Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Devorador de Pecados

  - O que é isso que você esta vendo?
  - Hã isso? É para um trabalho da escola...cultura indigena em geral..
  A mãe entrou pelo quarto interessada naquilo que o filho olhava no monitor. Repousou uma mão no encosto da cadeira e se inclinou para observar melhor  a tela.
  - Devorador de pecados? - indagou a mãe
  - É... é sobre essa lenda que vou escrever. Ainda preciso pesquisar mais...não consegui achar a qual tribo pertence, já que há fontes dos mais diversos paises...
  - Exatamente o que é esse tal devorador?
  - É retratado como um espirito. Segundo as lendas, quando alguém morre, é colocado sobre seu corpo algumas frutas. Elas então "sugam"
os pecados do falecido e o tal devorador come as frutas contaminadas para que seja possivel ao espirito entrar no paraiso.
  - Humm...interessante. Bom, eu vou com o seu pai a cidade para comprar um espantalho novo pra plantação. Cuide da sua irmã. Até mais tarde.
   A camionete seguiu a estrada de terra que ligava a fazenda até a cidade. O menino observa pela janela o vento forte soprar pelo milharal, assobiando alto. Então ele resolveu olhar o que a irmã de 13 anos estava fazendo no quarto. A mãe o incubiu da tarefa. Era 4 anos mais velho. Era responsavel. Já estava acostumado.
  Já se aproximava das 4 da tarde quando os pais retornaram. Na parte de trás da camionete, amarrado, o novo espantalho. Parecia um cadaver vestindo um casaco preto. Feito sobre encomenda.
  - Filho? Filho?
  - Hã...oi pai, desculpe não ouvi...tava na cozinha.
  - Tudo bem... bom pega a pá ou a picareta no celeiro. Vamos instalar o espantalho lá no milharal. Vamos ver se aqueles corvos saem de uma vez por todas!
  O filho assentiu com a cabeça e rumou para o celeiro que ficava no fundo da casa. A mãe entrou cheia de sacolas. Fizera compras. Entrou na cozinha e se deparou com sua filha.
  - Ana? O que está fazendo na cozinha, filha?
  - Nada. Só procurando algo pra comer mãe, comprou sorvete?
  Milhos. Milharal. Passos apressados. Bota e tenis esportivo. Barro. Choveu noite passada e ao que tudo indicava iria chover nesta também.
  - Aqui está bom pode começar a cavar, Arthur - disse o pai ofegante por carregar o espantalho pela plantação.
   Enquanto abria um buraco no solo, o menino fitava o espantalho, parecia um cadaver queimado. Carne queimada. Era realmente feio. Trajava um casaco e calça preta, um chapéu preto e um lenço tapando boa parte do " rosto " preto também. Pronto. Estava soberano no milharal. Pregado numa cruz. Não parecia sofrer. Parecia somente aguardando algo. Conforme seguiam de volta a casa, pai e filho sentiram como se estivessem sendo vigiados. Mas quando se viravam não havia ninguem. Da janela do seu quarto no segundo andar, Ana podia ver dois pontos vermelhos no meio da escuridão do milharal.
  Chuva torrencial. Por volta das 3 da manhã. Passos pesados no corredor. E o odor de peixe podre invade a casa. Nauseante. Todos acordam.Todos abrem a porta dos respectivos quartos. Todos sentiram o fedor. Todos estavam enjuados. E enojados assim que viram um cardume de peixes podres estendido ao longo do corredor. Além de pequenas poças de sangue. As mosca ja estavam aparecendo. A mãe e o pai já iam busca algo pra limpar aquela sujeira.
Ana se virou, ia entrar no quarto. Um raio rasgou o céu. Pode ver através da janela. A claridade do raio desenhando um silhueta sinistra. Só dois ponto vermelhos. Fumegantes. Olhos. Segurando um peixe. Gritou. Todos correram.
  - O que foi? - em unissono
  - Tinha alguém na janela!! Tava segurando um peixe!! Ele sorriu pra mim!!
  - Deve ser algum engraçadinho, mas vai ver que ninguém tira um da minha cara! - disse o pai correndo para seu quarto, certamente iria pegar a espingarda. Dito e feito.
  Abriu a porta furioso. Um vulto corria em direção ao milharal. Sumiu.
Ficou uma hora andando no milharal e nada. Desistiu. Voltou com lama até a canela. Puto da vida. Ajudou a mulher na limpeza...o relógio apontava 6:05 da manhã. Duas horas após, os fazendeiros vizinhos se reuniram. Todos possuiam relatos a fazer. Arthur ouvia escondido. Um teve seu rebanho totalmente dizimado. Outro teve o quintal revirado. Os cavalos de alguém devoraram as galinhas do outro. Uma sucessão de acontecimentos estranhos. Os acontecimentos agitaram as redondezas. O dia seguiu calmamente ....até a noite seguinte.
  - Eu te odeio seu babaca!! - Ana gritava pelo corredor
  - Se você abrir a boca eu te mato pirralha idiota! - Arthur corria logo atrás como se estivesse possuido.
  A discussão dos dois ecoou pela casa.
  - O que vocês dois estão fazendo!? - esbravejou o pai que assistia a tv.
  - Eu odeio todos vocês!! Vou sumir daqui!! Eu odeio vocês!! - Ana gritou em alto e bom tom. Saiu em disparada em direção ao milharal.
  Arthur saiu logo atrás. Parecia uma briga normal entre irmãos adolescentes. Mas nunca brigaram nessa escala. Parecia que algo grave estava envolvido.
  Ana corria pelo milharal. Lagrimas. Um pouco de sangue. As folhas produziam pequenos cortes pelo corpo da menina. Parou. A cruz que ostentava o espantalho estava vazia. A sua direita dois pontos vermelhos surgiram da escuridão. A criatura que devia estar naquela cruz espantando corvos, agora caminhava em sua direção.
  - Você deve pagar pequena....
  Arthur perseguia sua irmã pelo milharal. Seguia as pegadas da irmã no barro. Correu. Gritou. Estava nervoso. Ela não podia ter dito aquilo. Não podia. Finalmente a encontrou. Por que diabos estaria parada a frente do espantalho? Cansou? Desistiu? Finalmente concordou que a saida que Arthur propusera a ela era a melhor escolha?
  - Você deve pagar pequena...
  Um brilho prateado riscou o ar em frente a garota, e Arthur sentiu algo quente, pegajoso, ser borifado em seu rosto. Algo quente, pegajoso e vermelho.
  - ... Pelos pecados que cometeu! - a criatura terminou a frase, quando sua enorme foice prateada repousou calmamente no chão, já avistando o próximo alvo.
  - Ah...outro jovem pecador... busca a redenção e o alivio da sua culpa? Vai seguir os mesmos passos de sua irmã e amante?

  Logo após ver os filhos correrem para o milharal, a mãe se desesperou, o pai estava nervoso. Afinal, será que o seu segredo era o pivo daquela discussão? Inquietou-se. E também rumou ao milharal.
Enquanto avançava, mil coisas se passavam na sua cabeça. Parou quando começou a ouvir vozes.
  -...Vai seguir os mesmos passos de sua irmã e amante?
  Estremeceu. Viu o corpo de sua filha degolada. Seu filho de frente com aquela criatura.
  - ...Por..que.... por que? - Arthur balbuciou
  - Fiz isso com ela? - completou o espantalho com sorriso cinico - Por que carregava o fruto de um pecado. E eu devoro pecados.
  - Seu intercurso sexual com sua própria irmã inunda sua casa de pecado!! - prosseguiu a criatura - Não foi o primeiro a cometer tal imundice, mas os pecadores devem ser purificados!
  - Mas ela num fez nada!!! - o pai saiu gritando, supreendendo o filho e a criatura
  - Ora...temos aqui o pecador orginal da familia....mas vamos com calma. Dizer que ela não fez nada, é exagero. Os pais protegem os filhos. Mas não podem assumir seus pecados. A garota seduziu você. Seduziu o irmão. Vocês fracos consentiram.Ela é tão podre por dentro como vocês que a molestavam! Tão podre quanto o fruto  gerado pelo irmão que ela carregava no ventre.
  - Você também, Arthur? O que fizemos...
  - Esperava o que patriarca? - o espantalho rodeava os dois - Árvore podre gera frutos podres! Eu tenho a missão de purificar essa terra imunda e devorar seus pecados! E é isso que farei!
  Foice. Corpos cortados. Sangue lavando a terra.
  Anos mais tarde, nada florescia naquele pedaço de terra. O devorador de pecados se foi. Ali apenas um velho boneco de palha . A mãe frequentemente se queixava de visitas de espantalhos aos médicos do sanatório. Remédio algum surtia efeito. Certo dia foi encontrada cortada ao meio em seu quarto. E no rosto uma estranha sensação de alivio.
 
Arashi
Enviado por Arashi em 06/11/2007
Código do texto: T726222

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Arashi
Sumaré - São Paulo - Brasil, 32 anos
12 textos (1866 leituras)
1 e-livros (44 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/10/17 02:44)
Arashi