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Cria da Noite - parte 1

                                     DESPERTAR


     Lucas acordou com uma dor indescritível em cada centímetro do seu corpo. O estômago revirava de náuseas e ardia com uma fome do outro mundo. Respirou fundo e o ar fez arder como brasa o caminho até os pulmões. O rapaz demorou um pouco para perceber que convulsionava.
     Bem ao longe, distante uma eternidade dali, ele escutava a voz doce de sua amada Laura calmamente dizendo-lhe para se acalmar, quase como um sussurro. Aos poucos sua visão clareou e ele viu um vulto indistinto amarrado em posição fetal no canto do aposento em que se encontrava. Tanto o quarto quanto o vulto lhe eram um tanto familiares, mas Lucas não saberia precisar como e quanto.
     Ele rastejou em direção ao vulto; era um homem. O homem chorava copiosamente. Ali, daquele jeito, assemelhava-se com uma criança, com medo e pedindo socorro. Apesar da realidade grotesca Lucas viu a cena quase com o interesse artístico de quem aprecia uma bela tela.
     Ao ver que Lucas se aproximava o homem começou a gritar por ajuda.
     - Socorro! Lucas me ajuda! Me tira daqui!.
     “Sim”. “Acalme-se, você será salvo...”. A mente de Lucas era um turbilhão. Ele sabia o que fazer; a dor não importava.
     Lucas derramou-se sobre o prisioneiro e com voracidade mordeu seu pescoço, sugando-lhe o sangue. Quando o precioso líquido rubro escorreu por sua garganta nada mais pareceu ruim e sem sentido. Sim, o mundo era uma límpida visão. “Acalme-se meu velho amigo, você logo será salvo.”.
     O momento pareceu uma eternidade, mas paradoxalmente também muito rápido. Em um instante Lucas percebeu que acabara de deixar o corpo inerte de seu amigo Olavo cair no chão do quarto do motel. Quase nenhum sangue havia sido derramado no chão, apesar da sede em busca do pescoço do amigo.
     Lucas se levantou. O mundo era um caos de sensações bem discerníveis. Tudo havia mudado: ele via, ouvia, sentia, cheirava, provava o mundo de maneira diferente. Era como se tudo a sua volta fosse mais reconhecível, mais presente, mais seu; como se fosse o dono do mundo.
     Ele havia mudado. No espelho via seu reflexo: parecia com o Lucas de antes: branco, alto, cabelos e olhos castanhos, corpo bem definido apesar da pouca massa muscular, mas estava diferente, mais bonito, mais felino, mais pálido...
     - O que foi que eu fiz? – perguntou para o vento.
     Sentiu Laura envolver-lhe o tronco num abraço forte como resposta.
     - Acalme-se. – a voz de Laura não era mais um sussurro.
Rafael Barros Vargas
Enviado por Rafael Barros Vargas em 08/09/2007
Reeditado em 12/03/2009
Código do texto: T643729

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Sobre o autor
Rafael Barros Vargas
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
24 textos (2797 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 19:33)
Rafael Barros Vargas