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As visões do Sr. Vargas

Aquela noite no final do mês de outubro pode ser definida, no mínimo, como estranha; o ápice de uma sucessão de eventos bizarros que se prolongaram durante alguns longos meses. Embora os médicos tenham me dado uma explicação científica, não acredito que a ciência tenha resposta para todos os segredos que o universo reserva para a nossa existência insignificante neste imenso vazio cósmico.

Alguns meses antes eu estava então cursando o último semestre de enfermagem de uma renomada universidade federal no Rio de Janeiro, quando iniciei a minha residência na ala psiquiátrica daquele hospital municipal, situado em um bairro nobre na Zona Oeste do Rio de Janeiro; hospital este que é tido como modelo entre os hospitais do município - é um dos poucos que tem uma ala exclusivamente psiquiátrica. O sr. Vargas acabara de ser internado e ocupava a enfermaria número 23, aonde ficava a maior parte do tempo amarrado em seu leito; por acaso, esta era a enfermaria sob os meus cuidados. Ele fora trazido por sua família, após uma série acontecimentos bizarros, aonde uma tentativa de homicídio fora o último ato cometido antes de sua entrada aqui no hospital.

Após a primeira bateria de exames, aliada às declarações da família, sr. Vargas fora diagnosticado como esquizofrênico, mais especificamento do tipo desorganizado, aonde o contato com a realidade e os delírios são os principais sintomas. O fato que chamou a minha atenção foi que, tirando as raras crises – no início aconteciam cerca de duas vezes por mês -, o restante do tempo sr. Vargas era uma pessoa extremamente normal, e não gostava do fato de estar ali internado.

Durante o primeiro mês em que esteve internado, sr. Vargas não teve nenhuma crise, e seu quadro parecia extremamente normal; um leigo diria que não havia motivos para que ele estivesse ali. Durante a semana, na parte da manhã os pacientes deixavam seus leitos para o banho de sol, aonde ficavam passeando ou simplesmente sentados nos bancos, naquele imenso jardim de grama verde brilhante. Os finais de semana eram reservados para visitas, que duravam boa parte do dia.

Foi na primeira semana, durante o banho de sol, que comecei a conversar com o sr. Vargas. Por trás daqueles cabelos e barba grisalhos havia um homem tranquilo, de expressão calma e despreocupada. Conversávamos sobre muitas coisas; ele falava-me sobre seu trabalho, sobre pescaria, sobre os filhos, sobre as viagens que fez, e de como gostava de tudo aquilo. Alguns dias depois, o assunto inevitavelmente voltou-se para o motivo de ele estar ali, e naquele momento aquele homem de 50 anos já não era mais calmo e despreocupado. Seus olhos arregalaram-se e seu sorriso sumiu de seu rosto. Havia algo em seu olhar que nunca havia visto antes; estavam olhando fixos para a frente, como se nada houvesse ali além de um imenso deserto. “Existem coisas no universo que não entendemos, meu caro.”, disse-me ele, ainda com os olhos fixos naquele deserto imaginário, “e quando essas coisas resolvem te perseguir, nada podemos fazer.”. Ficou ali, parado com aquele olhar sério e preocupado, e pediu para ficar sozinho.

Foi no segundo mês que presenciei a cena que me fez duvidar se ali era o lugar certo para o Sr. Vargas estar internado. Eu estava de plantão na madrugada e fazia uma caminhada pelos corredores – mais para espantar o sono do que para verificar as enfermarias – quando parei em frente à enfermaria 23. Fiquei um tempo olhando através da pequena janela de vidro posicionada a cerca de 1,60 metros de altura do chão e centralizada na porta parcialmente deteriorada pelo tempo, aonde a tinta verde era falha em diversos pontos. Por alguns minutos fixei meu olhar no Sr. Vargas, que aparentemente dormia um sono pesado, deitado de barriga pra cima. Já estava saindo dali e voltando para a sala da enfermagem quando, ao ouvir um pequeno estalo – como que de metal sendo batido contra metal -, voltei rapidamente minha cabeça em direção ao leito que Sr. Vargas ocupava e, estupefato, fiquei ali parado com os olhos esbugalhados assistindo incrédulo àquela cena grotesca. Com um empurrão abri a porta e entrei afobadamente na enfermaria.

Quando entrei na enfermaria, parei a alguns passos de distância do homem que agora levantava de forma estranha de seu leito. Seus movimentos eram lentos e quase estáticos, como se fosse um pequeno boneco sendo manipulado por um experiente e meticuloso artista. À medida que seus movimentos eram concluídos, uma leve penumbra começou a tomar conta da enfermaria; sombras pareciam escorrer como sangue do teto em direção ao assoalho. Um leve tremor começou a tomar conta de mim à medida que os olhos do Sr. Vargas – agora de pé a uma pequena distância de mim – foram adquirindo uma aparência assustadora, aonde as pálpebras agora sumiram dando lugar a uma imensa esfera vermelha, que levemente propagava-se em todas as direções, até tomar por completo os olhos daquele homem.

As luzes existentes na enfermaria não eram mais suficientes para iluminar a penumbra – que para mim pareciam sombras vivas dançando ao som de uma melodia infernal -, e começaram a piscar levemente. Os outros pacientes, misteriosamente, não acordaram, embora um pequeno zumbido estivesse lentamente ocupando o ambiente. Enquanto olhava ao redor tentando entender o que acontecia, um calor começou a tomar conta de meu braço esquerdo, acompanhado de uma leve pressão. Dei um pulo e percebi que era o Sr. Vargas que segurava meu braço, apertando agora com mais força. Antes que eu pudesse pronunciar qualquer coisa, sua boca abriu-se para proferir algumas palavras em um idioma que eu nunca antes havia ouvido. Os sons que eram pronunciados, a propósito, não se pareciam com nenhum som que eu já houvesse ouvido em toda minha vida, o que fez que uma onda de terror tomasse conta de me corpo e me deixasse paralisado naquele momento. Tentei gritar, inutilmente pois nenhum som saia de minha garganta, quando de dentro da boca daquele homem começaram a surgir o que pareciam pequenos tentáculos, que moviam-se dançando a mesma melodia macabra que dançavam as sombras nas paredes. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, quatro daqueles tentáculos retrairam de dentro de si o que parecia ser pequenas e grossas agulhas, que em um movimento brusco foram fincadas sem qualquer dó nas laterais de minha cabeça. Pude sentir quando as agulhas espetaram meu cérebro, me fazendo desferir um hurro de dor.

Acho que eu estava para perder a consciência quando as sombras eram mais intensas. A enfermaria agora não parecia mais a mesma. Eu tinha a sensação de estar ali, mas tinha certeza de que estava em outro lugar. Os pacientes deitados nos outros leitos agora não eram mais do que um amontoado de carne pútrida e ossos sujos, o mal cheiro agora impregnava minhas narinas como facas sem ponta sendo enfiadas à força. Quando meu corpo estava quase desfalecendo, os tentáculos entraram um pouco mais dentro de minha cabeça fazendo com que meus olhos quase saltassem de suas órbitas. As paredes que outrora contornavam a enfermaria estava agora repleta de corpos nadando em um imenso mar de enxofre, que embora não tivessem rostos, podia-se sentir a agonia e a dor que sentiam, movendo-se desesperadamente como se estivessem tentando fugir de onde quer que estivessem. Não havia mais teto nem assoalho na enfermaria, e a sensação que eu tinha era de que meu corpo flutuava por entre nuvens de gás metano. A gritaria das pessoas – se é que eram pessoas – nas paredes feria meus ouvidos de tal forma que pude sentir o sangue escorrendo.

Virei-me para o Sr. Vargas na tentativa de tentar qualquer contato com ele, mas não foi preciso. Entre as palavras balbuciadas pelo homem que quase esmagava meus braços e me fazia viajar por entre um céu de agonia e sofrimento, pude identificar apenas algumas palavras que pareciam querer dizer “o seu círculo existencial está prestes a ser consumido pelo fogo e pela solidão”. Não entendi muito bem o que aquelas palavras queriam dizer, mas pude sentir dentro de mim um sentimento de tristeza profunda, como se toda a minha energia vital estivesse sendo consumida por aquele homem – ou ser. Antes que eu pudesse ter qualquer outra reação, o homem soltou meus braços e os tentáculos saíram de minha cabeça, o que me fez dar outro hurro de dor. Caido no chão, pude ver quando os olhos do Sr. Vargas começavam a voltar ao normal, os tentáculos já haviam sumido de sua boca. Na hora em que ia sentar-se em seu leito, porém, Sr. Vargas abre a boca de forma assutadora fechando os olhos. Seu corpo estava enrijecido como pedra, suas mãos estavam quase que invertidas e sua cabeça levemente virada para a direita. Tremendo de forma absurda, o homem soltou um grito quando um enorme corte rasgou seu braço esquerdo de uma extremidade à outra; o sangue jorrava para todos os lados. Tentei me levantar mas todo o esforço foi inútil, eu ainda encontrava-me extremamente entorpecido pela viagem que havia feito. Minha única alternativa foi soltar o grito mais alto que pude na esperança que alguém viesse socorrer-nos, e esta foi a última coisa que me lembro de ter feito antes de desmaiar no chão da enfermaria.

Acordei alguns dias depois, de acordo com o médico, na emergência do hospital. Fui informado que Sr. Vargas havia morrido devido a um ataque epilético, e que não havia nenhum sinal dos cortes desferidos em seu corpo como eu havia relatado; fato que constatei com meus próprios olhos ao ver o corpo ainda no necrotério do hospital. Na enfermaria, todos os pacientes encontravam-se em seu estado normal de saúde – salvo as doenças mentais que tinham. Do sangue, dos corpos nas paredes, das sombras, não havia nenhum vestígio. Minha cabeça também não mostrava sinal algum da perfuração feita pelos tentáculos. Para onde fui levado naquela noite ainda não sei, mas ainda tenho a impressão de que era um lugar bem mais perto do que imaginava. Até hoje ainda sinto que aquele lugar está separado da nossa realidade por uma fina membrana que pode ser rompida a qualquer momento. Quando terminei a faculdade, deixei meu trabalho naquele hospital – embora tenha recebido o convite para permanecer trabalhando lá – e passei a correr algumas cidades aonde houveram relatos parecidos com o ocorrido com o Sr. Vargas. O que me espera no futuro com certeza não deve ser pior do que o que vi naquela noite.
Luiz Poleto
Enviado por Luiz Poleto em 23/08/2007
Código do texto: T620714

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Sobre o autor
Luiz Poleto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 38 anos
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