma dúvida, algo que me inquietou durante a manhã do enterro. E quiçá poderia fazer com que desistisse da decisão tomada anteriormente.

- Mariana, talvez uma bobagem, acho que não devo nem ser levado a sério. Mas gostaria de esclarecer algo. Quem sabe atestar que posso estar enlouquecendo de vez!

- Não creio que o irmão de Leandro seja um louco. Não parece com um.

- Prefiro duvidar também. Ontem, durante o velório, percebi muita gente dentro da capela.

- Isso te assusta? É uma cidade surpreendente a nossa, muita gente gosta daqui e acaba ficando. - O cabelo levemente dourado esvoaçou com um lufar de brisa gelada.

- Fiquei inquieto. Talvez assustado, sim. Hoje, o mesmo aconteceu. Muita gente no enterro. Porém acho que algo não está certo, de alguma maneira, alguma coisa muito errada estava acontecendo. Prestei atenção, não é verdade que todo o tempo estive distraído. Afora você mesmo, não reconheci, hoje, no cemitério, nenhuma outra pessoa. O que parece é que não eram as mesmas pessoas presentes ontem no velório e hoje, no cemitério, exceto você mesma. - Tive cuidado de não demonstrar estar por demais aflito, minha vaidade não o permitia. Atenta, Mariana continuou firme em sua tranqüilidade hercúlea.

- Não és um bom fisionomista? Espero sinceramente que não esqueça de meu rosto. Gostaria de sua companhia para a festa.  Em passos leves, sem voltar o olhar, apontou para a praça e em tom musical e evasivo: - Sete horas. Amanhã.

Acompanhei a figura esbelta enquanto dava a volta na praça e desaparecia por uma esquina. A preguiça das ruas contrastando com a firmeza da floresta medonha, que abraça toda a cidade com força. Tanto verde. Pedras demais. O rio que não desiste de soar como uma trilha sonora onipresente.  E os malditos rostos sem pressa dos transeuntes que nunca se repetem, como peças de quebra-cabeça.  Por que continuo aqui? Estarei deixando de ser tão prático?

Leandro parece ter morrido séculos atrás.

                             V

Não passei uma noite das melhores, minha rotina havia sido por demais modificada – estranhei o quarto e a maldita cama estreita e muito branca da pousada em que me hospedei. Num de meus sonhos, alcancei a beira de um rio cercado por densa vegetação após vagar sem direção durante longo tempo. A pequena trilha que me carregou até lá deixou de existir tão logo toquei a água gelada com os pés. Na margem oposta, um rosto familiar me fitava. Mariana. Tentei gritar para que me ouvisse, algo me inquietava. Com gestos ela fazia que não conseguia ouvir; a correnteza do rio berrando junto comigo ecoava por entre as furnas. Na realidade, estava com muito medo e pedia que Mariana me explicasse o que estava acontecendo. As águas do rio, que passavam rápidas, frias e cristalinas por meus pés continuavam a correr. Com força. Cada vez mais fortes. Contudo, um assomo de terror me tomou ao perceber que corriam ao contrário. As águas subiam pavorosa e desobedientemente o rio, em direção ao pico das montanhas.

                            VI

O líquido cor de cobre quase alcançou a borda do copo. O sujeito dentro da barraca de madeira empoleirou a garrafa de volta numa prateleira onde descansavam outras tantas iguais enquanto anunciava a próxima rodada da roleta. Entre dentes, sussurrou:

- Isso é o que chamo de uma bela aguardente. É quente como mulher viúva!

- Assenti sorrindo e levando o copo à boca, convidando-o para um brinde. Os copos se tocaram e ele sorveu o conteúdo num gole. Encostado à armação da barraca, fitava as pessoas que apostavam num dos 99 números, ansiando por pobres prêmios. Rio Verde sabia fazer uma festa. Pessoas como enxames, barracas aos montes. Grupos mascarados, ensaiavam passos de danças desconhecidas. Seus rostos assumiam feições macabras na nova pele. Estática. Minutos que antecedem o temporal.  Um senhor atarracado, com mãos de enxada e pele de madeira a meu lado, aguardava com interesse o girar da roleta numerada. Pendurada nos fundos da barraca imitava um grande relógio de parede de algum planeta perdido, onde existem mais de 24 horas num dia. Quando o último número foi vendido, o sujeito da barraca deu um piparote fazendo o girar da roda confundir nossos olhos e o tic-tic-tic-tic criar expectativa nos apostadores. O senhor por debaixo de sua pele amadeirada grunhiu baixo sem me encarar.

- Trinta e sete.

Sorvi o aguardente que descansava brilhando em meu copo. Depois que ele tocou minhas entranhas pensei que deitar com uma viúva deve ser uma experiência e tanto. Em seu último estertor, a roleta que vinha perdendo força, estacou. Tic. Uma mulher saltou com seu bilhete à mão, reclamando seu prêmio. Trinta e sete vale um panda de pelúcia. Trinta e sete.

Novo piparote. Tic-tic-tic-tic-tic-tiiiiiiic.

Desta feita o Senhor me encarou. Sua mão pesada tocou a minha. Resmungou “onze”. Voltou o olhar novamente adiante, esperando o último suspiro da roleta. Onze.  De alguma forma senti aquela sensação estranha novamente, algo vascolejando meu ventre como um bebê que se move na barriga da mãe. A mesma impressão que me tomou no cemitério e que comentei com Mariana. E não era a cachaça cor de ferrugem.  A roleta ainda girava e meus olhos pareceram entrar num transe engraçado, levados pelo giro da roda numerada. Finalmente ela perdeu força.

- Quem tem o número onze? Mostre a cara ou perca seu prêmio! Com olhos perscrutadores o sujeito da barraca mirava por cima a pequena multidão.

Cuspido do grupo, um garoto pegou seu prêmio entregando o bilhete. Onze.

Antes de rodar novamente a roleta, do interior da barraca de madeira o sujeito encheu novamente o próprio copo. Entornou bebida também no meu. Olhou para o velho, com uma ponta de sarcasmo não disfarçado sussurrou em meu ouvido: - Ele sempre acerta. Nunca aposta.

- Noventa e cinco. - Foi a resposta do velho.

“Estranha cidade”, pensei enquanto tentava traduzir o que meu ventre sentia. Mariana irrompeu, pescou seu espaço e pôs-se a falar. Tentei disfarçar o que o rosto poderia entregar.

- E então? Não é uma grande festa?

- Sim. E tanto. De onde saem tantas pessoas? E as máscaras? Me fascinam tanto quanto a música, tenho que admitir. - O som que tocavam parecia cada vez mais alto. Assim como eu mesmo, depois de cada copo de aguardente. Ela se serviu de bebida também.

- Fascinantes. Olha lá!

Volvi o olhar seguindo a direção apontada por ela. Um grupo de gigantes bonecos, andando como titãs, como num filme em câmera lenta, tomava conta da praça. Desafiavam os mascarados que já dançavam por lá em círculos, elipses. A música quase tocou o céu. Novo gole.

- Essa é nossa cidade. Essa é a cidade de seu irmão. Rio Verde respirando como algo realmente vivo.
Andando, nos afastamos um pouco da barraca e chegamos mais próximos da praça, onde o duelo entre titãs magníficos e medonhos mascarados se travava de forma bizarramente coreografada. A pequena multidão delirava, a música entorpecia corpo e espírito, a iluminação disposta por ali roubava do negror da noite caipira seus mistérios. Perguntei-me por instantes se sonhava. E pensei: noventa e cinco!

- Temo dizer que esta era a cidade onde Leandro vivia. - Quase gritei para ser ouvido.

Mariana deu de ombros. Levando o copo à boca, ela fitava o espetáculo. Com a ponta do indicador girei seu queixo. O rosto alvo me encarou. Colei meus lábios ao dela. O calor da saliva maior do que a do próprio aguardente. A dança feérica nos arrastou com ela alguns passos. Tropeçamos. Outro beijo.

Antes que pudesse me arrepender ela, após longo gole que pareceu eriçar toda a pele, puxou-me para si. Falou com uma expressão enigmática no rosto:

- Essa é nossa festa, irmão do Leandro.

Apertou a boca contra a minha uma vez mais. Fingindo-se assustadas, as pessoas fugiam, às pressas, dos mascarados e dos mágicos bonecos que balançavam em todas as direções anunciando ameaças. Não sei quanto tempo durou tudo isso. Tanto quanto um relâmpago. Mais do que um sonho. Um ano inteiro. Encostamo-nos novamente junto à barraca. Os copos vazios. Em meu coração, um quarto se abrira dando lugar a uma hóspede. A confusão ainda aplacava meus sentidos, porém algo acontecera. Além de me apaixonar pela mulher com cabelos levemente dourados. No meio da agitação, dos beijos, junto com aquela profusão de sensações que pipocaram naquela praça iluminada, alguma coisa muito terrível havia acontecido e repentinamente me sentia esgotado e apavorado. Quase desfaleci quando a junta dos joelhos pareceram derreter como sorvete ao sol.

- Preciso deitar, dormir. – Quando falei, minha expressão parece ter sido bastante convincente, pois apesar do estranhamento, Mariana assentiu.

- Espero que não me leve a mal por isso. Apenas não me sinto bem. – Assentiu novamente, simulando acreditar. - Com certeza percebeu que eu mentia com relação ao motivo. Mas, de verdade, preferia não revelar o que me afligiu e apavorou. Não gosto de hospícios, decidi, pois, esconder o que me aterrorizava. Contudo, momentos antes de encostarmos novamente na barraca onde a roleta em breve giraria uma vez mais, eu vi. No centro da praça. Estava lá e não tenho dúvida quanto a isso, pois o tremor que tomou minhas mãos junto com o suor gelado que escorreu pela testa, não deixavam dúvida.

Ao beber do copo um gole de aguardente, um dos mascarados ao retirar seu rosto falso, revelou o verdadeiro. Era Leandro. Meu irmão. Dançava, junto com aquele estranho grupo, a onírica coreografia. Meu irmão mais velho que eu mesmo enterrara no dia anterior estava na praça e pareceu cruzar, por um átimo, durante um pequenino pedaço de tempo, os olhos com os meus. E de alguma forma, sei que me reconheceu.

Com Mariana a meu lado, andamos em direção à pousada; em meu rosto, disfarçada apreensão. Ainda fui capaz de ouvir o sujeito da barraca em meio a toda aquela agitação gritar numa voz embargada de aguardente: “Quem tem o número noventa e cinco? Mostre a cara ou perca seu prêmio!

                            VII

Acordei como quem ainda dorme. Os sentidos indolentes negavam-se a levantar. Rio Verde nas veias. Apenas enxagüei o rosto rapidamente. Meus nervos recordavam da festa passada, mesmo contra minha vontade. Desci o pequeno lance de escadas fechando a conta à saída da hospedaria. Devem possuir um funcionário para cada dia da semana, imaginei, encarando o rosto desconhecido da mocinha atrás do balcão. Saí dali e fui direto à praça principal.  Meus Deus! A máquina deve estar muito bem azeitada, não existem resquícios da estranha festa. As coisas funcionam tão bem por aqui? Minto. Barracas, bandeiras, elas estavam lá.  Mas o pessoal da limpeza urbana já havia feito seu serviço. A praça brilhava, não havia lixo. Aproveitando sua passagem, indaguei a um transeunte sobre o paradeiro de Mariana.

- Mariana... Acho que não posso ajudar. Ela é daqui?

Receei mandá-lo às favas. Ora. De onde seria? Uma mulher que passava foi meu próximo alvo.

- Não lembro de ninguém com este nome. Ela virá à festa?

O rio roncava inapelavelmente. As montanhas, que jogavam a cidade no fundo do vale ainda persistiam. Seu verde roubava meu oxigênio, ofegando minha respiração.  Como encontrar Mariana, mesmo sua casa? Alcancei a barraca com a roleta-relógio. Dentro dela um sujeito arranjava últimos preparativos. Outrem. Não reconhecia sua fisionomia. “Não és um bom fisionomista?”. Mariana sussurrava em meus ouvidos de algum lugar, talvez a voz da mata, das folhas caídas, das rochas espicaçadas. A voz do Rio.

- Hei, amigo, sabe onde posso encontrar Mariana?

- Procura por alguém? - Do interior da barraca de madeira, o sujeito falava sem me fitar, com rosto de bom dia.

- Sim. Alguém da cidade. Procuro por Mariana. “Mariana, será que estão me ouvindo seus desgraçados indecentes?” Minha vontade era berrar alto no centro da praça para que todos percebessem minha presença. Abafar a inescrupulosa voz das águas que não cessavam de correr.

- Talvez procure no instante errado, moço. Devemos saber onde e quando achar o que procuramos.   Desta feita o sujeito me fitou. Encarou firme e profundamente meus olhos. Duas bilhas negras e decididas.

- Sabe pelo menos onde está o sujeito que comandou a roleta na noite de ontem, durante a festa? - Minha indignação transcendia. Estava desnorteado. Amedrontado. Sozinho em meio a montes de peças de um quebra-cabeças gigante que eram capazes de andar e falar.

- Conhece nosso rio?

- Às favas com vosso rio. Às favas essa maldita cidade e sua maldita roleta viciada. - O sujeito pareceu não se importar.

- É necessário que termine os preparativos. A festa será grandiosa e minha barraca é a mais procurada. Boa aguardente e um belo jogo de roletas. As pessoas gostam de apostar apenas por diversão, os prêmios não são grande coisa. O tempo é curto até que termine com tudo por aqui.

Esse maldito só poderia estar brincando. Meu corpo iniciou uma convulsão contida a duras penas.

- Ao menos pode me dizer se conheceu Leandro, meu irmão? Seu enterro foi há dois dias na porcaria de cemitério que vocês têm aqui.

- Talvez. Mas não recordo tampouco deste nome. O tempo é curto. Temo não conseguir terminar meu trabalho aqui. Moço, conhece nosso rio.

Trata-se de uma grande brincadeira. Pavorosa é verdade, mas uma troça. Vou retornar de onde cheguei. Para o inferno, Rio Verde de pessoas que continuam a desfilar com rostos sempre desconhecidos. “Não és um bom fisionomista?”. A voz do rio novamente. Não posso entoar nem um bom dia. O homem da barraca parecia divertir-se com minha apreensão. Apoiou as duas mãos no balcão de madeira clara, inclinou o corpo à frente como querendo alcançar-me e então, de maneira efusiva, aspirando antes um tanto do ar gelado, disse:

- Moço, a cidade descansa no leito do rio. O tempo do leito, simultâneo como cada grão de terra que o delineia. Somos a água de sua correnteza, todos nós aqui em Rio Verde. Dessa correnteza que sussurra em nossos ouvidos incansavelmente, somos a água. Corremos pelo leito do rio, às vezes acima, outras abaixo. Talvez procure no instante errado, moço. Devemos saber onde e quando achar o que procuramos. Deve-se saber em que ponto do rio está. Seu leito é grande e corremos por ele. Às vezes acima, outras abaixo da correnteza. Devia conhecer nosso rio, moço.

                            VII

Mesmo dentro do ônibus continuei ouvindo o ronronar manso da correnteza do Rio Verde. Tinha medo, é verdade. O que fiz aqui, afinal? Enterrei meu irmão? Apaixonei-me? Conheci o terror?  Lembrei da roleta imitando um relógio marcando um tempo desconhecido. O ônibus deslocava-se em direção à estrada. Ao largo da praça principal fui capaz ainda de enxergar as pessoas reunindo-se para a festa que deveria se iniciar em breve. Uma mulher de lindo rosto e cabelos levemente dourados tinha os olhos fitos em minha direção, acompanhando o movimento do ônibus desde o centro da praça que se iluminara. Um mascarado bebia aguardente, afastando seu disfarce por meros segundos.

Não os reconheci.  
Marcelo Santoro
Enviado por Marcelo Santoro em 29/07/2005
Código do texto: T38717
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Sobre o autor
Marcelo Santoro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 52 anos
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Marcelo Santoro