A TRAVESSIA DO INFERNO

Éramos um grupo de crianças desses bem comuns no início da década de oitenta, onde os adventos da modernidade, internet e redes sociais passavam longe da realidade do dia a dia. Desse modo, a interação interpessoal era muito mais marcante e as possibilidades de divertimento obrigatoriamente passavam longe do campo virtual. Nosso mundo, nossa vivência era delimitada pelos campos de várzea, pelas ruas de barro, pelas brincadeiras de pique, pelas árvores e o mar, ao mesmo tempo em que esse mesmo viver era ilimitado pelo poder da imaginação.

Costumávamos ficar reunidos até tarde da noite, era uma época muito menos violenta do que os dias atuais, debatíamos acerca dos contratempos escolares, dos namoricos, sobre quem tinha sido mal-sucedido nas reinações vespertinas e, sobretudo, contávamos histórias relativas ao sobrenatural, à fantasia e ao terror.

O local era sempre o mesmo, sob uma imensa caixa d’água sustentada por quatro colunas de concreto armado. Como morávamos no alto de um dos inúmeros morros do subúrbio carioca e a infraestrutura ainda era precária, a água potável não era tão farta, de maneira que a prudência nos levava a possuir uma reserva para abastecer a comunidade em caso de necessidade ou urgência.

O ambiente era muito acolhedor, tínhamos a proteção de um teto sobre nossas cabeças, muretas que faziam as vezes de bancos e, como estávamos no alto, com um ponto de observação privilegiado da estrada principal. Vez ou outra, uma das velhas senhoras do bairro se juntava à roda de meninos para relatar algum causo com as propriedades que só os antigos possuem, algo diferente que sugere certa credibilidade, apesar do tom fantasioso para o olhar de um adulto, tudo, absolutamente tudo se mostrava perturbadoramente crível para uma mente infantil.

Uma dessas personalidades que mais se juntavam ao grupo nessas narrativas era minha própria avó. Articulada e comunicativa, a velha tinha uma propriedade peculiar na arte de plantar a semente do medo. Filha de portugueses, ela costumava relatar passagens que ela própria ouvira quando criança. Eram histórias que tratavam de feitiçaria, pequenos demônios, mortos ressuscitados, peeiras e toda sorte de atividades de outros mundos.

Mas, os que mais me incomodavam ao ponto de ficar impressionado, eram os relatos pertinente à lenda do homem que se transformava em um demônio assassino de quatro patas sob a luz do luar. Ela dizia que essa maldição era marcante na Europa desde os tempos medievais e que, por obra das grandes navegações, chegara ao nosso país e, diga-se de passagem, se adaptando muito bem à abundância das matas e ao alimento farto da nova terra.

Isso me perturbava porque eu percebia essa criatura como algo palpável, não como um espectro evanescente ou uma manifestação oriunda do inferno. No meu entendimento era lago ligado à natureza e às transformações inerentes a ela, como uma lagarta que se converte numa borboleta, ou um lagarto ao ganhar uma nova cauda.

Minha avó teve onze filhos, sete deles homens, e ao dizer isso deu certa ênfase na entonação de voz. Seu intuito era destacar uma das vertentes da lenda sobre o amaldiçoado, na qual dizia que o sétimo filho homem seria portador do infortúnio de ser escravo da lua cheia.

Mas, logo após uma pausa dramática, a velha senhora tranquilizou o grupo de meninos dizendo que Mauricinho, seu caçula, fora batizado pelo irmão mais velho, atitude que, segundo as crendices, bania qualquer possibilidade de danação contra o garoto.

Curiosamente, Maurício, que obviamente era meu tio, também fazia parte da nossa turma pois, por ser o mais novo dos meus tios, diferia pouco em idade quando comparado a mim e aos outros meninos. De modo que estava sempre presente nesses nossos encontros e dizia, entre risos, que se sentia agradecido por não ser a tal fera da noite. No entanto, confesso que sentia uma certa melancolia em seu olhar sempre que dizia isso.

Numa dessas rodas de conversa de fim de noite, Jean Carlos, um garoto cuja família era uma das mais abastadas do nosso meio, e que morava num belo sobrado defronte à plataforma da caixa d’água, disse que tinha vontade de ver um demônio da lua cheia. Um detalhe: nós nunca usávamos a nomenclatura usual para se referir à criatura, pelo menos não sob a escuridão da noite, era um costume velado, todos nos julgávamos destemidos, mas no fundo havia um certo receio de conjurar a besta, ainda que de forma involuntária. Ele disse que gostaria de ver a fera, mas sem que ela o visse. Gostaria de observá-la de longe, sob a proteção das paredes da própria casa, deixou bem claro.

Todos rimos. Ora, o moleque queria se mostrar corajoso...mas nem tanto.

Uma de nossas brincadeiras preferidas era realizar a chamada “travessia do inferno”, que consistia em invadir um terreno baldio protegido por um vira-latas enorme, um mestiço de pastor alemão com alguma raça impossível de definir.

Ralf, esse era o nome do cachorro, tinha um temperamento difícil e durante a noite ficava solto vigiando os fundos de uma oficina mecânica fronteiriça ao terreno. O lugar era peculiar e ostentava em sua parte final as fundações que representaram em certo momento a ambição de se tornar uma cooperativa de processamento de lixo, uma promessa de algum político demagogo.

No fim das contas, o espaço fora abandonado e no que se referia ao lixo, virara simplesmente um depósito, onde todos jogavam de tudo. Entretanto, o que importa quanto ao relato se resumia à obra inacabada. As fundações davam conta de um imenso quadrilátero com aberturas profundas no solo. Elas eram largas e extremamente perigosas, pois possuíam incontáveis varas de metal, espessas e enferrujadas, brotando de suas entranhas.

No entanto, no centro dessa armadilha mortal havia a mais bela e frondosa de todas as mangueiras do bairro. Um espécime magnífico, robusto, com um tronco amplo e galhos forte apontados em todas as direções. Como o que é mais perigoso também é o mais atrativo, achávamos seus frutos os melhores dentre todas as árvores frutíferas da comunidade.

O desafio, de fato, baseava-se em adentrar os domínios da oficina, provocar o cão, escapar ileso de sua perseguição, agarrar uma corda estrategicamente postada no galho mais forte da mangueira, se balançar por sobre a garganta de ferros afiados e cair na outra extremidade, obtendo a vitória ao lado das mangas. Simples.

Na noite fatídica, estávamos apenas em cinco. Nem meu tio Maurício, nem Jean Carlos estavam na aventura. Sorrateiramente, come era praxe nessas investidas, saltamos o muro que delimitava o espaço da oficina. O terreno nos fundos da construção era dotado de muito mato, carcaças de automóveis e sucatas de tudo quanto é tipo.

Caminhávamos lentamente, sem perceber nenhum sinal de Ralf. O silêncio era tanto que ouvíamos nossos passos quebrando os gravetos no chão e a respiração ruidosa do colega ao lado. Era estranho que o cachorro não tivesse se manifestado ainda. Já estávamos a ponto de seguir para a mangueira sem a adrenalina da perseguição quando percebemos, no meio do mato, ardiloso como só ele era capaz, a presença do nosso arquirrival. O brilho metálico dos seus olhos refletia a luminosidade parca da noite. Começamos a provocá-lo, mas, de modo diferente, ele não agia como de costume. Logo começamos a ouvir um rosnado grave e arrastado, entrecortado pelo som de uma expiração ruidosa e que emitia um vapor espesso no ar.

Todos pensamos ao mesmo tempo. Aquilo que estava no matagal não era o cachorro, em hipótese alguma. E, numa ordem muda, todos corremos ao mesmo tempo na direção da mangueira.

A criatura, até então oculta pelas sombras da noite, se manifestou num pulo, deixando transparecer a sua identidade: era o demônio com a letra L, ele estava ali, embora ninguém tivesse falado o seu nome.

Como um bípede, ele corria ao nosso encontro, mas, no momento exato, suas intenções foram frustradas pela ação de um herói: Ralf, o cachorro vigia, executando uma projeção no ar que, talvez, nem os melhores cães policiais fossem capazes de reproduzir, o interceptou.

O que ocorreu em seguida foi uma luta épica com garras, dentes e músculos como armas. Mesmo com todos os obstáculos e sob a tensão do momento, conseguimos vencer a distância e saltamos o muro. Ganidos e rosnados era ouvidos. Corríamos o mais rápido que nossas infantes pernas eram capazes de fazer.

Três de nós já estavam na mangueira, do outro lado da garganta do diabo. Faltavam eu e outro menino, o mais novo de nosso grupo, tinha uns oito ou nove anos e o chamávamos de Quinzinho. Como ele não tinha muita força, pedi que ele se segurasse bem e o empurrei.

Seu voo mostrou-se perfeito e ele caiu a salvo do outro lado. Era a minha vez. Olhei para trás e o demônio havia partido Ralf em dois. Ele segurava cada parte com uma das patas sobre a própria cabeça. O maldito se banhava com as entranhas e o sangue do nosso cachorro mais odiado...e amado. No fim das contas pude perceber que Ralf sempre nos protegera, seja como cúmplice em nossas brincadeiras, seja como defensor de nossas vidas.

A criatura uivou para a lua como se brindasse a ela pelo que estava por vir. Em seguida, olhou em minha direção, colocou-se em quatro patas e começou a correr. Com a urgência a me guiar, agarrei a corda com as duas mãos, tomei impulso e saltei, sabia que deveria cair do outro lado sem liberá-la, pois, a besta poderia fazer o mesmo uso para também chegar no ponto oposto. Era certo que ela não conseguiria fazer isso de outro modo. Por mais que fosse ágil e forte, a garganta do diabo era larga, profunda e cheia de dentes metálicos, prontos para rasgar o corpo de qualquer um, até mesmo de um demônio.

No entanto, como num desfecho trágico, a corda cedeu, partindo-se enquanto eu voava em busca de salvação. Despenquei rumo à morte certa. Talvez escapasse da garganta do demônio da lua cheia, mas seria devorado por outra, a composta de ferro e dor.

Senti uma fisgada seguida por uma dor lancinante. Porém, por obra de algum milagre, eu estava vivo. Caí possivelmente no único espaço capaz de absorver meu corpo esquálido sem que eu fosse empalado. Entretanto, um vergalhão havia transpassado minha panturrilha direita. Eu estava de cabeça para baixo, com um ferro atravessado na perna e uma dor impossível de descrever.

Mas a minha agonia não se resumiria a apenas isso. Senti o toque quente e pegajoso da gosma que escorria da boca escancarada da criatura quando sua cabeça surgiu no alto do buraco. Minha percepção estava invertida, eu estava tonto e desnorteado, porém fui capaz de entender que era um sorriso cínico o que ela me oferecia.

O desespero me dominou enquanto a fera se esticava pela abertura tentando me alcançar com as garras. Eu ouvia meus amigos gritando por mim, ouvia também eles dizendo que o demônio era Mauricinho, por isso ele não estava conosco, eles gritavam: “É o seu tio, Mauricinho é o demônio”!

Eu não queria acreditar nessa possibilidade, mas era bastante plausível. De qualquer jeito, a identidade da criatura era o que menos importava naquele momento.

Um torpor se espalhava pelo meu corpo, se concentrando na perna ferida. A morte flertava comigo de várias maneiras. De súbito, a cabeça adornada por um olhar amarelo e ferino desapareceu. Agradeci aos céus, talvez eu me salvasse. Mas minhas súplicas foram dispersas pelo que viria a seguir. Eu vi, e achei que fosse a última coisa que veria, o demônio se projetar no ar, nublando a luz da lua cheia, numa tentativa de alcançar a outra margem com um salto.

Naquele momento pensei em todas as possibilidades e nenhuma nos era favorável. Como previ, a fera não conseguiu chegar até o ponto oposto, mas uma de suas patas conseguiu agarrar um galho da mangueira. Do fundo daquele buraco eu ouvia o choro, as súplicas e o desespero dos meus amigos.

A besta se balançava, numa tentativa de ganhar impulso e vencer a distância, visto que o galho em questão era demasiadamente alongado e fino para que pudesse se sustentar por ele.

E essa foi a salvação dos meninos. Um estalido anunciou que na ânsia de chegar ao outro lado, o demônio forçou demais onde não deveria e, ao invés do alimento de carne e sangue na mangueira, o que ganhou foi uma queda, infelizmente, para onde eu estava.

No entanto, com seu corpo avantajado, ele não teve a mesma sorte e foi transpassado por inúmeras lanças afiadas. O bicho urrou de dor, algo inédito para ele. Mesmo assim, ele tentava me acertar com as garras afiadas da pata que estava mais próxima de mim. Ele mastigava o ar, vertendo uma mescla de saliva e sangue pela boca, sinal de que seus órgãos internos haviam sido atingidos.

O torpor em mim ameaçava nublar meus sentidos e, como num sonho, a imagem da criatura começou a se dissipar lentamente, como uma névoa, ao passo que tudo ficou em silêncio e adormeci.

Acordei com o ruído de muitas vozes, máquinas e confusão. Olhei para onde estava a fera e tudo o que vi foi um rapaz, nu e ensanguentado. Um desconhecido, não era meu tio afinal. As crianças já haviam sido resgatadas e os bombeiros tratavam de me retirar daquele fosso de morte.

Mais tarde, os meninos disseram o que tinha acontecido. Mas os psicólogos definiram o episódio como um trauma causado pela experiência de terem sido perseguidas por um maníaco homicida e pedófilo, assim que classificaram o demônio.

Fui levado para um hospital e lá permaneci por um bom tempo. O corpo mutilado do nosso amigo Jean Carlos, o que também não havia aparecido e que desejava ver a criatura de longe, fora encontrado no matagal da oficina. Uma tragédia para toda a nossa comunidade e que também fora creditada ao suposto assassino.

Tive alta do hospital e finalmente pude ir para casa. Estava ainda convalescendo, quando numa dessas noites, enquanto observava o céu, logo após a visita de minha avó, fui surpreendido pela presença do meu grande amigo e tio, Maurício no vão aberto da janela.

Permanecendo no lado de fora, ele disse que queria me confidenciar um segredo. Entre sussurros, me contou que o rapaz morto, a identidade humana do demônio da noite, fora concebido por uma aventura extraconjugal do meu avô. E que estava morando com a mãe há pouquíssimo tempo em nosso bairro. Disse ainda que o rapaz era meses mais velho que ele próprio, sendo, portanto, o verdadeiro sétimo filho do meu avô. E, como se sabe pela crendice popular, a maldição era passada pelo lado paterno. Por esse motivo o rapaz herdara a maldição. E certamente por isso aquele fora o primeiro ataque da besta na região, ele era um forasteiro.

Maurício parecia apreensivo durante o relato. E, antes de sair pela noite, virou-se mirando diretamente em meus olhos, para em seguida dizer com pesar: “Agora sou o sétimo filho vivo e acredito que ser batizado pelo primogênito de nada adiantará nessas novas circunstâncias”.

Eu não sei qual será o seu destino, mas juro pelos céus que vi uma tonalidade excessivamente amarelada em seu olhar, algo que passava longe da melancolia habitual. Possivelmente ele terá de vencer sua própria travessia do inferno.

Flávio de Souza
Enviado por Flávio de Souza em 24/02/2019
Código do texto: T6582944
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