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Nunca chame o demônio


Fernanda tinha acabado de perder o pai. Uma dor aguda e silenciosa brotou-lhe no peito, deixando claro que seria difícil seguir em frente. Mas além da falta do pai teria que lidar com outro problema não menos penoso: sua mãe. Desde o ocorrido, sua mãe não mais falava, a não ser por monossílabos. Ela se recusava a comer, tomar banho. Só a idéia de sair de casa a apavorava. Fernanda percebia a cada momento que sua mãe estava se entregando a morte. Cada dia que se passava era um tormento. Ver a mãe como uma morta-viva, deitada na cama, cada vez mais perdendo a cor, tirava-lhe qualquer ponta de entusiasmo para seguir em frente.
Certo dia ela pediu ajuda aos parentes, mas eles pareciam preocupados demais com suas próprias vidas. Uma raiva invadiu-lhe a alma, acompanhada de uma solidão pungente. Parecia não haver saída para aquela situação. O desespero começava a lhe invadir o coração quando Messias, tio de Fernanda, apareceu numa noite de sexta-feira. Ele aparentava estar a par de toda a situação, aparentava estar disposto a ajudar, faltava praticamente implorar para que Fernanda aceitasse sua ajuda. Mas do jeito que estava precisando dela, Fernanda nem chegou a notar o nervosismo de seu tio, o jeito embaralhado de falar, as mãos que se crispavam a cada momento.
Messias era um homem estranho. Sempre estava a voltas com bruxaria, dizia fazer sortilégios para conseguir o que desejava. Era aquele parente que todos somente suportavam. Mas era um homem muito bem de vida, por mais que não o suportassem sempre corriam em seu encalço para pedir favores financeiros. O pai de Fernanda, de nome Ezequiel, não tinha uma relação das mais fraternais com Messias, de quem era irmão. Mas isto nem passava pela cabeça de Fernanda naquele momento, o que ela queria era uma mão para apanhá-la do abismo, e Messias estendia a dele.
Sentaram-se no sofá. A chuva caia lá fora. O frio invadia os cômodos da casa. Messias começou a falar o que Fernanda devia fazer:
-Estou aqui com a melhor das intenções, pois gosto muito de você e sua mãe, apesar de eu e seu pai nunca ter nos dado bem. Você sabe que lido com forças além da compreensão dos homens, por isso sempre fui motivo de chacota e indiferença por parte de toda a família. Mas é necessário que acredite em mim e faça tudo que lhe falar.
                  Fernanda assentiu humildemente.
-Hoje mesmo assim que eu sair faça um círculo no chão, e no meio dele acenda uma vela. Ajoelhe-se e implore a Molloth, deus pagão, senhor do outro mundo e deste, que interceda por sua mãe. Acredite, vai notar diferenças hoje mesmo. Promete que fará isto?
-Faço qualquer coisa para tirar minha mãe deste estado de estupor.
                  Nisso tio e sobrinha se abraçaram. Messias se preparava para sair quando se virou e disse:
-Faça isso hoje mesmo. É muito importante que comece hoje.
-Farei tio.
                  Assim que seu tio saiu, Fernanda foi até o quarto da mãe. Ela continuava lá, deitada, impassível.
-Hoje eu mudo tudo, mamãe.
                   A visita e ajuda de Messias tinha dado a Fernanda uma dose cavalar de ânimo. Ela foi até se quarto, pegou um giz e uma vela. Voltou a sala, tirou o tapete e desenhou um círculo, e no meio dele acendeu uma vela. Ajoelhou-se e começou a pedir:
-Molloth, senhor do outro mundo e deste, eu te peço com todas as forças, ajude minha mãe a melhorar, sair deste estado lamentável. Eu te imploro!
                   Feito isso, Fernanda sentou-se no sofá e esperou. O relógio marcava onze horas. Decidiu deitar um pouco. Nisto ela dormiu e só foi acordar à meia-noite. Um silêncio sepulcral dominava toda a casa. Fernanda subiu as escadas correndo e abriu a porta do quarto de sua mãe. Ela continuava deitada. Uma ponta de frustração já inflamava seu peito. Todo aquele sortilégio não havia adiantado de nada, pensava Fernanda. Desceu as escadas e sentou-se no sofá. Começou a lembrar de seu pai, um homem bom, alegre, companheiro. Não conseguia achar motivos para o suicídio de seu pai. A cena de seu crânio aberto pelo tiro do revólver, o sangue no chão, os gritos de sua mãe, fizeram Fernanda chorar. Sua vida tinha mudado para pior em questão de dias.
                  Nisto as luzes se apagaram. Fernanda foi até o interruptor e ouviu um barulho vindo da cozinha. Da sala era possível ver a janela que dava para a área de serviço. Uma silhueta de uma pessoa no lado de fora. Fernanda congelou na hora. Parecia ser um homem. Ele começou a bater com os punhos na janela e pedia insistentemente para entrar, mas ele tinha uma voz cavernosa, sombria, de fazer tremer até o mais forte dos homens:
-Deixe-me entrar Fernanda. Faz frio aqui fora.
                   Fernanda deu um pulo para trás, o que a fez cair no sofá. O homem parou de bater na janela e começou a forçar a maçaneta da porta, agora ele gritava para que o deixasse entrar. Fernanda lembrou da mãe e subiu as escadas com o que restou de suas forças, mas seus passos pareciam lentos, hesitantes. Nisso ouviu a voz de sua mãe. Ela estava falando. Mas com quem? Fernanda correu o quanto pôde e quis abrir a porta, mas ela estava trancada. Ela chamava pela mãe, mas a mãe continuava a conversar:
-Você voltou querido
-Voltei.
                  Era a voz de seu pai.
-Quanta saudade senti de você, meu amor.
-Não maiores do que as minhas.
                   Mas isto não era possível, pensava Fernanda. Então decidiu olhar pela fechadura da porta. Sua mãe estava sentada na cama e um homem, que nunca tinha visto na vida, estava de pé. Fernanda sentiu algo como uma descarga elétrica passar pelo seu corpo, agora ela gritava e chutava a porta frenéticamente:
-Mãe, não é o pai.
                   Ele dizia:
-Meu bem, precisa fazer o que lhe peço para que fiquemos juntos outra vez
-Qualquer coisa.
                   Nisto Fernanda sentiu alguém lhe puxar pelas costas. Ela caiu da escada e bateu a cabeça, o que lhe fez ficar um pouco zonza. Ouviu uns gemidos de sua mãe vindo do quarto, gemidos de dor. As lágrimas caiam dos seus olhos, ela levantou-se e subiu novamente. A porta do quarto de sua mãe estava aberta. Quando Fernanda entrou sua mãe estava deitada na cama, e um corte riscava seu pescoço. Fernanda imediatamente segurou a mãe nos braços, mas já não havia mais vida naquele corpo. A faca continuava na mão de sua mãe. Mas onde estaria o homem? Fernanda olhou para a porta ao ouvir um rangido, ele estava de pé olhando para ela.
-Quem é você? Por que fez isto?
-Sua mãe fez isto.
                  Fernanda olhava para mãe, agora estava em prantos:
-Saia da minha casa.
-Não posso deixar pela metade.
-O que quer?
-Lembre-se que você me chamou.
                   Então ela se lembrou do sortilégio:
-Molloth?
-Sim. Mas não sou um deus pagão, como acreditava. Eu venho de muito longe, tenho muitos nomes. Messias sabe quem sou.
                    Ele agora sorria de uma forma diabólica:
-Messias achava-se um homem inteligente, esperto. Achava que podia brincar com coisas que não conhece e sair-se bem. Eu apostei no pôquer com ele numa noite chuvosa. Ele perdeu, é claro.Quando descobriu quem eu era, chorou feito uma criança. Estava com medo, bastante medo. Ele sabe do que sou capaz, como sabe.
                        Fernanda sentiu um frio na espinha. Já estava começando a compreender quem era aquele homem.
-O que eu tenho a ver com isso?
-Eu precisava de uma distração. Messias me garantiu que conseguiria uma alma para mim. Eu disse a ele que ficaríamos quites. Você não devia ter me chamado para entrar.
                        Fernanda agora compreendia tudo. Seu tio a tinha enganado para salvar-se. Aquele homem não era um deus pagão, era o demônio. Aquilo tudo era demais. Ela se sentia responsável pela morte da mãe. Ela tinha convidado o demônio para entrar. Olhou para a mãe. Olhou para a faca. Ainda pôde ver seu reflexo nela antes do seu sangue molhar o chão. Tinha cortado o pescoço. Olhando para os corpos na cama, o demônio disse:
-Preciso fazer uma visita agora.
                  Messias estava na sua casa, tomava uma cerveja. Olhava para a televisão com um certo alívio. Tinha tirado um grande peso das costas. Não sentia nenhum remorso por mentir a sobrinha e entregá-la de bandeja ao demônio. Cada um com seus problemas. O que importava era que agora ele estava livre, sua alma também. E como se nada tivesse acontecido, Messias ria do programa que passava na televisão. De repente as luzes se apagaram, um frio dominou a casa, assim como o silêncio. Alguém batia na porta da sala e gritava:
-Deixe-me entrar.
                    Messias continuava parado onde estava. O medo invadiu seu corpo por inteiro. A porta se abriu, e o demônio, com seu sorriso infernal, olhava para Messias enquanto dizia:
-Eu menti.
                   Então o grito de Messias ecoou por toda a casa.

Poetisa da Noite
Enviado por Poetisa da Noite em 16/10/2007
Reeditado em 16/10/2007
Código do texto: T695971

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Sobre a autora
Poetisa da Noite
Santos - São Paulo - Brasil
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