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O celeiro dos Amadeos

Nos meus tempos de adolescente tive uma experiência que, apesar do pretérito que a cerca, ainda me faz sentir uma certa opressão no peito. Um sentimento de onipotência e covardia apodera-se de mim, apesar dos anos passados. E é claro, medo.
Estava passando as férias na casa dos meus tios, no interior. Cidades do interior são cercadas de lendas, mistérios contados ao pé do fogo. Estávamos na época da colheita do milho, e quando o serviço finalmente acabava, podíamos sentar perto da fogueira, comer milho e contarmos as mais incríveis estórias, na sua grande maioria, inventadas por jovens de imaginação forte. Numa noite dessas, Jacinto, o maior bêbado da cidade, sentou-se perto de nós e começou o seu relato, entre uma golada e outra:
-Vocês conhecem a estória do celeiro dos Amadeos?
-Aquela mentira que contam para as crianças voltarem cedo para casa? É claro que sim.
-Mas vocês só ouviram uma parte da estória.
-Existe outra parte além dela? Já não bastam oa sussuros que dizem ouvir à noite quem passa por lá, as batidas na madeira, um cheiro indescritivelmente fétido?
-Dizem que os Amadeos tinham pacto com o demônio, para obter fartura na colheita, mas um dia o demônio veio cobrar o que lhe pertencia, e nunca mais se viu os irmãos.
-Até aí já sabemos. Qual é a parte à que você se referiu?
-Eu estive lá. Estava completamente bêbado,- disse Jacinto- não me pergunte como fui parar lá, mas lá estava. Preparava-me para pegar o caminho quando comecei a ouvir gemidos, como se alguém estivesse sentindo dor - nesta hora sua fisionomia mudou completamente- quando vi Arthur Amadeo na parte de cima do celeiro sendo enforcado. De repente fiquei sóbrio. Aquela imagem, aqueles gemidos, estava quase vomitando tudo o que tinha bebido, quando senti algo me empurrar para fora como se fosse um boneco. Nem pensei em olhar para trás. Só sei que nunca mais voltei àquele maldito lugar, e não voltaria nem se minha vida dependesse disto.
                  É claro que comecei a rir. Quem aquele bêbado queria assustar? O engraçado é que eu era o mais cético de todos os garotos. Dava-se para notar sinais de palidez em alguns rostos, a vontade de outros em ir correndo para casa deitar embaixo das cobertas da cama da mãe. Mas claro que eu continuava a rir e a xingar o pobre do Jacinto. Os outros garotos pediam para eu parar com aquilo, e eu os chamava de covardes. Não era verdade que aquele imbecis acreditaram na estória do maior pé-de-cana da cidade? Fui embora orgulhoso de mim, eu era o único homem entre todos, lendas não me fariam sequer perder o sono. Mas lá dentro de mim algo havia sido mexido, a curiosidade havia me pegado de jeito. Mas como minha mãe dizia sempre: A curiosidade matou o gato. E eu iria descobrir isso da pior maneira possível.
                   Eu acordei naquela manhã disposto a ir até o celeiro. Apesar de achar que toda aquela estória não passava de superstições antigas, eu queria ir até lá. Não me perguntem o porquê do meu desejo, era uma sensação inefável, algo mais forte do que eu. Encontrei alguns colegas na rua e lhes disse o meu intento. Todos acharam uma maluquice o que iria fazer, ir até um lugar afastado brincar com coisas além do meu entendimento? Sandice! Mas eu não dei bola para o que diziam. Já estava decidido, iria até lá e mostraria a todos que fantasmas não existem, que suas superstições deveriam ficar no passado, que estórias de terror não assustariam alguém civilizado como eu.
                    Andar até o celeiro levou mais tempo do que eu imaginava. Toda uma paisagem lúgubre se apresentava diante de meus olhos. Todos aquele casebres abandonados, em ruínas. Parece que todos que moravam a alguns metros da propiedade dos Amadeos tinha ido embora, tomados de medo por causa do que diziam que habitava agora aquele celeiro. À medida que fui me aproximando, senti que começava a suar. Convenci-me de que era causado pelo fato de ter andado tanto, mas no fundo sabia que não era nada daquilo.
                 Quando cheguei no celeiro um silêncio sepulcral pairava no ar. Ferramentas jogadas no lado de fora, como se o dono delas não tivesse tido tempo de guardá-las. Um cheiro fétido começou a impestiar o ar de repente. Nesta mesma hora lembrei-me da estória contada por Jacinto. Será que eu tinha me enganado? Será que tudo o que eu acreditava como sendo real, sem espaços para suposições,  ruiria bem na minha frente? E o preço a se pagar...  Estaria disposto a arcar com ele? Teria colhões suficientes para tamanha empreitada?
Aproximava-me do celeiro na ponta dos pés. O medo já estava me invadindo. Aproximei-me da entrada . Vi um rastro de pés, e eles iam para dentro do celeiro. Agora o meu apavoramento era total. Apesar disto, de tudo me mostrar que deveria sair correndo dalí, continuei a entrar. O cheiro se tornava cada vez pior. Estava uma bagunça total lá dentro, como se o caos tivesse se instalado ali. Mas o silêncio continuava. Continuei a andar e encontrei rastros, como se alguém tivesse sido arrastado. Ouvi barulhos. Era como alguém gemendo. Nesta hora meu coração quase pulava pela boca. Olhei para cima, de onde estava vindo os gemidos, e vi um dos irmãos Amadeos sendo enforcado. Ele tentava se soltar da corda, mas eu podia ouvir o barulho dos ossos se quebrando. Era horrível. Aquilo já tinha sido demais para mim. Estava prestes a sair dali correndo, quando sinto alguém puxar meus pés. Dei um grito que ecoou por todo o celeiro. Era um dos irmãos. Olhou-me de uma forma tão sentida que não resisti aos seus apelos. Ele queria falar:
-Precisa sair daqui. Este é um lugar amaldiçoado. Eu e meu irmão estamos pagando o preço por nossa ganância. Vê as minhas pernas?
As pernas dele estavam cobertas de vermes.
-Todos os dias eu e meu irmão sofremos, cada um com seu castigo. Saia daqui. Ele vai voltar, pois tudo vê. Ele é mal e traiçoeiro. Saia daqui!
Neste momento, senti alguém me puxar pela gola da blusa e me jogar para fora do celeiro.

Sou um homem agora. O passado faz parte do passado. Mas o meu ceticismo já não é tão ferrenho como antes. Às vezes, acho que aquilo tudo foi um sonho, pois não me lembro como cheguei em casa naquele dia. Mas meu medo é real. Até hoje tenho pesadelos, onde consigo sentir o cheiro de coisa morta, ouvir os gemidos. Acordo sobressalto. Suando frio. Passei por uma igreja ontem, onde um cartaz dizia: Você não acredita no demônio, mas ele acredita em você.
E um terror tomou conta de mim. Mas sou homem agora.
Poetisa da Noite
Enviado por Poetisa da Noite em 27/08/2007
Reeditado em 27/08/2007
Código do texto: T625371

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Sobre a autora
Poetisa da Noite
Santos - São Paulo - Brasil
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