O PREÇO DA LIBERDADE

Vira o pequeno boneco numa loja de brinquedos.Sentado, em um tamborete,segurava um violão. Na face pintada a guache,um sorriso de menino encantado com seu instrumento.Pediu que o embrulhassem com cuidado, prá presente. No pacote, escreveu à caneta:

.Sou muito frágil

.Não me ignore

.Me cuide

.Me escute

.Me aprecie

.Me valorize

.Me guarde

O pequeno pacote chegou ao seu destinatário por SEDEX. Abriu-o avidamente,rasgando a embalagem,sem se importar com os dizeres do papel. Segurou o boneco entre as mãos, sem nada entender. Jogou-o de lado,sobre a escrivaninha,entre os seus CDS e cadernos de cifras.

***

O sol não tardou a incomodá-lo pela janela e logo esfregou os olhos.

Saiu ainda cambaleante e sonolento, pisando sobre a mochila e as roupas espalhadas pelo chão. Ao voltar do banheiro,de dentes escovados e cara lavada,olhou para a escrivaninha. Arregalou os olhos estarrecido com o que viu...Sobre o caderno de cifras,o pequeno violão de papel machê estava todo quebrado e o tamborete estava vazio. Pequenas pegadas de guache,quase secas,podiam ser vistas em direção à janela.Seguiu as pegadas,debruçou-se no parapeito da janela e viu o pequeno músico,todo espatifado,no andar térreo do prédio.Subitamente,uma brisa leve moveu a cortina do quarto.Sentiu uma pressão sobre os ombros e experimentou uma sensação estranha de queda livre, de...LIBERDADE. Abriu os olhos e o pequeno boneco estava bem ali, próximo,encarando-o com os olhos tristonhos e o pescoço quebrado. Ao longe,uma sirene de ambulância e um estranho chamado de um homem que agonizava entre gritos,gemidos e o dedilhar triste das cordas de um violão...