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PROFECIAS URBANAS

     Um despertador diferente o tirou rapidamente da cama na fria madrugada de agosto. Perto das três da manhã um grito alto tapou-lhe os ouvidos . Um ai que foi ouvido diversas vezes . Mas  a voz não lhe era estranha , parecia conhecer o dono daquela triste sinfonia. Atordoado balançou levemente a cabeça como quando se toma uma pancada muito forte sem esperar. Uma incrível sensação de horror começou a lhe estampar o rosto enquanto se lembrava de onde tinha ouvido aquela voz. Uma luz se acendeu dentro dele no mesmo instante em que uma câimbra parecia lhe podar os movimentos da cintura para baixo.
___ Meu filho! As palavras foram vomitadas numa enxurrada de temores e medos. A boca ainda salivando da noite de sono, as costas marcadas pelo suor dos pesadelos noturnos.
     Saiu tropeçando em tudo que via pela frente enquanto tentava achar o interruptor que poderia aplainar seu caminho escuro . Os gritos agora se tornavam abafados e suas pernas pareciam ter asas no instante em que abriu violentamente o quarto do pequeno filho. Entrou ali certo de que teria de travar uma violente luta pela vida daquela pobre criança. Mais o que viu foi que o filho sentado no pequeno carrinho de plástico, olhos inocentes mirando o infinito, boquinha entreaberta. Pequenas luzinhas que brilhavam em cada lado de seu rosto pequeno. Lágrimas como contas de um terço, ( pai nosso que estais no céu...). A mãozinha já branca do esforço em se agarrar a peça de plástico, os olhos agora na sua direção lhe mostrando o fundo da alma infantil ( seja feita a sua vontade...) Será que foi pelo tapa que tinha dado naquela pequena mão no dia anterior? (perdoai as nossas ofensas...) Não , não podia ! Ou sim? Ia pedir desculpas, assim que aquele estranha madrugada terminasse . Conversaria com ele. Inteligente como era iria entender sua posição de pai e autoridade  (não nos deixeis cair em tentação... )  Ouviu o acelerar de um carro bem em frente a janela. Rodas cantando um guincho arrepiante como se inúmeros animais gritassem todos ao mesmo tempo.  As rodas continuavam seu caminho sem sair do lugar ,e ele ali parado, entre o filho e a cortina que cobria a janela sem ter o que dizer e fazer , começou a se sentir um pouco estúpido com aquilo tudo.
___ Homem feio, papai! Homem feio veio me buscar ...
        A lucidez agora era nada mais do que uma lembrança no seu cérebro esgotado. Pedaços daquilo que ele é ou foi se transformando em nuvens espaças sobre uma cortina de loucura , atrás de um pano negro como a noite lá fora.
___ Ele diz que o senhor  terá que escolher , mas não lembro o que papai! A ternura daquela voz de cinco anos quebrou aquele gelo denso que havia se formado em torno de si, fazendo com que desse passos largos em direção daquele chiado que agora rescindia a cheiro de borracha queimada.
Abriu vigorosamente a cortina , não entendendo o porquê de aquela janela estar entreaberta ( a imagem dele fechando e travando chegou a sua mente rápido como chega um raio para quem tenta se esconder de uma tempestade embaixo de uma árvore). Levantou o vidro quando seus olhos começavam a arder devido as gotas de suor que escorriam em sua face escura de medo. O barulho agora nada mais era do que um eco em direção ao futuro... Uma névoa densa o impedia de vislumbrar nada mais do que alguns pequenos metros depois de sua janela . Começou a chorar e enquanto chorava olhou para o filho que lhe estendia as mãos como se suplicasse pela segurança que aqueles braços fortes lhe dariam . Pegou o filho como se o resgatasse do mar em fúria . Sentiu sua pele quente em seu rosto frio como se dependesse daquilo para sobreviver. Beijou suas bochechas avermelhadas e já se preparava para caminhar em direção a porta quando aquela vozinha de veludo lhe pareceu se transformar numa premonição aterradora do futuro:
Mais livrai-nos do mal, amém!


                                       DIÁRIO DA MANHÃ   TERÇA- FEIRA   27 /08/2007

  ESTRANHA MORTE NO TRÂNSITO
Um estranho acidente automobilístico movimentou  hoje a pequena cidade de Ribeirão Das Neves,que fica a cerca de 30 km de belo horizonte. Um jovem morador da cidade aparentemente levava seu filho de dez anos à escola quando segundo testemunhas o carro se desgovernou numa reta, atingiu uma mureta de proteção da pista , rodando e capotando diversas vezes . Segundo ainda algumas pessoas, curiosamente o homem parecia lutar com alguma pessoa que se encontrava dentro do carro.  Ao chegar ao local as pessoas se assustaram quando olharam dentro do veiculo e constataram estupefactas que o garoto se encontrava sentado no único local não atingido , parecendo ter ficado numa espesse de cápsula de segurança. Segundo o corpo de bombeiros ao cortar as ferragens para resgatar o menino, ele esticou os braços em direção aos policiais e disse entre lágrimas que o pai o havia salvado , escolhendo ele para viver . Ainda sobre o acidente, durante a perícia efetuada no veiculo foi constatado uma frase escrita com sangue no painel do carro como uma oração, uma frase digna de profecias: Livrai-nos do mal. Vários exames foram feitos sem que se soubesse de quem é o sangue encontrado. Nosso jornal sempre primou pelas notícias à luz da ciência e do entendimento, mas neste caso não temos como terminar senão seguindo o texto escrito:   LIVRAI NOS DO MAL SENHOR, AMÉM.




carlos henrique
Enviado por carlos henrique em 30/10/2007
Reeditado em 16/08/2008
Código do texto: T716879

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Sobre o autor
carlos henrique
Ribeirão das Neves - Minas Gerais - Brasil, 40 anos
23 textos (1955 leituras)
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