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O BICHO PAPÃO EMBAIXO DA CAMA

 

Ela estava petrificada. O som nunca tinha sido tão alto como agora. Era uma mistura de rosnados, gritos, choro e gargalhadas. Bianca lembrou-se da primeira vez que a mãe havia contado sobre o “bicho papão”: “Minha filha, quando você for dormir, corra para cima da cama e lá permaneça a noite toda! E nunca olhe para baixo, senão o bicho papão vai te pegar!” Ela tinha somente 5 anos, mas este terror a perseguiu a vida toda.
Sempre que chegava a hora de dormir, Bianca desligava a luz do quarto (antes claro de garantir que o abajur estava ligado, iluminando tudo) e como uma atleta dos 100 metros livre corria em direção a cama pulando segundos antes que seu pé pudesse encostar-se à borda do estrado. E durante muito tempo, com o coração acelerado pelo terror, ela ouvia pequenos sons que vinham do solo. Nunca conseguiu distinguir que sons eram aqueles como nunca quis tirar a prova dos “09” para saber se realmente as histórias da sua mãe eram verdadeiras ou apenas uma maneira de mantê-la no quarto até o dia seguinte.

Quando acontecia de seu bichinho de pelúcia predileto cair no chão durante o sono, e apesar da dificuldade em dormir sem estar abraçada a ele, Bianca recusava-se a pegá-lo, assustada com a possibilidade de sem querer acabar olhando para onde não devia.

Quando tinha 10 anos, Bianca ganhou um gatinho de sua madrinha. O bichinho era todo preto, com lindos olhos cor de mel. Ela lhe deu o nome de Neguinho, e a partir deste dia o bichinho era sua companhia inseparável.

Agora seu ritual noturno, incluía correr agarrada ao Neguinho e mantê-lo em seus braços até que os sons desaparecessem e ela conseguisse dormir.

Muitas vezes Bianca teve que segurar forte o bichano, que com a curiosidade normal dos gatos queria descer e seguir os sons horripilantes.

Em uma madrugada, Bianca acordou sobressaltada, achando ter ouvido um miado assustado. “Neguinho, onde você ta?” nenhum som no quarto. “Bichano, Bichano, vem pra cama!”. Novamente o silêncio como resposta.

Bianca entrou em pânico, pois não podia imaginar (ou recusava-se a isto) o que tinha acontecido com seu gatinho. Durante toda noite, chorando baixinho, ela aguardou o retorno do gato e quando os primeiros raios da manhã entraram pelas frestas da janela, ela pulou da cama e começou a procurar pela casa toda. Aquela tinha sido a última vez que ela viu o Neguinho, tendo como recordação somente sua colerinha inexplicavelmente pendurada na beirada do colchão...

O tempo passou, Bianca tornou-se mulher, foi para a faculdade e com o passar dos anos, deixou de se preocupar com aquela história, chegando mesmo a nunca mais escutar qualquer tipo de som noturno. Formou-se, conheceu seu grande amor, casou-se. Em uma noite como outra qualquer, Bianca deitou-se para ler um livro (enquanto aguardava que seu marido Vítor ligasse para lhe dar boa noite, entre o intervalo de uma cirurgia e outra), quando sentiu a cama estremecer. Achando que tinha sido o trepidar de um carro passando na rua não deu atenção, mas o tremor continuou e finalmente os sons voltaram. Bianca sentiu o sangue gelar nas veias e o suor escorria pelas costas. Lembrou-se das palavras de Vítor, após ela ter lhe contato sobre seu terror noturno: “Meu amor, isto é lenda!! coisa de gente antiga como sua mãe! Bicho Papão não existe”.

Respirando fundo Bianca começou a sussurrar: “Bicho Papão Não Existe, Bicho Papão Não Existe”, porém quanto mais ela repetia esta frase, mais alto os sons tornavam-se.

Finalmente, não suportando mais aquele tormento, Bianca encheu-se de coragem e resolveu investigar a causa de seu mais profundo pavor. Vagarosamente, curvou-se em direção do solo e com a respiração presa ela olhou...

Os vizinhos contaram aos policiais que acordaram assustados com os gritos que vinham da casa do Dr. Vítor e resolveram chamar a polícia. Na casa os policiais encontraram a pequena Aline, filha do casal de apenas 01 aninho, que chorando no berço pedia pela mamãe. No quarto do casal, uma cama revirada, e como pista do paradeiro de sua dona, uma grande mancha de sangue escorria por debaixo da cama....
Patricia Soares
Enviado por Patricia Soares em 24/10/2007
Código do texto: T707878

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Sobre a autora
Patricia Soares
São Paulo - São Paulo - Brasil, 46 anos
9 textos (2384 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/17 08:26)
Patricia Soares