Dedico este a todos os amigos leitores e escritores que prestigiam nossas letras... Grata também pelos e-mails. Obrigado por estarem com a gente nessas linhas...


Quarto Escuro
images?q=tbn:ANd9GcTE5H_wuvdZuxalZeB1MLevZju79PXkjNhkO9f2rLHaJp-NDk7ZBA

“É De Noite Que Tudo Faz Sentido 
No Silencio Eu Não Ouço Meus Gritos...” 

Renato Russo, Esperando Por Mim
 

 A moça dormia entorpecida em seu quarto trancado quando sentiu a respiração do monstro... De súbito, arregalou os olhos em meio à escuridão do seu leito. Apertou a fronha com as unhas  e o suor do medo lhe percorreu a espinha.
 Aquela presença macabra arrepiava os cabelos em sua nuca, deixando a pele comichando, totalmente dominada pelo calafrio.
 O coração disparava descompassado em seu limite... Parada na escuridão, mal conseguia se mexer, pois sabia que estava condenada.
 Seus olhos ligeiros se adaptavam a escuridão, vasculhou os cantos imersos em sombras no quarto. Através da janela entreaberta, podia ouvir o canto das rãs reverberando nos pântanos próximos. Ainda que de muito longe, podia ouvir também o rumor de um trem passando por trilhos distantes. Mas agora, naquele momento, sentia-se prisioneira do medo em seu próprio quarto.
 Sabia que não podia fingir que dormia... O maldito conhecia seu respirar, conseguia também ouvir o disparar de seu coração... Certamente sentia também o cheiro do suor do seu medo.
 Levantou-se. Tateou as paredes agora banhadas pela fraca luz da lua que se sobressaia por detrás de nuvens escuras. A moça precisava se desviar daquilo... Precisava tentar e ousar liberta-se do incomodo do medo:
 — Vá embora! – pensou em dizer, mas se conteve, esperando alem de qualquer esperança que ele não a notasse parada ali, perto da janela.
 Do outro lado da mesma janela, pode ver os refletores de segurança iluminavam o terreno do hospício, com uma luz pálida, azulada. Tardiamente, compreendeu que seu corpo, envolto por uma camisola transparente, estava delineado e exposto a um fraco foco da luz sinistra.
 Finalmente recobrou um tanto dos sentidos. Se lembrou de onde estava... O quarto onde estava internada era tal qual o seu. Foi esta sua única exigência para aceitar a internação. Os pais sabiam que aquela seria uma jornada difícil para ela, entenderam que seria melhor estar em um ambiente familiar.

 Embora fosse terrível lidar com o tratamento, tinha em seu cômodo calado suas coisas de menina... E antes, quando os remédios eram menos ofensivos, conseguia sonhar que estava em sua própria casa.
 Mas tudo mudou, pois agora ele voltou ainda mais forte e estava ali, perto e decidido...
 Claro que ele podia vê-la... Podia até mesmo encontra-la na escuridão.
 Era o que sempre fazia.
 Com a garganta ressequida, ela recuou. Estendeu a mão para a esquadria da janela, a fim de se firmar. Talvez tivesse apenas imaginando a presença dele... Talvez não tivesse ouvido a porta abrir, no final das contas. Talvez tivesse despertado muito depressa de um sono induzido pelas drogas. Não era tão tarde assim, o radio relógio na mesinha de cabeceira dizia que eram apenas oito da noite.
 Possivelmente estivesse segura naquele quarto, afinal foi isso que seu psiquiatra lhe disse, quando convenceu seus familiares a interna-la ali.
 Maldito homem! Maldito remédio que separava o certo do incerto!
 Já estendia a mão ao abajur na mesinha quando ouviu a rouca respiração se aproximar...
 Sua garganta se fechou em um grito silencioso. Nem ela mesma se ouviu em tanto desespero.
 Depois de seus olhos se acostumarem totalmente á meia luz, seu olhar se deslocou para a cama. Os lençóis desarrumados, a indicação de um sono irrequieto. Ainda na mesinha de cabeceira, estava o abajur, o radio relógio e um porta-retratos, com a foto de seus pais. Dava para ver os ladrilhos decorativos. Olhou novamente para a janela alta. No horizonte, a noite de outubro era quente e abafada. Na vidraça, podia contemplar seu débil reflexo: uma menina moça, corpo frágil, magra demais, olhos cor-de-mel, tristes... Cabelos castanhos brilhantes... E por trás dela... Era uma sombra que se aproximava sorrateira...
 Teria realmente o monstro outra vez saído das trevas?
 Ou era só sua imaginação,como todos diziam?
 Era justamente esse o problema. Ás vezes, ele se escondia.
 Mas estava sempre por perto. Sempre mesmo. Ela podia sentir sua respiração, ouvir seus passos rudes e determinados. Ter o vislumbre de uma sombra rápida, em disparada, á sua passagem. E no dia seguinte ouvir que tudo não passou de uma alucinação.

Z

 Lembrou-se da primeira vez que o viu. Tinha apenas nove anos quando foi com os pais visitar a avó viúva no interior.
 Corria pelos corredores da casa grande, vasculhando cômodo por cômodo, admirando as velharias da casa da ânsia. De súbito, parou diante de uma porta azulada, quase fosca. Levou as mãos até a maçaneta e tentou abri-la, não conseguiu.
 Uma mão enrugada apertou seu pulso que segurava a maçaneta. Seu coração foi a mil e ela olhou para cima. Era a avó, que em arrogância lhe advertiu:
 — Não mexa ai, menina! Nesta parte da casa você não pode entrar!
 Talvez fossem bons aqueles tempos em que sua curiosidade era maior que seu medo. Com os olhos inocentes, encarou a velha avó e lhe perguntou:
 — O que tem ai dentro, vovó?
 A velha teve paciência para com a menina, levou ela até a varanda espaçosa e lhe contou:
 — Era o quarto onde seu avô ficou enquanto estava condenado pelo câncer. Seu avô sempre foi um homem muito ruim, a doença o fez se entorpecer de um ódio ainda maior, o fazendo amaldiçoar tudo a sua volta. Você é menina demais para entender... Mas lhe digo que de tanto praguejar, seu avô trouxe das trevas o próprio mal, para lhe fazer companhia. Eu já não mais conseguia enfermeiras para cuidar dele... Todas elas sentiam incomodo dentro do quarto... O mal reinava e seu avô sorria demente, até o dia de sua morte. Quando ele finalmente partiu, pensei que o que evocou foi consigo, mas me enganei. O mal ainda ecoava dentro do quarto, até que decidi tranca-lo.
 — Não posso entrar vovó? Não posso entrar para ver como é o mal?
 — Não, menina... Não pode! Essa herança maldita que seu avô nos deixou ficará aqui trancada, e ninguém jamais ira liberta-la!
 A menina tentou compreender as palavras da avó, mas a curiosidade ainda ecoava em sua cabeça.
 E naquele mesmo dia, saiu do quarto de hóspedes na calada da noite, indo na ponta dos pés até os aposentos de sua avó.
 Com cuidado, pegou o grosso molho de chaves no criado-mudo e saiu, quieta e decidida.
 Caminhou ainda na ponta dos pés pelo vasto corredor, até chegar até a porta azulada... Chave por chave foi entrando naquela fechadura. Uma delas teria que abrir a porta. 
 A ultima chave fez o trinco estalar. A porta se abriu, a menina curiosa sorriu. 
 A primeira coisa que viu foi o leito de seu finado avô. Apertou os passos e adentrou ligeira no quarto, testemunhando a cama ainda suja de sangue grosso. Era o sangue das feridas do finado acamado. A porta se fechou em uma batida violenta, um frio medonho lhe fez arrepiar-se dos pés a cabeça. Correu até a porta e a viu trancada.
 Gritou. Gritou sem poder ser ouvida. Gritou quando se sentiu só.
 Enganou-se... Não estava só. Ela então, na escuridão do quarto, conseguiu vê-lo sorrir. Viu o próprio mal lhe sorrir nefasto, lhe tentando, lhe condenando ao medo eterno.
  Foi só pela manhã que a porta foi aberta. Ela saiu, mas não saiu sozinha. Tinha agora companhia. 
 Os anos corriam e a menina agora já moça foi diagnosticada como louca, pois só ela o via e o sentia. E nesta condição, ela era um incomodo para todos, tal qual seu avô era quando foi condenado pelo câncer.
 
 E agora ela estava ali, em seus últimos momentos... Não havia como escapar daquele monstro. Nunca, nem mesmo quando ele estava a muitos mares dali.
 Era irônico que a tivessem internado em um hospício... Ainda mais quando disseram ser para sua própria segurança. Pelo o menos foi o que sugeriu o psiquiatra.
 Perdida em seu medo, piscou e tentou focalizar.
 Onde ele estava? O quarto escuro o escondia,mas deixava bem claro o medo dela.
 Com os nervos a flor da pele, ela olhou para o único esconderijo possível: o closet. 
 Ó Deus!
 Talvez não desse tempo!
 Ela ficou toda arrepiada. Deveria chamar alguém... Mas se o fizesse, seria contida, medicada... Ou até pior...

 Tinha a sala acolchoada que ela temia mais que o monstro... Uma vez gritou demais e foi parar lá, livre do monstro mais presa com ela mesma... E perdida em devaneios, não se achou boa companhia nem para si própria. 
 Mas talvez fosse tudo um sonho desagradável. Mais um pesadelo sujo, parecido com os que lhe condenou a estar ali. Não era isso que as irmãs sempre lhe asseguravam, enquanto afagavam suas mãos, gentilmente, e fitavam-na com expressão compadecida? Um sonho terrível. Isso mesmo! Um pesadelo de vastas e intensas proporções. Até mesmo a enfermeira concordava com as freiras, dizendo-lhe que não era real o que ela pensava que vira. E o psiquiatra, frio profissional, com o comportamento impassível de uma pedra, falara como se ela fosse uma criança pequena e estúpida.
 — Calma, calma, calma, calma mocinha... Fale mais devagar... Não há ninguém seguindo você. – Ele exibia um sorriso condescendente – Ninguém entrou aqui para lhe drogar e você sabe disso... Apenas... Sente-se confusa. Mas esta segura aqui, em seu lar. Lembre-se que esse é o seu lar agora.
 As lagrimas ardem em seus olhos, e ela os coçou, ainda mais ansiosa. Eles a condenaram com palavras sensíveis... Achavam que lhe davam conforto, mas lhe condenaram sim!
 Lar? Aquele lugar monstruoso? Ela fechou os olhos e segurou na cabeceira da cama para se firmar.
 Estaria tão doente quanto diziam? Via mesmo o monstro? Era o que haviam lhe dito muitas e muitas vezes, a tal ponto que não tinha mais certeza do que era real ou não. Talvez fosse uma trama contra ela: fazê-la acreditar que se tornara tão louca quanto insistiam.  
 Começou a tremer quando viu a porta abrir mais um pouco.
 Temerosa ela recuou. A porta rangeu ao se abrir, em câmara lenta.
 — Vá embora! – sussurrou com o estômago contraído, dominada pelo terror total.
  Levantou os olhos, e foi nesse instante que o viu. Estava muito escuro para ver suas feições, mas ela sabia que era ele: O monstro...
 — Por favor... Não... – Suplicou com a voz parecendo fria e fraca, enquanto recuava com as pernas trêmulas.
 —  Por favor não o que? – perguntou a voz rouca que ela tanto conhecia.
 — Saia agora... Ou... – Insistiu, ameaçando.
Não havia nenhuma arma que pudesse detê-lo:
 — Saia agora ou que? – Voltou a insistir aquela mesma voz, em tom de deboche.
 — Ou eu gritarei e chamarei as enfermeiras! Elas vão te ver, vão saber que você é real!
 Ele estalou a língua, como se fosse uma criança desobediente, antes de acrescentar:
 — Já tentou isso antes, e todos acreditaram que esse monstro só existe em sua imaginação! Quer mesmo gritar e voltar para o quarto acolchoado? Quer ficar amordaçada enquanto te olham como uma demente?
 Claro que não queria. Porque haveriam de acreditar em suas palavras? 
 — Lute! – uma voz esperançosa, dentro de si lhe indagava – Não se deixe enganar mais uma vez, não deixe que o monstro vença! Lute e o destrua de uma vez!
 Ela recuou para mais próximo da janela, mais longe possível do monstro.
 — Você esta confusa. Mas eu posso ajuda-la, sempre ajudei não é mesmo? – Repetia aquela voz na penumbra do quarto. Era a coragem fraca que insistia em lhe alimentar.
 —  Ó Deus - sussurrava ela em pânico – Até onde estou louca?
 Virou abruptamente e a ponta do pé prendeu na beira de um tapete. Cambaleou para frente e tornou a ver seu reflexo na janela. Só que dessa vez ela o viu também, correndo para frente. E sentiu as mãos que a agarravam.
 — Não! – Gritou ela ao cair. 
 O vidro quebrou, espatifou-se quando atingido por seu ombro e sua nuca.
 A janela toda estraçalhou. Cedeu.
 Com um enorme rangido de metal retorcido, a grade de ferro soltou dos pinos.
 Ela gritou e sacudiu as mãos no ar, tentando segurar no peitoral da janela, a grade que prendia só em um pino, os tijolos, qualquer coisa! Mas já era tarde. O corpo passou pela vidraça quebrada, fragmentos de vidros e madeira rasgando seus braços e rasgaram a camisola, cortando seu corpo magro.
 Numa fração de segundos ela compreendeu que o monstro só queria que ela se calasse. 
 Os olhos fechados daquela menina moça mergulharam na escuridão da noite...
 Caiu em um baque seco. Sentiu seus ossos estalarem, todos de uma vez. E em ultimo suspiro, viu que venceu. O monstro havia ido embora, e desta vez, para sempre.
images?q=tbn:ANd9GcRRDVvLFH-rHsV1RBExhkwOWsc4JX6vNrPtQRHnjCWTGh9a9KNu

.....Aguardem.....

Sua imagem está carregando ...
Zeni Silveira
Enviado por Zeni Silveira em 08/08/2013
Reeditado em 09/04/2014
Código do texto: T4425526
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2013. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.