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A visão perfeita de Estela

Mesmo com os cobertores em total desordem, a cama ainda apresentava um aspecto atrativo e aconchegante, um tom quase nostálgico envolvia o ambiente. Essa constante era tudo o que preenchia os meus pensamentos naquele momento. Devaneios incessantes que martelavam madrugada adentro, havia uma camada expessa de inércia em meu semblante, eu não consegui dormir outra vez, assim como na noite passada e nas tantas outras onde a solidão açoitava e cortava meu âmago reduzindo meu ego a pó e tritura.
 Ela era a doença e a cura. Tão próxima e tão distante, finalmente depois de tanto tempo voltaria a dividir um ninho de amor e luxúria comigo, reles súdito de seus desjos insólitos e sádicos. A tortura atingia níveis insuportáveis, mas não fazia mais diferença, naquele momento o sol que penetrava a janela semi-aberta iluminava sua face de uma forma que causaria inveja à qualquer obra de Da Vinci, a expressão de placidez num meio riso pincelava o fim de um ciclo de martírio em mim, a visão perfeita de Estela não me permitia apenas um entreolhar desdenhoso, era a contemplação da perfeição irretocável. Uma leve distração e caio novamente na realidade, uma manhã cinzenta de domingo, o televisor fora do ar produzindo uma cacofonia que contrastava com a beleza da imagem dos seus cabelos escorridos em um desalinho gritante de sublimação. Preciso saltar de volta da redoma para meu universo torpe, uma caminhada para espairecer, têm apenas dois cigarros sobre o criado mudo, levanto e visto meu casaco grená, antes de sair, uma última admirada no retrato que ficará gravado em minha memória, talvez por receio de não sentir novamente esta utopia. Saio porta afora, o céu está carregado, abro o velho portão enferrujado e inicio uma peregrinação com minhas paranóias. Ela nunca me amou, não da maneira como eu queria, as mulheres não conseguem ser românticas, trata-se de um desvio de caráter, é instintivo, não é culpa delas.
Cruzo a velha capela durante a introdução de mais uma missa, eu deveria rezar mais, mas não consigo concretizar nada que exija muito de mim, sei das minhas capacidades. Cigarro, talvez uns pães amanhecidos, torradas são uma ótima pedida, agradeço ao padeiro de maneira não menos hipócrita do que a minha preocupação. Eu estou tenso e inquieto, vinte e nove anos e ainda consigo me enganar achando que me conheço por completo. A alameda fica maior à medida que o sol toca as folhas caídas, eu quero voltar ao útero e começar tudo outra vez, não... eu quero sobrepujar esta agonia de mim e me convencer que eu sou capaz de ser correto ao menos uma vez na vida. Me preparo para enfrentar mais uma vez esta triste verdade, Estela jamais foi minha da maneira que eu sonhava e jamais será, só me restá contemplar novamente a maravilhosa visão de seu corpo inerte sobre os lençóis e a chave de fenda cravada em sua garganta...
Boca
Enviado por Boca em 14/09/2007
Código do texto: T651592

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Sobre o autor
Boca
Curitiba - Paraná - Brasil, 31 anos
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Boca