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Fim de contrato, executado!

  - Porra cara será que ele vem mesmo? - disse um dos homens de terno, sentado a direita, de gravata vermelho-sangue, fumando cigarros compulsivamente.
  - É claro que vem... - respondeu seu companheiro de mesa com um certo tom de irritação. Também trajava um terno preto, só que com gravata preta também.
  Dois homens de terno e gravata num velho bar cheio de alcoolatras e tipos variados, os dois pareciam deslocados, talvez um padre em um bordel seja uma comparação valida, mas ao mesmo tempo estranhamente não chamavam a atenção de ninguém, exceto a minha. Não sei por que diabos me chamavam tanta atenção. O bar se assemelhava bastante ao Dante´s, um pub que conheci em Manchester há uns 4 anos, talvez se tivesse alguns torcedores do United cantando e bebendo ficaria uma reprodução impecavel. Já visitara esse bar algumas vezes. Sempre bebados. Nunca engravatados. Sempre um ar carregado de fumaça, arrotos e besteiras. Mas estranhamente o ambiente exalava um odor podre. Não se sabia de onde vinha. Mas exalava com força, nauseava.
  - Acha mesmo que os hamburgueres são feitos com minhoca? - indagou o de gravata vermelha enquanto acendia outro cigarro
  - Porra claro que são!! Os otários comem e ao mesmo tempo um monte deles tem nojo do bichinho! - retrucou o outro engravatado
  - Sei lá, minhoca ou não eu adoro essas merdas...
  De minhocas a conversa deles saltou para peitos siliconados, e sobre mensagens filosóficas nas musicas da Madonna. Não havia nada de errado. Eram dois homens falando futilidades. Como todos os outros ao redor.
  A porta do bar era igual a dos saloons em velhos filmes westerns. Abriu. Passos rápidos adentraram o recinto. Olhares em direção ao individuo. Um qualquer presumi. Eu e todos os outros. Exceto os engravatados. Se atiçaram.
  - É ele porra! vamos lá e fazer logo o pedido!! - disse e acendeu mais um cigarro o homem sentado a direita
  - Calma! Calma... deixa ele se acostumar com o ambiente.... - retrucou o de preto arrumando sua gravata
  O homem que entrou trajava um terno risca de giz, parecia nervoso, se sentou em um dos bancos em frente ao balcão e pediu uma dose de conhaque. Mais uma e outra. Os engravatados se levantaram. Se aproximaram. Só eu notei a movimentação. O engravatado fumante, colocou a mão no ombro do homem que bebia conhaque, sussurou algo em seu ouvido. Seu colega de terno sorriu. O homem terminou a dose de conhaque. Sacou sua arma. Cano na boca. Disparo. Uma nuvem vermelha se juntou ao ar cheirando a enxofre. O cadaver cai. Os curiosos se assustam. Uns fogem. Outros se aproximam. Os engravatados são ignorados. Acolhem a alma do suicida. Caminham em direção a porta.
  - Antonio Alvarez, considere-se executado - disse o fumante acendendo novamente um cigarro
  - Seu prazo acabou, chegou a hora pagar pelo seus atos. 133 mortes em 7 meses é um recorde a ser considerado, mas infelizmente nosso chefe pediu o fim do seu contrato. - explicou o de gravata preta abrindo a porta para a rua.
  Enquanto todos olhavam o cadaver de Antonio, um dos mais respeitados assassinos de aluguel, 4 pessoas deixaram o bar sem ser notadas. Os engravatados, a alma condenada de Antonio e eu. Afinal não podia resistir a mais um fim de contrato. Desde que fui executado há mais de 9 anos, ia em todas as execuções que podia. Realmente estava ansioso para conhecer o metodo novo que tanto me falaram naquele pub inglês. O "patrão" não estende contratos. Uma vez assinado, pra sempre selado. Restava a Antonio, agonizar no poço estigio ou vagar como eu.
  Rapidamente o ar do bar perdeu o aroma putrefato de enxofre para exalar apenas o cheiro de ferro vindo do sangue do cadaver executado.
 
Arashi
Enviado por Arashi em 21/10/2007
Reeditado em 21/10/2007
Código do texto: T703062

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Sobre o autor
Arashi
Sumaré - São Paulo - Brasil, 32 anos
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1 e-livros (44 leituras)
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