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Outra Gente

                           I

- Como vai a patroa? Tudo certo em casa?
- Como sempre.
Ary fechou atrás de si a porta da frente, a que sempre estava sem pressão na mola e a qual o síndico jamais consertara, pisando no cimento do passeio. Não gostava do tom do porteiro. Aquele nordestino de pele curtida não tinha nada de tolo por baixo das orelhas de abano e do olhar propositalmente perdido. O sorrisinho cínico que não tentava disfarçar depois de cada pergunta como aquela era a senha.  Não lhe agradava o tom, decerto. Vivia postado (ou prostrado, como Ary gostava de imaginar) naquela cadeira velha da portaria, como uma câmera onipresente e onisciente, conhecendo cada um e cada passo de todos que moravam ali. Isso é desagradável de verdade. Mais ainda quando o sujeito faz perguntas e sorri cinicamente em seguida. É simplesmente impossível descobrir o que se passa dentro da cabeça de outro ser humano. Não há essa mágica, nada existe que possibilite que isso aconteça. O motivo do sorriso cínico de um porteiro ao fazer determinada pergunta pela manhã é dele. E somente dele.
Ary era um sujeito magro, esguio, contudo musculoso. E ensinava. Essa era sua função. Dava aula de filosofia na universidade federal e caminhava até lá, todos os dias. Responsável por duas cadeiras ligadas à essa matéria. Nem sempre lecionou ali. Até dois anos atrás o fazia na Faculdade Olinto Barbosa, do outro lado da cidade. Prestou concurso para a Federal depois que foi demitido. Passou a odiar o Diretor de Filosofia daquela Faculdade de segunda. Se alguém não deseja mais que se faça um trabalho, o mais correto é que se diga isso claramente. O resultado é que Ary não apenas foi demitido, mas passou a nutrir ódio por aquele imbecil que não possuía a menor idéia de como comandar um curso superior de maneira adequada. Um idiota que deveria imaginar coisas ou dar ouvidos às pessoas erradas. “Não enxergo mais como mantê-lo aqui, professor. A coisa se tornou simplesmente insustentável”. Ao inferno, Senhor Diretor. Você e seus alunos idiotas. Imaginar coisas... Enxergá-las...
O professor pensava nisso quando passou pelo velho sentado no ponto de ônibus, debaixo da cobertura transparente de fibra de vidro. O ancião levantou a mão num aceno tímido.  Ele acompanhou Ary com os olhos até que este último sumiu na próxima esquina, antes respondendo ao aceno com um menear da cabeça. Também sorria? Aquele movimento quase imperceptível dos lábios, movendo-se de encontro às orelhas como um pequeno corte de navalha era mesmo um sorriso ou apenas um tique nervoso de um aposentado ocioso? De todo jeito, aquele velho deveria ter perdido alguns parafusos pelo longo caminho que percorrera na vida. Mantinha-se ali, sentado já cedo pela manhã e, ao final da tarde, quando Ary retornava pra casa fazendo o caminho de volta, lá estava ele acenando com sua mãozinha branca manchada pela idade.
E aquele sorriso parecia querer novamente sair de algum lugar e se estampar no rosto alvo.

                           II

- Outra questão que podemos levantar, acerca da liberdade, e que nada mais é do que um desdobramento de outros problemas, é a possibilidade do homem governar as suas afecções. O livre arbítrio. Uma das questões centrais de Spinoza.
- Henry Miller gostava de dizer que tanto filósofos como artistas são polidores de lentes. Preparam as pessoas para algo que, ao fim das contas, jamais se produz. E que quando essa lente for perfeita, todos perceberemos a enorme beleza do mundo. Artistas e filósofos estarão fatalmente ultrapassados. Como o Senhor enxerga isso? Estarão de fato? Esse dia chegará?
A pergunta quase não deixou que Ary terminasse a frase. Os olhos perscrutaram rapidamente a sala, atrás da autora do questionamento. Uma voz feminina que se levantara de algum lugar perto da parede posterior, bem no final da sala. Por ali, um sol agradável de Outono brilhava através das janelas, roubando para si a sujeira das paredes, fazendo com que se tornassem claras novamente. Ela ajudou levantando um dedinho indicador de leve, apontando o teto, chamando atenção do professor para sua pessoa. Não deveria ter trinta anos, mas já havia passado dos vinte há muito. Um vestido florido em tons pastéis pendurava-se no ombro e descia obediente até a canela, que terminava em pés pequenos dentro de sandálias baixas. A despeito de aquela ser a décima aula do semestre não recordava a fisionomia quase nórdica que o fitava dos fundos da sala comprida mencionando Henry Miller ao questionar Spinoza. Como que adivinhando o ficcionista preferido do professor. E além
da face alva, ou imiscuído ali dentro de alguma maneira, o mestre percebeu emergir dissimuladamente algo que o incomodou. Lembrou da Olinto Barbosa e do Diretor odiado. Do aluno que nunca freqüentava aulas, mas que sabia como causar problemas. Recordou diversas outras coisas que já viveu, até aquela meia-idade rançosa, muitas delas parecendo espocar sempre de algum modo parecido. Surgiam para lhe causar temor, atrapalhar o caminho, desgovernar as idéias, Esse tipo de coisa acontecia sempre de forma recorrente, mas incomodava-o ainda mais quando vinha de alguém desconhecido. O sorriso. O sorriso que parecia simplesmente não existir.
Ary e Daniele travaram uma interessante discussão acerca do afeto, livre arbítrio e alguns excertos de romances de Henry Miller, acompanhada de maneira quase esquiva pelo resto da turma. Contudo, o sorriso que parecia querer explodir a qualquer momento no rosto da aluna faltosa, imitando o porteiro insolente e o velho ocioso, inquietaram de verdade o espírito do professor.

                          III

O primeiro bimestre chegara ao fim, trazendo consigo antes disso, as provas do módulo I. Trouxeram algo além das provas, também. Alguma maldita coisa que Ary já conhecia não intelectualmente, mas com o corpo. Talvez o que o espreitou tanto tempo na faculdade Olinto Barbosa ou antes disso, quando ele mesmo ainda era aluno. Se puxasse pela memória com força suficiente, seria capaz de atingir tempos mais remotos, quando ainda borrava as calças e a escuridão do quarto onde dormia sozinho o apanhava desprevenido no meio da noite. Girou a maçaneta, adentrando a sala de aspecto solene. A sensação parece ter aumentado.
- Como se sente hoje, meu caro? – O Diretor havia levantado, caminhando na direção de Ary com a mão direita à frente do corpo, chamando pelo aperto de mão. Era um Senhor calvo cujos óculos possuíam uma armação fora de moda. Acumulara além da barriga fofa, uma larga experiência em educação pública.
- Bem. Acho que me sinto bem. – O professor avaliou aquela sensação que não abandonara o peito. Estava lá dentro e não queria sair. “Ao inferno, Senhor Diretor. Você e seus alunos idiotas”.
- Isso é de fato bom. Não basta conhecermos nosso ofício, tenho absoluta certeza disso. Acho que professores têm algo de médico. Um dia ruim e tudo pode estar estragado. São profissões que exigem dom especial, para tanto, pessoas especiais.
- Nunca havia pensado assim, a despeito de, pensando bem, concordar com o Senhor. É mesmo verdade. – Não gostava do jeito como o Diretor não o encarava diretamente nos olhos. Muitas pessoas conversam assim e isso não o agradava de modo algum.
- Estou aqui há 23 anos. Muitos entraram antes de mim, aposentaram-se ou ainda lecionam até hoje. Outros estão na área de pesquisa ou em outras Universidades. Existem até os que já se foram. A verdade é que já conheci muita gente por aqui. Pode apostar nisso. Muita coisa boa já foi construída aqui dentro desse Campus e tenho certeza que já formamos gente da melhor qualidade. Profissionais de verdade. Isso é um grande motivo de orgulho pra mim.
Sim, a Federal não podia ser comparada com a Olinto Barbosa, aquela máquina de encher carteiras vazias com futuros desempregados. Esteja em dia com a mensalidade e o resto é conosco – o diploma espera adiante. Podia-se sentir o odor de seriedade nos corredores da Federal, onde uma prova de módulo I considerada fácil reprovaria 90% dos alunos na outra instituição. E Roberto Cardoso, o Diretor de Humanas, não ficava atrás. Sabia disso e gostava que as coisas se mantivessem assim, mesmo com toda o desprestígio do Governo de Brasília. Ary pensava nisso, enquanto tentava descobrir por que fora chamado naquela sala recheada de livros, cheirando a papel e madeira de lei. Ele disse:
- No pouco tempo que estou junto de todos aqui, pude perceber que está falando a pura verdade. Tenho orgulho de fazer parte do time, também.
- Há quanto tempo está conosco?
- Vou completar dois anos em breve.
- Hummm... – Roberto tirou do bolso uma caixinha metálica que abriu com a ajuda da unha do polegar. Puxou de dentro dela uma cigarrilha marrom e avaliou-a com olhar e olfato, antes de acendê-la e dar a primeira baforada na direção oposta do rosto do professor. Era um sujeito educado. Continuou, avaliando as palavras: - Dois anos. Já é quase um veterano. Mas é verdade, é uma profissão que muitas vezes requer demais do profissional. Como a medicina, entende?
- Sim. Acho que sou capaz de entender perfeitamente. Mas adoro a profissão que exerço, acho que por isso não me pesa tanto. – A sensação estava ali, cutucou o peito do homem novamente.
- Às vezes não percebemos. O stress é um inimigo ardiloso. Chega devagarzinho, sem cheiro, gosto, cor e causa uma série de problemas em nossa vida. É capaz de corroer nosso organismo sem que notemos coisa alguma, parece a ferrugem atuando no mecanismo de um relógio. De dentro pra fora. Bicho danado esse. Tem estudado muito para poder ministrar seu curso?
- Na verdade não. É exatamente minha área. É como fazer um exame de sangue, tirar um pouquinho dele. Está tudo ali dentro.
- Entendo. Isso é bom. Chega um ponto em que a coisa é mais familiar do que nosso próprio travesseiro. Não lembro quem me falou isso. Um professor daqui, sem dúvida. – Outra puxada na cigarrilha que fez a brasa se tornar vermelha e um tanto de fumaça encher a boca do Diretor. Foi expulsa para o ar logo depois. Na verdade a atmosfera ali dentro, escurecida pelas estantes de madeira pesada, começava a ficar poluída, difícil de respirar.
- Acho que é uma boa comparação. Mais familiar do que nosso próprio travesseiro...
- E férias? Já tirou ou pensou em gozar umas férias?
- Ainda não, mas é uma coisa que não passa por minha cabeça nesse exato momento. Estamos no meio do período. Como poderia...
- Na verdade isso nunca foi empecilho se a coisa é necessária. Por isso temos uma grade de horário inteligente. Substituições são sempre possíveis. Não poderíamos deixar uma turma a ver navios em caso de uma necessidade maior, até mesmo no caso de um professor adoecer ou se acidentar. – Roberto falou interrompendo pelo meio a frase do professor e olhava a cinza comprida que ia se formando na ponta da cigarrilha.
- Entendo perfeitamente, mas estou inteiro bem aqui na sua frente. Graças a Deus, aliás. Não sofri nenhum tipo de acidente e adoecer não faz parte de meus planos. Sinto-me perfeitamente bem. – A sensação aumentou. Parecia engolir o peito como um tubarão faria com a presa. Crescia junto com as frases do Diretor e com o ar poluído na sala escura.
- Sem dúvida. As pessoas que gostam do que fazem são reticentes quanto a férias, a idéia de abandonar o trabalho, mesmo que por curtos espaços de tempo não as agrada de maneira nenhuma, o que pode ser ruim em algumas vezes. O stress, entende? Aquele inimigo invisível.
- Não acredito que esteja acontecendo comigo. Posso avaliar a possibilidade de uma viagem ao fim do período se isso lhe agradar.
- É uma idéia... Uma idéia, sim. O fardo de um Diretor por vezes é bem pesado de carregar, assim como os que vocês carregam. Temos que saber agir em situações extremas com bastante cautela e temos abaixo de nós uma equipe de professores com suas particularidades e dentro das salas de aula, alunos cada vez mais exigentes. Não é fácil, de verdade. Mas jamais fugi de minha responsabilidade. Se soubesse que não seria capaz de carregar este peso não o teria aceitado na primeira vez. De qualquer maneira, não costumo levar a sério todas as reclamações e vozes que nascem nas salas de aula, e quando o faço, procuro investigar o que se passa. Não admito injustiça aqui na minha faculdade, se é que me compreende mais uma vez.
- Sim senhor. – Ary concordou. A sensação cresceu e tomou a garganta. Quase o afogava.
- Nesse tempo todo em que está conosco não é a primeira turma que reclama e com certeza, sempre temos a maioria de acordo. Tem certeza de que se sente bem para terminar esse período?
- Reclamações? Gostaria de saber do que se trata. Não tomei conhecimento de nada disso antes do dia de hoje. De agora, para ser mais exato. O réu tem o direito de conhecer do que é acusado. – Tentou sorrir, mas não se saiu nada bem. Ao invés, gaguejou de maneira jocosa. – Claro que sou capaz de terminar o período. Como não seria?
- Hummm... – Juntando o polegar e o indicador, Roberto achatou a ponta da cigarrilha contra a base de um cinzeiro com a inscrição em letras brancas: “Formandos de 1990 – Segundo Semestre - Filosofia”. – Acho que tem todo o direito de conhecer o que se passa. Parece que os alunos não gostam do jeito que leciona. Não é a primeira turma que reclama e o motivo é bastante semelhante. Sempre.
- Tenho alguma experiência com turmas. Não tanto quanto o Senhor, mas acredito ter saldo positivo na balança. Sempre lecionei, quer dizer, minha vida foi dedicada a isso. Jamais fiz algo diferente. Não compreendo. Insólito, na verdade. – Seria mesmo insólito? O que poderia ser classificado como insólito, caríssimo Ary? Este tipo de reclamação quanto ao modo como leciona? Lembrava-se de que esta voz já repetira diversas vezes perguntas como essa dentro de sua cabeça, em muitas outras ocasiões.
- Mas parece ter enfrentado problemas no outro emprego, estou certo?
- Quem nunca enfrentou problemas no trabalho que atire a primeira pedra. – Ao inferno, Senhor Diretor. Você e seus alunos idiotas”. A frase estava engasgada na garganta, junto com aquela coisa parecida com um novelo de lã, que causava falta de ar e transpiração gélida nas mãos.
- É a pura verdade. Todos nós passamos por isso. Mas peço que fique atento, observe a turma e seu próprio comportamento. É sempre difícil falar sobre essas coisas, mas... Bem, eles não gostam do jeito como responde perguntas que não foram feitas, ou quando discute assuntos sozinho. Acham que está com parafusos a menos. Ou no mínimo desdenhando da turma. Achavam engraçado no início, atualmente parecem estar bastante apreensivos. Não digo todos eles, mas a maioria. Acho mesmo que algumas alunas nutrem algum medo quando estão diante deste comportamento. Não é a primeira reclamação, como já lhe falei. Acharam estranho o modo como reservou uma cadeira vazia durante os testes do módulo I, deixando uma prova sobre a mesa. Aquela mesa vazia causou má impressão durante o teste, de verdade. Repito: não teria nada contra se desejasse fazer as malas e passar os próximos 30 dias olhando o mar, enchendo o bucho da cerveja mais gelada e do peixe mais saboroso do mundo.
- Mas que coisa! É triste saber que falam assim. Nunca tive problemas com a turma. O módulo I transcorreu tranqüilamente, tenho aqui comigo todas as provas. Inclusive uma nota dez, uma prova impecável. Apesar de a aluna ser bastante ausente, mas conhece a matéria, não posso negar. Jamais desconfiei que algo assim pudesse estar acontecendo. – Não mesmo? O cérebro de Ary viajava rápido, visitando muitos lugares rapidamente. O passado. – Abriu a pasta, puxando lá de dentro um maço de provas unidas através de um clipe. Apoiou diante do rosto do Diretor, sobre a mesa. Por sua vez, o homem que gostava de fumar cigarrilhas marrons apanhou as provas avaliando rapidamente os papéis escritos com caneta azul. Um tremor gelado havia tomado por completo as mãos do mestre.
- Essa, por acaso, é a prova impecável? – O Diretor havia segurado pela parte de cima um dos testes retirados do maço. Em caneta vermelha, na caligrafia de Ary, a palavra “Dez” aparecia brilhando. O resto da folha estava em branco. Como um lençol posto a quarar.
O professor esticou o braço tomando, primeiramente, a prova em branco da mão de Roberto, depois o resto do maço. Devolveu-os ao interior da pasta e mantinha no rosto uma expressão entre aparvalhado e cansado. Na realidade, tinha medo. Apenas medo. Mas não falou nada. Não podia. Arriscava-se a piorar uma situação que se revelou constrangedora. Já havia passado por isso antes, não? “Jamais aprendera a lidar com isso, não é Professor?”. A pergunta parece ter sido soprada ao pé do ouvido.  Levantou-se girando o corpo que ficou de frente para a porta de saída. A entrevista havia terminado. Roberto acompanhou Ary até a porta com a mão apoiada no ombro do moço. Falou antes que o professor saísse:

- Ele é astucioso. Consegue criar coisas dentro da gente que nem acreditamos, o danado do stress. Se decidir terminar o período, vá em frente. Mas preste atenção no que lhe falei. Os garotos não perdoam. E não deixe de levar em consideração uma estação na beira do mar. E sabe que pode contar comigo, não mantenho a sala trancada, tampouco qualquer tipo de protocolo. Meus alunos e professores estão acima dessas baboseiras. Tenha um bom dia, Professor.

Ary bateu a porta atrás das costas e saiu caminhando. Lembrou de Daniele, o sorriso que parecia escondido dentro dos lábios rosados. E da prova impecável. Lembrou de muito mais coisa. Muitas delas, gostaria de esquecer. Pra sempre.

                           IV

Ficava fascinado com o tamanho da loja. Desde balas açucaradas – hortelã, banana, anis – a baixelas e ferramentas de todos os tipos. Quase como um mundo mágico, materializado das páginas de um tomo de Monteiro Lobato. Era bom ver os produtos brilhando, novos em folha, expostos sobre prateleiras de vidro quase tão altas quanto o topo da cabeça (naquela época media pouco mais de um metro), com preços mais altos ainda (esse era um detalhe que ainda não lhe dizia respeito, tampouco). Adorava perambular entre os corredores que se estendiam como não tendo fim, de mãos dadas com a mãe e perceber tudo quanto ali cabia. Anos mais tarde o magazine encerrou atividade, dando lugar a uma loja de eletrodomésticos e, ao passar novamente de fronte daquela loja que parecia uma construção encantada, anos mais tarde, percebeu que o encanto fora quebrado. Ademais, a impressão que diminuíra de tamanho era quase real. Um grande magazine encolhera, como que submetido a um regime que lhe retirara quilos e mais quilos de tijolos, metros e metros de cimento. Mas isso não importava agora. Muitas coisas tiveram seu encanto destruído depois que o bigode apontou timidamente pela primeira vez acima da boca carnuda. Mais ainda quando os primeiros fios de cabelo branco emergiram do couro cabeludo, reclamando existência (até onde lembrava, ainda não tinha trinta anos) e, finalmente, questionava quantas mais ainda perderiam o brilho até o dia derradeiro. O mais importante no momento, é que fora dentro daquela loja que a coisa se deu pela primeira vez. Nunca mais esquecera, pois quando aconteceu novamente, a memória remeteu diretamente àquele maldito dia dentro do magazine. E sempre voltava até lá, quando a coisa se repetia.
Ary e a mãe haviam saído do supermercado que ficava a uns 500 metros de onde moravam. Compraram algum mantimento mais a dose habitual de frutas e verduras (faziam isso duas ou três vezes por semana). Visitaram ainda a Kombi que estava sempre estacionada próxima ao supermercado vendendo ovos frescos. Ary jamais compreendeu o porque de pessoas comercializarem ovos em frente a um mercado. Lá dentro existiam milhares deles a venda. E já que entravam lá para adquirir outras coisas, os ovos deveriam fazer parte dos planos. Não era assim. O raciocínio lógico do garoto era destruído logo pela mãe.
- Leve contigo. Tem certeza que não vai quebrar nenhum?
- Tenho. Tenho sim, mãe.
- Vou checar se eles finalmente têm o novelo azul claro. Vem com a mãe. – A mulher falou isso estendendo novamente a mão para o garoto, girando o corpo, ficando de frente para o magazine. Entraram finalmente no mundo das balas mágicas, das ferramentas enigmáticas e das bolas de couro oficiais.
Caminharam algum tempo por entre os corredores que expunham os diversos produtos até que em determinado momento estacaram. A mãe avaliava com cuidado o tom de azul dos novelos espalhados acima de um grande balcão de madeira contra um pequeno exemplar que havia retirado de dentro da bolsa que carregava junto com as sacolas do mercado. Tomava um novelo na mão e encostava ao lado a prova pequenina. Livrava-se desse, que não fora aprovado, passando a comparar o próximo. Enquanto isso, Ary se distanciara alguns metros para observar todas as bolas penduradas em expositores, dentro de tonéis cilíndricos, sobre prateleiras – apelos irresistíveis em forma de esferas costuradas.
- Não Senhor. Ela quica muito. Não é boa para jogar no cimento.
Dalva, revirando os novelos misturados no balcão de madeira, apanhou mais um.
- Não senhor. Prefiro as menores e mais pesadas.
Comparou com a amostra.
- Sim, gosto quando elas são de couro.
Não combinaram.
- Já furamos uma como essa. Não agüentou muito tempo.
Um novelo mais. A comparação.
- Claro. Essa é a melhor. Quem não gostaria de poder jogar com uma dessas?
A amostra era mais clara. Outro novelo.
- Puxa. Sério?
Idênticas.
- Obrigado, senhor. De verdade.
Dalva ajeitou-se para conseguir carregar as compras, a bolsa e o novelo que escolhera comprar até o caixa, um corredor de distância à frente. Chamou pelo filho. Ary veio até ela carregando uma bola de couro “Adidas” junto com o saco plástico que continha os ovos.
- E então, com quem falava. E que novidade é essa?
- Com aquele senhor. Disse que posso ficar com a bola. É minha.
- Escolhe outra. Meu dinheiro não nasce em árvores. Já conversamos sobre isso.
- Mas ele disse que posso ficar com ela. É minha.
- Ary, não vou repetir. Eu te dou uma bola, não essa. Não acho que deva mentir para conseguir as coisas.
- Bem... Certo. Eu não queria a bola de qualquer jeito. Ele insistiu. Se não posso ficar com ela não me importo.
- Onde está esse senhor? Isso é alguma brincadeira, meu filho?
Ary havia esticado o braço pequeno e com a ponta do indicador mostrava à mãe o homem trajando terno preto completo e gravata azul escura, que convencera o menino de que a bola “Adidas” era dele. Estava de pé a uns 5 passos de distância de ambos. E em algum lugar do rosto recém barbeado, um sorriso parecia esconder-se diabolicamente. “E então, menino? Mamãe ficou cega, hã? Ou será que ela brinca contigo por você não passar de um borra-calças medroso?”. Esse era o recado passado por aquele sorriso escondido abaixo dos dentes brilhantes do homem que usava terno negro e oferecia bolas de couro a guris de 11 anos. E que, até então, parecia invisível ao resto do mundo.

Era nisso que Ary pensava quando deixou a Universidade em direção à casa naquela tarde após a reunião com o Diretor da faculdade de Humanas, Roberto Cardoso. E na mãe dando-lhe um enorme carão por inventar conversas com pessoas inexistentes para tentar conseguir que ela comprasse uma bola de couro da Adidas. Foi nesse momento que cruzou pelo velho ocioso no ponto de ônibus que levantou-lhe a mão num aceno conhecido. E que possuía um sorriso atrás das gengivas já visto por Ary em diversas outras ocasiões.

                             V

A terceira aula após as provas do módulo I estava quase terminando. Faltavam alguns poucos minutos e Ary aproveitava para repassar algo que houvera sido dito no início do dia. Não estava sendo nada fácil, admitia. O esforço de evitar o lado direito, não encarar o fundo da sala por aquelas bandas era demasiado. Uma certa dor na parte superior da coluna irradiada a partir do pescoço começava a incomodar e o professor atribuía aquele incômodo ao esforço despendido durante as aulas em que a mulher de cor nórdica e vestida sempre de florido guardava lugar no fundo da sala, enquanto sorria dissimuladamente. Fazia um esforço inconsciente (inconsciente?) que atirava o rosto para o outro lado retesando os músculos que se mantinham tensos, como as cordas de uma guitarra recém afinada. Pouco antes de Ary terminar o que dizia, escutou:
- Professor, gostaria muito de ouvir algo a respeito da imagem cinematográfica pensada por Deleuze. Deixa-nos uma mensagem que parece evidente: a verdadeira imagem cinematográfica é muito mais do que uma representação do mundo por nós pensado ou vivido. Talvez uma busca de horizontes possíveis. Gostaria bastante de ouvir algo a respeito.
Pego de surpresa, coisa que tentava evitar com muita concentração durante as aulas e que o atrapalhava igualmente, virou o rosto para o fundo direito da sala e já ia abrindo a boca, iniciando uma resposta, quando caiu em si. A maldita mulher acabara de fazer a pergunta e mantinha um olhar pétreo direcionado diretamente ao fundo dos olhos de Ary. Parecia querer enxergar através da caixa craniana do professor e mantinha no rosto uma expressão que dizia: “consegui, te peguei! Não quer aceitar, não é professor, mas estou aqui. Por que não me responde, afinal? Estou sempre aqui em minha mesa. Não falto mais às aulas e sou uma boa aluna”. Empertigou-se espichando os ombros. Limpou o pigarro do fundo da garganta (queria com isso disfarçar o início de resposta que escapou dos lábios trêmulos), virando o corpo novamente para o outro lado. Não, a miserável não ia fazer isso com ele. Não permitiria que acontecesse de novo, aquilo deveria ter um fim e acreditava que era capaz e possuía força suficiente para evitar as pequenas armadilhas e iscas que ela jogava de quando em vez. Ela e quem mais quer que seja.  Tirou um lenço do bolso de trás da calça, limpou o suor que porejou na testa, tomando novamente pé da situação. Encarando novamente o lado esquerdo da turma, completou:
- Acho mesmo que por hoje é só. Estamos no limite de nosso tempo. E não esqueçam: o texto que será discutido na próxima aula está no Xerox do segundo andar. A outra tinha trabalho demais e não daria conta de entregar as cópias a tempo. Peço que passem lá e peguem suas cópias. – Esticou o braço apanhando a pasta que descansava na cadeira ao lado da mesa. – Ah, e antes que esqueça, leiam. Não basta ter a cópia guardada em algum canto dentro de casa. Isso não vai ajudá-los em nada. – Procurou sorrir. Queria parecer simpático à turma. Girava o corpo em direção à porta enquanto alguns alunos já se levantavam lentamente, quando escutou:
- Ary, gostaria muito de ouvir algo a respeito da imagem cinematográfica pensada por Deleuze. Deixa-nos uma mensagem que parece evidente: a verdadeira imagem cinematográfica é muito mais do que uma representação do mundo por nós pensado ou vivido. Talvez uma busca de horizontes possíveis. Gostaria bastante de ouvir algo a respeito. Mesmo que na próxima aula.
Os pelos atrás da nuca arrepiaram. A pergunta partiu da primeira fileira, logo a esquerda e a voz era masculina. As mãos trêmulas foram impelidas até o bolso novamente e arrancaram lá de dentro o lenço branco que tornou-se úmido tão logo enxugou a testa mais uma vez. Volvendo o rosto, Ary encarou João Carmo. O garoto sentava ali desde a primeira aula e estava entre os melhores alunos, sem dúvida. Um apaixonado por cinema, ardente como sua idade. Não deveria ter mais de vinte e dois anos. Um grupo de mais seis ou sete alunos, a contar pela maneira como exclamaram opiniões, parecia concordar efusivamente com a matéria levantada por João Carmo – aparentemente harmonizavam nesse sentido. Aquele era um tema e tanto para ser apreciado na próxima aula, juntamente com o texto que deveria ser apanhado no Xerox do segundo andar e devidamente dissecado. Tentando soar de maneira mais natural possível, Ary falou:
- Sim senhor, podemos falar algo a respeito. Apenas não deixe que me esqueça, já que não havia planejado algo nesse sentido. – Ary sabia que não esqueceria. Não depois dessa, não poderia esquecer. Temeu não parecer tão natural quanto gostaria. Pelo contrário, talvez. – Gosto do tema, também.
E então não foi capaz de evitar. Fitou o canto direito da sala, na parte dos fundos, o lugar onde o olhar havia sido proibido de vagar. E lá estava ela. Dessa vez o sorriso havia se desvelado. Mostrava os dentes de maneira quase abusada e divertia-se com o modo desconcertado ostentado por Ary. De alguma maneira ela foi a culpada por aquilo, obrigara o garoto a repetir a mesma pergunta de alguma maldita maneira desconhecida e saboreava o resultado da coisa estampado no modo como o professor demonstrava temor ao reconhecer que isto havia acontecido. A voz dele pareceu embargada e os trejeitos da mão que amparava o lenço sobre a testa deram todas as dicas. Sim, o homem tinha medo e como nunca em toda a vida. Era a primeira vez (achava ele) que tomavam parte ativa daquela maneira, forçando uma outra pessoa a fazer alguma coisa que não pretendia. João não pretendia ter feito aquela pergunta. Não deveria saber disso nesse exato momento, mas se perscrutassem o cérebro do moleque segundos antes com algum tipo de leitor de mentes, deveriam descobrir que pensava em algo muito diverso do cinema e a interpretação de Deleuze sobre imagem-representação. Talvez nas coxas da morena que sentava sempre ao lado. Mas a pergunta havia sido feita e o mestre nada podia fazer, a não ser respondê-la. E ficar com medo.

                            VI

O professor havia desistido de deixar a sala antes da turma. Deu meia volta, simulando procurar algo dentro da pasta que apoiara sobre a mesa. Dissimulava a inquietação que incomodava o espírito e espreitava a turma que passava por ele entoando conversas diversas, tomando o caminho do corredor e, mais adiante, da cantina do outro lado do pátio. Tinha algo em mente.
Uma última aluna (penúltima?) juntava rapidamente as coisas que espalhavam por cima da mesa e as enfurnava dentro da mochila jeans. Com um golpe certeiro, fez a mochila rodopiar por cima do ombro, agarrando-se às costas da menina como um filhote de mico faz com a mãe. Passou trotando em frente ao professor e foi de encontro à pequena turba que já deveria ir bem adiante. Então restaram apenas os dois dentro da sala. O professor com suas mãos trêmulas e seu lenço úmido dentro do bolso e a “aluna” com seu vestido florido e sorriso discretamente funesto. O homem puxou a cadeira onde antes descansara a pasta que sempre carregava consigo e sentou-se um tanto ofegante. Sentia calor, apesar do dia ameno. Uma brisa fresca correu por toda a sala, naquele momento, refrescando ainda mais o ambiente, mas não a sensação desagradavelmente quente sentida por Ary. Encarou a mulher. Com dificuldade, já que os olhos dela pareciam adagas e miravam diretamente alguma coisa que deveria estar dentro da cabeça do pobre professor. Os lábios se separaram de leve, deixando a mostra o colar muito branco que eram os dentes. Ela sorria. Permaneceram assim durante algum tempo e para Ary, esse tempo se igualava a uma eternidade. Derretia aos poucos sob aqueles olhos inclementes e diabólicos ao mesmo tempo. Em dado momento a mulher levantou-se e caminhou em direção à porta de saída. Não precisou apanhar nada sobre a mesa, nada carregava consigo. Havia passado diante do professor que permanecia sentado, deixando no caminho um odor que lembrava outras ocasiões da vida dele, não perfume, mas outra coisa, quando ele tomou coragem e esticou o braço. Roçou com a ponta do dedo hesitante uma dobra do vestido. Não reunia ousadia suficiente para tocar-lhe o corpo. Aliás, esse deve ter sido o movimento mais ousado que já se permitira fazer em todo esse tempo em relação à... Ao que quer que aquilo fosse. Ela parece ter percebido o movimento do professor e girou sobre o próprio corpo, encarando-o novamente.  Perderam mais algum tempo assim, num silêncio profundo que trazia mais tremor às mãos de Ary. Ele tomou uma grande quantidade de ar, numa inspiração longa, antes de dizer:
- E então? – A dor no pescoço aumentara.
- E então, professor? – Mantinha ares de troça.
- Ambos sabemos do que falo. Tenho certeza disso.
- Não acho que esteja tão certo assim, mestre. Lembra? Horizontes possíveis, possibilidades infinitas, representação. A realidade pode ser um grande filme. Basta polir as lentes.
- Isso não é uma aula, Daniele ou seja lá qual for seu nome, não me importo com ele. – Pensou no lenço dentro do bolso.
- Pensei que fosse. O que estamos fazendo aqui, então?
- A aula já acabou. – A mão escorregou até o bolso. As gotas surgiam na testa como numa garrafa gelada posta ao sol. – E então? Quem é você? Ou vocês? De onde vêm? Quem é você, afinal? – Pegou o lenço dentro do bolso. Aquele odor continuava lá. Não, não era um perfume.
- Mestre, eu... Nós somos...
Nesse momento uma lembrança vociferou alto dentro da cabeça do professor. Havia dado a mão, segurando forte a do pai. Estava apavorado, mas a voz familiar e aconchegante que o encorajava era mais forte. “Não tenha medo, vou contigo. Você vai ver, vai gostar”.  Era muito garoto, não lembrava exatamente quantos anos tinha. Um grande parque havia montado sua estrutura no bairro de Boaventura. Era o maior do Brasil, um verdadeiro parque de diversões completo com todas as atrações que os parques locais não possuíam e muitas delas completamente inéditas por aqui. Mantinha-se parado em frente a uma das atrações que chamavam mais atenção e de onde uma voz, que parecia pertencer a alguém que não era desse mundo, anunciava que o destemido que fosse capaz de entrar lá dentro, talvez não fosse de sair. Acima da cabeça do garoto Ary, lâmpadas vermelhas e roxas faiscavam às vezes rápido, outras lentamente e escreviam como se fosse no céu: “Reino dos Espelhos”. Não tinha a menor idéia do que fosse aquilo, não imaginava o que poderia estar espreitando logo adiante, depois da pequena porta enviesada e muito colorida.  O pai apertou novamente a mão do garoto com delicadeza e o incentivou a dar os passos finais lá pra dentro, onde, logo após cruzarem a porta torta, uma música estranha parecia hipnotizar, a iluminação era indireta e, de alguma forma inexplicável, possuía mais poder de escurecer do que de clarear. E então jamais se esqueceu do que aconteceu naquela noite. As imagens. Estavam lá, bem diante do nariz do garoto Ary, mas ele nunca havia experimentado algo assim. Uma mistura de pavor, deslumbramento e segurança. Estava apavorado, jamais vira coisas assim. Deslumbrado, mas a mãozinha que apertava cada vez mais forte a mão maior do pai sentia fluir, por ali, através daquele toque, a segurança necessária para prosseguir ali dentro. E então encarou um pequenino monstro que devolvia-lhe o olhar de maneira terrível, como que através de um olho único que aparecia no centro da cabeça inchada. O corpo era disforme e achatado. Segurava a mão de outro ser muito maior, que alcançava, talvez, 30 metros de altura e era fino como um poste. Atrás deles, dois outros monstros gorduchos e atarracados também mantinham as mãos apertadas e os fitavam diretamente dentro dos olhos. Os corpos daquelas criaturas pareciam ter sido submetidos a enormes tornos mecânicos, capazes de esmigalhar automóveis inteiros. O medo e o deslumbramento atingiam o ápice. Estava em um mundo totalmente desconhecido e tinha a mão do pai bem apertada consigo. Uma experiência e tanto. Foi quando se virou para ver que ao lado deles, duas outras criaturas disformes estavam a espreita. Perguntou:
- Papai, tenho medo. – O pai sorria ao ouvir a voz vacilante do menino. – Quem são eles?
- Eles te dão medo, Ary?
- Sim. Estão por toda parte. Parecem... Não sei o que parecem. Monstros acho. Não, monstros, não. – A música continuava lá. Hipnótica.
- Não são monstros. Somos nós. Não acredita? Somos nós que estamos ali. E lá. Por toda a parte.
O olhar do menino brilhou com a descoberta. Agora movimentava os braços, as pernas, à maneira de um dançarino, percebendo aquelas formas estranhas dentro do espelho imitarem todos os movimentos que fazia. Era incrível. Quase inacreditável. Mas tudo que o pai falava era a pura verdade, inclusive isso.
- Somos nós, viu? Na realidade, parecem outra gente. Mas somos nós. Parecem outra...
- Outra gente, professor. É o que somos. Outra gente. – A lembrança de Ary desvaneceu de repente e aquela visão do passado se desfez como gelo ao sol. Encarava novamente a aluna, como o menino dentro do Reino dos Espelhos. – E o Senhor sabe que somos muitos, não sabe? Com toda a certeza desse mundo... Lá dentro do peito, sabe que estamos por toda a parte. Talvez não saiba tudo, mas sabe que não pode negar nossa existência. – E a voz que lhe chegou aos ouvidos parecia escarninha e apodrecida, como maçãs estragadas dentro de um barril esquecido no porão.
A mulher sorria vagamente. E debaixo dos dentes brancos, no fundo da garganta muito vermelha, sob a pele alva e delicada, Ary vislumbrou. Durante o que não passou de um átimo, um pouquíssimo pedaço de tempo que não era maior do que o necessário para piscarmos o olho, ele viu. Estava lá. Como no reino dos espelhos, algo espreitava sob aquele corpo e era mal. Escondia-se debaixo daquela camada que imitava uma aluna do curso de filosofia e aparecia aos olhos do professor de forma quase bela. Mas durante aquele pouco tempo, o homem que transpirava de medo e usava lenços brancos para enxugar a testa, conseguiu vislumbrar o que, de fato, conversava com ele. E era pior. Muito pior do que visões dentro de uma atração num parque de diversões qualquer, num ano perdido no tempo. E, dessa vez, ninguém o segurava pela mão.

                          VII

Caminhava trôpego, trocando as pernas como um bêbado. Tinha na mão esquerda a pasta de trabalho e na direita o lenço branco empapado, bem apertado entre os dedos. “Ao inferno, Senhor Diretor. Você e seus alunos idiotas”. Sempre se perguntara por que aquela coisa acontecia com ele, qual seria o motivo de ter sido escolhido dessa maneira.  “E então, menino? Mamãe ficou cega, hã?”. Cruzara com alguns deles durante a vida, era capaz de lembrar, mas quantos outros devem ter passado despercebidos ou mesmo ainda fazem parte do dia-a-dia sem que note a presença maligna. Temia, depois de ter mantido a bizarra e diabólica conversa com aquela coisa, jamais voltar a ser quem era. O coração bombeava sangue de maneira frenética pelas veias e artérias que pareciam não agüentar a carga e preparavam-se para explodir com a pressão. Toda a musculatura da nuca e costas parecia ranger, agora. Os transeuntes devolviam-lhe olhares inquisidores, já que encarava cada um que passava ao largo como perscrutando se algo espreitava abaixo da epiderme de maneira alucinadamente senil. “Outra gente, professor. É o que somos”. E diante do questionamento de Ary, ela, ou aquilo, prosseguiu a falar e nesse momento, enquanto caminhava para casa, à maneira como loucos fazem dentro de sanatórios, recordou o que disse a mulher: “Alguns, como você, são escolhidos, Mestre. É muito fácil entender: todas as espécies lutam para sobreviver – não somos diferentes. Quanto a nós, não apenas sobreviver, nos atrevemos a mais. Talvez tomar o lugar de vocês, por que não? Não fazia idéia, não é? Podemos tomar parte ativa nesse mundo, fazer as coisas acontecerem, modificá-las a nosso favor. Até mesmo acidentes fatais podem não ser coisa do acaso”.
O Professor recordou, como um flash que espoca rápido, no momento da conversa e lembrava novamente agora, enquanto caminhava sem ouvir os próprios passos. Um acidente havia levado a vida de Marília cinco anos antes. O homem recordava do funcionário da empresa de reboque comentando, ao levantar o carro que mantinha placas de sangue coagulado no interior e deformações que deixavam o motor exposto para fora do capô. O mecânico achava muito estranha a maneira como os mangotes de freio apareciam cortados e pendurados na parte inferior do automóvel. Já vira muitos acidentes na vida, mas jamais testemunhara, numa batida daquele tipo, cabos de freio ceifados assim. “De qualquer modo, moço, foi uma batida e tanto e nesse caso, tudo pode acontecer, não é mesmo? Mas que é estranho, sim, isso é. Coisa danada de estranha. Sinto por sua esposa, moço. Sinto de verdade. Ela foi enterrada ontem, fiquei sabendo Sinto de verdade, é uma coisa que não deveria acontecer. Sabe como é, eu trabalho nesse negócio de reboque e, de vez em quando, me deparo com coisas assim. Não pense que isso é bom. Se pudesse não estaria aqui, seria professor como o Senhor. Ou qualquer outra maldita coisa que não envolvesse automóveis, graxa e acidentes. O Senhor entende, não é? Mas é uma coisa danada de estranha essa aqui”. E apontava os cabos do freio cortados como se à navalha. Cinco anos depois, muitas coisas ficavam mais claras. Não havia aquele homem entre os curiosos que acompanhavam o trabalho do homem do guincho? Sorrindo. Fitando diretamente dentro dos olhos de Ary, os lábios tentando suster algo que ao mesmo tempo, mórbida e estranhamente, desejava mostrar-se. E as demais pessoas? Ninguém ali percebia a presença daquela coisa que vestia um uniforme que parecia militar. “Podemos tomar parte ativa nesse mundo, fazer as coisas acontecerem, modificá-las a nosso favor”. Os cabos de freio pendiam diante das barbas do então professor de Filosofia da faculdade Olinto Barbosa que esforçava-se para não encarar o homem que desejava sorrir, trajava uniforme militar e não era percebido pelas demais pessoas que rodeavam a cena do acidente. A coisa se confirmava de maneira assustadoramente diabólica, mesmo de encontro à vontade e o intelecto do professor. Haviam matado a esposa. Por algum motivo escuso, que apenas o umbral do inferno poderia conhecer, assassinaram Marília. Como ato contínuo, arrastava o lenço na testa gelada enquanto o pensamento parecia zumbir como um enxame de vespas furiosas. Vagava quase perdido, em direção à casa, sentindo como se as pernas pertencessem a outra pessoa. “Não fazia idéia, não é? Podemos tomar parte ativa nesse mundo, fazer as coisas acontecerem, modificá-las a nosso favor. Os jumentos só existem por que um cavalo cruzou com um burro, professor. Jumentos são estéreis, não podem procriar. Apesar de lecionar Filosofia, tenho absoluta certeza de que sabe disso. É um homem bastante inteligente. Ainda dependemos de vocês, mas o dia final está próximo. Muito próximo na verdade, querido Professor Ary. E, então, talvez tenhamos tomado o lugar que hoje é de vocês”.
Era o homem mais solitário do mundo, agora. Cambaleava, temia não ser capaz de chegar à casa sozinho, não gostaria de perder os sentidos, desmaiar como um indigente no meio da rua e acordar num hospital do outro lado da cidade dois dias depois. Quiçá jamais acordar novamente. O sangue fugia do corpo, deixando órgãos dormentes e indolentes. Vislumbrou com pavor o aceno do velho sob o ponto de ônibus que mantinha uma cobertura em fibra de vidro transparente. Desta vez não se esforçava para esconder o sorriso por baixo da gengiva sem dentes. Com mais medo, percebeu que o porteiro nordestino mantinha-se de pé ao lado do aposentado e não mostrava nos olhos negros aquele ar perdido de quando sentava na portaria imunda. Parecia se divertir, enquanto também acenava de forma estranha – dentro daquele pequeno movimento foi capaz de perceber o suplício de almas atormentadas que de alguma maneira pagavam por encontrar entes aterradores pelo caminho. Jamais consertaram a porcaria da mola de pressão da porta principal. Nunca seria feito. A velha cadeira do porteiro permanecia vazia, e assim ficaria, como um túmulo exumado num cemitério fantasma. Ninguém poderia consertar coisa alguma naquele prédio antigo que não contava nem mesmo com um porteiro em tempo integral. Foi fácil observar as teias de aranha que acumulavam onde antes Ary contemplava o preguiçoso. Nunca ninguém sentou naquele lugar. Mantivera-se vazio todo o tempo. Ao girar a chave na fechadura de casa, colocou os pés para dentro e pensou que o corpo não fosse lhe acompanhar, ficando perdido para sempre, vagando como uma assombração pelos corredores do velho prédio. Suspendeu os olhos com esforço, parecia prestes a desmaiar de verdade. Não reunia mais força nos membros, não conseguia pensar em coisa alguma coerentemente. E ao fitar o sofá da casa, lá estava ela. Edith sentada no sofá, esticava as mãos sobre o colo. E depois de quatro anos de casamento, foi a primeira vez que Ary percebeu. Ela sorria. Por baixo dos lábios delicados e muito rubros, jazia um sorriso. Satânico, parecia remeter a um outro mundo, carregar consigo toda a carga da existência de seres que não deveriam estar pisando o mesmo solo que ele, de coisas ancestrais que reclamam vida e chamam pela morte. Estava lá, estampado no rosto da esposa que, antes de falar, encheu os pulmões com uma grande quantidade de ar:

- São boas notícias. Estou grávida!
Marcelo Santoro
Enviado por Marcelo Santoro em 31/10/2005
Código do texto: T65755
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Sobre o autor
Marcelo Santoro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 52 anos
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Marcelo Santoro