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O CACHORRO DOS KOVALSKI


Jagunço. Este era o nome do cão de raça ovelheiro, de cor preta com manchas brancas, e que por mais de uma década foi o melhor amigo dos Kovalski. A família não era numerosa, o pai, a mãe, e dois filhos, um homem e uma mulher. Viviam num sítio localizado num pequeno corredor da zona rural. Lá a energia elétrica ainda não havia chegado e a água vinha do arroio que passava nos fundos da propriedade. Sobreviviam da sua produção. Os homens com a lide pesada, tirando o leite da vaca, plantando a lavoura... E as mulheres na cozinha, preparando o alimento, produzindo o queijo que vendiam na feira, entre outros afazeres do cotidiano. Era esta gente que tivera por muito tempo pelo Jagunço um sentimento ímpar, como se fosse ele uma pessoa. O cachorro cuidava da casa, ia para a roça, e sempre estava disposto a defender os Kovalski.

Certa vez, uma festa foi feita quando o nobre animal salvou a menina mais nova dum bote duma cobra cruzeiro. Ele quase trocou sua vida pela da pequenina, e passou várias semanas de focinho inchado por causa do veneno. Também houve outra vez que alguns larápios tentaram levar as melancias do roçado. Um saiu com a perna rasgada, e o outro mais ligeiro, se arranhou no arame farpado.

No entanto, o valente Jagunço há alguns dias mostrava-se diferente. Rosnava para os Kovalski. Cerrava os dentes, babava... Até avançou na prima Vera, num domingo de visita. Mordeu o braço da coitada. Foi uma correria até o posto de saúde. O cachorro sempre dócil passava a mostrar uma violência contida, uma raiva de todos que se aproximavam. Nem mesmo o jovem Kovalski podia se aproximar. Outrora, onde um andava, o outro estava junto. Mas aquela cumplicidade não existia mais.

Vendo tamanha hostilidade, a solução encontrada pelos Kovalski foi prender o cachorro na corrente. A prisão o enfurecia cada vez mais. As semanas se passavam com o gradual aumento de uivos raivosos, que faziam tremer a espinha dos Kovalski, enquanto apagavam a velas para ir dormir. Mas isso se tornou uma tarefa muito difícil com os ganidos desesperados do animal.

Mas numa noite tão escura como as almas pecadoras, o silêncio reinou. Evaldo, o pai, estranhou e foi até o pátio ver o que havia acontecido com o cão. Talvez tivesse morrido, pensava o velho. Só conseguia ver alguma coisa á sua frente, graças á lanterna a pilha, que por vezes usava pra caçar tatu. Foi ao galpão onde prendera o cachorro e ficou atônito ao ver que o bicho não estava lá, tampouco morto. Simplesmente sumira. Não sabe de onde, mas o animal tivera forças para arrebentar a grossa corrente, bem ao meio.  Um calafrio gelou sua nuca e teve a impressão de ouvir um arrastar de correntes a suas costas. Virou-se lentamente, deparando-se com seu estimado cão, com seus caninos à mostra, pêlos eriçados, e uma baba escorrendo pelo canto da boca. O velho Kovalski sequer teve tempo de usar seu facão que levava junto consigo. O jagunço cortou-lhe as veias do pescoço com tamanha violência que mal conseguiu gritar o agouro da morte. Desta maneira o cachorro fez com os outros três membros da família Kovalski. Mortos por quem um dia lhes fora amigo e companheiro, mesmo sendo um simples cachorro.

O sangue dos Kovalski atiçou a curiosidade do animal, que sentia sede por mais. Assim na primeira noite devorou as carnes do velho. Nas semanas seguintes o resto da família foi sendo devorado. O cachorro gostou do sabor da carne humana. Só encontraram o pouco que restou dos corpos quase um mês depois, quando alguns pescadores apareceram para uma pescaria tratada fazia tempos. Não morreram também, porque suas armas gritaram rápido. Uns juram que acertaram o cachorro, mas nunca acharam seu corpo. O fato é que ele desapareceu nos matos que beiravam o Arroio dos Kovalski.

Depois disso a história ganhou o interior, a cidade, e até mesmo a região... E ainda hoje poucos se arriscam se aventurar pelas bandas do Arroio dos Kovalski, principalmente em noites sem luar.  Conta-se que muitos viajantes ao passar no lugar em noites sem lua, ouviam uivos agonizantes e o arrastar de correntes entre corticeiras, pitangueiras, e outras árvores do lugar... Muitos sumiram, sem jamais voltar aos seus lares... E vez por outra um fêmur aparece sem suas carnes, devoradas pelo cachorro dos Kovalski...
Douglas Eralldo
Enviado por Douglas Eralldo em 30/10/2007
Reeditado em 31/10/2007
Código do texto: T716550

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Sobre o autor
Douglas Eralldo
Pântano Grande - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
243 textos (22748 leituras)
2 e-livros (186 leituras)
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Douglas Eralldo