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PESCARIA MALDITA

Uma camionete e dois fuscas. Dentro dez pinguços disfarçados de pescadores, um adolescente, e um outro sóbrio, graças á religião que não permitia o uso da cachaça. Eu era o adolescente, e me sentia numa grande aventura dentro de um dos fuscas dividindo espaço com meu pai, dois amigos, e toda a tralha de pesca, redes, tarrafas, caniços... Ia como as sardinhas em suas embalagens, apertado.
Mesmo assim era um dia diferente. Pela primeira vez me aventurava numa pescaria noturna, embora a rejeição de minha mãe, muito mais por ser sexta-feira santa, do que pela companhia daqueles homens embriagados. Ela estava certa, mas só fui descobrir depois do fim daquela madrugada, pois enquanto os carros velhos serpenteavam a estrada de chão sinuosa e poeirenta, para mim tudo era motivo de festa.
Chegamos pelas cinco da tarde no rio. Não era grande, mas tinha água agitada, que propiciava vários estrondos ao se chocar com as pedras em seu leito. Para chegar até ele a estrada até que era boa, mas a entrada ficava escondida pelos capins, um pouco antes da ponte que cruzava sobre o rio. Fincamos acampamento a direita dela, num banco de areia. Na verdade não auxiliei a montagem das barracas, pois logo enfiei um caniço na mão, e fui pegar lambari. “Animais muito burros”, pensava eu vendo-os cair às dezenas em meu anzol.
De repente o tempo mudou, e de trás do cerro surgiram nuvens anunciando chuva. Postas as redes e as linhas, nos resguardamos nas barracas, pois não demorou muito para despencar um caldo, anunciado por raios e trovões. Sem ter o que fazer, os homens continuaram tomando cachaça, vinho, cerveja, e o que mais levasse álcool na fórmula... Apenas eu e o meu amigo crente evitávamos as bebidas, dividindo a única garrafa de coca-cola, que logo chegou ao fim nos copos de samba.
A noite caiu densa e coberta. Chovia muito. Já começava a dar razão para minha mãe. Ficar isolado na barraca e naquele lugar ao ermo tirava o brilho da aventura. Não passava uma viva alma, o lugar era distante, e só o cantarolar bêbado e sôfrego podia-se ouvir. Iluminação só das lanternas, e dum único lampião, pois além de ser noite, tempo fechado e chuvoso, estávamos rodeados de árvores silvestres, que tinham seu verde cortado pelo concreto da ponte. Naquela noite só suas sombras nos rodeavam. Por isso quando surgiu o ronco de um motor, de um barulho agudo e alto, chamou a atenção de todos. Parecia ser de uma moto, pois me lembro de olhar pela fresta da barraca e ver o enorme farol solitário estacionar sobre a ponte e nos mirar. Fosse quem estivesse lá, nos observava. Não tinha boa sensação.
A moto partiu, e ouvi seu som se aproximar, como se entrasse no acesso para o acampamento. Aumentava meu desconforto. A essa altura restava somente eu na barraca, e quando o motor parou novamente, levou poucos segundos para surgir das sombras o corpo de um homem alto, esguio, vestido com roupas negras, e um estranho chapéu que não permitia eu ver seu rosto além do seu nariz pontudo, e seus olhos fundos e fixos.  Gesticulou bastante enquanto conversava. Ficou conversando uns dez minutos e partiu acenando com um sorriso malicioso. Ouvi a moto dar partida e arrancar em alta velocidade, e logo o silêncio cair sobre o lugar novamente. Tive arrepios mais uma vez.
Não estou aqui emitir conclusões, e sim compartilhar o fato, pois eu mesmo que vivenciei a tudo o que aconteceu, ainda não sei o que pensar. Começou com uma discussão pouco depois da partida do estranho homem. Não sei como e porque começou, mas uma grande peleia se iniciou à beira do rio. Era faca, facão, pedra e pau para todos os lados... Do resultado final, sete almas mortas a facas e pauladas, e três feridos com gravidade. Meu pai só se salvou cinco meses depois de sair da UTI com uma perna a menos.
Eu e o crente fomos poupados, não pela bondade deles, mas sim pela rapidez do crente em me retirar do meio da briga, quando um facão quase decepou meu braço. Ficamos escondidos numa moita até os gritos acabarem. Meu corpo tremia de medo, e o choro não conseguia conter, e ainda hoje sou capaz de sentir o odor daquela noite, do sangue dos mortos, e do fedor de enxofre que sinceramente não sei donde vinha.
Douglas Eralldo
Enviado por Douglas Eralldo em 31/10/2007
Código do texto: T717829

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Sobre o autor
Douglas Eralldo
Pântano Grande - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
243 textos (22747 leituras)
2 e-livros (186 leituras)
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Douglas Eralldo