O ENFORCADO

Bernardo decidira pôr fim à vida pela qual vinha, há meses, apenas se arrastando como um verme. Já não tinha a menor vontade de lutar contra a tristeza que lhe dilacerava o peito. Sentia como se seu coração estivesse morto dentro dele. Perdera completamente as esperanças e não via luz alguma em seu futuro.

Não tinha coragem de usar uma faca e não possuía arma de fogo. Também não se atrevia a pular de um prédio. Caso se jogasse numa correnteza, sabia que o instinto de sobrevivência acabaria por fazê-lo nadar. Portanto, naquela tarde, pegou uma corda e dirigiu-se para o meio de um bosque, disposto a dar à sua sina o mesmo fim que Judas Iscariotes dera à dele.

Enfiou-se mata adentro, enquanto o sol descia, seus raios de luz cada vez menos penetravam por entre os ramos, e escolheu uma árvore que lhe pareceu de bom porte para seu intento. Subiu com facilidade, pois havia alguns ramos mais baixos, e amarrou a corda num galho que ficava a cerca de dois metros e meio do chão. Passou a outra ponta em torno do pescoço, e, enquanto preparava um nó corrediço, perguntava-se como seria sua morte – se o impacto brusco bastaria para quebrar-lhe as vértebras, ou se teria uma morte lenta, por asfixia, mas que, por outro lado, dar-lhe-ia algum tempo para se arrepender, para rezar.

De repente, ouviu um gemido. Sobressaltou-se, perdeu o equilíbrio e caiu do galho. O nó ainda não estava completo, e ele apenas sentiu o atrito da corda contra sua pele, até que o choque com o chão o fez perceber que não morrera – estava bem vivo. Levou as mãos à garganta, um pouco esfolada, e olhou para cima.

Então, a imagem que viu o deixou completamente sem ar, e ele percebeu que, decididamente, não teria mais coragem para morrer daquela maneira.

Do mesmo galho da árvore onde ele amarrara sua corda, pendia um homem – um enforcado. Seu rosto estava totalmente constrito, os olhos saltados das órbitas, a língua projetada, uma substância pegajosa e esverdeada correndo pelos cantos da boca. A pele do infeliz tinha um horrível tom azulado, as veias apareciam nitidamente sob a tez, e demonstravam conter um sangue assustadoramente enegrecido. A corda afundara-lhe profundamente na garganta, destacando ainda mais a vultuosidade do rosto, e o corpo parecia ainda se contrair em estertores. E o que mais apavorou Bernardo foi o fato de que aquele cadáver não estava pendendo da árvore no momento em que o jovem subira nela...

Súbito, o morto voltou-lhe os olhos.

– Por que você quer dar fim à sua vida, meu jovem? perguntou-lhe.

Bernardo não conseguiu pronunciar palavra alguma. Queria se levantar e correr, mas seus membros não lhe obedeciam. Sentia-se totalmente paralisado de medo...

O enforcado fez uma careta que lembrava vagamente um sorriso.

– Vejo que você ainda é capaz de sentir medo, meu jovem – disse. – Isso é bom, isso é muito bom. O medo geralmente é um inimigo. Mas, muitas vezes, é justamente na face desse inimigo que vemos um amigo, que nos protege de nós mesmos, e nos impede de cometermos os maiores desatinos.

– Quem... Quem é você? balbuciou Bernardo, enfim.

– Sou João Fonseca Souto.

Bernardo franziu a testa. Já ouvira falar daquele homem. João Fonseca Souto, segundo lhe haviam dito, era um comerciante da cidade, que havia cometido suicídio.

– Mas o senhor... O senhor morreu há mais de vinte anos... – murmurou.

– Pois há mais de vinte anos que estou aqui, meu jovem – respondeu ele.

– Não é possível! respondeu Bernardo. – O senhor foi enterrado! Eu já vi seu túmulo...

Algo que se pareceu com grossas lágrimas escorreu pelas faces do defunto.

– Meu corpo foi enterrado, rapaz. Minha alma... – Fez uma pausa. – Minha alma permanece aqui, pendurada nesta árvore. E, para completar o meu castigo, foi-me dado sofrer todas as dores que sofreria, se vivo estivesse. O frio do inverno me enregela os ossos. No calor do verão, a sede me tortura. O vento e a chuva me castigam como açoites. A dor da corda em meu pescoço, meu jovem, e a falta de ar... Não queira saber como é a falta de ar!... Os dias me parecem infinitos. Passo o tempo todo a remoer minhas culpas, a lembrança de meus erros me consome, e este tormento me parece eterno!...

Bernardo levantou-se e olhou, com sincera piedade.

– Mas... – disse o jovem. – Não há uma maneira de... De tirá-lo daí?... Talvez se eu cortasse a árvore...

O morto balançou a cabeça.

– A alma da árvore permaneceria sustentando o cadáver da minha alma – respondeu. – Não tenho certeza. Mas acho que a única maneira de me libertar seria resolvendo o drama que me levou a este ato de desespero.

– E qual foi o drama? perguntou o rapaz. – Por que o senhor se matou?

– Eu me endividei terrivelmente, meu jovem. Meus credores me perseguiam. Diziam que iriam me levar à justiça. Não suportei a vergonha. Tenho certeza de que minha mulher sofreria imensamente se fôssemos despejados de nossa casa, expropriados de nossos bens... Achei que o melhor a fazer era dar cabo da vida. Com isso, sei que ela voltou para a casa de seus pais. Mas todo o patrimônio que eu possuía não foi suficiente para saldar todos os meus débitos. Ainda fiquei devendo a uma pessoa, e creio que é a falta do perdão desse homem que me condenou a este sofrimento pior do que o inferno...

Bernardo o encarou, com firmeza.

– Pois bem, diga-me quem é. Eu pagarei sua dívida!

– Você? E por que você faria isso, meu caro?

Bernardo suspirou.

– Porque, neste momento, o que mais desejo neste mundo é libertá-lo de sua terrível prisão.

O enforcado fechou os olhos, por um momento.

– Bem – disse –, o homem é o banqueiro. Ainda fiquei lhe devendo três contos. É muito dinheiro...

– Está dentro das minhas possibilidades – respondeu Bernardo.

– Peço-lhe que me tragas um recibo de quitação da dívida. Se eu o enxergar, talvez isso me livre desta situação horrenda...

– Considere-o feito.

Bernardo saiu do bosque e foi imediatamente procurar o banqueiro. Este o recebeu com desconfiança. Não acreditava que aquele jovem quisesse pagar uma dívida que o tempo já fizera prescrever, ainda mais sendo de um desconhecido que não tinha qualquer vínculo de parentesco com ele. Mas dinheiro era dinheiro. Porém, o homem fez um cálculo e lhe disse que, com os juros, o valor da dívida havia triplicado. Bernardo fez mentalmente suas contas. Sim, teria como pagar. Ficaria em situação bastante complicada por um tempo, mas possuía o dinheiro. Na manhã seguinte, bem cedo, pegou o montante e o entregou ao credor, fazendo-o assinar, antes, o recibo.

– Agora – perguntou-lhe, olhando-o nos olhos –, você perdoa completamente a dívida de João Fonseca Souto?

O banqueiro o olhou com desdém.

– Perdôo, sim – respondeu, com um sorriso de escárnio. – Ele não me deve mais nada. E que a terra faça bom proveito de seus ossos!

Bernardo correu para o bosque e procurou a árvore. Demorou um pouco a encontrá-la, e teve receio de que, se não conseguisse mais ver a aparição, a alma de João Fonseca Souto permanecesse oprimida por toda a eternidade. Mas, por fim, o encontrou. Exibiu-lhe o recibo, aliviado.

– Sua dívida está paga – disse. – Agora, o senhor pode finalmente descansar em paz.

João Fonseca Souto sorriu. Aos poucos, pareceu ao jovem que ele flutuava. O nó se desfez, a corda se soltou, e, aos poucos, foi desaparecendo.

– Meu querido e jovem amigo – disse ele –, não sei se foi a sua caridade que libertou minha alma. Mas uma coisa tenha por certa: a sua ela libertou.

– Como? perguntou Bernardo.

– Olhe para dentro de si mesmo – respondeu o enforcado. – Veja se você não sente de novo o calor da esperança. Veja se, depois de ter feito esse ato de desprendimento e de abnegação, você não vê uma nova luz brilhando em sua alma. Veja se você não recuperou a vontade de viver...

Bernardo olhou para cima. A luz do sol atravessava os galhos das árvores e o iluminava. Respirou profundamente, sentindo a brisa suave que o envolvia. Seu coração, que antes lhe parecera morto, agora pulsava tranqüilamente, fazendo correr por suas veias um sangue que lhe parecia renovado.

Olhou em volta. O fantasma desaparecera. Bernardo já nem se lembrava mais da dor que o fizera perder a razão. Era uma moça que o desprezara? Ora, mas ela tinha esse direito. Outras moças haveriam, outras manhãs, outros caminhos, outras oportunidades para ajudar, outras maneiras de ser feliz...

JUNHO DE 2007

Nota: esta é uma obra de ficção, que não retrata necessariamente minhas crenças, idéias e opiniões. Qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.

Mauren Guedes Müller
Enviado por Mauren Guedes Müller em 22/06/2007
Reeditado em 29/06/2007
Código do texto: T536681