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O Louco

“Por aquela época eu vivia profundamente perturbado, mergulhado em um universo de delírio e loucura, pelo menos de acordo com o julgamento dos outros, que me consideravam, com certa razão, levando-se em conta as circunstâncias, vítima de uma nebulosa esquizofrenia.  Talvez agora não venha ao caso, no entanto, creio ser absolutamente necessário descrever tudo o que ocorreu naqueles dias que aparentam estar estranhamente longínquos, para que se esclareça o porquê de me considerarem um esquizofrênico.

Trabalhando em uma deprimente repartição pública, em certo dia que tinha tudo para ser insuportavelmente monótono como todos os outros, passei a perceber em meus colegas de trabalho, em todos eles, algo como uma sombra funesta que pairava sobre suas costas.  Alarmado com tão espantosa visão, observei com mais atenção aqueles vultos.  Notei, então, que não eram somente sombras, pois pude divisar o formato de um rosto deformado, pavorosamente monstruoso, repulsivo. Não apresentavam propriamente um corpo, mas algo como um amontoado de nuvens negras, fumarentas.  Sobre elas ficava a cabeça dos “seres”, que era imensa e diabólica.  Os olhos eram doentiamente amarelados, completamente redondos e de uma expressão repelentemente perversa, lacrimejantes de um líquido escuro e gorduroso.  Quanto mais atenção eu dispensava na observação dos malignos rostos, mais detalhes escabrosos iam surgindo.  Possuíam dentes encardidos e pontiagudos, lábios finos e ressecados e a boca levemente aberta, da qual escorria uma gosma purulenta.  Sua pele era grossa e avermelhada, impregnada de verrugas, nódoas, estrias e saliências odiosas.  Havia em sua cabeça sete pequenos chifres totalmente negros, e entre eles, algumas mechas de um cabelo grosso, acinzentado, de horrível aspecto.  Suas orelhas eram disformes, enormes e imundas; o nariz, grande e pontiagudo, com imensas narinas sujas.  Quando deixei de fixar minha atenção, todos esses detalhes desapareceram daquelas coisas demoníacas, e os diabos retornaram a uma aparência de simples sombras.

Inexplicavelmente, tais visões só ocorriam com colegas de trabalho, pelo menos até o 5° dia.  Sim, porque permaneci por exatos 5 dias sofrendo a desgraça de contemplar coisas tão absurdas e monstruosas.  Então, como disse, no 5º dia a situação se modificou... para pior.  Passei a divisar os vultos asquerosos em todas, em absolutamente todas as pessoas que via, em qualquer lugar, a qualquer hora.  Porém, no dia seguinte, tudo cessou de forma tão inexplicável quanto iniciara.  Eu, que estarrecido não tive coragem de comentar com ninguém minhas visões, decidi, agora que para meu alívio haviam acabado, fazê-lo para alguns amigos.  É claro que todos ficaram muito preocupados, não pelas visões em si, mas por julgarem ser um início de loucura, que eu estava sofrendo um surto esquizofrênico.  Obviamente, não concordei com eles e não consultei um psiquiatra, como me foi sugerido.

Na semana seguinte ao sucedido, tive um pesadelo em que conversava com aqueles monstros de minhas visões.  Não me recordo da maior parte dos diálogos que macabramente travamos, mas uma frase afirmada por um deles ainda permanece nítida em minha memória: “Nós somos o futuro da humanidade, somos criações de vocês, somos vocês mesmos.”

Não voltei a ver aquelas coisas, seja em sonhos ou durante a vigília, mas outros acontecimentos no mínimo estranhos se sucederam... Cerca de um mês após o fenômeno, exausto de trabalhar mecanicamente naquela repartição miserável, decidi pedir demissão.  Na verdade, não nascera para aquele tipo de serviço robótico e idiotizante.  Sou uma pessoa de temperamento sensível, sonhador e apaixonado, e antes não ter um emprego do que suportar a tortura diária de 8h de um trabalho inútil, imbecil, estúpido, desumanizante.  Após minha saída da repartição, principiei a realizar caminhadas pelas ruas da cidade, tendo uma sensação de vida e liberdade que há muito não sentia.  Nelas, por conseguinte, passei a contemplar todas as casas, pátios, jardins, animais, árvores, pessoas, enfim, todas as coisas e seres de uma forma totalmente diversa da que fizera até então.  Observava-os de maneira muito mais profunda, intensa e detalhada, com bem mais sensibilidade e imaginação do que o normal da vida comum e mecanicista, sempre imersa em problemas frívolos e insolucionáveis do dito “Homo sapiens”.  Nessas contemplações era como se eu pudesse captar a alma, a essência dos meus objetos de observação, e percebia, nesses instantes, como rica e profunda é a vida universal, que nós, em vãos racionalismos, não percebemos ou simplesmente negamos.  Mas tais verificações frementes e inusitadas não foram somente... digamos... luminosas... Disse que os humanos que por mim passavam também eram detidamente analisados.  E assim, pude ter um vislumbre puramente intuitivo de que algo não estava bem nas pessoas que observava.  Havia uma indescritível decadência sendo irradiada de suas faces, uma sensação de total inconsciência, indiferença, estupidez e insensibilidade.  Aquilo me impressionou intensamente, e ainda tive a certeza de que os humanos não percebiam conscientemente o próprio estado lamentável em que eu os via.  Nas caminhadas subseqüentes, tal sensação arrepiante e negativa tornou-se ainda mais contundente, e ainda sinto calafrios quando digo que, algumas vezes, pude verificar nos indivíduos aquela mesma expressão diabólica e repugnante dos monstros das minhas antigas visões absurdas.

Nos dias seguintes, reduzi o número dos passeios e também minhas observações foram bem menos significativas.  É que, transtornado pelas lúgubres percepções, já não buscava analisar tão a fundo o que via.  Contudo, um outro tipo de percepção, ainda mais fantástica, principiou a assolar meus torturados sentidos.  Quando saía para caminhar pela manhã, mesmo que o dia estivesse esplendidamente ensolarado, em seguida passava a escurecer, e por todos os lados, norte, sul, leste e oeste formavam-se negras e carregadas nuvens de terrível tempestade.  Avistava hercúleos relâmpagos, ensurdecedores trovões feriam meus ouvidos, e tudo indicava que a tormenta desabaria em questão de poucos minutos.  Porém, isso nunca acontecia, e o cenário tempestuoso perdurava até o anoitecer, quando então se dissipava.  E isso ocorreu todos os dias, durante duas semanas.  Todavia, com um pequeno detalhe: somente eu via a formação da tempestade.  Nos primeiros dias, naturalmente, alertava sobre o fato a amigos e conhecidos que encontrava nas ruas, mas todos, sem exceção, retorquiam-me com algo do tipo, “Tormenta? Tu estás ficando louco? Com esse sol? Nem nuvem tem no céu! Estás delirando?” Meus amigos mais íntimos insistiam no fato de que eu estava realmente enlouquecendo e deveria consultar urgentemente um psiquiatra.  Mais uma vez, não dei ouvidos a seus conselhos.

Passado o período das visões de tempestade, como ninguém acreditava em mim, não toquei mais no assunto.  Semanas depois, ainda desempregado e já com dificuldades para sobreviver, decidi sair e caminhar em direção a um belo descampado que quando menino eu freqüentara, e que ainda se mantinha preservado.  Ali, tranqüilo, na companhia dos inocentes seres da natureza, sentia-me em quase perfeita paz.  Digo quase, porque no fundo ainda ardia a febre daquela paixão, ainda recordava-me com saudades dos olhos da minha amada que, não sei por que eu pressentia, jamais iria voltar a contemplar, e, naquele instante, eu soube que nunca beijaria seus lábios, ou tocaria em seu rosto, ou pegaria em sua mão, até porque, isso eu também pressentia, nela não havia amor para ser-me correspondido... Finalmente, em sonhos e tristezas, adormeci sobre a relva.

E então, quando acordei, já estava aqui, neste lugar feérico e muito estranho, sendo observado por ti.  Já contei-te minha história, como pediste.  Agora, quero que contes a tua.  Quem és tu? Que lugar é este, o que faço aqui? Enfim, o que aconteceu?”

“Tudo o que falaste, nessa língua estranha que necessitei mentalmente traduzir e assimilar, e agora posso comunicar-me contigo no teu próprio idioma, não tem nenhum cabimento.  Quem são os outros de quem falaste? Quem são os “humanos”? São todos iguais a ti? De que povo falas? Neste planeta não há nada, a não ser plantas e animais estranhos.  Eu e meus companheiros, nestes últimos dias, exploramos todo este mundo e não vimos nenhum sinal de civilização, de qualquer tipo de povoação, de quaisquer resquícios de um dia ter sido habitado.  Nem mesmo sinais de destruição foram identificados. Tu és o único ser inteligente que encontrei, adormecido sobre um gramado.  Para que tu não te assustasses e fugisses caso avistasses minha real forma corpórea, tomei a liberdade de assumir uma constituição física semelhante à tua.  Mas se contas tão insólita história, deves conhecê-la realmente; de algum lugar tu vieste, talvez de um local de um passado remoto, muito remoto.  Só não sabemos como sobreviveste, e somente tu, mais nenhum membro dos teus “humanos”.  Mas faremos mais investigações.  Ah... a propósito... esqueci de te dizer... encontramos este objeto.  Consegues identificá-lo? Humano? Tu estás me ouvindo?”

“Sim, sim, só estou tentando entender o absurdo que acabei de ouvir.  Acho que enlouqueci mesmo, não pode ser isso a realidade... O objeto? Deixa ver... parece um pedaço de uma placa de metal... tem algo inscrito... 000-RS-Brasil".

Blog: www.artedofim.blogspot.com

Alessandro Reiffer
Enviado por Alessandro Reiffer em 08/11/2007
Código do texto: T728093
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Sobre o autor
Alessandro Reiffer
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil, 39 anos
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